O filho do homem

Trechos do livro O filho do homem, de François Mauriac

[…]Nossa fé esbarra no escândalo desse fracasso. Sabemos, contudo, que o amor não se impõe: o amor do Filho do Homem tanto qualquer outro amor. O amor exige corações que se recusem e corações que se deem. E Deus, porque é amor, pode ser rejeitado. Caso se tivesse imposto à sua criatura, seria um outro deus, mas não o nosso, e o homem não seria, entre todos os animais, aquele que ergue uma fronte orgulhosa e esta cabeça que pode, meneando da esquerda para a direita, fazer o sinal de negação. Toda a vida cristã está contida neste consentimento dado e nunca  retomado; nenhum amor se apodera à força do ser que ama. Convida, solicita: e é primeiro que isso a Graça.

Ela faz mais que convidar, que solicitar, e nisso difere do amor humano: age no nosso íntimo. Não há homem que, sabendo exprimir-se e se conhecendo, não possa acompanhar e descrever, através do seu destino, esse rasto de uma perseguição, e mostrar determinada encruzilhada no caminho onde foi chamado pelo próprio nome. Há aí Alguém que sempre esteve nesse lugar, mas que sempre trocamos por tudo, por qualquer coisa. É somente no deserto do entardecer da vida que mesmo aqueles que foram mais ou menos fiéis e seguiram de longe o Senhor, é só na aridez da velhice, que O preferem de fato, uma vez que, então, não há mais ninguém e nada mais resta.[…]

[…] Ter conhecimento do fracasso antes de haver empreendido alguma coisa, da recusa antes de haver solicitado, a aceitação desse mistério do mal que não será vencido porque pode ser preferido e é preciso que o possa ser, senão Deus não seria amor: toda a vida oculta do Senhor talvez esteja contida nesse conhecimento e nessa aceitação. E se Ele foi chamado, durante a vida pública, Jesus de Nazaré, Nazaré ressoa aqui não como a evocação de sua pequena pátria, mas como o título de uma nobreza insigne: a do artífice estendido e pregado de antemão, em espírito, sobre esses pedaços de madeira que suas pobres mãos de operário aplainam.[…]

[…] Esse Reino que não é deste mundo e está no âmago dos seus corações, eles não o conhecem, e só o conhecerão quando o Espírito lhes tiver comunicado o seu ardor. Vivo, o Filho do Homem permanece desprezado e mesmo desconhecido. Tem-se por vezes a impressão de que só encontra nas criaturas aquilo que Ele próprio nelas depositou.[…]

[…] Lá onde os homens nada podem, Ele surge de repente e, no arroubo da impaciência característica dos vencedores que não admitem delongas, corta de pronto as dificuldades e as contradições; basta-Lhe um instante para inverter e destruir tudo o que uma pobre vida, durante anos, opõe à Graça.[…]

[…] Não pensemos, todavia, que esses primeiros cristãos fossem homens de uma espécie diferente da nossa e de uma vida espiritual essencialmente diversa. Na realidade, esses irmãos dos tempos heroicos assemelham-se mais a nós do que imaginamos. Num ponto muito importante, nossa condição se aproxima da deles. Hoje, na medida em que o mundo se descristianiza e volta sob formas novas às velhas idolatrias da cidade, da raça e do sangue, o cristão autêntico não está menos isolado na sociedade moderna do que o estiveram os primeiros cristãos sob o império dos césares, e muitos não opunham uma resistência maior que a nossa contra esta corrupção que os envolvia por todos os lados. A força do hábito nos impede de sentir essa contradição entre a Cruz e um mundo, depois de tantos séculos, tão irredutível como o era quando os primeiros discípulos começaram a enfrentar o paganismo.[…]

[…]Quaisquer que tenham sido as provações sofridas, seu Deus não era diferente dAquele que as almas de hoje conhecem e cujo silêncio e cuja ausência desolam os que se fiaram excessivamente nas manifestações sensíveis da Graça. Para eles, como para nós, era preciso não renegar na hora das trevas o que nos fora revelado em plena luz. É esse, na realidade, o velho drama cristão.[…]

[…]Não, não cedamos jamais à tentação de desprezar uma humanidade de que o Filho de Deus não somente revestiu a carne e assumiu a natureza, mas também consagrou por seu amor. E, se não devemos ceder à tentação de desprezar os outros, não devemos tampouco ceder à tentação de nos desprezar a nós mesmos.

“Venha a nós o vosso reino”, imploramos no Pai Nosso; somos milhões e milhões de criaturas a repeti-lo há quase 2 mil anos, depois que nos foi ensinada essa oração, na certeza absoluta de sermos atendidos um dia. Já o fomos, entretanto; o Reino já chegou, encontra-se no meio de nós, dentro de nós, de maneira que nunca somos vencidos senão em aparência: e como a angústia é a própria condição de nossa paz, a derrota é a própria condição da nossa vitória. “Tende confiança, Eu venci o mundo.” Aquele que lançou tal desafio ao mundo fê-lo justamente na hora em que ia ser traído, ultrajado, ridicularizado, pregado no patíbulo do escravo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: