Deus do Antigo Testamento e Deus de Jesus

junho 28, 2010

por David de Oliveira

Fiquei sabendo desse rapaz afegão, Abdul Rahman, que se converteu ao cristianismo. Já sabia que o islamismo não admitia apostasias e que quem se convertia a outras religiões, corria o risco de ser condenado à morte, mas achava que era apenas conversa sem fundamento. A intolerância religiosa é um sentimento humano bastante primitivo e inadmissível em pleno século 21! Quanto mais forte for a intolerância numa determinada religião, mais afastada do Deus de Jesus ela estará. A intolerância religiosa vem do conceito exclusivista primitivo de Deus. Creio que ela vem da própria Bíblia, no Velho Testamento, em que se formaram “convicções” de que Deus era partidário de um povo, em detrimento de todos os outros. Esses sentimentos de indisposições estão representados nos nossos dias com as diversas facções religiosas. Cada qual se acha na exclusividade de Deus e o mundo “tem que” migrar para os seus redutos. É com muito pesar que admito esse sentimento, também na maioria do chamado meio “evangélico” e católico; claro que proporcionalmente muito mais brando e velado, mas infelizmente é uma realidade.

Nem no monte Gerizim (dos cananeus), nem no Templo de Jerusalém (dos judeus) adorareis o Pai, mas os verdadeiros adoradores adorarão (o Pai) em espírito e em verdade, João 4:21/23. A religião cristã verdadeira é acima de tudo universal e contemplativa, isto é, Deus é pai de todos os povos e está acima de qualquer questão humana que causa divisão; seja étnica, econômica, cultural, filosofal, política geo-espacial e até mesmo religiosa. É espiritualmente orientada na forma pessoal direta, criatura/criador/criatura (imanência/transcendência/imanência). Jesus foi o primeiro grande quebrador de facções preconceituosas étnicas e religiosas. Apesar de ser essa, a orientação de adoração cristã, é justamente o atalho para se fugir das terceirizações religiosas, onde estão as tocas dos lobos, a que Paulo se referia e que constituem as más religiões de todas as épocas.

Elaborar textos de discussões e questionamentos sobre os conceitos primitivos do Deus do Velho Testamento é tarefa que quase todo mundo tem medo de o fazer. Aprendemos desde a tenra idade que a nossa religião é obedecer a um chefe e toda a forma de exposição da reflexão individual tem um clima de heresia (heresia, como o pensar diferente e não errado) e apostasia. Então o pensamento reinante é: Se, para expor minhas dúvidas é preciso cair no buraco das minorias heréticas, então vou me agüentando no platô dos hipócritas.

Fomos amedrontados diante do Deus do Velho Testamento; jogaram todo aquele conceito do Deus vingativo em nós e ficamos também com medo do Deus de Jesus. Diziam para nós: Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo, descontextualizando vários contextos.

Ficar calado no meio “religioso”, nem sempre revela aceitação total. A unanimidade calada das platéias dos sermões, religiosamente direcionados é tarefa extremamente exaustiva para quem é conhecedor autônomo da Palavra e não é hipócrita. Quanto mais tempo se agüenta nesse ambiente “religioso”, tanto mais se anula a capacidade contemplativa, isto é, no fundamento principal da verdadeira religião de Jesus de Nazaré.

Desse deus religiosamente formulado, eu sou um ateu convicto. Aliás, tenho me tornado ateu de muitos deuses manipuláveis, ultimamente.

Jesus de Nazaré; o primeiro questionador do tanach (Velho Testamento) e Paulo, o melhor cristão.

O primeiro corte do cordão umbilical do Velho Testamento e do “evangelho de Moisés” foi feito por Jesus, a maior revelação mundial do verdadeiro Deus de todos os povos. Até então, ninguém ousava questionar a Torá (Lei).

Ouvistes que foi dito: (…), eu, porém vos digo. Esse… Porém, é conjunção coordenativa adversativa. Indica o início de um segundo período contrário ao primeiro, e irá contradizê-lo ou questioná-lo. Mateus 5: 22,28,32,34,39,44.

A segunda cisão (do cordão umbilical) mais importante depois de Jesus, foi feita através da revelação de shaul (Paulo). Ele jogou no lixo, toda orientação que teve, (de sua formação rabínica do tanach) (Velho Testamento) e da Torá (lei, pentatêutico), para abraçar unicamente a revelação de Cristo. Filipenses 3:7/9

O Tanach (Velho Testamento); Seria uma História bem contada?

 

O Velho Testamento é, sobretudo, uma História nacionalista. Humanamente falando, não estão errados; de exaltarem seus personagens e contarem de forma romântica e heróica, a história de seu povo, mas dá-se a impressão de que todos os outros povos formavam o eixo do mal. Já vi este filme.

Ele (Deus, na noção primitiva) estava pronto para fazer justiça e juízo imediatos a quem o desagradasse. Vingativo, principalmente para quem não era do “Seu povo” e da minoria de alguns rebeldes que eram pegos em ações que o desagradavam. Não amava os outros povos; pelo contrário, matava-os e mandava matá-los sem compaixão. I Samuel 15:3. Este Deus sanguinário, austero, sem amor e misericórdia, não é o Deus de Jesus de Nazaré. O Deus de Jesus não vence o mal com o mal.

Quem invadiu quem, em Canaã?

As perguntas que se faz hoje em dia, com relação à Palestina são: quem invadiu quem? Quem é o agressor? Ou quem primeiro matou quem?

A história da terra prometida começa a partir de 1800 aC, quando Abrão e seu clã saem de Ur dos Caldeus a 300 km da atual Bagdá do Iraque e vai parar em Canaã; terra que já era dos cananeu, descendentes de Cam, filho abençoado de Noé (Génesis 12:6 ), desde 5000 aC.

Abrão chegou e não se fixou na terra prometida; logo armou suas tendas e foi para o Egito fugindo da fome (os povos que já estavam lá se agüentaram como puderam). A terra prometida ainda não estava muito boa para Abrão.

No Egito, se enriqueceu à custa daquela mentira contada ao rei, de que Sara não era sua mulher, então o rei amedrontado deu-lhe das riquezas daquele Estado Génesis 12:11/16. O que se pode entender é que Abrão vendeu sua mulher para obter as riquezas do Egito. Expulso, foi “de novo” para Canaã. Rico, e com muitos homens em seu clã, finalmente se fixou em Hebrom. Em Canaã já estavam o queneu, o quenezeu, o cadmoneu, o heteu, o perizeu, os refains, o amorreu, o cananeu, o girgaseu, e o jebuseu há mais de 5000 aC.

