Jararacas e homens

março 11, 2016

Fico aqui pensando como seria se um político acusado de corrupção, em vez de esforçar-se tanto para negar o óbvio, simplesmente admitisse, de forma espontânea: “sim, fui corrupto, traí meus eleitores e prejudiquei toda a nação, mereço a cadeia, estou arrependido e vou devolver tudo”. Seria bombástico, palavra esta que tem sido repetida na imprensa nas últimas semanas. Só em sonho mesmo. Mas nem tudo está perdido, pois temos as delações premiadas.

Voltando à realidade, o ex-presidente Lula andou se comparando com serpentes, mais especificamente, uma jararaca. Lembro que ele também já se comparou com Jesus, citando alguma coisa sobre a barba que os dois teriam em comum, como se usar barba o tornasse parecido com Jesus. Mais recentemente, Lula comparou os delatores do esquema do Petrolão, com Herodes, e seus companheiros de partido acusados de participar do esquema corrupto, com Jesus crucificado, algo totalmente sem noção. Lula não foi o primeiro populista a se comparar com Jesus, mas foi talvez o que o fez de forma mais tosca. Mas o pior é testemunhar a manifestação da idoLULAtria, a idolatria ao ex-presidente Lula. E perceber, atingidos por este mal, não só militantes, mas também religiosos. No caso destes últimos, associado com grave dissonância cognitiva.

O mesmo Jesus que este Lula totalmente sem noção deturpa, afirmou: O que contamina o homem, é o que sai da sua boca. Pois o que sai da boca, vem do coração.

O que vai no coração de um homem que se denomina publicamente como jararaca, só Deus sabe. Eu, prefiro não saber.

Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de “sabedoria” não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. Tiago 3:13-18


Pra não dizer que não falei do natal

dezembro 27, 2015

natalO natal já passou. E como acontece todo ano, em algum lugar aparece uma reportagem ou post em blog para nos informar de uma suposta “novidade”: Jesus não nasceu em 25 de dezembro! Sério?

E todo ano, reportagens deste tipo recebem centenas de comentários. Uma que eu vi esse ano, mas que na verdade é do natal de 2012, tinha mais de 500 comentários. Pessoas comentando como se fosse uma notícia inédita, algo que vinha sendo mantido escondido por mais de 2000 anos, e só agora tinha sido revelado. Nos comentários, pessoas se digladiam, citando termos como “argumento”, “refutar”, “falácia”, “ad hominen”, “lógica”, “paganismo”, “mitologia”, “fanatismo”, “fundamentalista”. Tem os que dizem que cristão de verdade não comemora o nascimento, e sim, a morte de Jesus, ou seja, a data mais importante para os cristãos, é a Páscoa, e não 25 de dezembro. Faz sentido. Mas não julgo quem tem por tradição, também celebrar o nascimento de Jesus, mesmo que seja numa data simbólica, já que ninguém sabe o dia correto. Saber isso não é importante. O fato de coincidir com um evento que hoje se tornou meramente comercial, seria mais um motivo para comemorar o nascimento de Jesus exatamente nesta data, e lembrar de Jesus e seus ensinamentos, em vez de participar do consumismo desenfreado de final de ano. Só para contrariar o mundo. Certamente seria uma coisa que Jesus faria. : P

Pois é. Mas todo ano é a mesma coisa. Todo ano se repete o debate sobre o porquê de o 25 de dezembro ter sido escolhido para comemorar o nascimento de Jesus. Aquela história toda de solstício e teorias de conspiração, que qualquer um pode descobrir fazendo uma pesquisa no Google, e saber todas as teorias sobre a origem da ideia de papai noel, árvore de natal e tudo o mais, e que a ideia do papai noel se espalhou pelo mundo graças à Coca-cola (afinal as cores da roupa dele são as cores da Coca-cola) e ele usou roupa vermelha pela primeira vez, por obra de um cartunista que o representou com essas cores, e nem faz tanto tempo assim.

E como acontece sempre, todo ano tem alguns que sentem necessidade de responder a todos os cristãos que comentam sobre o assunto, geralmente explicando como comemoram a data. Geralmente um ateu, ou alguém que se diz “cético”, “livre pensador”, “humanista” ou coisa do tipo. Supostamente querendo “abrir os olhos” dos “trouxas” que se baseiam supostamente numa fé cega, para o embuste das religiões que enganam as pessoas inclusive inventando uma data de aniversário para um suposto Jesus que provavelmente nem existiu e que é apenas uma montagem de uns espertos que queriam dominar o mundo e inventaram tudo isso. Deixei a frase sem vírgulas, de propósito, ok?

Posso falar disso com conhecimento de causa, afinal já fiz parte do time “ateístas/humanistas/livre pensadores querendo libertar o mundo da mentira das religiões”. Sim, já perdi muito tempo com discussões deste nível, totalmente inúteis e repetitivas. Religiosos dizem muitas mentiras, é verdade. O que não significa que ateus também não possam mentir. É também verdade que Jesus não nasceu em 25 de dezembro, e que não sabemos a data certa.  Mas nada disso faz Deus ser menos real.

Diz aquela velha letra de música tocada em todo lugar nesta época do ano: “eu pensei que todo mundo fosse filho de papai noel…”. Prefiro ser filha dEle.


Deus e o clarinete

setembro 19, 2015

clarinete_posterSe você já tentou aprender, ou sabe tocar um instrumento musical, entende que cada um deles tem seus truques. Mas já parou para pensar no quanto aprender a tocar um instrumento, e o relacionamento com Deus, possuem semelhanças e diferenças?

Primeiro você escolhe o instrumento com o qual mais se identifica, ou te obrigam a aprender algum deles na escola, por exemplo. No caso de Deus, existem várias “versões” em diferentes religiões (eu particularmente escolhi o cristianismo e creio que foi a melhor escolha). Pode acontecer de você tentar um, e depois não gostar e tentar outro, e também pode acontecer de você acabar se convencendo de que tocar, não é a sua praia. Quanto ao instrumento e a música, desistir é fácil, já que o aprendizado exige disciplina e paciência. No caso do relacionamento com Deus, a coisa já fica mais complicada, principalmente porque, mesmo você desistindo, Deus não desiste de você, e nem você consegue esquecer dEle completamente. Sei disso, porque já tentei. Tem aqueles que desistem e passam a odiar Deus. Mas dizem que amor e ódio são faces de uma mesma moeda. Então, a qualquer momento, a moeda pode virar novamente, com o lado do amor virado a favor dEle. Isso é um perigo. Deve ser o maior medo das pessoas que escolheram odiar Deus. : P

Sobre a minha escolha quanto ao instrumento musical a aprender, não foi difícil. Os de sopro sempre foram os meus preferidos e o som do clarinete, é muito bonito. E com relação ao cristianismo, também não é difícil se identificar com a figura central que norteia a fé dos cristãos, ou seja, Jesus. Como não se interessar pela história de um homem aparentemente maluco, que dizia ser Deus e deixava os religiosos da sua época, furiosos? O difícil aqui não é aceitar a pessoa de Jesus, mas o que ele fez. Difícil é lidar com uma palavrinha pequenina mas que incomoda muita gente, e quem alguns tratam como se fosse doença. A fé.

