Deus e o futebol

julho 26, 2009

“Como pode no meio da crise alguém ter dinheiro? O dinheiro do mundo tem que estar em algum lugar. E Deus colocou esse dinheiro na mão de quem? Do Real Madri pra contratar o Kaká. Foi uma grande benção”.

Caroline Celico, esposa do jogador de futebol brasileiro, Kaká.

Agora me respondam: que Deus seria esse, que coloca tantos milhões nas mãos de um time de futebol que já é milionário, e deixa outras bilhões de pessoas morrerem de fome, por não terem condições de comprarem a própria comida?

É o deus dos milionários, só pode. Que “teologia” é essa? Teologia do capitalismo selvagem?

Vergonha!

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Para falar com Deus – Mack B. Stockes

julho 21, 2009

Seguem abaixo pequenos trechos do primeiro capítulo:

Introdução – A oração como centro da religião

A religião é a dimensão da nossa experiência que diz respeito ao relacionamento entre Deus e nós. O que Deus tem a ver conosco? Qual é o seu propósito para nós? O que nós temos a ver com Deus? Como podemos abrir nossas almas a Ele e receber suas bençãos? Como podemos trabalhar em conjunto com Deus? De que modo estamos relacionados com os outros por meio de Deus? O que Deus tem em mente para nós após a morte? Estas são perguntas religiosas.

Por que elas são distintamente religiosas? Porque estas perguntas não são feitas em qualquer outra área da vida humana. Por exemplo, nos negócios tais perguntas não são feitas, a menos que as pessoas envolvidas sejam religiosas. Não são perguntas que um trabalhador faça. Não as fazemos quando estamos desenvolvendo habilidades para assumir determinado trabalho ou ganhar a vida. As escolas públicas, faculdades e universidades não existem para formulá-las. Os museus de arte, as bibliotecas e ginásios esportivos têm o seu papel; mas não levantam perguntas religiosas. O romance, também, apesar de ser um dos importantes interesses humanos, não é por si próprio, religioso.[…]

[…]Quando oramos, sentimos a presença de Deus. Sentimo-nos atraídos Àquele que nos fez para si próprio. Sentimos nossa absoluta dependência de Deus e o reverenciamos. Ao mesmo tempo, temos a misteriosa consciência do amor do Pai . Sabemos que Ele, que nos fez, nos ama. Ele, que nos conhece, se preocupa conosco. Na oração, sabemos que Deus nos chama à nova vida. Deus não apenas nos conhece e nos ama; Ele nos convida a um grande destino. E, em nossa contínua peregrinação por esta vida, recebemos de Deus o poder para chegar ao seu fim com alegria e esperança.[…]

[…] Na oração, portanto, sentimos essa experiência estranhamente profunda de reverência e respeito misturada com adoração e amor.[…]

[…]Toda oração verdadeira é encontro com Deus e comunhão de pessoa a Pessoa. Ela envolve a confiante dependência, gratidão, adoração, confissão, petição, sinceridade para com Deus, decisão e amor. Inclui o firme desejo de fazer a vontade de Deus apesar dos impulsos contrários.[…]

Mack B. Stockes.

Para ler mais, procure pelo livro, vale a pena… = )


Quando a igreja precisa ir para o divã

julho 16, 2009

por Josué Adam Lazier

Quando ela deixa de perceber que mesmo entre seus principais membros há pessoas que estão lutando com dilemas, dúvidas, incertezas, inseguranças e decepções;

Quando ela deixa de perceber que ao seu redor há sinais de morte e violência e faz de conta que não é com ela;

Quando ela não deixa que pessoas que professam cultura, rito ou mito diferente dos seus, se integrem plenamente em sua vida e missão;

Quando ela não consegue estender a mão para as pessoas cujas mãos estão machucadas, calejadas, trêmulas e manchadas pelas lutas da vida e dureza dos dias;

Quando ela não percebe que as famílias se desencontram, mesmo quando vão aos encontros de casais, porque não sabem como lidar com o contraditório e com a contrariedade;

Quando ela não se dá conta que mesmo entre sua liderança há sinais de imobilidade, passividade e prostração ante os dilemas que os dias de hoje apresentam aos líderes cristãos;