Por volta de 1.300 a.C., Jacó, um dos netos de Abraão e seus doze filhos partiram para o Egito. Esaú, o outro neto, permaneceu em Canaã e se misturou com os descendentes do abençoado Cam, filho de Noé Génesis 9:1 , os cananitas.

Por volta do ano 750 aC, está de volta “de novo”, Jacó,  representado por aquela multidão, os israelitas, vindos do Egito. Só que Canaã já está bastante habitada pelos edonitas, “que é Esaú”, primitivo primo; pelos filisteus, cananeus e seus derivados.

Na minha infância, havia uma pequena regrinha que se chamava “saiu ao vento, perdeu o assento”. Quando havia poucas cadeiras em um cômodo e alguém que estava assentado, saia; outro alguém ocupava o lugar deixado por aquele outro; então se dizia: saiu ao vento, perdeu o assento; aquela pessoa se conformava, pois não valorizara o seu lugar.

Invasões e carnificina em nome de Deus

Antes mesmo de atravessarem o Jordão, os israelitas, vindos do Egito, começaram a se prostituírem com as moabitas; então o austero Deus dá a seguinte ordem: Enforcai a todos os cabeças (lideres), ao ar livre. Um tal de Finéias atravessou um lança na barriga de um israelita e de uma midianita ao mesmo tempo. Foi o bastante para aplacar a ira de Deus, mas mesmo assim morreram vinte e quatro mil de uma certa praga. Números 25.

A primeira carnificina foi contra os pobres dos midianitas. Mataram todos os seus homens; incendiaram suas casas e animais, mas preservaram as mulheres e suas crianças. Moisés não ficou satisfeito e mandou matá-las também. Agora, pois, matai todo o homem entre as crianças, e matai toda a mulher que conheceu algum homem, deitando-se com ele. Porém, todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós. Números 31: 17/18.

Era mandamento de Deus, segundo os israelitas, a destruição total daqueles moradores nativos e de suas religiões. Deuteronômio 7.

E chamou Moisés a Josué, e lhe disse aos olhos de todo o Israel: Esforça-te e anima-te; porque com este povo entrarás na terra que o Senhor jurou a teus pais lhes dar; e tu os farás herdá-la. Deuteronômio 31:7. Essa terra que Moisés está dizendo, já era de Abraão, e de seu filho Isaque, pai de Israel, e do próprio Israel! Abraão já a havia possuído (invadido), há quatrocentos anos atrás, mas Jacó, seu neto, não se fixou nela; antes, foi para o Egito, uma economia mais estável. Não podemos esquecer que Esaú, filho de Isaque, e irmão de Israel; permaneceu naquela terra para povoá-la. A maior parte dos inimigos de Israel era, portanto da descendência de seu irmão gêmeo, Esaú; filho legítimo de seu pai Isaque! Não tem sentido, um irmão “herdar na força” o que é de seu irmão gêmeo! Jacó, assim como Esaú, não fez muito caso de sua herança, antes a trocou pelo abrigo dos egípcios. Por que tanta briga, tanta facção familiar?

Ainda hoje vemos esse quadro, com pessoas se refugiando em países ricos e prepotentes, deixando seus patrícios se virarem como podem. Não querem assumir os problemas, ou ajudar a construir, mas só pensam na vantagem egoística. É prova de falta de idealismos pátrios; querem somente levar vantagem imediata para si e suas famílias; lucrar com o que já está pronto. Não ficam quietos em lugar nenhum!

Por que aquele povo que ficou a passar fome em Canaã, (quando Jacó partiu), não tinha o direito de viver em sua terra nativa? Não tem sentido!

Entra em cena, Josué, e desencadeia uma série de sangrentas invasões bélicas “em nome de Deus”. A segunda vítima é a cidade Cananéia de Jericó, que foi totalmente arrasada, juntamente com os seus habitantes. E tudo quanto havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento. Josué 6:21.

E assim, foi com todas as cidades da região; os moradores se defendendo e os israelitas arrasando a todos.

Quando invadiram Canaã, os israelitas, encontraram os cananeus com os seus costumes e seus ritos religiosos, especialmente na apresentação de ofertas sacrificiais ao deus Baal. Era uma forma (errada) de adoração de um povo primitivo. Justamente por isso, os israelitas achavam que deviam exterminar a todos os moradores de Canaã. Além de ser o mais novo invasor e agressor, queriam que todos se convertessem à força à sua religião!

Se ainda existir um DNA de Josué em algum torrão da palestina, este DNA ainda está agonizando pela sua crueldade, como esta: E sucedeu que, trazendo aqueles reis a Josué, este chamou todos os homens de Israel, e disse aos capitães dos homens de guerra, que foram com ele: Chegai, ponde os vossos pés sobre os pescoços destes reis. E chegaram, e puseram os seus pés sobre os pescoços deles. Então Josué lhes disse: Não temais, nem vos espanteis; esforçai-vos e animai-vos; porque assim o fará o Senhor a todos os vossos inimigos, contra os quais pelejardes. E, depois disto, Josué os feriu, e os matou, e os enforcou em cinco madeiros; e ficaram enforcados nos madeiros até à tarde. Josué: 10:24/26.

O Deus revelado por Jesus é diferente.

Jesus, por outro lado, nos apresenta o Seu Deus e Pai com outros conceitos absolutamente contrários aos do Velho Testamento. Mostrou-nos a Sua misericórdia, e o Seu amor para com toda a humanidade, independendo de raça, religião, posições humanas, sexo, ou seja, lá o que causa separação entre os homens Gálatas 3:28. O Deus de Jesus é aquele que “amou o mundo (humanidade), de tal maneira…”. João 3:16.

O Cordeiro de Deus não mata nem manda matar nenhuma pessoa que está em pecado ou tem outra religião diferente da nossa, mas tira o pecado do mundo

João 1:29 com o Seu amor constrangedor II Coríntios 5:14 e consciente Romanos 6:17 e está pronto para perdoar e salvar todo aquele que crê João 6:40 e Ele (Jesus), quer que todos se salvem e venham ao conhecimento da verdade. I Timóteo 2:4. Jesus nos dá o direcionamento de uma vida justa, modesta e sem aquele espírito de vingança e arrogância. O perdão é fundamental para aquele que ama Mateus 5:44. O egoísmo do “homem vencedor” do velho testamento é trocado pelo ensinamento do “quem ama, dá a sua vida pelos amigos” João 15:13 ). O amor absoluto e infinito de Deus não é relativo quanto à compreensão e natureza humanas.

O amor de Jesus é uma centelha que contagia a todos os homens. Somos interagidos neste amor que não somente perdoa nossos pecados, mas também absorve toda a nossa maldade e nos leva para junto do Pai. É um processo consciente e sem trauma de culpabilidade. Não há ameaças nem barganhas. Somos transformados de glória em glória na bondade revelada do Pai, Jesus. Somos “o povo de Deus” e não precisamos brigar ou matar ninguém para conquistar nada.

Em Jesus somos salvos, não porque deixamos de pecar, ou porque nos tornamos melhores, de uma “raça pura”, mas porque deixamos-nos salvar; e essa salvação não depende de nós; porque a salvação não está em nossa destreza ou em nossas mãos. Se aceitamos nos salvar é porque cremos, e se cremos já somos salvos. A salvação é voluntária na medida do deixar-se agir pelo Espírito. Não há salvação pela força e nem pela violência, mas pelo Espírito.

A pessoa abençoada em Jesus não precisa aparecer com sinais de riquezas materiais ou força ou beleza física, ou ostentações, ou outros atributos sociais, financeiros, étnicos, educacionais; tal como era definido no Antigo Testamento, que determinava o homem abençoado pela sua raça, poderio militar, cabeças de animais, mulheres, concubinas e escravos. Não há, em nenhum lugar nos evangelhos de Jesus, promessa de prosperidade terrena, seja ela qual for, para quem decide seguir a Cristo.

Termino, parafraseando Josué: Escolhei a quem sirvais; se ao deus dos conceitos primitivos e sanguinários ou ao Deus de Jesus de Nazaré; eu, porém servirei somente ao Deus de Jesus de Nazaré.

Deus do Velho Testamento e Deus de Jesus – David de Oliveira

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Jesus and the Nonviolent Revolution – André Trocmé

junho 28, 2010

Prefácio do Autor

Não existe paz fácil. A explosão populacional na Terra, torna cada dia mais difícil uma solução pacífica para os problemas da fome, segurança nacional e justiça social. Simultaneamente, a ameaça da destruição nuclear continua a colocar em perigo o futuro da humanidade.

Enquanto isso, alarga-se o fosso existente entre a mentalidade dos nossos contemporâneos, moldada por uma civilização tecnológica onde podemos controlar a natureza, e a religião tradicional, concebida durante uma época rural, onde os seres humanos viviam à mercê da natureza.  Embora a tecnologia esteja ameaçando mais do que nunca a existência humana, o pensamento cristão – assustado com as responsabilidades que deve assumir – se recusa a ver no Evangelho, qualquer coisa que não seja uma mensagem de salvação individual. Poderia dizer até, que o Cristianismo considera suspeitas quaisquer ações no sentido da salvação física da raça humana. Rejeita qualquer esforço prático de autêntica obediência cristã como presunçosa e farisaica – e numa época em que há muitos necessitados disso. Essa inversão dos ensinamentos de Jesus Cristo deve ser corrigida, para que a igreja não desqualifique a si mesma, como instrumento capaz de mostrar o caminho, para uma humanidade à beira do suicídio coletivo.

Não sou nem professore de história nem professor de teologia, e o que se segue, são apenas arranhões na superfície de áreas normalmente reservadas para especialistas. Deixem-me dizer, entretanto, que por ter flertado com as teologias e filosofias do desespero, eu agora rejeito o seu veneno. O pensamento existencial pode saciar com suas análises lúcidas, que definem os problemas, mas falha no que diz respeito a proporcionar uma obediência corajosa, capaz de resolver os problemas. Tal abordagem não é nada mais do que uma desculpa esfarrapada para evadir-se da responsabilidade nesse mundo e é característico de um período de decadência moral e religiosa. De fato, a tendência dos cristãos de intelectualizar questões éticas está em proporção direta com a medida com a qual se tornam parte do poder estabelecido.

Todos nós, cristãos e não cristãos igualmente, somos responsáveis pela fome, injustiça, egoísmo, exploração e pelas guerras que têm devastado nossa época. Os cristãos possuem ainda mais responsabilidade: sabendo que Deus pode mudar as pessoas e as situações, o discípulo de Jesus pode ajudar a trazer um futuro baseado em Deus para a humanidade.

Os cristãos professam que em determinado lugar e tempo, Deus interveio na história, tornando todos os acontecimentos posteriores do planeta, de importância divina. Por causa do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, nós sabemos que toda vida, e toda morte, são assuntos de Deus.

Se cada pessoa estiver investida com esse tipo de valor, quão grande seria o valor da soma da história humana! Mesmo acreditando ou não que Jesus é filho de Deus, Jesus é o evento central da história, porque de fato a sua existência mudou a humanidade. Precisamos então entender quem era este Jesus, no sentido de compreender plenamente o valor da humanidade e da nossa missão perante a mesma.

Trabalhos recentes reabriram o debate a respeito de quem Jesus foi. Todos concordam que quando os autores do Novo Testamento pretenderam mostrar Jesus para as pessoas da sua geração, eles fizeram uso de certas crenças então correntes na região. Obviamente, Jesus e seus discípulos falaram a linguagem dos seus contemporâneos. Isso não deve nos alarmar. Nós não precisamos, por exemplo, discutir sobre o valor das coisas que aquelas pessoas do primeiro século disseram sobre o universo, simplesmente porque nosso conhecimento a respeito do universo, se expandiu desde aquela época. Por trás do vocabulário que era usado na época de Jesus, ainda podemos descobrir o Cristo que permanece.

O evangelho deve ser lido não apenas com fé, mas também com inteligência. Isso não significa que temos que dar forma ao zelo de desmistificar de alguns intérpretes, cujos esforços em “limpar” o evangelho, têm apenas transformado o evangelho num deserto.

