A instrumentalização do medo

maio 28, 2011

por Márcio Rosa da Silva

Alguns antigos pregadores usavam a seguinte expressão: “Uma gota de mel atrai mais moscas do que um barril de vinagre”. Afirmavam isso para dizerem que uma mensagem de amor e compaixão atrai mais pessoas que mensagem de medo e juízo. Quanto às moscas é verdade, mel atrai mais do que vinagre, mas, quanto ao caráter metafórico da frase, é um grande equívoco. Infelizmente.

Não, uma mensagem de amor e compaixão não atrai mais pessoas do que a de ameaça e medo. O discurso que incute medo é muito mais eficaz para “fidelizar” pessoas num grupo religioso. O pavor diante de um possível castigo divino é um excelente instrumento para subjugar, para manipular pessoas.

Para aprisionar alguém, basta incutir-lhe medo. É assim em todas as áreas. O funcionário que tem medo de perder o emprego será absolutamente subserviente ao seu patrão. A mulher apavorada pelas ameaças do marido agressor ficará sempre quieta diante da violência que sofre. A criança que sofre violência sexual sempre tem medo de o abusador lhe causar mal ainda maior e, por isso, tem dificuldade em denunciar. O medo é paralisante.

Também nos movimentos religiosos. Funciona assim, determinado grupo afirma que é o portador dos “tíquetes” para entrar no céu e, fora daquela instituição, ou crendo de um jeito diferente do que ali é ensinado, o sujeito está fora do céu. Logo, está condenado ao inferno. Não foi à toa que a religião foi chamada de ópio do povo. Conseguindo fazer as pessoas acreditarem assim, elas ficam apavoradas ante a ameaça do fogo eterno e, assim, facilmente manipuláveis. Escravas.

São grupos que acreditam ter o monopólio de Deus e da salvação, como se Deus tivesse alguma religião ou fosse membro de carteirinha de alguma igreja.

Já a mensagem de Cristo é de amor. E no amor não há medo. Se há medo, não há amor. É uma mensagem libertadora. Uma mensagem inclusiva, que abraça aqueles que eram considerados uma abominação para a religião dominante. Todos são considerados dignos. Aqueles que eram marginalizados pelos zelosos intérpretes da lei eram abraçados pelo Cristo que não fez discriminação de pessoas.

E o amor pressupõe liberdade, mas nem todos gostam de liberdade, porque ela traz consigo a responsabilidade pelo rumo de suas vidas. Já não se pode culpar a Deus ou ao diabo por tudo. É necessário, com a liberdade, enfrentar a vida sem o pavor das ameaças, ou sem o interesse egoísta de se locupletar pela fé, mas com coragem e lucidez. E há também aqueles que não gostam de ver a liberdade dos outros.

Não foi sem razão que decretaram a morte de Jesus. A liberdade não faria bem para estruturas escravizantes. Mas faz um bem enorme a quem realmente abraça a mensagem do Evangelho, com a leveza da graça, a doçura do amor e os bons ares da liberdade.

A instrumentalização do medo – Márcio Rosa da Silva


Somos construídos pelo amor

maio 27, 2011

por Lisa Dye

“Deus, amando o que ainda não está pronto, e colocando fé em nós, nos gera continuamente, porque o amor dEle é que nos gera.” Carlo Carretto

Se somos construídos pelo amor, então nós todos, na mente infinita de Deus, nos completamos porque Deus amou o mundo. Por que então, nos sentimos estragados, incompletos, vazios e inacabados? Por que lutamos para conseguir perceber o amor de Deus e também para conseguir demonstrar esse amor a outros? Não são os cristãos os que se supõe que têm essa questão já resolvida – estar certos desse amor – para ter esse vazio em forma de Deus em nós, preenchido, saciado, transbordando e satisfeito, e ser canais de amor para outras pessoas?

Como uma jovem crescendo em meio ao alcoolismo, divórcio e depressão, lancei-me na vida buscando me completar em relacionamentos, aprendizados, trabalho e até num relacionamento recém-nascido com Cristo.  Naquele momento, Jesus estava em uma categoria agradável, como todas as outras coisas. Foi desta maneira que lidei com uma vida familiar infeliz – mantendo as coisas separadas. Tinha caixas numa prateleira para tudo, incluindo meu relacionamento com Deus. Em cada caixa, estavam minhas ideias sobre como proceder – trabalhar duro e guardar dinheiro, estudar muito e ir à faculdade, não deixar as coisas balançarem em casa e esperar por uma noite sóbria e feliz, lendo minha bíblia e tentando ser perfeita.

Isso mudou em 1985, quando caí de cama, pronta para morrer, por causa da depressão. Tinha falhado em fazer o melhor para jamais falhar. Internamente, ouvia Deus sussurrar que me amava. Aquela revelação foi fundamental. Já tinha lido isso na bíblia e ouvido isso ser dito no púlpito. Nã0 era nenhuma informação nova, mas de alguma forma, estava sendo percebida de uma nova forma.  Esse conhecimento me tocou numa parte de mim que nunca havia sido tocada antes, e foi um presente de Deus. Daquele dia em diante, deixei de procurar em qualquer outro lugar, que não fosse Cristo, me completar. Sabia que ele me conhecia e que estava comigo. E ainda sei.[…]

[…]O ponto principal é que Deus é misterioso e soberano. Ele não segue nossas fórmulas para nada, incluindo o seu amor. Ele não segue nossas agendas, quando desejamos ter conhecimento completo a respeito dEle. Não segue nossas expectativas a respeito de como deveria se revelar ou se expressar. Não respeita os medidores que criamos para tentar medir o quanto amados ou completos nos sentimos. Nós simplesmente somos amados por Ele, e é tudo. Podemos crer nisso ou não.

Frustrada algumas vezes com minha própria descrença, descubro que Deus continua inabalável e paciente comigo, porque estou continuamente sendo gerada. Minha alma ainda está no processo de transformação.[…]

Penso que Carlo Carretto captou bem. Se Deus é feito de amor, é disso que somos feitos também, então todos nós, nem que seja apenas na mente infinita e eterna de Deus, estamos completos, porque Deus é amor e ama o mundo. Ele não é limitado pelo tempo e espaço como nós somos. Está em todos os lugares e em todos os tempos – no passado quando fomos concebidos, no tempo e espaço em que vivemos e lutamos enquanto Ele continua a nos completar e nos aperfeiçoar – e na eternidade futura, onde estaremos totalmente completos. Sua percepção estende e engloba nosso ser finito e nosso futuro eterno, com conhecimento completo e executado em nós. O que seremos… pra Ele nós já somos.

Por outro lado, nossa percepção é limitada às dimensões que podemos experimentar em carne e sangue. Mesmo com o espírito despertado pela confissão de fé em Cristo e mesmo habitados pelo espírito santo, nosso potencial para discernir espiritualmente é ofuscado por milhares de coisas.   Na mesma medida em que falhamos em perceber o amor, nos percebemos inacabados e demonstramos isso. O nosso comportamento reflete essa percepção de mesquinhez, pequenez e amor incompleto. E caminhamos ombro a ombro com outros  que percebem e exibem em si mesmos essa mesma imperfeição.[…]

[…]Brennan Manning disse, “Jesus é a face humana de Deus”. Deus o enviou para para que fosse sua face humana, suas mãos humanas, braços, pés, corpo. O toque de Jesus é o toque humano de Deus, sua voz, a voz humana dEle. Ele se fez carne e habitou entre nós, mas continuamos a não perceber Deus… e o seu amor.  Certa vez, Jesus estava conversando com seus discípulos, e Filipe pediu, “Senhor, mostre-nos o Pai e isso nos será suficiente.” Jesus respondeu: Você não sabe, Filipe, mesmo depois de eu ter estado tanto tempo entre vocês? Qualquer um que tenha me visto, viu o Pai. Como pode você pedir “Mostre-nos o Pai?” (João 14:8-9)

Isso ocorreu em um tempo em que Deus andou no meio das pessoas. Falou com elas e as tocou, lavou seus pés, pescou junto com elas e fez refeições junto com elas. Levou tempo para elas entenderem que ele era Deus. Depois da sua morte é que entenderam o seu amor. Leva uma vida inteira vivendo com Ele, para conseguirmos perceber completamente o seu amor.[…]

[…]Assim como fixamos o olhar em Cristo, seu amor continua a nos gerar, nos completando, e começamos a perceber em outros, o amor que Deus tem por eles. Como João explicou na passagem acima, começamos a nos tornar parecidos com Jesus, quando andamos com Ele. Nós amamos como Jesus, quando vivemos no seu amor. De uma forma misteriosa, mágica e inconsciente, nos tornamos como a face humana de Deus para aqueles que estão a nossa volta.  Nossas mãos são as suas mãos, nossas palavras as suas palavras, e nosso toque é o toque dEle.

Love makes us – Lisa Dye – Internet Monk

Resumindo: Quem não ama seu próximo, não ama nem conhece Deus.

E o seu próximo, não é aquela pessoa que já é amável aos seus olhos, porque Deus ama você, e você, vamos admitir, não é nada amável aos olhos dEle. Ou você acha que está abafando, e que Deus ama você, porque você é a perfeição em pessoa, a última bolacha do pacote gospel? :P

Deus ama você apesar de você mesmo, porque se Ele fosse levar em conta quem você é de verdade quando ninguém está olhando, os seus pensamentos e intenções duvidosas, mesmo quando parece e diz estar agindo com piedade, Ele não seria louco de fazer a bobagem de amar você.  Então não ache que você está livre de fazer o mesmo pelo próximo.

Quando você não ama o seu próximo, fica demonstrado o que vai no seu interior, mesmo que você se declare bom cristão, e defensor da sã doutrina e da teologia mais ortodoxa. Não é pelo nível de ortodoxia e pela quantidade de diplomas de teologia, que se mede o conhecimento sobre Deus de alguém, e sim, pela capacidade de demonstrar amor ao próximo.


Alienígena 2

maio 25, 2011

Ontem eu assistia a votação do Código Florestal pela TV Câmara, quando os deputados católicos/evangélicos, interromperam o assunto para colocar no meio, o tal kit gay, que nada tinha a ver. Ouvi estarrecida, os nobres deputados dizendo que iam obstruir futuras votações, que iam chamar o Palocci a dar esclarecimentos sobre o último escândalo, pedir CPI no Ministério da Educação, tudo por causa do kit gay.

Hoje, a presidente Dilma manda proibir a distribuição de qualquer material relacionado aos gays.

E vejo evangélicos comemorando isso, como uma vitória. Eu devo mesmo ser muito alienígena entre essas pessoas, porque não considerei isso uma vitória, nem motivo para ficar dando glória a Deus. O que vi, foi os senhores deputados que se dizem defensores da “família”, negociando coisas que não deviam ser negociadas, porque são princípios, para obter essa decisão da presidente Dilma. Se estivessem se embasando em princípios sólidos, manteriam o pedido de explicações ao Palocci, e manteriam também o pedido de CPI no Ministério da Educação. Fincariam pé na busca de esclarecer fatos, e punir os culpados das irregularidades, de acordo com as leis do país. Mas não, usam para buscar seus interesses mesquinhos, e que muito pouco têm a ver com interesses reais do brasileiro, as mesmas estratégias que qualquer político que não defende bandeiras religiosas, usaria, as mesmas barganhas nojentas. Não é uma incoerência?

Quer dizer então que Deus não se importa com os meios que os nobres deputados dessas frentes católica/evangélica utilizam? Podem ser negociatas, politicagem de baixo nível, barganhas com o governo? Podem se fazer de cegos perante a corrupção, engolir camelos inteiros sem mastigar, desde que o tal kit gay, a agulha, não seja distribuído?

Será que sou ética e honesta demais para ser cristã? Porque esse tipo de coisa me deixa horrorizada.

O que afeta mais o país e a vida do cidadão comum, um kit contra homofobia, ou a corrupção? Vale a pena barganhar nos mesmos termos que todo político barganha, em vez de buscar melhorar o nível ético do Congresso? Não acabaram de dar uma demonstração de que estão nadando na mesma lama? Só não enxerga isso quem é alienado demais.

Reafirmo minha convicção de jamais, em hipótese alguma, votar em candidato que defende supostas bandeiras religiosas. Já está mais do que provado, que na maior parte dos casos, eles é que se corrompem, em vez de darem bons exemplos aos outros. E com isso, envergonham o evangelho, e pior, acham que estão trabalhando para Deus.

Que vergonha.


Carta aberta

maio 25, 2011

por Ricardo Gondim

Minha carta aberta

Minhas coragens não tão corajosas

Tornei-me alvo de todos os crivos. Depois de devidamente rotulado, sinto-me dissecado, espiritual, moral e psicanaliticamente. Pessoas que não me veem há décadas, se sentem com liberdade de diagnosticar o que “vem acontecendo com o Gondim”. Não há como negar como me sinto incômodo com achômetros.

Faltam-me argumentos. Como explicar que não perdi a fé, que não apostatei, que não estou na ladeira do inferno e que não sou um Belzebu? Diante de juízos subjetivos, melhor calar. Não vale sequer lembrar que a tarefa de separar trigo e joio, sempre delicada, Deus reservou aos anjos e, ainda assim, para o fim dos tempos. Como justificar-me diante da presunção de que não há outro caminho para a espiritualidade que não seja o pacotão doutrinário, que os evangélicos se consideram legítimos guardiões?

Um rapaz de apenas 24 anos mandou-me uma mensagem insolente, mal educada. Notei que ele era apenas dois anos mais velho que o Pedro, meu filho. A princípio, meu estômago embrulhou; depois, uma leve taquicardia fez meu coração perder o ritmo. Logo, porém, pensei no futuro do jovem. Onde ele estará com a minha idade? Acalmei. E supliquei a Deus por sua alma.

Os dias são bicudos. Mas não vou fragilizar-me diante de algozes, ainda noviços na arte de difamar e enxovalhar. Não darei o privilégio de verem as lágrimas que derramo por escolher um caminho acidentado. Meus soluços, conhecem Deus, meu travesseiro e minha mulher. Permanecerei altivo em minhas colocações. Não, não me considero uma encarnação de Quixote. Minha altivez esconde o homem claudicante, fraco mesmo. Mas, à minha fraqueza, fiquem certos senhores e senhoras da reta doutrina, vocês nunca terão o privilégio de desfrutar.

Estou consciente de que devo explicações. Entretanto, antes de explicar-me, acredito que eu tenho que dar satisfações. Mas, dar satisfações a quem? Primeiro, à minha própria consciência. Devo trancar a porta do banheiro e, sozinho, olhar o que me espreita de dentro do espelho, e perguntar: “Aonde você quer chegar, cara?”. Beirando os 60, eu deveria já preparar-me para uma aposentadoria tranquila (eu sei que alguns torcem por isso). “Por que o risco de posicionar-se no que só traz prejuízo pessoal? Por que deixar as costas à mercê de quem maneja bem os punhais?”. Respondo ao velhote que mira os meus olhos de dentro do espelho: “Faço o que faço pelo simples fato de querer ser coerente e honesto comigo mesmo e com Deus, que ergueu um tabernáculo em meu coração”.

Sei que é inútil o que vou dizer. Mesmo assim digo: Não desejo holofotes; eu já os tive. Não surfo no oportunismo midiático, em busca dos prosaicos quinze minutos de fama; eu sei azeitar um discurso pequeno-burguês e ganhar o favor de quem patrocina aventuras caríssimas na televisão. Conheço bem os truques do peleguismo religioso. Caminho nos corredores, sacristias e bastidores do meio desde a adolescência.  Não consigo mais respirar esse ar viciado.

Por que falar em direitos civis de homossexuais? Pelo simples fato lembrar-me de Niemöller, o pastor luterano que bem expressou a passividade de sua geração quando a justiça foi pisoteada pelos nazistas: “Quando vieram atrás dos judeus, calei-me, pois não era um deles; quando vieram prender os comunistas, silenciei, eis que não era comunista; quando vieram em busca dos sindicalistas, calei-me, pois eu não era sindicalista; depois, vieram me prender, não havia mais ninguém para protestar e ninguém disse nada”.

Não levanto a bandeira homossexual. Ela não é minha, eu não sou homossexual. Levanto o estandarte do direito. Ele diz respeito não só aos homossexuais, mas aos religiosos, aos ateus, aos ciganos, aos deficientes. Quando a lei protege um segmento da sociedade, acaba por alcançar os que não fazem parte daquele segmento. Por que insisto em fazê-lo? Porque acredito que Jesus, o meu senhor e salvador, o faria.

Sim, concordo, tenho que dar explicações. Mas a quem? Devo explicações aos que acompanham as mudanças milimétricas que venho fazendo ao longo dos anos; pessoas que entendem as articulações que brotam de meus neurônios racionais e de minhas entranhas espirituais. Tenho certeza que elas se surpreenderiam se eu respondesse qualquer coisa diferente do que veio na entrevista. Prego todos os domingos e disponibilizo as mensagens na www.tvbetesda.com.br . Escrevo em um site/blog www.ricardogondim.com.br . Publiquei diversos livros. Meus pensamentos estão espalhados por aí. Meus parceiros não se assustaram com nada do que eu disse à Carta Capital. Pelo contrário, celebraram a oportunidade que tivemos de comunicar os valores do reino para outros que não fazem parte do movimento evangélico.

Por último, um hábil escritor sugeriu que eu estou em crise de fé. Eu sei que ele confunde fé com a aceitação da doutrina calvinista. Devo responder-lhe que tomo sua insinuação como insulto, mero xingamento.  Reconheço, igualmente, que os rótulos de estar alinhando ao teísmo aberto, de ser liberal, humanista, ateu, para mim, não passam de simplificações de quem desejava calar-me. Alguns intuíram que seus discursos já não se sustentam diante da realidade concreta das pessoas, por isso, buscam desqualificar-me. Deixo claro: não retrocederei, mesmo xingado. Não há como voltar; puxei um novelo de significados e sentidos e estou fascinado com os fios. Cada nova descoberta me leva para mais perto de mim, do meu próximo e de Deus. Agora vou até o fim.

Minha carta aberta – Ricardo Gondim

E é verdade, tem muitos que acham que ter fé, e ser calvinista, são a mesma coisa, mas não são.

E abaixo, você pode ler a carta que os jovens da igreja onde o Gondim prega todo domingo, escreveram em defesa dele:

Carta aberta ao Ricardo Gondim


A identidade do cristão…

maio 24, 2011

por Paulo Brabo

[…]Se amar for de fato prover expressões mensuráveis de comportamentos não-condicionados, quem se mostrará pronto a amar? Porque, se for assim, amar não seria você aprovar a conduta de dois caras sentados de mãos dadas no banco da sua igreja, mas seria você respirar fundo e não condená-los por eles estarem ali. Amar não seria você concordar com as posturas do Ricardo Gondim a respeito de qualquer assunto, mas seria concluir que o seu compromisso mútuo com o amor basta para vocês continuarem juntos debaixo de um mesmo teto editorial. Essas seriam expressões genuínas de comportamento não-condicionado. Porque quando não estamos defendendo o amor estamos defendendo meramente a nossa convicção, ou pior, a nossa reputação – e até os pecadores fazem o mesmo. Qualquer homossexual poderia nos ensinar a amar mais e melhor.

O homem entre as marés – Paulo Brabo – Bacia das Almas


Eclesiastes

maio 23, 2011

Melhor é a boa fama do que o melhor ungüento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém. Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Melhor é a tristeza do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria. Melhor é ouvir a repreensão do sábio, do que ouvir alguém a canção do tolo. Porque qual o crepitar dos espinhos debaixo de uma panela, tal é o riso do tolo; também isto é vaidade. Verdadeiramente que a opressão faria endoidecer até ao sábio, e o suborno corrompe o coração. Melhor é o fim das coisas do que o princípio delas; melhor é o paciente de espírito do que o altivo de espírito. Não te apresses no teu espírito a irar-te, porque a ira repousa no íntimo dos tolos. Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta. Tão boa é a sabedoria como a herança, e dela tiram proveito os que veem o sol. Porque a sabedoria serve de defesa, como de defesa serve o dinheiro; mas a excelência do conhecimento é que a sabedoria dá vida ao seu possuidor. Atenta para a obra de Deus; porque quem poderá endireitar o que ele fez torto? No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele. Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade. Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente ímpio, nem sejas louco; por que morrerias fora de teu tempo? Bom é que retenhas isto, e também daquilo não retires a tua mão; porque quem teme a Deus escapa de tudo isso. A sabedoria fortalece ao sábio, mais do que dez poderosos que haja na cidade. Na verdade que não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque. Tampouco apliques o teu coração a todas as palavras que se disserem, para que não venhas a ouvir o teu servo amaldiçoar-te. Porque o teu coração também já confessou que muitas vezes tu amaldiçoaste a outros. Tudo isto provei-o pela sabedoria; eu disse: Sabedoria adquirirei; mas ela ainda estava longe de mim.

Eclesiastes 7:1-23

Sempre que leio o livro de Eclesiastes, ao chegar nesse trecho, eu paro. Porque tem a ver com um episódio triste envolvendo minha família, um parente alcoólatra que pouco tempo depois, veio a falecer, vitimado pela cirrose. Durante anos, a família se empenhou para que ele procurasse tratamento. Anos e anos de conversas, de tentativas, de procurar ajudas de todos os tipos, alcoólicos anônimos, médicos, hospitais, internações, psiquiatras, tratamentos até em outros estados do país. Anos de discussões e brigas, onde pessoas chegavam às vias de fato, e se agrediam fisicamente, porque não suportavam as provocações maldosas que ele fazia. Embrigado e violento. Quantas vezes saímos de madrugada, debaixo de chuva, ou nas noites geladas de inverno, para procurar por ele, levá-lo para casa, levar em pronto socorro, com a cara toda arrebentada, por ter caído de cara no asfalto. Tinha vezes que vizinhos o traziam até o nosso portão, em outras, simplesmente nos avisavam: ele está caído em tal lugar. Quantas vezes presenciei os delírios pela falta do álcool, quando tentava parar, ou simplesmente não tinha dinheiro para comprar a bebida. Tinha alucinações, saia atrás de ladrões imaginários, de facão em punho. E cada vez esses delírios pioravam, chegando ao ponto de simplesmente ter convulsões e apagar, cair como morto no chão. O cérebro não funcionava mais sem álcool, ao mesmo tempo em que o fígado, já não o tolerava mais. Ele estava preso numa armadilha. Foi se degradando, se desconectando da realidade. E nós sem saber mais o que fazer, enquanto víamos que estava avançando a passos largos, em direção ao cemitério.

Foi num dia desses, com o alcoolismo em estado avançado, que, ao tentar chamar a atenção dele, depois de ter urinado pela casa, ele pegou uma bíblia e me mostrou, exatamente esse capítulo de Eclesiastes. O trecho que reproduzi acima, estava marcado com caneta. Eu li e fiquei sem saber o que dizer, pois na época, nem cristã era. Uns quinze dias depois, a cirrose arrebentou, e ele veio a falecer. Ele estava convencido de que tinha chegado num ponto, onde não tinha mais volta. Já tinha ficado torto de um jeito, que ninguém ia conseguir endireitar. Quem vai endireitar o que Deus fez torto?, ele disse.

O velório dele foi um dos mais tristes que presenciei na vida. Porque a família toda se sentia exatamente assim, como quem tinha perdido uma guerra contra o vício, um bando de derrotados, feridos, enterrando o morto.  Foi horrível ver os filhos dele, recém saídos da adolescência, abraçados e chorando desesperados, enquanto o caixão descia pra dentro do túmulo.

Minha avó, mãe dele, que já estava de cama fazia um tempo, não sabia que o estado dele era tão grave, quando foi levado ao hospital. Ela não sabia que ele estava vomitando sangue, e que os médicos tinham alertado que a morte dele era iminente. E ela, com  a maior calma do mundo, enquanto o coração dele ia parando na UTI, disse para a enfermeira que cuidava dela em casa, que tirasse o terno dele do armário, e verificasse se estava em ordem. Disse que ele tinha vindo se despedir dela, dizendo: “Tchau mãe, estou indo”. Ela não quis ir no funeral, nem no enterro. Foi categórica em dizer que já tinha se despedido dele, e não queria vê-lo morto. Compreensível.

Quando meus pais chegaram do hospital, com a notícia de que ele tinha falecido, e vieram buscar roupas para que a funerária preparasse o corpo, o terno já estava pronto, e a melhor camisa, já escolhida. Ela mesma tinha escolhido a camisa, e feito isso como quem escolhe a roupa com a qual um filho vai para uma festa.  E pensar que nós, que antes de chegar na casa dela, tínhamos nos reunido e conversado, para decidir quem ia dar a notícia a ela, e como isso seria feito.

Depois disso, aprendi que definitivamente, escolhas são pessoais. E existem escolhas que, dependendo de até onde se vai, acabam não tendo mais volta. Ter sabedoria, talvez tenha a ver com isso: ter olhos para enxergar, quando uma escolha estiver levando para um ponto extremo, de onde você não poderá mais voltar. Como uma armadilha, daquelas de capturar pássaros, onde a entrada é fácil, mas de onde, uma vez dentro, não se pode mais sair. Onde a única alternativa de quem pensa que já foi longe demais, e que já está mais perto do fim do que de tentar outros começos, vai ser seguir em frente, e talvez esse seguir em frente, tenha a ver com chegar ao cemitério, antes da hora. A vida tem dessas coisas. Assim como algumas vezes, alguém pode pensar que já está num caminho sem volta, e o mais sensato é se entregar, mas isso não ser verdade. Na dúvida, não desista. Como diria Raul Seixas, do alto da sua sabedoria: “tente outra vez”… :P

Não acredite quando alguém disser que você já foi longe demais e não tem mais volta, mesmo que isso seja dito por algum crente estúpido…


Despeço-me da revista Ultimato

maio 21, 2011

por Ricardo Gondim

Após quase vinte anos, fui convidado a “des-continuar” minha coluna na revista Ultimato. Nesta semana, recebi a visita de Elben Lenz Cesar, Marcos Bomtempo e Klênia Fassoni em meu escritório, que me deram a notícia de que não mais escreverei para a Ultimato. Nessa tarde, encerrou-se um relacionamento que, ao longo de todos esses anos, me estimulou a dividir o coração com os leitores desta boa revista. Cada texto que redigi nasceu de minhas entranhas apaixonadas.

Fui devidamente alertado pelo rev. Elben de que meus posicionamentos expostos para a revista Carta Capital trariam ainda maior tensão para a Ultimato. Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.

O reverendo Elben Lenz Cesar, por quem tenho a maior estima, profundo respeito e eterna gratidão, acrescentou que discordava também sobre minha afirmação ao jornalista de que “Deus não está no controle”. Ressalto, jamais escondi minha fé no Deus que é amor e nos corolários que faço: amor e controle se contradizem. De fato, nunca aceitei a doutrina da providência como explicitada pelo calvinismo e não consigo encaixar no decreto divino: Auschwitz, Ruanda ou Realengo. Não há espaço em minhas reflexões para uma “vontade permissiva” de Deus que torne necessário o orgasmo do pedófilo ou a crueldade genocida.

Por último, a Klênia Fassoni advertiu-me de que meus Tweets, somados a outros textos que postei em meu site, deixam a ideia de que sou tempestivo e inconsequente no que comunico. Falou que a minha resposta à Carta Capital sobre a condição das igrejas na Europa passa a sensação de que sou “humanista”. Sobre meu “humanismo”, sequer desejo reagir. Acolho, porém, a recomendação da Klênia sobre minha inconsequência. Peço perdão a todos os que me leram ao longo dos anos. Quaisquer desvarios e irresponsabilidades que tenham brotado de minha pena não foram intencionais. Meu único desejo ao escrever, repito, foi enriquecer, exortar e desafiar possíveis leitores.

Resta-me agradecer à revista Ultimato por todos os anos em que caminhamos juntos. Um pedaço de minha história está amputada. Mas a própria Bíblia avisa que há tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Meu amor e meu respeito pela família do rev. Elben, que compõe o corpo editorial da Ultimato, não diminuíram em nada.

Continuarei a escrever em outros veículos e a pastorear minha igreja com a mesma paixão que me motivou há 34 anos.

Despeço-me da revista Ultimato – Ricardo Gondim

Quão longe muitos evangélicos estão de entender o que significa, de verdade, liberdade de expressão. Quando se pede a cabeça de uma pessoa, porque expressou sua opinião, isso fica patente. Deus nos livre de um país evangélico, e com a liberdade de expressão definida de acordo com o dicionário dessas pessoas. De acordo com a cartilha dos evangélicos, liberdade de expressão, é quando evangélicos têm direito de se expressar (mesmo que seja de forma preconceituosa, maldosa ou inconveniente – tem até aqueles que reclamam da lei que proíbe som alto depois das 22h, porque acham que igreja tem direito de fazer barulho, e incomodar vizinhos, só porque é igreja), mas não gostam de ver outros usando esta mesma liberdade. Isso, depois de tantos anos em que o Gondim escreveu na revista, soa absurdo. Quantos, como ele, são da mesma opinião, mas apenas não têm a mesma coragem de dizer isso publicamente, porque sabem que o destino será o mesmo?

Observando esta ignorância toda que reina entre esses evangélicos intolerantes,  a sede de poder político que os move, essa falta de consciência do que seja cidadania, respeito aos direitos alheios, à liberdade de expressão alheia, começo a ver como positiva a luta dos ateus/agnósticos/sem religião ou pessoas de outras religiões, por um estado verdadeiramente laico, que não privilegie nenhuma religião. Só assim, esses crentes vão aprender a obedecer Jesus no que diz respeito à natureza do Reino de Deus, e a forma pela qual seria construído, que nada tem a ver com politicagem ou instauração de inquisições. Acho que nem assim.

Mediocridade é a palavra…

Ricardo Gondim, parabéns pela sua nobreza e coragem, mesmo em meio a esta “inquisição sem fogueiras”, que crente sabe fazer tão bem.

Repercussão da atitude da Revista Ultimato, em nova entrevista do Ricardo Gondim para Carta Capital:

Como nos tempos da Inquisição – Rodrigo Martins – Carta Capital