Quando ela não consegue gritar contra a violência que atinge a mulher, a criança, o idoso e os menos favorecidos, como se ela estivesse em outro mundo que não o da realidade;

Quando ela admite com complacência pessoas que apresentam uma condição de vida abastada ou com condições de oferecer recursos para os “projetos” que ela tem, mas, contraditoriamente, ela envia para os “iluminados” que sabem trabalhar com situações de crise, drogados, alcoolizados e discriminados da sociedade;

Quando ela não vê que seus servidores, no caso pastores e pastoras, estão adoecendo e adoentando outros, com suas loucuras em nome de um evangelho que não tem nada com o pregado por Cristo;

Quando não se dá conta que ela deveria ser uma comunidade terapêutica e não uma associação de esquizofrenia alimentada pela idéia de que Deus concorda com suas teorias individualistas, intolerantes e reacionárias;

Quando a morte, a dor do outro, o lamento, a murmuração do próximo, não alcançam os que deveriam atuar terapeuticamente, mas que agem tão somente pateticamente;

Quando o grito, o choro, o ranger de dentes são transformados em manifestação divina, enquanto a quietude, a reverência, a contemplação são tomadas como falta de experiência religiosa;

Quando a Igreja se referencia na máxima de Maquiavel “os fins justificam os meios” e não sente o constrangimento que o Espírito Santo produz por esta quebra de princípio do Evangelho;

Quando ela disciplina os membros “pequeninos” e não faz o mesmo com os que estão entre os maiorais da liderança;

Quando o pastoreio é virtual;

Quando o fundamento dos apóstolos ficou sendo somente dos apóstolos;

Quando o “ai daquele” proclamado pelos profetas ganha relevância entre os chamados líderes cristãos cujas práticas merecem um “ai daquele”;

Quando o vale tudo condenado pela ética da sociedade acaba valendo tudo no aconchego dos espiritualizados;

Quando ela perde o senso da misericórdia;

Quando o amor vira tema dos cânticos “espirituais” e neles fica cativo;

A Igreja que deveria ser terapêutica precisa ir para o divã quando o Cristo da fé, o Jesus de Nazaré, de sandálias bate na porta da Igreja pedindo acolhida. Ele, com certeza, estará acompanhado daqueles que não puderam adentrar no átrio da Igreja porque não eram os “escolhidos”.

Fonte: Quando a igreja precisa ir para  o divã


O universo precisava de Deus para evoluir? – Pe George Coyne

julho 12, 2009

O universo precisava de Deus para evoluir? Para o padre norte-americano George Coyne, ex-diretor do Observatório Vaticano, não. Esse jesuíta – formado em Matemática, licenciado em Teologia e Filosofia, e doutor em Astronomia – defende que o universo, embora realmente criado por Deus, já continha todos os componentes necessários para que pudesse crescer por conta própria, sem a necessidade de intervenções divinas diretas. Coyne chamou essa teoria de “universo fértil”, e ela ganhou um reforço quando pesquisadores da Universidade de Manchester, na Inglaterra, conseguiram finalmente criar, em laboratório, alguns blocos componentes do RNA, mostrando como eles poderiam ter surgido espontaneamente nas condições da Terra primitiva. Se o estudo estiver correto, abre espaço para que no futuro seja possível compreender como a vida surgiu no planeta. Em entrevista por e-mail, Coyne fala à Gazeta do Povo sobre esta experiência, critica as pessoas que usam Deus como resposta às questões científicas que continuam em aberto e comenta a relação entre ciência e religião.

Recentemente, cientistas britânicos conseguiram criar nucleotídeos de RNA em laboratório, um passo inicial no caminho até que se possa criar vida em experiências científicas. Como isso se relaciona à sua teoria sobre o “universo fértil”?
Este trabalho mostra que, embora ainda não saibamos como a vida surgiu no mundo, os cientistas estão obtendo grandes passos na aventura de descobrir e explicar as origens da vida. A fertilidade do universo é algo descoberto pelos cientistas, não é algo criado por eles. O “universo fértil” é a melhor explicação científica para mostrar como o universo evoluiu até ser capaz de providenciar as condições para o surgimento da vida. Ao longo de 14 bilhões de anos, bilhões e bilhões de estrelas nasceram e morreram para dar ao universo a abundância de elementos químicos necessários à vida.

O físico protestante Howard van Till alega que teólogos do início do Cristianismo, como São Basílio (330-379) e Santo Agostinho (354-430), já haviam falado do universo como uma criação sem “buracos” que precisassem ser preenchidos por intervenções divinas diretas. O senhor diria que esses santos chegaram a vislumbrar o “universo fértil”?
Em um certo sentido sim, porque eles efetivamente tiveram a intuição de que Deus criou o universo de forma que não precisasse ficar mexendo nele, podemos dizer assim. Mas obviamente Basílio e Agostinho não tinham como saber a idade do universo, o número de estrelas ou a natureza das reações termonucleares – todos ingredientes do “universo fértil”.

Se Deus não é necessário para explicar pontos-chave da história do universo, como o surgimento da vida, o que sobra para Ele fazer no mundo?
Para quem crê em Deus e no fato de que Ele criou o universo, segue-se que Deus continua lidando com a criação, sustentando-a sem interferir nos processos naturais que Ele mesmo designou. Deus é amor, e só isso já é um trabalho em tempo integral. Se você é capaz de entender como dois amantes sustentam um ao outro, é possível começar a compreender como Deus sustenta o universo. Um teólogo poderia aprofundar esta questão, mas minha formação é outra.

As pessoas religiosas acreditam em milagres e na Providência divina, que seriam meios de Deus agir no mundo. Como conciliar essa crença com a visão de um Deus não-interferente?
De fato, Deus opera milagres, dos quais o maior é a ressurreição de Cristo. Então ele interfere no mundo, e também é providente, mas principalmente por meio da própria natureza. Na minha opinião, essas intervenções são muito raras, e compete a Ele, não a nós, decidir quando a Providência age.

Em seus textos, o senhor ataca a noção de “Deus das lacunas”. Na sua percepção, o quanto esta visão está impregnada na mentalidade do crente comum, especialmente entre cristãos e católicos?
Esse modo de pensar ainda é muito comum porque, especialmente no mundo ocidental, Deus é visto mais como um “Deus de explicação” que como um Deus de amor. Como já escrevi em uma ocasião anterior, parece que certos crentes torcem para que nosso conhecimento científico continue apresentando certas lacunas, para que elas possam ser preenchidas recorrendo-se a Deus. Mas isso é o oposto de tudo o que a inteligência humana nos proporciona. O crente é tentado a fazer de Deus uma explicação para aquilo que não podemos entender de outro modo. Especialmente quando sentimos que não há uma explicação científica boa ou razoável para algo, jogamos tudo nas costas de Deus.

O senhor é um ferrenho defensor da teoria da evolução. A seleção natural e outros processos evolucionários fazem parte do “universo fértil” que o senhor defende?
O universo fértil é a evolução na escala cosmológica – ou, se você prefere, evolução cosmológica. Já a evolução neodarwiniana ocorre na escala biológica. Temos bons motivos para falar em evolução cosmológica, física, química e biológica, mas não podemos perder de vista o fato de que há uma continuidade na evolução permeando todos os níveis de existência no universo.

Qual a sua opinião sobre o trabalho de escritores-cientistas que associam evolução e ateísmo?
Infelizmente, há cientistas – e muitos deles brilhantes em seu campo de atuação – que extrapolam a ciência para promover uma ideologia. A ciência é completamente neutra em relação a questões que estão fora de sua metodologia, e a “questão Deus” é uma delas.

O senhor é padre e trabalha em uma universidade laica. Como colegas e alunos veem a relação entre ciência e religião?
Nunca vi um colega questionando minhas credenciais científicas por causa de minha fé. Quanto aos alunos e o público em geral, percebo neles uma curiosidade em relação ao cientista que também é padre. É uma curiosidade saudável, que merece uma resposta honesta. E essa resposta é tentar levar essas pessoas a experimentar aquilo que eu experimentei: o êxtase que tanto a pesquisa quanto a fé religiosa proporcionam. Dar exemplo é muito mais importante que falar.

Qual o futuro da relação entre ciência e religião?
Eu sou um otimista. No entanto, existem razões mais que suficientes para ser realista e aceitar que os fundamentalismos são um sério obstáculo ao diálogo.

