Why evolution is true – Jerry A. Coyne

outubro 31, 2009

coyne_why_evolution_is_trueCom grande cuidado, atenção às evidências científicas e com um estilo maravilhosamente acessível, Coyne, um geneticista evolucionista da Universidade de Chicago, nos apresenta um esmagador estudo sobre evolução. Variando da biogeografia à geologia, da anatomia à genética, e da biologia molecular à fisiologia, demonstra que a teoria evolucionista fez previsões que foram comprovadas de forma consistente pelos dados encontrados posteriormente – um requerimento básico para tornar válida qualquer teoria científica. Adicionalmente, apesar de ter todo o respeito por aqueles que promovem o design inteligente e o criacionismo, usa os dados disponíveis para demolir o pensamento de que o criacionismo é embasado em evidências, ao mesmo tempo que explica porque tais idéias estão fora dos limites científicos . Coyne aborda diretamente o conceito muitas vezes defendido por fundamentalistas, de que a aceitação da evolução deve conduzir à imoralidade, concluindo que a evolução nos explica de onde viemos, não para onde podemos ir. Os leitores que procuram compreender o processo da evolução e buscam respostas para a maioria das objeções criacionistas mais comuns,  devem encontrar tudo o que precisam neste livro, que é mais claro e mais compreensível que muitos outros que tratam sobre o mesmo assunto.

Why evolution is true – Jerry A. Coyne – Amazon.com

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Jesus na célula

outubro 30, 2009
Por Marcos Siqueira
Foi um encontro inusitado. Jesus estava passeando pelas ruas de Brasília, passou pela rodoviária do Plano, aquela multidão, ninguém o reconheceu. Viu um jovem a passos largos, bíblia embaixo do braço, se aproximou:

– Olá rapaz! Jesus aborda o jovem que apressa ainda mais o passo.

– Olá moço. Desculpe, estou com pressa. O jovem demonstrou desgosto pela interrupção do estranho.

– Tudo bem, eu que me desculpo pela interrupção. Jesus conhecia os seus pensamentos. Você está indo a algum lugar especial?

– Estou indo para a igreja!

– Indo à igreja?

– É! Frequento a Igreja Pentecostal dos Milagres de Jesus… Pô, eu estou com pressa, o culto já começou, dá para dar licença. O jovem quase começa a correr, tentando se esquivar daquela situação desagradável com o estranho. Alguém que aborda o outro na rua, não deve ter boas intenções.

– Igreja Pente… (imagine a cara de Jesus nesse momento). Posso ir com você?

– Ãããã… Vamos, não tem problema. Mas ai se alguém perguntar você fala que frequenta a minha célula. –

… Já na entrada do templo ambos são recebidos por um diácono que prontamente indica um local com cadeiras vazias.

– Quem é? Jesus pergunta apontando o diácono com a cabeça.

– É o Diácono Manoel.

– Ahhhh. Ele que cuida dos pobres e zela para que na igreja não tenha nenhum necessitado?

– Hein???? O Manoel? Ele é diácono, não a Madre Tereza. Fica quieto senão ele vem aqui. Pô, nunca veio em uma igreja não? Senta ai…

– Na verdade ir a igreja é um conceito novo para mim, sempre preferei fazer parte do Corpo. Mas e você, como anda sua vida? O que…

– Psssssiiiuuu. O jovem interrompe bruscamente a conversa. Fica quieto ai! O pastor tá pregando lá, tá vendo não?

– Mas, aqui não é a igreja? O local onde se reúnem os filhos de Deus? Onde a família do Pai celestial se junta em um só coração, compartilham suas vidas necessidades, se ajudam mutuamente?

– Cara, de que planeta você veio hein??? Aqui é igreja, tá viajando? A gente vem, escuta a palavra, dá a oferta e vai embora. O jovem acha graça daquele estranho, com idéiai totalmente novas e desconhecidas.

– Mas e quando vocês conversam?

– No fim do culto ué! Caaara, vou acabar com problemas por causa dessa conversa. Sou aspirante e o Manoel tá me filmando lá da porta.

– Então quando acaba o culto é que a igreja se relaciona? O culto não é o momento no qual o meu … o Corpo de Cristo manifesta a graça do Espirito? Um tem salmo, outro ensino, outro revelação… e todos falam para edificação mútua?

– Vééééiiii. De onde você tira essas idéias malucas? Para você falar algo tem que ter 12 discípulos, ai se candidata a aspirante. Quando for promovido a oficial pode falar na célula. Meu, pelo menos fala que é da minha célula viu?? Você já me queimou mesmo com essa falação toda. Se ficar de boa eu te levo para conhecer meu líder ai você fala essas paradas com ele.

– Então, na célula vocês compartilham suas necessidades, dons e graça do Espírito?

– Não rapá, a celula é para ganhar mais pessoas para Jesus!!!!

– Ganhar… para Jesus? E depois, o que fazem com quem vocês dizem que ganharam?

– A gente põe eles para abrir novas células, lógico! – Entendo, foi bom falar contigo. Jesus se levanta no meio da palavra e estende a mão ao jovem.

– Ué não vai assistir o culto?

– Não, obrigado, não sou muito de assistir… vou lá fora cultuar.

O jovem fica triste, pois Jesus saiu antes do apelo e ele viu que perdeu a oportunidade de levar mais um para sua célula. Após o término do culto, a caminho da rodoviária do Plano ele vê Jesus, sentado, cercado de pessoas de má indole, conversando alegremente. Não consegue se segurar:

– Owwww, você não disse que ia sair da igreja para cultuar??? O que está fazendo então cercado desses  mundanos pecadores????

Não leve essa história herética a sério. Todos nós sabemos que para Jesus o que fazemos não é novidade!

Jesus na célula – Marcos Siqueira


Que cristianismo é esse…

outubro 29, 2009

por Thiago Azevedo

Que cristianismo é esse…
Que deturpa a mensagem de amor e esperança, trazendo para o ser humano uma carga maior de solidão e sofrimento?

Que cristianismo é esse…
Que tira a infância e o sorriso das crianças impondo-lhes um Deus frígido que só trás traumas?

Que cristianismo é esse…
Que é incapaz de olhar pelos menores deste mundo, mulheres, negros, homossexuais, crianças, deficientes, pobres, mendigos e mendigas?

Que cristianismo é esse…
Que é capaz de levantar a mão para causar dor, para agredir e impor as mãos para invocar demônios para depois tirá-los, porém é incapaz de usar estas mãos para levantar do chão o oprimido, ou o irmão caído?

Que cristianismo é esse…
Que dá mais valor ao rito, ao templo, ao dinheiro, aos bens materiais, do que a solidariedade, a misericórdia e ao amor?

Que cristianismo é esse…
Que cria novas cruzadas, para chacinar a mente e o coração dos que precisam de amor e esperança?

Que cristianismo é esse…
Que se alia à corrupção política, aos atores, ricos e famosos, mas não olha e não se alia àqueles que são marginalizados?

Que cristianismo é esse…
Que investe milhões em catedrais ostentosas, mas não investe um centavo para amenizar o sofrimento dos pobres e descamisados?

Que cristianismo é esse…
Que luta por números de fiéis, mas não é capaz de lutar por uma fé libertadora, simples e que se move através da compaixão e da misericórdia?

Que cristianismo é esse…
Construído com soberbos que humilham os humildes?

Que cristianismo é esse…
Que cria uma imagem deformada de Cristo e a apresenta aos pequenos como se fosse a imagem verdadeira do Jesus do amor?

Que cristianismo é esse…
Que vive pelo dogmatismo e não pelo amor incondicional e sem apologia à lei exterior?

Que cristianismo é esse…
Que coloca no poder políticos para legislar em favor de si mesma e não por uma justiça com equidade para todos?

Que cristianismo é esse…
Que defende um Deus que só abençoa seus fiéis e não ao mundo inteiro?

Que cristianismo é esse…
Que cura somente os que fazem parte de grupos elitizados enquanto muitos sofrem nas camas dos hospitais públicos esperando a misericórdia de Deus para esse caos nas suas vidas?

Que cristianismo é esse…
Que promove guerras e atrocidades em nome de Deus?

Que cristianismo é esse…
Que levanta a bandeira da discriminação e da intolerância religiosa?

Que cristianismo é esse…
Que apedreja, quando deveria abençoar com bem-aventuranças aqueles que não tem esperanças?

Que cristianismo é esse…
Que não luta contra a depredação do meio ambiente, nossa casa, nossa mãe Terra, criação de Deus e que chamou de bom?

Que cristianismo é esse – Thiago Azevedo


Não sabemos o que é igreja…

outubro 27, 2009

Igreja não é templo, não é sinagoga, não é mesquita. Não é o santuário onde os fiéis se reúnem para cultuar a Deus. Igreja é gente, e não lugar. É a assembléia de pecadores perdoados; de incrédulos que se tornam crentes; de pessoas espiritualmente mortas que são espiritualmente ressuscitadas; de apáticos que passam a ter sede do Deus vivo; de soberbos que se fazem humildes; de desgarrados que voltam ao aprisco.

“Igreja é mistura de raças diferentes, distâncias diferentes, línguas diferentes, cores diferentes, nacionalidades diferentes, culturas diferentes, níveis diferentes, temperamentos diferentes. A única coisa não diferente na Igreja é a fé em Jesus Cristo.”

A Igreja não é igreja ocidental nem igreja oriental. Não é Igreja Católica Romana nem igreja protestante. Não é igreja tradicional nem igreja pentecostal. Não é igreja liberal nem igreja conservadora. Não é igreja fundamentalista nem igreja evangelical. A Igreja não é Igreja Adventista, Igreja Anglicana, Igreja Assembléia de Deus, Igreja Batista, Igreja Congregacional, Igreja Deus é Amor, Igreja Episcopal, Igreja Holiness, Igreja Luterana, Igreja Maranata, Igreja Menonita, Igreja Metodista, Igreja Morávia, Igreja Nazarena, Igreja Presbiteriana, Igreja Quadrangular, Igreja Reformada, Igreja Renascer em Cristo nem igrejas sem nome.

A Igreja é católica (universal), mas não é romana. É universal (católica) mas não é a Universal do Reino de Deus. É de Jesus Cristo, mas não dos Santos dos Últimos Dias. Porque é universal, não é igreja armênia, igreja búlgara, igreja copta, igreja etíope, igreja grega, igreja russa nem igreja sérvia. Porque é de Jesus Cristo, não é de Simão Pedro, não é de Martinho Lutero, não é de Sun Myung Moon, não é de Bento XVI.

Em todo o mundo e em toda a história, a única pessoa que pode chamar de minha a Igreja é o Senhor Jesus Cristo. Ele declarou a Cefas: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16.18).

Não há nada mais inescrutável e fantástico do que a Igreja de Jesus Cristo. Ela é o mais antigo, o mais universal, o mais antidiscriminatório e o mais misterioso de todos os agrupamentos. Dela fazem parte os que ainda vivem (igreja militante) e os que já se foram (igreja triunfante). Seus membros estão entrelaçados, mesmo que, por enquanto, não se conheçam plenamente. Todos igualmente são “concidadãos dos santos” (Ef 2.19), “co-herdeiros com Cristo” (Ef 3.6; Rm 8.17) e “co-participantes das promessas” (Ef 3.6). Eles são nada menos e nada mais do que a Família de Deus (Ef 2.19; 3.15). Ali, ninguém é corpo estranho, ninguém é estrangeiro, ninguém é de fora. É por isso que, na consumação do século, “eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com eles” (Ap 21.3).

A Igreja de Jesus, também chamada Igreja de Deus (1 Co 1.2; 10.22; 11.22; 15.9; 1 Tm 3.5 e 15), Rebanho de Deus (1 Pe 5.2), Corpo de Cristo (1 Co 12.27) e Noiva de Cristo (Ap 21.2), tem como Esposo (Ap 21.9), Cabeça (Cl 1.18) e Pastor (Hb 13.20) o próprio Jesus.

A tradicional diferença entre igreja visível e igreja invisível não significa a existência de duas igrejas. A Igreja é uma só (Ef 4.4). A igreja invisível é aquela que reúne o número total de redimidos, incluindo os mortos, os vivos e os que ainda hão de nascer e se converter. Eventualmente pode incluir pecadores arrependidos que nunca freqüentaram um templo cristão nem foram batizados. Somente Deus sabe quantos e quais são: “O Senhor conhece os que lhe pertencem” (2 Tm 2.19). A igreja visível é aquela que reúne não só os redimidos, mas também os não redimidos, muito embora passem pelo batismo cristão, se declarem cristãos e possam galgar posições de liderança. É a igreja composta de trigo e joio, de verdadeiros crentes e de pseudocrentes. Dentro da igreja visível está a igreja invisível, mas dentro da igreja invisível nunca está toda a igreja visível. A Igreja de Jesus é uma só, porém é conhecida imperfeitamente na terra e perfeitamente no céu.

Não sabemos o que é Igreja!!! Lion of  Zion


Dez coisas que odeio na igreja

outubro 24, 2009

por Manoel Silva Filho

1. A TUA PRETENSÃO OSTENSIVA de tu te veres superior a tudo e a todos, e com esse orgulho besta, deixas de ser reconhecida como voz de Deus e agência do Reino no mundo. Ao contrário, deverias te afastar pra bem longe dessa vaidade luciferiana e cair em si, voltando a servir humildemente ao mundo ao qual foste enviada.

2. QUANDO INFLEXÍVEL, IMPÕES O DETESTÁVEL LEGALISMO COMO FORMA DE CAMINHADA CRISTÃ com regras insuportáveis que mantém teus membros eternamente cativos a infantilidade na fé, ao invés de conduzi-los à maturidade cristã que alcança a essencial liberdade consciente e anda maduramente nas pegadas de Jesus de Nazaré.

3. A TUA CEGUEIRA REDUCIONISTA que não discerne claramente o Reino além de tuas limitadas fronteiras, expandindo a visão para ver e aceitar outras formas de expressão, de serviço cristão, de culto e de obras que também glorificam a Deus e contribuem para a expansão do Reino na terra.

4. A TUA FORMA DE JULGAR SUMARIAMENTE as pessoas, se são merecedoras do céu ou do inferno, como se coubesse a ti essa prerrogativa divina de seleção. Deveria tu saber que essa é uma ação exclusiva de Deus.

5. A TUA DISCIPLINA CORRETIVA que sempre exclui e joga fora todo aquele que desgraçadamente tropeça por algum motivo, levando invariavelmente o “disciplinado” ao abandono, e ferido, a morrer a míngua.

6. A TUA FORMA ANTIBÍBLICA DE EVANGELIZAR, definindo prazo de mudança para as pessoas ”aceitarem Jesus”, exigindo uma conversão urgente e superficial baseada na adequação compulsória às regras de teus usos e costumes, e não na radical soberana transformação do Espírito Santo, de dentro para fora, e no livre tempo de Deus.

7. A TUA VISÃO MISSIONÁRIA/ EVANGELÍSTICA DISTORCIDA que em nome do “ide” retira as pessoas de suas áreas de convivência na sociedade onde exerciam posições estratégicas para alcançar seus semelhantes, para mantê-los circunscritos à área do templo, transformando-os em pessoas inativas ou em obreiros alienados que desconhecem o que se passa no mundo que os rodeiam.

8. O TEU ABUSO DE PODER arrastando milhares de PESSOAS SINCERAS, frágeis, crédulas, simplórias, despreparadas e desavisadas à exaustão, ao esgotamento, ao sofrimento, à decepção, e a se sentirem absolutamente usurpadas física, emocional, material e espiritualmente. Essas pobres vítimas do teu poder abusivo se tornam amargas e refratárias para o Evangelho para sempre, fechadas para qualquer possibilidade de pensarem em Deus ou em coisas relacionadas a ti.

9. A FORMA IMORAL COM QUE TEUS LÍDERES LIDAM COM AS FINANÇAS, manipulando o dinheiro que entra em teus cofres de forma irresponsável, desonesta, revelando que são subjugados pelo deus Mamon. Reproduzes pastores que amam posição, poder, e o dinheiro, tornando-os cheios de avareza e de ganância. ISSO TEM CAUSADO GRANDES ESCÂNDALOS E DANOS IRREVERSÍVEIS PARA O EVANGELHO, E TU ÉS DIRETAMENTE RESPONSÁVEL POR ISSO!

10. E por último, odeio quando MENTES, ASSEVARANDO QUE FORA DE TI, AS PESSOAS NÃO PODEM SOBREVIVER. Saiba que existem milhões de pessoas que nunca adentraram em teus átrios e mesmo assim oram, têm temor, discernimento, maturidade, ética, moral e dignidade, muitas vezes, mais apurados que teus pobres membros pretensiosos.
Sobretudo, há uma forma difícil, dolorida, mas possível, que pode mudar radicalmente esse quadro sombrio: TENS QUE PASSAR PELO PORTAL DO ARREPENDIMENTO. Como diria Jesus, Lembra-te de onde caíste e arrepende-te…

Dez coisas que odeio em você, igreja – Manoel Silva Filho


Gravatte, o salteador

outubro 20, 2009

por Victor Hugo, no  primeiro volume de Os Miseráveis

Vem a propósito aqui um facto que não devemos omitir, por ser um dos que melhor dão a conhecer o carácter do virtuoso bispo de Digne.

Depois de destroçada a quadrilha de Gaspar Bés, terrível bandido que infestara as gargantas de Olialles, refugiara-se na montanha com mais alguns salteadores que conseguiram escapar à justiça, um dos seus lugares-tenentes, chamado Gravatte. Conservando-se algum tempo oculto no condado de Nice, Gravatte entrou no Piemonte e, quando menos era esperado, reapareceu em França, do lado de Bercelonette, sendo visto primeiro em Jausiers e depois em Tuiles. Oculto nas cavernas de Joug-de-1’Aigle, fazia frequentes incursões nos lugares e aldeias dos arredores, descendo pelos barrancos de Ubaye e do Ubayette.

Uma noite, chegou mesmo a entrar em Embrun, onde penetrou na catedral, roubando todos os objectos que se encontravam na sacristia. Os seus repetidos assaltos traziam a terra em contínuo e terrível sobressalto. Destacou-se um corpo de gendarmeria para o perseguir, mas foi trabalho baldado. Escapava-se sempre e até algumas vezes resistia às forças mandadas em sua perseguição.

No meio deste terror, chegou o bispo, que andava a fazer as suas visitas pelo distrito de Chastelar. O maire foi ao seu encontro e pretendeu convencê-lo de quanto seria prudente voltar para trás, pois Gravatte ocupava a montanha até para além do Arche. Tornava-se perigoso atravessá-la, mesmo com uma escolta, porque seria expor inutilmente a vida de três ou quatro pobres soldados.

-Por isso mesmo tenciono ir sem escolta,  disse o bispo.

– Pois Monsenhor intenta semelhante coisa?! exclamou o maire.

-De tal modo que recuso a companhia dos soldados e daqui a uma hora pôr-me-ei a caminho.

-Pois teima em partir?

-Porque não?

-Sozinho?

-Sim.

-Isso é uma temeridade, senhor bispo.

-Há três anos,  replicou o bispo,  que não visito o pequeno e humilde lugarejo da montanha, cujos habitantes e bons pastores, são todos meus amigos. A sua riqueza   é   uma  cabra  de  cada  rebanho de  trinta  que guardam; a sua indústria, é fazer bonitos cordões de lã de diversas cores e o seu divertimento, tocar árias montanhesas em flautins de seis buracos. Precisam de ouvir a palavra de Deus de tempos a tempos. Que haviam de dizer de um bispo medroso? Que diriam se eu lá não fosse?

– Mas, Monsenhor, e os salteadores?

-É verdade, tem razão. Se os encontrasse… Olhe que também devem ter necessidade de ouvir  falar em Deus!

-É uma grande quadrilha!  Um rebanho de lobos!

-Pois talvez seja desse rebanho, senhor maire, que Jesus queira que eu seja pastor. Quem sabe os desígnios da Providência?

-Podem roubá-lo,  senhor bispo.

-Não tenho nada.

-Podem assassiná-lo!

-Ora! com que fim fariam eles mal a um pobre sacerdote que vai a passar, ocupado unicamente em rezar as suas orações?

-Valha-me  Deus!  Que  sucederá  se os  encontrar?

-Pedir-lhes-ei esmola para os meus pobres.

-Em nome do céu, Monsenhor, não exponha a sua vida!

-Pois é esse o seu temor, senhor maire! atalhou o bispo.  Eu não ando no mundo para guardar a minha vida, mas sim para guardar as almas!

Ninguém o pôde fazer mudar de resolução. Apesar de todas as súplicas, partiu acompanhado apenas por um rapaz que se prestou a servir-lhe de guia.

A sua obstinada resistência deu muito que falar, deixando os ânimos sobressaltados em extremo. Desta vez não quis que a irmã nem Magloire o acompanhassem. Atravessou a montanha montado numa mula e chegou são e salvo até aos pastores seus amigos, sem ter tido o menor encontro desagradável. Demorou-se quinze dias no meio deles, pregando, ensinando, moralizando, administrando os sacramentos.

Quando estava prestes a retirar-se, resolveu cantar pontificalmente um Te-Deum e comunicou a sua intenção ao cura. Mas surgiram graves dificuldades, pois não havia as insígnias episcopais que era mister. A modesta igreja paroquial apenas podia pôr à disposição do bispo alguns deteriorados paramentos de damasco, guarnecidos de galões falsos.

Isso  não   será  obstáculo,   senhor  cura,  disse  o bispo.  Anuncie  na  missa  o  nosso   Te-Deum, que  o mais sempre se há-de arranjar.

Procuraram-se paramentos em todas as igrejas dos arredores e reunidas as magnificências das humildes paróquias, mal chegavam para revestir convenientemente um chantre da catedral.

Achavam-se as coisas nestes apuros, quando à porta da residência paroquial chegaram dois cavaleiros desconhecidos que, depois de fazerem entrega de uma grande caixa de que eram portadores, tornaram a partir imediatamente. Aberta a caixa, viu-se que continha uma dalmática carregada de oiro, uma mitra guarnecida de diamantes, uma cruz arquiepiscopal, um báculo magnífico, todos os paramentos pontificais roubados um mês antes da sacristia de Nossa Senhora de Embrun. No fundo da caixa estava um papel em que se liam estas palavras:

Oferta de Gravatte a Monsenhor Bemvindo.

-Eu bem dizia que tudo se havia de arranjar!, exclamou o bispo. Em seguida acrescentou, sorrindo:

-A quem se contentava com a sobrepeliz de um simples cura, envia Deus um manto de arcebispo!

-Deus… ou o diabo! murmurou o pároco, abanando a cabeça com um sorriso de incredulidade.

O bispo fitou atentamente o pároco e replicou em tom austero:

-Foi Deus.

Quando voltou a Chastelar, de todos os lados, vinha gente à beira da estrada para o ver passar. Chegado à residência paroquial de Chastelar, encontrou a irmã e Magloire que o esperavam ali e, apenas as viu, exclamou:

-Então, eu não tinha razão? Vai um pobre sacerdote visitar os infelizes montanheses com as mãos vazias e volta de lá com elas cheias! Quando fui, levava apenas a minha confiança em Deus, e agora volto trazendo o tesouro de uma catedral!

À noite, antes de se deitar, disse ainda:

Não tenhamos receio de ladrões e de assassinos. São muito pequenos os perigos exteriores. Devemos ter receio é de nós próprios! Os preconceitos e os vícios é que são os verdadeiros ladrões e os verdadeiros assassinos! Os maiores perigos são os que se acham dentro de nós mesmos. Que importa que a nossa cabeça ou a nossa bolsa esteja ameaçada? Não devemos temer senão o que nos ameaça a alma!  Depois, voltando-se para a irmã, acrescentou:  Minha irmã, o sacerdote não deve precaver-se contra o próximo. Aquilo que ele pratica é permitido por Deus. Limitemo-nos a implorar a bondade divina, quando nos julguemos ameaçados por qualquer perigo. Imploremo-la, não por nós, mas para que os nossos irmãos não caiam em tentação por nossa causa.

Óbvio que o tal bispo é uma personagem de ficção de Victor Hugo. Afinal, quando você pensa na palavra “bispo”, não é a figura desse bispo, personagem de Os miseráveis (o qual recebia salário mas a maior parte dele era distribuído aos necessitados, que pregava e exercia as funções de bispo com a mesma simplicidade com a qual arregaçava as mangas para cultivar o jardim ele mesmo, que transformou a casa paroquial em hospital porque o hospital era pequeno demais para abrigar todos os doentes com conforto, que visitava os pobres andando a pé e etc), que você lembra.

A palavra “bispo” nos lembra líderes cheios de empáfia e soberba, que pedem ofertas para comprar canais de tv e rádio, mansões no exterior, fazendas, carros blindados e jatinhos, e se eleger em pleitos eleitorais, e não para ajudar os necessitados. Se a igreja que se diz cristã, se dispusesse a ser relevante socialmente no Brasil, com a aviltante quantia de 1 bilhão de reais que arrecada por mês, livre de impostos, ela faria toda a diferença.

Esse tipo de personagem só existe mesmo na ficção, a realidade é bem outra.

Não estou dizendo que o cristão deve se expor a bandidos e arriscar sua vida como fez o bispo da história (e os tempos são bem outros, hoje em dia a vida não vale mais coisa alguma para ninguém, tira-se a vida de pessoas como quem apaga um cigarro), mas que um cristão não deve usar isso como justificativa para ficar escondido dentro da igreja, se protegendo de tudo  e de todos, porque as pessoas que mais precisam de Deus, estão do lado de fora. Se tentássemos usar de mais simplicidade e colocássemos mais amor no nosso cristianismo, as coisas seriam bem diferentes.

Mas insistimos em cair no mesmo erro religioso de sempre, aquele erro que consiste em buscar ostentação e enriquecimento para nossos líderes, para o sistema religioso do qual fazemos parte, e para nós mesmos, antes de buscar o Reino de Deus e a sua justiça. Nós não estamos de fato preocupados com o próximo, mas apenas conosco mesmos. E ainda somos capazes de agir como os amigos de Jó, que o acusaram pelas desgraças que se abateram na sua vida, em vez de tentar consolar e ajudar.

Muito estranho esse nosso “cristianismo”…


A igreja precisa ser mundana

outubro 19, 2009

por Toni Ayres

Uma das coisas que mais causam preocupação aos cristãos maduros, nos dias de hoje, é a subcultura religiosa na qual a Igreja tem se transformado, confundindo a salvação com uma espécie de separação, que mais lembra um “apartheid”.

Não é que as pessoas façam isso por maldade ou por bondade. É que foram, explícita ou tacitamente, ensinadas a adotarem essa forma de viver para alcançarem a “santidade”.

Ou seja: para serem santas, começam a fazer uma espécie de segregação, dividindo de uma forma quase esquizofrênica, o que é “do mundo” e o que é “da igreja”. Dessa forma os novos convertidos são logo cooptados em seus dons: se são cantores, renunciam a suas carreiras para se tornarem “cantores gospel”. Se são pintores, sua arte vai ser aproveitada para a pintura de púlpitos e para a decoração de igrejas.

A questão atingiu tal magnitude, que hoje temos: serviços de buffet gospel, programas de televisão gospel, lojas gospel, escolas gospel, sites estritamente gospel, e a lista continua “ad nauseaum”.

É triste que seja assim, pois Jesus não veio pregar um evangelho gospel (ainda que, ironicamente, a palavra inglesa gospel, signifique exatamente evangelho). Jesus viveu exatamente como ensina em sua oração sacerdotal, que pode ser lida no capítulo 17 do evangelho de João. Aliás, precisamente vo verso 18 desse capítulo, Ele ensina claramente: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo”.

Em seu ministério terreno, todos os dias, Jesus estava no meio dos pecadores. Atendia a seus pedidos, visitava suas casas, ia a suas festas e entre eles pregava o evangelho do Reino. Não ficava recluso, ensinando três vezes por semana, apenas dentro de um templo ou de uma sinagoga.

Ou seja, fazia, sem tirar nem pôr, o contrário do que a Igreja aprendeu a fazer, nos dias de hoje.

Resultado: começamos a viver numa redoma, estabelecendo um rígido limite entre o que é “santo” e o que é “mundano”, esquecendo-nos de que Deus opera, muitas vezes, “nas asas do furacão”.

A consequência acabou sendo a produção de uma imensa quantidade de cristãos emocionalmente doentes, pois ninguém pode viver impunemente uma vida esquizóide como essa; indo assim, na contra-mão daquilo que é o objetivo da Graça: a salvação de pessoas que não têm de pagar, absolutamente, preço algum por isso.

A saída? Se você é um engenheiro, preocupe-se apenas em ser um bom engenheiro e, com isso, estará dando um bom testemunho cristão. Se você for um servente de pedreiro, igualmente, seja um bom servente de pedreiro, e estará dando um magnifíco testemunho de sua fé.

É tempo de nos despertarmos para essa realidade.A Igreja de Cristo deve ser uma comunidade terapêutica, que cure e não adoeça seus membros. Não somos do mundo, mas vivemos no mundo e, somente dessa forma, cumpriremos o “IDE” de Jesus.

A Graça produz salvação, vida nova, liberdade e alegria.

Mas, para isso, precisamos aprender a abrir mãos de nossos “atos meritórios” e a quebrar, sem nenhum dó, nossas aparentemente pequenas “tabuinhas da lei“.

A igreja precisa ser mundana – Toni Ayres

Meu comentário: A única crítica que eu faço ao autor do texto, é o fato do blog onde postou o texto, se chamar “Psicoterapeuta Cristão”, o que acho um pouco contraditório com o que escreveu. = P