Lembro que, no começo, eu perguntava onde ficava o botão liga/desliga, dessa coisa chamada fé. Claro, queria que fosse mais fácil, mais prática e totalmente indolor essa história de cristianismo. E como todo mundo geralmente busca o jeito mais fácil de fazer as coisas, claro que temos algumas “versões” de cristianismo onde tem de tudo, menos Jesus. Assim como tem professores que prometem ensinar a tocar em cinco minutos. Com relação à facilidade, tocar clarinete não tem maiores problemas, precisa treino, disciplina e insistência, mas não é problemático. Precisa treinar muito, estudar muito, e ter disciplina, mas com dedicação é possível. A parte mais complicada no começo, é conseguir soprar sem deixar o ar escapar. Mas não tem crises, nem altos e baixos, ou dúvidas, como acontece com a fé. Ninguém vai julgar você porque gosta de tocar clarinete. A maior parte das pessoas vai achar bem legal. Mas desencane dos cinco minutos, porque você não vai aprender a tocar nesse tempo, ok? Já quando você fala que é cristão, alguns podem tratar você como se a sua fé fosse coisa digna de hospício. Com um instrumento musical, quanto mais você toca, melhor fica. Na vida com Deus, é um paradoxo: quanto mais você sabe, menos você sabe.

Uma parte importante é desmontar e limpar o clarinete sempre, depois de usá-lo. E toda vez que vai tocar, montar de novo. Se você deixa o clarinete montado, ele não cabe no estojo. Então pode cair no chão, quebrar, fica exposto à poeira, e a umidade acumulada pela falta de limpeza, estraga os mecanismos. Se for de madeira, pode rachar. Os clarinetes de madeira são caros, pois são feitos de madeiras nobres e raras, como o ébano. Quem investe neles, não vai ser louco de ter preguiça de limpar. Montar, tocar, desmontar, limpar, guardar, é um ritual obrigatório. Faz parte. Aí temos mais uma semelhança com o relacionamento com Deus, pois este relacionamento se renova todas as manhãs. Não tem como saber o que cada novo dia neste relacionamento nos reserva. Deus não é feito de uma madeira rara, e ao mesmo tempo, nada pode comprá-lo. Ele se deixa encontrar por quem o procura. E quem encontra nunca mais vai querer perder. É como aquela parábola de quem encontrou um tesouro num campo. Tem quem saia por aí vendendo algo que dizem ser Ele, e os preços neste caso, variam muito. Assim como tem muito instrumento falso no mercado, apresentado como se fosse original, de marca famosa, mas a um preço que até santo desconfia. Então, fique atento. Um clarinete de ébano e prata, nunca vai ser barato; assim como Deus não está à venda. A graça dEle é dada, e Ele a distribui de formas, muitas vezes, inusitada. Inesperada. O curioso é que tem pessoas que passam a desconfiar de Deus, quando descobrem que a graça dEle é gratuita. Ficam achando que tem “gato na tuba”. : P

O som do clarinete me encantou. E o mesmo aconteceu com o Pai. Foi como diz a música: Ele gentilmente me atraiu. E eu, sem palavras, me aproximei. : ]


O amor vence – Rob Bell

março 17, 2013

O-amor-vence_IMPRENSA[…] Algumas pessoas ficam preocupadas principalmente com as manifestações sistemáticas do mal – nas empresas, nas nações e nas instituições que escravizam o povo, espoliam a terra e não respeitam os direitos dos mais fracos. Outras pessoas estão mais concentradas nos pecados individuais, colocando seu foco na moralidade e nos padrões, hábitos e vícios que impedem o crescimento individual e provocam o sofrimento.

Algumas pessoas distribuem folhetos que explicam como ficar em paz com Deus; outras trabalham em campos de refugiados em zonas de guerra; outras ainda apresentam programas de rádio nos quais discutem as diversas interpretações de versículos específicos da Bíblia; e há também aquelas que trabalham para livrar mulheres e crianças da prostituição.

Em geral, como já mencionei anteriormente, as pessoas mais preocupadas com o fato de os outros irem para o inferno são as menos preocupadas com o inferno na terra aqui e agora, enquanto as mais preocupadas com o inferno na terra parecem se preocupar menos com o inferno após a morte.

A história sobre Lázaro e o homem rico demonstra que há uma variedade de infernos, porque há diversas maneiras de resistir e rejeitar o que é bom, verdadeiro, bonito e humano, agora, nesta vida, o que nos faz presumir que podemos fazer o mesmo na próxima.

Existem infernos individuais e sociais, infernos de abrangência mundial, e Jesus nos ensina a levar todos eles a sério.

Há um inferno agora, e haverá um inferno depois, e Jesus nos ensina a levar ambos a sério.[…]

[…] Muita gente no mundo de hoje só ouviu falar do inferno como o lugar reservado para aqueles que “estão fora”, que não creem, que não frequentam a igreja. Cristãos falam que os não cristãos vão para o inferno porque… não são cristãos. Porque são pessoas que não acreditam nas coisas certas.

No entanto, ao lermos todas as passagens em que Jesus usa a palavra “inferno”, percebemos que o que importa não é se as pessoas creem nas coisas certas ou erradas. Ele quase nunca falava sobre “crenças” como nós as entendemos – ele falava sobre ódio, egoísmo, cobiça e indiferença. Falava sobre o estado do coração dos seus ouvintes, sobre como eles se comportam, como interagem uns com os outros e o tipo de influência que exercem no mundo.

Jesus não usou o inferno para tentar convencer “gentios” e pagãos a acreditarem em Deus com o intuito de não arderem no fogo eterno quando morressem. Ele falou sobre o inferno para pessoas religiosas, com o objetivo de alertá-las sobre as consequências de se desviarem do chamado de Deus.

Isso não quer dizer que a possibilidade do inferno não seja um alerta incisivo e urgente ou que ele não esteja intimamente ligado àquilo que se crê, mas trata-se simplesmente de uma maneira que Jesus encontrou para advertir as pessoas que se julgavam escolhidas, de que seus corações duros poderiam pôr em risco sua salvação.  Ele as estava lembrando que sua salvação estava condicionada ao fato de serem pessoas generosas e amorosas por meio de quem Deus poderia mostrar ao mundo como o Seu amor se expressa em carne e sangue.[…]

[…]Amor exige liberdade. Sempre exigiu e sempre exigirá. Nós somos livres para resistir, recusar e nos rebelar contra os caminhos que Deus traçou para nós. Podemos ter todo o inferno que quisermos.

O que vc acha?

(Tirando as teias de aranha do blog)


Todos somos hereges!

setembro 18, 2012

por José Barbosa Júnior

[…]O problema, quando se trata da questão do argumento “bíblico”, é que ele, simplesmente, não existe. Ou, se existe, existe imperfeito, refém de nossas interpretações e de nossas pré-leituras da própria Bíblia. Sim, por mais que nunca a tenhamos lido, quando a lemos pela “primeira vez”, antes disso já nos foi incutida uma ideia preconcebida, que acaba por delimitar nossa interpretação. Um exemplo: o “pecado original”. O texto nunca usa esse termo, e muito menos fala de “pecado” na narrativa de Gênesis, mas nós já vamos para o texto com a ideia pré-moldada: uma árvore frondosa, uma serpente enroscada nos galhos trazendo à boca uma enorme maça, linda, vermelha, e uma mulher, quase sempre loira (apesar da narrativa acontecer nas bandas do Oriente Médio), com cabelos longos e esvoaçantes que logo depois entrega a fruta, já com uma mordida, ao seu marido, de músculos bem definidos e cabelos curtos. Ele também come e, por causa disso, entra no mundo o “pecado original”. Onde estão estas coisas no texto? No texto, não estão, mas já estavam na cabeça de quem foi “ler” o texto.

Infelizmente, para decepção de muitos, lamento dizer que não existe essa coisa do “a Bíblia diz…” Deveríamos ser mais honestos e afirmar: “O que interpreto da Bíblia, neste aspecto, pode ser…”

Os que defendem a “literalidade” da interpretação bíblica são de duas espécies: os ingênuos e os mal-intencionados.

Os ingênuos são aqueles que sempre foram ensinados assim. “Irmão, a Bíblia diz que é pecado…”, “O pastor disse que a Bíblia, no original, quer dizer isso…”. Para estes, o que está “escrito”, escrito está… e deve ser seguido ao pé da letra, mesmo que isso não faça o menor sentido. Mas aqui já enfrentamos um pequeno problema: não se segue TUDO o que está escrito. O que deve ser seguido ao pé da letra é apenas aquilo que me interessa.

Acabamos por cair no segundo grupo: os mal-intencionados: gente que sabe que “não é bem assim”, mas tem que dizer que “é assim”, porque é isso que lhes confere autoridade, poder e, muitas vezes, o emprego.

Ora, qualquer estudioso minimamente honesto, sabe que não há isso que chamamos de “interpretação literal”, porque isso é simplesmente impossível.
O que há na verdade são ESCOLHAS daquilo que deva ser “ensinado” literalmente. Leia-se aqui: eu escolho aquilo que me dá poder! Aquilo que me faz estar certo e os outros errados. Neste ponto, somos todos hereges, já que a palavra “heresia” vem do grego hairesis, que significa “escolher”…e  tem exatamente essa intenção: herege é aquele que escolhe (para seu proveito) o que lhe interessa de um texto.

Essa leitura literal da Bíblia é uma falácia. Ela não existe. E quando existe, como já falei, existe milimetricamente escolhida para favorecer o “meu” ponto de vista.

Os que defendem a leitura literal da Bíblia criam armadilhas das quais eles mesmos não conseguem escapar. Não conseguem, mas tentam… e sobra pra “soberania” (no caso dos históricos) ou pro “mistério” (no caso dos pentecostais, neo, etc…). É mais ou menos o “bota na conta do Papa”, frase pitoresca do filme “Tropa de Elite”.

Porque se formos totalmente literais, estamos em maus lençóis, nós e o Deus a quem dizemos servir… um Deus que mandou matar muita gente, que manda os homens todos de uma nação despedirem suas mulheres e filhos, e os lançarem  ao deserto; um Deus que manda matar a família toda de um cara porque ele escondeu “despojos de guerra”; um Jesus que fica bravo porque a figueira não tem fruto (fora da estação de frutos) e manda-a secar; enfim, um Jesus que diz que, caso teu olho ou mão te façam escandalizar, é melhor arrancá-los (Ah! Não…. esse é um dos versículos que nem os literalistas gostam que seja literal)…

Então você sugere que a Bíblia contenha erros históricos e de interpretação? Exatamente! O conceito de inerrância é o que sustenta o edifício da literalidade… aliás são retroalimentadores.

A Bíblia não arroga ser um livro histórico, nem mesmo um livro doutrinário… ela é um livro da fé. E da fé de um povo! E acompanha o desenvolver da fé desse povo… de seu “descobrir” Deus, ou daquilo que pensa ser Deus… e cuja revelação se dá, para um outro povo (já que o povo “original” não reconhece essa revelação) em plenitude, numa pessoa: Jesus, o Deus encarnado.

Ora, se Jesus é a encarnação do Deus que desde o princípio se revela… ou Deus mudou muito ou há algo de errado naquilo que se entende de Deus até então. E dizer que Deus mudou causa furor nos “literalistas”, ainda que, literalmente o texto diga que Deus “se arrependeu”. Neste caso ocorre uma coisa engraçada, que só reforça a heresia de cada um. Os fundamentalistas, impedidos que são de acreditar num Deus que mude de ideia, tem que dar um jeito nos textos que afirmam isso (as ginásticas para fazer um texto encaixar numa teologia sistemática são muito engraçadas). Tiram da cartola, então, o conceito de antropopatia, que seria atribuir a Deus sentimentos humanos quando não conseguimos explicar o que realmente acontece com a divindade. Qual o problema? É que a antropopatia só vale nos textos em que Deus se arrepende. Nos outros textos, todos os sentimentos são “literais”. Interessante, não?

Não existe leitura “pura” da Bíblia. Toda leitura bíblica já é, em si, uma interpretação. E se é uma interpretação, não pode mais ser “literal”. O sentido já foi deturpado há muito. Como saber, então, o sentido verdadeiro do texto? Fácil, pergunte ao seu autor (se bem que o texto geralmente é polissêmico e não pertence mais ao seu autor depois de escrito). Mas, como perguntar ao autor, se este já não existe mais há milênios? Quem poderá resolver o problema? É aí que os literalistas são mais esquizofrênicos. Criam a “iluminação” do Espírito para que haja a VERDADEIRA interpretação do texto. Claro, porque para defender isso também têm que colocar o Espírito Santo como verdadeiro autor das Escrituras. Logo, se Ele é o autor, Ele nos responderá.

Muito boa resposta!

Mas… qual “Espírito Santo” estará com a razão?

O da Igreja Católica, que também inspira o magistério na “interpretação”?

O dos protestantes históricos, para os quais o Espírito não dá mais línguas, mas que é uma babel de interpretações?

O dos pentecostais, cuja pluralidade de línguas nos faz imaginar que cada língua é uma estranha interpretação?

O dos neopentecostais, que produz pastores em série, com a mesma voz e o mesmo discurso, mas com interpretações cada vez mais loucas?

O de outras confissões religiosas (ou você acha que o vento só sopra debaixo do nosso nariz)?

Resolvi caminhar com a interpretação plena em Jesus… e o que se parece com Ele, eu procuro seguir… o que não se parece, descarto, como sendo algo fruto de uma época e de um contexto, mas não tendo mais o que dizer hoje.[…]

Todos somos hereges! – José Barbosa Júnior – Crer e pensar

Sou herege, e você? Seja um pouco mais herege, e leia o texto todo, está no link acima.


Dúvidas

setembro 15, 2012

“Queria lhe dizer que eu fui criado e lecionado desde o berço sobre o evangelho, meu pai é teólogo e diácono, eu já fui uma pessoa muito religiosa, estudei muita a Bíblia, eu conheço a palavra, eu quero acreditar que isso é verdade, mas depois de certo tempo eu parei para pensar um pouco: o que eu estou fazendo? Tem algum sentido nisto?
  A verdade é que o tal Espírito Santo nunca me revelou nada em minha vida, eu pedi, busquei, acreditei, mas nada, e tudo o que vejo nas igrejas são desqualificados elegendo outros desqualificados, as pessoas que estão na igreja pregam sobre um Jesus, de um Salvador que nem elas mesmo sabem da onde veio e não sabem explicar em que acreditam, mas querem te transmitir confiadamente que isso é verdade, e nem elas mesmo sabem em quem estão crendo.
Se está palavra é verdadeira… eu já pedi a Deus que me mostre a realidade, a verdade, e que a verdade seja bem nítida e confiável, aí sim eu irei a frente com isso. Por mais que eu procurei eu nunca tive uma experiência com o tal Jesus, e com o citado Espirito Santo. Eu respeito a vossa crença. O que eu desejo é a verdade, simples palavras não são suficientes, expor uma divindade não é suficiente, se alguém aqui realmente teve uma experiência pessoal com Jesus e crer que isso é real com toda a certeza, parabéns, pois eu nunca tive, o dia em que eu tiver eu vou testemunhar sobre ela, mas em toda a minha vida que eu busquei e não tive o que eu vou testemunhar? Eu acredito na verdade, isso é tudo o q importa, a verdade. É hipocrisia querer acreditar na verdade, encontrar a verdade? Pedir a Deus q me revele a sua verdade? Ao invés de simplesmente aceitar meia tonelada de história contada que não se pode provar. Se eu fosse hipócrita eu estaria aqui falando de Jesus e do Espírito Santo, estaria falando de coisas que eu nunca vivi praticamente embora busquei…
“que você se foda muito na vida, para que possa pedir de coração.” Então para crer é uma questão de apuros, de necessidade? Uma grande verdade é que muitos crêem simplesmente pelo fato de que é mais confortável acreditar que ressuscitaremos, que existe um lugar melhor após a morte, que os bons serão recompensados e os maus castigados, é tão bom poder acreditar nisso, é muito confortável saber disso, nos faz sentir consolados, aliviados, então muitos optam e acreditar ao ter o trabalho de conflitar e buscar a verdade…”

 

Você tem razão em muitas coisas que coloca. Sim, é verdade que muitas pessoas acreditam apenas porque foram ensinadas assim, e nunca pensaram a respeito. É verdade que muita gente só acredita e segue uma religião, porque ela faz com q se sintam melhores, mais confortáveis, superiores aos que não acreditam, escolhidos e etc.

Mas talvez o seu erro esteja exatamente no lance de achar que merece uma “revelação” de Deus por jejuar, por fazer uma porção de coisas, de obras e tals. Como os fariseus, que achavam que por seguir todas as obras da lei, tinham direito à consideração por parte de Deus.

Não, não é hipocrisia você desejar saber a verdade. Acho muito louvável a sua atitude, penso que todos deviam atingir esse nível de reflexão sobre as coisas nas quais acreditam. É muito normal, durante essa reflexão, passar por momentos de crise na fé. E em seguida, passar para um estágio de fé mais coerente, mais profunda, madura, menos infantil. Onde você crê porque você mesmo escolheu isso. A fé é assim, dinâmica, e quanto mais você questiona, mais vai depurando as coisas, e tendo fé apenas no que importa de verdade.

Mas quando se trata de Deus, você tem que saber equilibrar a razão com outras formas de percepção. Usar só a razão nos torna frios e sistematizadores de Deus, usar só a emoção nos torna infantis.

Você quer o quê? Que Deus se materialize na sua frente e diga: “Estou aqui, acredita em mim agora?” Só que se Deus fizesse isso, nós não teríamos liberdade de escolher. E mesmo assim, haveria pessoas para as quais essa “aparição” não seria suficiente. Haveria pessoas que encontrariam outras “explicações” para a “aparição divina”, e continuariam do mesmo jeito. Você conseguiria amar um Deus autoritário como esse, que apareceu na sua frente e não te deixa livre para duvidar? Talvez se você tentasse procurar por um Deus que se move nesse mundo por meio de pessoas, e se revela também por meio da criação, você consiga relaxar e deixar essa revelação dEle chegar até você. Ele diz: busque e achareis, bata e a porta será aberta. Porém, você tem que ter olhos para enxergar a resposta, que muitas vezes pode vir de formas inesperadas, fora do padrão “religioso” que você espera, que você aprendeu na sua igreja.

Duvidar não é pecado, e muitas vezes é bastante saudável. A fé não é acreditar em tudo, sem questionar. Você consegue fazer isso? Eu não. Acreditar em tudo é ser crédulo, e não ter fé. Melhor uma dúvida sincera do que bater no peito pra dizer que acredita, sem acreditar de verdade.

Acreditar em tudo que está escrito na bíblia, não é ter fé. Eu pelo menos não chamo isso de fé, porque a grande maioria dos que dizem que acreditam em tudo que está na bíblia, nunca pararam pra pensar na maior parte das coisas que estão ali. Simplesmente agem como crianças, que acreditam no que os pais falaram. E muitas vezes têm medo de duvidar, acham que Deus vai se irar se eles tiverem dúvidas, mesmo que as dúvidas sejam legítimas e sinceras.

A fé implica, na minha opinião em você ter escolhido acreditar, ter pensado sobre as razões pelas quais você acredita no que acredita. Deus não se importa com nossas dúvidas. Ele prefere nossa fé cheia de dúvidas à crença cega e a crença baseada no medo. Onde existe medo, não existe amor, onde não existe dúvida, não nasce a fé.

Fé é muito parecida com confiança.

Você confiaria numa pessoa que você não conhece, ou só conhece por ouvir falar? Tem pessoas que confiariam, eu não. Posso começar dando um certo grau de crédito a ela, pela confiança que tenho em outras pessoas que eu já conheço, que me disseram que ela é confiável. Mas só vou passar a confiar nela, por minha própria escolha, depois de saber exatamente quem ela é, depois de andar com ela, de me relacionar com ela e chegar à conclusão de que ela merece mesmo confiança. Isso é natural.

Se Deus é uma pessoa, o processo de desenvolver confiança é o mesmo que você teria com qualquer pessoa. Só que a pessoa dEle, uma vez que você tenha aprendido a confiar, dificilmente deixa de confiar, a menos que tenha confiado da forma errada (achando que Deus tem que atender todos os seus pedidos, fazer todas as suas vontades, e te deixar sempre bem, sem sofrimento, sem dor, sem doenças, protegido, abençoado, mimado, com um bom emprego, feliz, rico etc). Ele é Deus, não é seu mordomo, seu serviçal, seu empregado.

Isso que eu chamaria de fé, você saber em quem está confiando, e continuar confiando apesar de tudo. Continuar confiando apesar de muitas vezes não entender o que Ele está fazendo. Porque você escolheu confiar. Você escolheu ter uma única certeza: a de que Ele merece a sua confiança.

Só que chegar nesse ponto, não é fácil, é um processo de aprendizagem, e um processo que vai continuar a sua vida toda. Quando você era criança, também teve que aprender a confiar nos seus pais. Você também duvidou quando seu pai disse que não ia deixar você cair, quando te pegou pela mão pra você aprender a andar. E o seu pai não ficou triste com isso, ficou? Ele sabia que você estava aprendendo a confiar nele e em você mesmo, nas suas pernas ainda frágeis de criança. Não é fácil e tem altos e baixos. Vejo por aí muitas igrejas que incentivam as pessoas a não crescer, e tratar Deus como se fossem crianças mimadas (e insuportáveis) que fazem seus pais de empregados, quase seus escravos. Ou que ensinam supostos “truques” que fazem Deus funcionar a nosso favor (algumas distribuem e até vendem objetos alegando esse tipo de coisa – leve isso para a sua casa, e as bençãos de Deus estarão sobre a sua vida!) Deus não é nosso empregado, Ele não tem obrigação nenhuma  de fazer nossas vontades. Muita gente perde a fé quando surge algum problema sério, por causa disso.  Nesse caso elas não tinham fé nEle, e sim, acreditavam num ídolo, tratavam Deus como alguém que guarda um trevo de quatro folhas, achando que daria sorte.  Se não funciona, jogam Deus fora e tentam outras coisas. Esteja preparado para se desiludir, se é esse tipo de coisa que espera de Deus.

(Essa conversa, que teve origem em alguma comunidade do Orkut – e eu nem tenho mais perfil no Orkut faz algum tempo – estava nos rascunhos do blog, é de dois anos atrás. Tirei da gaveta, assoprei a poeira e resolvi publicar.)


Crucifixos e repartições

março 8, 2012

Se você é cristão, e considera que a retirada dos crucifixos das repartições públicas é assunto polêmico, aí vai a minha sugestão:

Vá procurar o que fazer, porque o que é o crucifixo? Um objeto, um mero símbolo religioso. E estar pendurado numa parede qualquer, ou não, não significa coisa alguma, se os ensinamentos de Jesus não estiverem no coração das pessoas. Mais de dois mil anos, e ainda não entenderam uma coisa tão simples. E continuam com as polêmicas típicas de quem quer tapar o sol com peneira, e fingir que isso é ser cristão: querer ver cruzes e bíblias em todos os lugares, como se tais coisas tivessem algum poder mágico, de purificar ou santificar os ambientes, só por estarem presentes nas paredes ou em cima das mesas. Acordem!

Se assim fosse, as igrejas seriam os lugares mais purificados do universo, e todo mundo sabe que não é bem assim, certo?