Se o Novo Testamento tem que ser desmistificado em tudo, isso deve ser feito com a assistência do Antigo Testamento, e não de nossos mitos modernos. Quanto mais alguém observa o monoteísmo estrito do Deus de Israel, mais visível o pensamento de Jesus se torna. O Deus de Jesus é o Deus de Israel. A fé cristã dissolve em pura mitologia, quando não se inclina ao judaísmo. É verdade que os escritores do Novo Testamento se basearam em fontes fora do Antigo Testamento, para explicar Jesus aos seus contemporâneos judeus e gregos. Mas não podemos nos esquecer que sua fonte principal de referência era sempre o Antigo Testamento.

Por outro lado, o Antigo Testamento tem necessidade doNovo. Jesus levanta o fato esmagador da queda original e elimina a restrição do dogma do povo eleito. Humaniza o ritual e as leis de Moisés. Realiza o que os profetas do Antigo Testamento apenas anunciaram. Assim, não se perde nada por cristianizar o judaísmo, porque Jesus Cristo já o fez.

O Jesus da história atualmente transcende tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos. Ele é o ponto de encontro entre dois edifícios teológicos, o judeu e o cristão. Ele cumpriu o primeiro e gerou o segundo. Ele sozinho explica o que veio antes e o que virá depois dele. Ninguém coloca uma lâmpada embaixo de um cesto, mas a usa para iluminar a escuridão. A luz aparece quando deixamos Jesus, ele mesmo, interpretar o Judaísmo e o Cristianismo para nós.

A vida e ensinamentos de Jesus são como uma ponte, conectando duas épocas históricas – uma ponte definida pelas parábolas e aforismos por meio dos quais ele falou. Devemos tentar entender o seu significado mais profundo. Sua profundidade é mais impressionante do que qualquer doutrina rigorosamente constante, pois sua profundidade brota da presença em Jesus do Deus vivo, que revela a Si mesmo como o Pai amoroso de todas as pessoas. A presença de Deus se manifesta por si mesma; não se prova.

Limitei minhas ambições ao modesto objetivo de interrogar Jesus Cristo por ele mesmo. O que descobri? Resumidamente, o retrato de um revolucionário vigoroso, capaz de salvar o mundo sem usar violência. Embora tenha examinado literaturas secundárias, gostaria de ressaltar de novo minha limitada competência exegética e histórica. Minhas muitas outras atividades têm simplesmente me impedido de exercer mais trabalho acadêmico. As teses sobre a proclamação do jubileu bíblico por Jesus, são minhas próprias. Se o caráter um tanto incomum das minhas teses, puder estimular a curiosidade dos especialistas, e provocar mais investigações sobre a ética social e a não-violência de Jesus, terei atingido meu objetivo.

André Trocmé

Jesus and the Nonviolent Revolution – André Trocmé


Pilgrim’s Chorus – Richard Wagner

junho 23, 2010

Link: Richard Wagner – Tannhäuser – Pilgrim’s Chorus

Beglückt darf nun dich, o Heimat, ich schauen,
und grüßen froh deine lieblichen Auen;
nun lass’ ich ruhn den Wanderstab,
weil Gott getreu ich gepilgert hab’.
Durch Sühn’ und Buß’ hab’ ich versöhnt
den Herren, dem mein Herze frönt,
der meine Reu’ mit Segen krönt,
den Herren, dem mein Lied ertönt.
den Herren, dem mein Lied ertönt.

Der Gnade Heil ist dem Büßer beschieden,
er geht einst ein in der Seligen Frieden!
Vor Höll’ und Tod ist ihm nicht bang,
drum preis’ ich Gott mein Lebelang.
Halleluja
Halleluja in Ewigkeit, in Ewigkeit!

Once more with joy O my home I may meet
Once more ye fair, flowr’y meadows I greet
My Pilgrim’s staff henceforth may rest
Since Heaven’s sweet peace is within my breast.

The sinner’s ‘plaint on high was heard
On high was heard and answered by the Lord
The tears I laid before His shrine
Are turned to hope and joy divine.

O Lord eternal praise be Thine!

The blessed source of Thy mercy overflowing
On souls repetant seek Ye, all-knowing
Of hell and death, I have no fear
For thou my Lord are ever near

Alleluia!
Alleluia!
Alleluia! For evermore!

Linda!


José Saramago, Deus, e os crentes…

junho 22, 2010

E eis que aos 18 dias deste junho de 2010, morre o escritor português José Saramago.

Confesso que fiquei triste ao ver crentes comemorando isso como se tivessem acabado de ganhar uma Copa do Mundo.

O fato de ser ateu, não invalida as qualidades do mesmo como escritor, e mesmo não concordando com ele, acredito que os cristãos deviam demonstrar, de forma mais prática e concreta, o amor que Jesus nos manda ter, por aqueles que consideramos como nossos inimigos.

Eu, particularmente não considero, e jamais considerei Saramago, ou qualquer outro ateu, como inimigo. Inclusive, gostei muito de “Ensaio sobre  a cegueira”, e pretendo ler “Caim”. As obras de José Saramago, são apenas ficção, não pretendem ser lidas como dogmas. Apenas ficção, entretenimento em forma de literatura, crítica, ponto de vista diferente. E de novo, aparece aquele velho problema dos evangélicos/crentes/cristãos/afins: incapacidade de aceitar opiniões diferentes das suas próprias.

E tenho para mim que o problema de Saramago na verdade nunca foi com Deus, e sim com os religiosos, com as pessoas, com os crentes que conheceu. E o ponto de vista dele do Cristianismo, é o que geralmente os ateus têm, enxergando apenas o fundamentalismo, o dogmatismo, o sectarismo dos extremistas e fanáticos religiosos, e uma interpretação literal da Bíblia que não é unanimidade entre todos os cristãos. Nem todos acreditam realmente que a Terra foi criada em seis dias, que houve um dilúvio global, e uma arca, onde foram colocadas todas as espécies de animais do planeta, e que Adão e Eva foram pessoas reais e literais, e que deles se originou toda a humanidade. E nem todos acham que os atos violentos cometidos pelos hebreus no Antigo Testamento, foram realmente ordenados por Deus. Assim como se faz hoje, os hebreus apenas afirmaram estar agindo “em nome de Deus”, mas a maioria das pessoas que faz afirmações como essas, está agindo apenas em seu próprio nome.

O que faltou ao Saramago, no meu ponto de vista, foi conhecer cristãos de verdade, conhecer cristãos, que vivem um tipo de cristianismo que todos os que se dizem cristãos, deviam viver, e não vivem. Não religiosos, não dogmáticos, não fundamentalistas, não fanáticos, não sectários, não extremistas, não preconceituosos, não violentos. E sim amorosos, misericordiosos, equilibrados, solidários, mansos, imitadores de Jesus, enfim.

Mas, onde eles estão, onde estão esses cristãos que ele devia ter conhecido, para, talvez, construir uma opinião diferente? Os que ele conheceu, fizeram até com que deixasse o próprio país. Interpretam as obras dele, do mesmo jeito que interpretam a Bíblia, literalmente e como se elas pretendessem ser verdade absoluta. Mas entre ficção e realidade, existe uma grande diferença, diferença essa que os fundamentalistas, todos eles, tanto ateus quanto cristãos e os de todas as religiões, têm dificuldades de enxergar.

Se a sua fé é tão fraca, que você teme perdê-la lendo livros como os do José Saramago, então é você quem precisa amadurecer, e colocar sua fé no lugar certo, em DEUS, e não em livros, não em pessoas, não em palavras, não em prédios.

Créditos da imagem que ilustra a postagem: Morre aos 87 anos o escritor português José Saramago


Vale a pena ler de novo: não temos medo de pensar…

junho 16, 2010

por Lucas Lujan e Suênio Alves

Não temos medo de (re) pensar conceitos sobre Deus. Temos medo de não (re) amar como Cristo, quem na realidade não amamos: os mendigos, os pobres, os excluídos, os marginalizados, as crianças africanas, os homens e mulheres de Darfur.

Não temos medo de incertezas. Temos medo que nosso Amor deixe de ser nossa bandeira do Reino de Deus.

Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema.

Não temos medo de questionar dogmas. Temos medo de que os dogmas impeçam a transformação de vidas.

Não temos medo do inferno. Temos medo de que nossas mãos se fechem, e não possam ajudar o nosso próximo a sair de sua existência-inferno. Ou pior, que as nossas próprias mãos sejam as quais o empurra para esta existência-inferno.

Não temos medo de devanear teorias loucas. Temos medo que a loucura desse mundo violento cegue nossos olhos a ponto de sempre que pararmos num farol, nesta cidade-sombria, fechemos nossos vidros para a sinceridade dos filhos da injustiça.

Não entendemos como problema sair do molde da teologia sistemática. Temos medo de sistematizar Deus e modela-lo a algum padrão.

Nós não temos medo de chorar por nós mesmos. Nós temos medo de que não mais choremos o choro dos outros.

Não sentimos culpas pelas nossas dúvidas. Mas pedimos que nos lembre sempre de amar como Cristo.

Não temos medo ter uma fé cheia de espelhos em enigmas e despedaçada, que não tem a precisão de uma fé “face a face”. Temos medo de perder o que existe de mais precioso: Amar.

Não temos medo de balançar alicerces religiosos construídos por pensamentos humanos. Temos medo de perder a doçura e a simplicidade de Jesus.

Não temos medo de sermos rejeitados pela instituição. Temos medo da hipocrisia religiosa.

Não temos medo de sermos chamados de hereges. Temos medo de compactuar com o sistema religioso e seus interesses, e esquecermos de amar pessoas.

Não temos a pretensão que nossos argumentos tenham todos os versículos a favor, e assim entrarmos numa guerra de versículos. Temos medo que nós não cumpramos aquilo que Cristo chamou de o resumo da lei e dos profetas: Amar a Deus e ao próximo.

Não temos medo de nos manifestar a favor de alguém. Desde que esse alguém não se esqueça que o conceito central do cristianismo é o amor.

Aprendemos que não podemos ficar presos às amarras da religião e da instituição.
Aprendemos que Deus está acima da religião.
Aprendemos que no Reino não importa o que se pensa, importa o que se ama.
Aprendemos a olhar pessoas como “filhos de Deus”, e amá-las incondicionalmente.
Aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.

Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.

Não temos medo de pensar. Temos medo de não amar – Fora da Zona de Conforto

Já havia postado esse texto aqui no blog. Mas como continua me revoltando a capacidade dos evangélicos/crentes/cristãos e afins em discutir bobagens, e deixar de lado o que é realmente importante, volto a postar esse mesmo texto.

Enquanto vocês gastam tempo nos seus blogs supostamente “apologéticos” (mas que ultimamente se dedicam mais a buscar assuntos polêmicos – talvez tentando aumentar o número de visitas e comentários – porque crente adora polêmica – principalmente se não tiver utilidade nenhuma)  atacando-se uns aos outros, quando o certo seria: discordar, mas nem por isso deixar de ter respeito pela opinião do outro, sendo esse outro um cristão sincero, um discípulo como qualquer outro, e que é sua OBRIGAÇÃO amar, mesmo não concordando com ele.

Eu, da minha parte, escolho fazer exatamente o que o texto do Suênio Alves fala. Não tenho medo de pensar. Nem de devanear. Não tenho medo de não sistematizar Deus em esquemas que não podem ser quebrados; prefiro descobrir o quanto indefinível Ele é, num relacionamento diário. Recomendo aos que ainda se digladiam por causa de “teologia”, a entender de uma vez por todas que Deus NÃO cabe em esquema nenhum, que qualquer ser humano possa criar.

O que importa no Reino, é o quanto se ama e o que se faz com esse amor. Geralmente, quem precisa desse amor de Deus, aqueles que Deus está buscando, estão totalmente alheios ao que se passa nos seminários de teologia. Brigas por causa de discordâncias teológicas, são como a discussão de um bando de cegos, que estão apalpando partes diferentes de um mesmo objeto, e não concordam nunca quanto à descrição desse objeto. Eles nunca vão concordar, porque apesar de o objeto ser o mesmo, as partes que cada um está tocando, são diferentes, e como eles são cegos, não conseguem ver o todo. Vão brigar eternamente, cada qual achando que está com a razão. E isso nunca vai ter fim.

Nada disso aconteceria, se houvesse uma única coisa: respeito pela opinião diferente. E será mesmo que Deus se importa com essas questões, algumas tão pequeninas e mesquinhas, às quais os cristãos muitas vezes dedicam suas vidas, e perdem horas incalculáveis, milênios inteiros, centenas de milhares de páginas escritas, em debates acalorados?

O debate é bom, desde que todas as partes envolvidas, saibam o significado da palavra HUMILDADE. Do contrário, não temos debate, mas apenas supostos “donos da verdade”, tentando impor o próprio pensamento aos demais, desfile de egos inflados, um querendo aparecer mais que o outro. Enquanto, apesar de seus títulos, dos livros que leram e escreveram e de tudo que acham que são, diante de Deus eles continuam sendo NADA e não sabendo NADA. Porque o único que consegue ver o todo, é Deus.

No dia em que “apologistas”, “teólogos”, “defensores de doutrina”, “paladinos de Deus” e etc, conseguirem finalmente entender que, por mais que se julguem inteligentes, letrados, versados na Bíblia, continuam sendo humanos tentando colocar Deus dentro de um esquema.

Alguma chance de terem sucesso nessa empreitada? Não creio.

1 Coríntios 13, lembram? Ainda que… sem amor, nada seríamos.

Comecem demonstrando amor uns pelos outros, porque se não conseguem amar nem uns aos outros como cristãos que são, muito menos ainda, serão capazes de amar os que não são cristãos.

Concordo plenamente com o Caio Fábio, quando diz que o melhor sinal para identificar se algo é de Deus, é o amor. Amor, apesar das diferenças de opinião, apesar das diferenças em ponto de vista, amor, apesar das diferentes partes que cada um desses cegos briguentos estão tocando, desse todo insondável, que é Deus.

A discussão, muitas vezes, é apenas uma forma que os cristãos encontraram, de não fazer o que é simples de entender no Evangelho, o que está lá, claramente exposto e explicado, sem deixar sombra para dúvidas. Tanto pior, se todas as partes envolvidas, se consideram donas da verdade. Aí o debate vai durar milênios, as mesmas coisas vão ser repetidas eternamente, alguns se posicionarão de um lado, outros do outro, e enquanto isso, o que devia ser o foco principal de TODOS os cristãos, o que TODOS deviam obedecer, o assunto comum em torno do qual TODOS os cristãos deveriam estar juntos, permanece em segundo plano.

Até quando vocês vão fingir que estão ocupados, discutindo “teologia”, sexo dos anjos e se Deus é masculino ou feminino?

Debate é bom, mas não quando é demais, não quando é o foco principal. Não quando transforma o que devia ser uma ÚNICA família, em “panelinhas” que vivem em guerra por questões irrelevantes, enquanto as questões mais profundas, e que estão claramente expostas no Evangelho, a gente joga embaixo do tapete, daquela nossa maravilhosa biblioteca lotada de livros de teologia.

Para a fogueira com os livros de teologia, se tudo que eles são capazes de gerar, é esse bando de “doutores em divindade”, que nem ao menos conhecem a si mesmos, e acreditam na tolice de achar que podem esquematizar Deus.

A única certeza que tenho, é que não tenho certeza alguma. E graças a Deus pela minha incerteza, porque é graças a ela que tenho o privilégio de viver pela fé, e não pela certeza. E todas as vezes que imaginei que, finalmente, tinha sacado como as coisas funcionavam, Ele fez questão de acabar com minha ilusão. Pra mim, Ele deixou bem claro que não existe isso de tentar encaixá-Lo num esquema. Todos os esquemas humanos, quando se trata de Deus, são furados. E isso, até onde entendo, é proposital. Ou alguém acha que o ser humano sabe respeitar opinião divergente, quando pensa que está “defendendo a verdade”, quando pensa que está “com a verdade” e todos os que discordam estão errados?

A história da humanidade demonstra que não sabe. Por isso eu nem tento mais esse tipo de esquematização, prefiro viver cada dia e descobrir a cada dia, uma coisa nova.

Quem já tem tudo esquematizado, não aprende mais nada. E um ser humano que pensa que já não tem mais nada a aprender, já morreu e não sabe.


Prayer – Ole Hallesby

junho 13, 2010

Trechos do Capítulo Um – O que é Oração

Orar é deixar Jesus entrar em nossos corações.

Isso nos mostra, em primeiro lugar, que não é a nossa oração que move Jesus. É Jesus que nos move na direção da oração. Ele bate. Faz conhecido o seu desejo de estar conosco. Nossas orações são sempre resultado de Jesus ter batido à porta do nosso coração.

Isso lança nova luz sobre uma passagem profética: “E será que, antes que clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isaías 65:24). Sim, realmente, antes de pedirmos, Ele graciosamente torna conhecido a nós qual o presente que decidiu nos oferecer. Ele bate à nossa porta, no sentido de  nos impulsionar, pela oração, a abrir a porta e aceitar o presente que nos reservou.

Desde muito tempo, a oração tem sido definida como a respiração da alma. E essa definição é excelente.

O ar que nosso corpo necessita nos envolve. O ar por si mesmo procura entrar no nosso corpo e, por essa razão, exerce pressão sobre nós. É sabido que é mais difícil segurar o folêgo do que respirar. É preciso treinar nosso sistema respiratório, e o ar poderá entrar nos nossos pulmões e cumprir sua função vital para o corpo.

O ar do qual nossa alma necessita, nos envolve todo o tempo e por todos os lados. Deus está próximo de nós  em Jesus, ao alcance da mão, com sua total e suficiente graça.

Tudo o que temos que fazer, é abrir nossos corações.

A oração é a respiração da alma, por onde recebemos Cristo em nossos corações ressecados e secos. Ele diz: “Se abrem a porta, eu entro.”

Perceba cuidadosamente cada palavra aqui. Não é a nossa oração que atrai Jesus para os nossos corações. Não é a nossa oração que faz com que Jesus se mova para nos encontrar. Tudo que Ele precisa é ter acesso. Ele se aproxima por conta própria, porque deseja estar conosco. E entra. Ele não se nega a entrar.

Assim como o ar penetra silenciosamente quando respiramos, e executa sua função em nossos pulmões, Jesus entra silenciosamente no nosso coração e faz o seu trabalho.

Ele bate à porta para “cear” conosco.

Em linguagem bíblica, a ceia é um símbolo de comunhão alegre e íntima. Isso proporciona um novo olhar sobre a natureza da oração, nos mostrando que Deus criou a oração como um meio de ter comunhão alegre e íntima com a humanidade. Perceba quão graciosamente a oração foi planejada.

Orar não envolve coisa alguma além de deixar Jesus ter acesso às nossas necessidades. Orar é dar a Jesus a permissão para empregar o seu poder para aliviar a nossa aflição. Orar é deixar Jesus ser glorificado no meio das nossas necessidades.

Os resultados da oração, não são, portanto, dependentes do poder de quem ora. A intensidade dos nossos desejos, emoções, ou nossa clara compreensão sobre pelo que estamos orando, não são os motivos pelos quais nossas orações são ouvidas e respondidas. Apesar de Deus se agradar, os resultados da oração não dependem desse tipo de coisa!

Aquele que nos deu o privilégio de orar, nos conhece bem. Conhece nossa estrutura. Ele lembra que somos pó. Foi por isso que planejou a oração, de forma que até mesmo o mais impotente possa fazer uso dela. Para orar, basta abrir a porta para Jesus. E isso não requer força. É apenas uma questão de querer. Desejamos dar a Jesus acesso às nossas necessidades? Esta é a única grande e fundamental questão em conexão com a oração.

Orar é uma atitude do coração e da mente. Orar é uma atitude definida de nossos corações em direção a Deus, uma atitude que Ele imediatamente reconhece como oração, um apelo ao Seu coração. Se faz uso de palavras ou não, isso não significa nada para Deus, somente para nós. Qual é essa condição espiritual? Qual é essa atitude de coração que Deus reconhece como uma oração? Posso mencionar duas coisas.

Em primeiro lugar, a necessidade.

Esta é inquestionavelmente a primeira e mais certa indicação de um coração em oração. Até onde entendo, a oração foi ordenada apenas para os necessitados.  É o último recurso do necessitado. O último caminho que resta. Tentamos de tudo até finalmente restar apenas a oração.

Isso não é verdade apenas antes da conversão. A oração tem que ser nosso último recurso em toda a nossa vida cristã. Sei muito bem que podemos oferecer muitas e lindas orações, tanto privativamente quanto publicamente, sem que nenhuma necessidade real esteja nos impulsionando a isso. Mas não estou certo de que isso seja mesmo oração. Oração e necessidade são inseparáveis. Apenas quem está verdadeiramente necessitado, ora verdadeiramente.

Outro aspecto que constitui a atitude de oração, aquela condição que Deus reconhece como oração chegando a Ele, vinda dos nossos do corações, é a fé. Está escrito: “Sem fé, é impossível agradar a Deus.” Sem fé, não pode haver oração, não importa o tamanho da nossa necessidade. A necessidade somada à fé, produzem a oração. Sem fé, nossa necessidade se transforma em lamento de aflição, solto em vão, no escuro.

Segundo o autor, oração verdadeira é algo que sai do nosso coração cheio de fé, em meio de uma grande necessidade, por meio de palavras ou não. Ou seja, nem tudo que muitos chamam de oração, seria considerada por ele como oração verdadeira. Muito do que chamamos “oração”, é apenas falar em vão, sem que haja real necessidade, e sem fé. Segundo ele, a oração devia ser nosso último recurso, devíamos recorrer a ela somente em caso de real necessidade, depois de ter esgotado todas as outras possibilidades. Porque quando todas as possibilidades estão esgotadas, é que realmente assumimos a atitude que Deus reconhece como oração.

O que você acha? Você está realmente orando, quando pensa que está orando?


Quando tudo que é humano, vira tumor

junho 10, 2010

coluna de Eliane Brum, na Revista Época de 07 de junho de 2010

Duas reportagens publicadas na Folha de S. Paulo na semana passada são chocantes pelo que revelam – e pelo despudor com que revelam. A primeira saiu na coluna de Mônica Bergamo. E conta sobre o “produto” Ana Hickmann. A outra é uma matéria sobre uma reunião do Conselho Comunitário de Segurança de Santa Cecília, em São Paulo, assinada por Afonso Benites. Nela, moradores e comerciantes anunciaram uma campanha oposta àquela com que Betinho uniu o país nos anos 90: a deles é para pressionar ONGs e restaurantes a parar de dar comida aos sem-teto que vivem nas calçadas. Nesta, que pode ser chamada de “campanha pela fome”, ou os mendigos morrem de inanição ou vão assombrar ruas fora das fronteiras do bairro.

Pelas reportagens, descobrimos que Ana Hickmann, a modelo e apresentadora da Record, é uma coisa, decidiu ser uma coisa. E que os bons cidadãos de Santa Cecília consideram os mendigos não uma coisa, mas gente. É por ser gente – e não coisas – que devem ser expulsos. Ou desinfetados, como anunciou uma comerciante. Com o despudor de quem tem a certeza de que está do lado certo da força, ela contou que lança desinfetante nos que vivem em frente à sua loja.

Olhamos para Ana Hickmann, fisicamente tão bela, tão perfeita, com pernas de 94 centímetros. “Uma elfa”, como diz um amigo meu que um dia a encontrou nos corredores da Record. E aí ouvimos Ana Hickmann falar sobre como vê a si mesma. Ela diz: “Sempre me considerei um produto. Parece cruel, mas é verdade”. Diz mais: “O Alê (marido e sócio) me chama de general. Fala que sou truculenta pra caramba. E sou mesmo. Exigente, como sempre foram comigo. Nunca me deram a chance de errar”. Alexandre Corrêa, o Alê, dispara uma sequência de frases antológicas sobre a mulher e sócia: “A gente vai entregar para o mercado uma Ana Hickmann diferente, sem esses problemas (referindo-se a dificuldades de dicção, que estão sendo corrigidos por uma fonoaudióloga)”; “A palavra ‘perder’ não está no nosso dicionário”; “A Ana Hickmann tem que ir para o domingo para matar ou morrer. Tem que acordar todos os dias com sangue nos olhos. Se não odiar o concorrente, você é um frouxo. Com mão mole, não machuca ninguém. Fere, mas não tira a pessoa de combate”. O romantismo foi deixado de lado, ele explica: “por um tempo pra gente investir e enxergar nosso crescimento sem deslumbramento. Porque com romantismo vêm férias em Paris, esquiar em Aspen, fazer compras em Nova York. E o trabalho e as obrigações ficam para trás. Se ficar com ‘mela mela’, todo problema profissional vira sentimental. O circo pegando fogo e você ‘amorzinho’, abraçando o outro para se lamentar? Ah, por favor!”

Ana Hickmann e seu sócio-marido falam sobre “o produto Ana Hickmann” sem nenhum pudor. Se dizem o que dizem para um jornal de âmbito nacional, é porque acreditam que estão dizendo aquilo que é certo dizer. Mais do que certo – já que o certo ou errado não parece ser lá uma questão muito relevante nesse contexto: dizem aquilo que é valorizado no discurso contemporâneo. Algo que deveria, no seu modo de ver o mundo, despertar admiração no público. Afinal, eles são “produtos” de um mundo em que tudo pode – e deve – ser coisificado para ser consumido. E tudo o que tem valor só tem valor porque é mercadoria.

Ao contrário de como Ana Hickmann vê a si mesma, os moradores e comerciantes de Santa Cecília não veem os mendigos como “coisas”. Se fossem coisas, teriam valor, nem que fosse o valor de vendê-las para a reciclagem. Como são gente, a solução é suspender sua comida. Sim, porque gente come. Ao decidirem interromper o acesso à alimentação, eles acreditam que encontraram a solução para seus problemas. E seus problemas resumem-se a gente que não serve para nada. Nem para virar coisa.

Se alguém contraria esse discurso, em ambos os casos, pode ser acusado de hipócrita. Ou ingênuo. Porque, afinal, é assim que o mundo funciona. Ou você produz, ainda que como mercadoria com alto valor agregado, como é o caso de Ana Hickmann, ou você deve ser eliminados dos olhos e do mundo de quem produz – com desinfetante ou por inanição. Em ambos os casos, o que é humano atrapalha. Tem de ser eliminado da vida do produto Ana Hickmann, tem de ser eliminado das calçadas dos moradores e comerciantes de Santa Cecília.

Na vida do produto Ana Hickmann, são os sentimentos que têm de ser eliminados – os ligados à gente frouxa, pelo menos, que atrapalham o sucesso, já que ódio, ambição, “sangue nos olhos” são valorizados. Devem ser eliminados o romantismo, o erro, a condição falível do humano, o que seu sócio-marido tão bem define como “mela mela”. Na vida cotidiana dos moradores de Santa Cecília, o que tem de ser eliminado é gente que não produz, que não toma banho, que não se veste bem, que faz sujeira, que às vezes é mal-educada, xinga e briga. Gente que pede coisas e não tem dinheiro para pagar pelas coisas.

Ninguém gosta de ver pessoas morando na rua diante de sua casa ou pedindo comida na sua porta. Sempre imaginei que fosse porque o sofrimento do outro, a indignidade desta condição, nos afeta. Ainda que não gostemos também porque algumas dessas pessoas façam sujeira na rua e não se espera que alguém aprecie sujeira diante da sua casa ou da sua loja, o que espanta é achar que não temos nada a ver com isso. Não se trata aqui de achar que todo morador de rua é bonzinho ou de que todo sentimento humano é agradável. Trata-se sim de pensar sobre o que faz com que se acredite que ambos devam ser exterminados – da vida cotidiana do bairro, da vida de cada um.

O que espanta é acreditar que pessoas e sentimentos são sujeira, lixo orgânico, lixo não reciclável – e, portanto, sem valor. O que espanta é que Ana Hickmann se anuncie como produto e isso seja confundido com sucesso. Que pessoas vivam sem condições mínimas e um grupo de pessoas acredite que o que pode fazer de melhor é lhes tirar a comida. Ou que se sinta tão impotente a ponto de acreditar que a fome pode ser a solução. Espanta também que na reunião estivessem presentes representantes de várias instâncias do poder público: polícia, subprefeitura da Sé e guarda civil. E também do hospital Santa Casa. E que nenhuma voz tenha se manifestado contra a proposta.

Descobrir que pessoas como Ana Hickmann se veem como coisas nos dá pistas para compreender o modo como os moradores e comerciantes de Santa Cecília veem os mendigos. É como coisa que Ana Hickmann vai para a TV entreter millhões todo domingo. Ela, que ganha R$ 300 mil por mês de salário, fora todos os produtos que derivam do produto maior, é um exemplo de sucesso, de self-made woman. Ou self-made thing. Se tudo der certo e nenhum sentimento humano indesejável atrapalhar a trajetória do produto, como diz seu sócio-marido, um dia ela será “a Oprah Winfrey do Brasil, loira e de olhos azuis, num país de gente parda”.

Tudo isso é revelado, Ana Hickmann diz que é um produto, os comerciantes de Santa Cecília anunciam que vão deixar os moradores de rua sem comida. Tudo isso é estampado no jornal e, fora uma ou outra repercussão, passa, vira a página. Se passa, sem grandes alardes ou questionamentos, o que isso diz sobre nós? Nós também perdemos o pudor? Por que isso não nos espanta? Significa que é assim que olhamos para o outro e para nós mesmos? Ou achamos que podemos nos safar sem nos posicionarmos diante do mundo? Que isso não nos diz respeito?

Se alguém acredita que essa forma de ver o mundo, a si mesmo e ao outro, com a qual compactuamos em geral por omissão, não afeta sua vida, cada minuto da sua vida, desde que acorda e vai para o trabalho até a hora de ir dormir, está bem iludido. Ou de onde viria toda essa dor de existir, que transformou a depressão numa epidemia mundial? Em algum lugar desse corpo materializado em coisa, reduzido à mercadoria, há um resquício de humanidade. E é essa ínfima porção latejante, encarnada, mas desligada de toda carne que não seja a própria, que dói.

Continue lendo o texto, no link abaixo:

Quando tudo que é humano vira tumor – Eliane Brum – Revista Época

Nossa segurança não está baseada nas armas, mas no quanto respeitamos o nosso próximo. Quando meu vizinho está com fome, eu vivo com medo. Se meu filho vai para a escola e o filho do meu vizinho não vai, a segurança do meu filho está em risco. Então devo investir na educação para que o filho do meu vizinho também tenha acesso a uma boa escola, para que ele não vire um marginal, forme uma gangue e queira ferir o meu filho. Devo fazer isso e não me armar e erguer muros entre mim e meu vizinho. Isso vale para as comunidades, para os governos, para cada um de nós. Quando você consegue fazer isso, você consegue dormir em paz. Porque seu vizinho tem condições de se reerguer por conta própria. Enquanto não fizermos isso, o mundo não será um lugar seguro para ninguém.” Muhammad Ashafa