Fonte:  Entrevista do Pe Geoge Coyne ao Tubo de Ensaio


Por que você não quer mais ir à igreja? – Wayne Jacobsen & Dave Coleman

julho 11, 2009

CpPqVcNaoQUerMaisIrAigreja_11mm.pdfDepois de toda uma vida dedicando-se à Igreja e ao caminho que sempre lhe pareceu o certo, Jake Colsen está diante de uma dolorosa dúvida: como é possível ser cristão há tanto tempo e, ainda assim, se sentir tão vazio?

Mas o amor divino está sempre a postos para transformar vidas. Observando uma multidão numa praça, Jake depara com João, um homem que fala de Jesus como se o tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião.

Com a ajuda do novo amigo, Jake irá reavaliar os conceitos e crenças que norteavam seu caminho. Levar uma vida cristã significa ter os comportamentos aprovados pelo grupo religioso a que pertencemos?

A cada nova palavra de João, assistiremos ao renascimento de Jake em busca da verdadeira alegria e da liberdade que Cristo veio ao mundo oferecer. Na reconstrução da sua vida, perceberemos a ação do Deus de perdão e amor.

***

“Se eu fosse vocês, perderia menos tempo falando mal da religião e investiria mais para descobrir quanto Jesus deseja ser nosso amigo sem impor qualquer condição. Ele vai cuidar de vocês e, se deixarem, se tornará, de longe, seu melhor amigo. Se o conhecerem melhor, vocês o amarão mais do que a qualquer outra pessoa. Ele lhes dará um propósito, um sentido de vida, que lhes permitirá superar todo estresse e sofrimento e que os transformará profundamente.”

Sobrecarregado de trabalho e desiludido com o rumo da sua vida, o pastor Jake Colsen conhece um homem que ele acredita ser o apóstolo João e que o leva a repensar suas crenças e resgatar a fé verdadeira.

Ao longo de quatro anos, esse homem surge no caminho de Jake nos locais e momentos mais improváveis, fazendo com que o pastor enfrente seus maiores medos, mude antigos hábitos e reconstrua sua história com base em uma relação sincera com Deus.

Se você busca pela fé mesmo onde a religião não alcança e sente que ser cristão é muito mais do que seguir regras e rituais, a trajetória de Jake servirá de inspiração para encontrar a verdadeira liberdade e alegria.

Por que você não quer mais ir à igreja? – Editora Sextante


Assédio espiritual

julho 4, 2009

Entrevista concedida por Marília de Camargo César a Revista Epoca de 29/06/09, Edição nº 580.

ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César – Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

ÉPOCA – O que você considera abuso religioso?
Marília – Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele diz: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa”. Então, essa mulher pede um conselho e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, que tem melhor reputação.

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília – As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais (não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista), que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, Jesus Cristo é o único mediador. Mas o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes de sua vida, você precisa dele. Se você recebe uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar com aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa de sua vida. E ele está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

ÉPOCA – Você afirma que não é só culpa do pastor.
Marília – Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho. A grande crítica de Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo suas decisões de adulto, que são difíceis, para a figura do pai ou da mãe, substituí­dos pelo pastor e pela pastora. O pastor virou um oráculo. Assim é mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para culpar pelas decisões erradas.

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília – Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do diabo. Há pastores que afirmam que a terapia fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem de ser forte. E dizem isso apoiados em textos bíblicos. Afirmam que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que, com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele.

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília – Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

“O pastor está gostando de mandar na vida dos outros
e receber presentes. Isso abre espaço para os abusos”

ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília – Os abusos não acontecem da noite para o dia. No primeiro momento, o fiel idealiza a figura do líder como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida da pessoa. O fiel, por sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher ou porque arrumou um emprego. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para legitimar essas práticas.

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica…
Marília – É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. O pastor evangélico virou um papa, a figura mais criticada pelos protestantes, porque não erra. Não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. Mas é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma, e eu concordo com ela.

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília – Eu não acho. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso.
Marília – Desconfie de quem leva a glória para si. Uma boa dica é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como querer ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que se discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado.

Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhas

O QUE FEZ
Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero

O QUE PUBLICOU
Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão)