Jesus and the Nonviolent Revolution – André Trocmé

Prefácio do Autor

Não existe paz fácil. A explosão populacional na Terra, torna cada dia mais difícil uma solução pacífica para os problemas da fome, segurança nacional e justiça social. Simultaneamente, a ameaça da destruição nuclear continua a colocar em perigo o futuro da humanidade.

Enquanto isso, alarga-se o fosso existente entre a mentalidade dos nossos contemporâneos, moldada por uma civilização tecnológica onde podemos controlar a natureza, e a religião tradicional, concebida durante uma época rural, onde os seres humanos viviam à mercê da natureza.  Embora a tecnologia esteja ameaçando mais do que nunca a existência humana, o pensamento cristão – assustado com as responsabilidades que deve assumir – se recusa a ver no Evangelho, qualquer coisa que não seja uma mensagem de salvação individual. Poderia dizer até, que o Cristianismo considera suspeitas quaisquer ações no sentido da salvação física da raça humana. Rejeita qualquer esforço prático de autêntica obediência cristã como presunçosa e farisaica – e numa época em que há muitos necessitados disso. Essa inversão dos ensinamentos de Jesus Cristo deve ser corrigida, para que a igreja não desqualifique a si mesma, como instrumento capaz de mostrar o caminho, para uma humanidade à beira do suicídio coletivo.

Não sou nem professore de história nem professor de teologia, e o que se segue, são apenas arranhões na superfície de áreas normalmente reservadas para especialistas. Deixem-me dizer, entretanto, que por ter flertado com as teologias e filosofias do desespero, eu agora rejeito o seu veneno. O pensamento existencial pode saciar com suas análises lúcidas, que definem os problemas, mas falha no que diz respeito a proporcionar uma obediência corajosa, capaz de resolver os problemas. Tal abordagem não é nada mais do que uma desculpa esfarrapada para evadir-se da responsabilidade nesse mundo e é característico de um período de decadência moral e religiosa. De fato, a tendência dos cristãos de intelectualizar questões éticas está em proporção direta com a medida com a qual se tornam parte do poder estabelecido.

Todos nós, cristãos e não cristãos igualmente, somos responsáveis pela fome, injustiça, egoísmo, exploração e pelas guerras que têm devastado nossa época. Os cristãos possuem ainda mais responsabilidade: sabendo que Deus pode mudar as pessoas e as situações, o discípulo de Jesus pode ajudar a trazer um futuro baseado em Deus para a humanidade.

Os cristãos professam que em determinado lugar e tempo, Deus interveio na história, tornando todos os acontecimentos posteriores do planeta, de importância divina. Por causa do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, nós sabemos que toda vida, e toda morte, são assuntos de Deus.

Se cada pessoa estiver investida com esse tipo de valor, quão grande seria o valor da soma da história humana! Mesmo acreditando ou não que Jesus é filho de Deus, Jesus é o evento central da história, porque de fato a sua existência mudou a humanidade. Precisamos então entender quem era este Jesus, no sentido de compreender plenamente o valor da humanidade e da nossa missão perante a mesma.

Trabalhos recentes reabriram o debate a respeito de quem Jesus foi. Todos concordam que quando os autores do Novo Testamento pretenderam mostrar Jesus para as pessoas da sua geração, eles fizeram uso de certas crenças então correntes na região. Obviamente, Jesus e seus discípulos falaram a linguagem dos seus contemporâneos. Isso não deve nos alarmar. Nós não precisamos, por exemplo, discutir sobre o valor das coisas que aquelas pessoas do primeiro século disseram sobre o universo, simplesmente porque nosso conhecimento a respeito do universo, se expandiu desde aquela época. Por trás do vocabulário que era usado na época de Jesus, ainda podemos descobrir o Cristo que permanece.

O evangelho deve ser lido não apenas com fé, mas também com inteligência. Isso não significa que temos que dar forma ao zelo de desmistificar de alguns intérpretes, cujos esforços em “limpar” o evangelho, têm apenas transformado o evangelho num deserto.

Se o Novo Testamento tem que ser desmistificado em tudo, isso deve ser feito com a assistência do Antigo Testamento, e não de nossos mitos modernos. Quanto mais alguém observa o monoteísmo estrito do Deus de Israel, mais visível o pensamento de Jesus se torna. O Deus de Jesus é o Deus de Israel. A fé cristã dissolve em pura mitologia, quando não se inclina ao judaísmo. É verdade que os escritores do Novo Testamento se basearam em fontes fora do Antigo Testamento, para explicar Jesus aos seus contemporâneos judeus e gregos. Mas não podemos nos esquecer que sua fonte principal de referência era sempre o Antigo Testamento.

Por outro lado, o Antigo Testamento tem necessidade doNovo. Jesus levanta o fato esmagador da queda original e elimina a restrição do dogma do povo eleito. Humaniza o ritual e as leis de Moisés. Realiza o que os profetas do Antigo Testamento apenas anunciaram. Assim, não se perde nada por cristianizar o judaísmo, porque Jesus Cristo já o fez.

O Jesus da história atualmente transcende tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos. Ele é o ponto de encontro entre dois edifícios teológicos, o judeu e o cristão. Ele cumpriu o primeiro e gerou o segundo. Ele sozinho explica o que veio antes e o que virá depois dele. Ninguém coloca uma lâmpada embaixo de um cesto, mas a usa para iluminar a escuridão. A luz aparece quando deixamos Jesus, ele mesmo, interpretar o Judaísmo e o Cristianismo para nós.

A vida e ensinamentos de Jesus são como uma ponte, conectando duas épocas históricas – uma ponte definida pelas parábolas e aforismos por meio dos quais ele falou. Devemos tentar entender o seu significado mais profundo. Sua profundidade é mais impressionante do que qualquer doutrina rigorosamente constante, pois sua profundidade brota da presença em Jesus do Deus vivo, que revela a Si mesmo como o Pai amoroso de todas as pessoas. A presença de Deus se manifesta por si mesma; não se prova.

Limitei minhas ambições ao modesto objetivo de interrogar Jesus Cristo por ele mesmo. O que descobri? Resumidamente, o retrato de um revolucionário vigoroso, capaz de salvar o mundo sem usar violência. Embora tenha examinado literaturas secundárias, gostaria de ressaltar de novo minha limitada competência exegética e histórica. Minhas muitas outras atividades têm simplesmente me impedido de exercer mais trabalho acadêmico. As teses sobre a proclamação do jubileu bíblico por Jesus, são minhas próprias. Se o caráter um tanto incomum das minhas teses, puder estimular a curiosidade dos especialistas, e provocar mais investigações sobre a ética social e a não-violência de Jesus, terei atingido meu objetivo.

André Trocmé

Jesus and the Nonviolent Revolution – André Trocmé

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: