Os irmãos Karamázovi – Fiódor M. Dostoievski

novembro 24, 2008

Prefácio

Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto-me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste gênero: “Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?”

A derradeira pergunta é a mais embaraçosa, porque só lhe posso responder dizendo: “Talvez o senhor mesmo descubra isso no ro­mance”. Mas se o lerem, sem achar que meu herói é notável? Digo isto porque prevejo, infelizmente, a coisa. A meus olhos, é ele notá­vel, mas duvido bastante de que consiga convencer o leitor. O fato é que ele age seguramente, mas de uma maneira vaga e obscura. Aliás, seria estranho, em nossa época, exigir clareza das pessoas! Uma coisa, no entanto, está fora de dúvida: é um homem estranho, até mesmo um original. Mas a estranheza e a originalidade prejudicam, em lugar de conferir um direito à atenção, sobretudo quando todo mundo se esforça por coordenar as individualidades e destacar um sentido geral do absurdo coletivo. O original, na maior parte dos casos, é o indivíduo que se põe de parte. Não é verdade?

No caso de me contradizerem, a propósito deste último ponto, di­zendo: “Não é verdade”, ou “não é sempre verdade”, retomo cora­gem a respeito do valor de meu herói. Porque não somente o origi­nal não é “sempre” o indivíduo que se põe de parte, mas acontece-lhe deter a quinta-essência do patrimônio comum, enquanto seus contem­porâneos o repudiaram por algum tempo.

Aliás, em vez de engajar-me nessas explicações destituídas de inte­resse e confusas, teria começado bem simplesmente, sem prefácio — se minha obra agradar, hão de lê-la —, mas a desgraça está em que, além de uma biografia, tenho dois romances. O principal é o segun­do, é a atividade de meu herói em nossa época, no momento presente. O primeiro desenrola-se há treze anos, e, para dizer a verdade, é apenas um momento da primeira juventude do herói. Ê indispen­sável, porque, sem ele, muitas coisas ficariam incompreensíveis no segundo. Mas isso só faz aumentar o meu embaraço: se eu, biógrafo, acho que um romance teria bastado para um herói tão modesto e vago, como apresentar-me com dois e justificar tal pretensão?

Desesperando de resolver essas questões, deixo-as em suspenso. Naturalmente, o leitor perspicaz já adivinhou que tal era meu fim desde o começo e leva-me a mal que perca um tempo precioso em palavras inúteis. Ao que responderei que o fiz por polidez, e em se­guida por astúcia, a fim de que se fique prevenido de antemão. Além do mais, folgo que meu romance se divida por si mesmo em duas narrativas, “contudo conservando sua unidade integral”; depois de ter tomado conhecimento do primeiro, o leitor verá por si mesmo se vale a pena abordar o segundo. Sem dúvida, cada qual é livre; pode-se fechar o livro desde as primeiras páginas da primeira narrativa para não mais abri-lo. Mas há leitores delicados que querem ir até o fim, para não deixar de ser imparciais; tais são, por exemplo, todos os críticos russos. Sente-se a gente de coração mais leve para com eles. Malgrado sua consciência metódica, forneço-lhes um argumento dos mais fundamentados para abandonar a narrativa no primeiro episódio do romance. Eis terminado o meu prefácio. Convenho que é supér­fluo, mas, já que está escrito, deixemo-lo.

E agora, comecemos.

O Autor.


O padre e o cachorro…

novembro 23, 2008

Conta-se a história de um homem que foi a um sacerdote e disse: — Padre, quero que reze uma missa para meu cachorro.

O sacerdote ficou indignado:

-Como assim? Uma missa para seu cachorro?

É meu cachorro de estimação — disse o homem. — Eu amava aquele cachorro, e gostaria que o senhor rezasse um missa por ele.

Não rezamos missas para cachorros aqui — disse o sacerdote. — Você pode tentar na igreja da esquina. Pergunte a eles se podem fazer um culto para você.

Enquanto ia saindo, o homem disse ao sacerdote:

-Eu realmente amava aquele cachorro. Estava planejando dar uma oferta de um milhão de dólares pela missa.

Espere um pouco — exclamou o sacerdote. — Você não disse que seu cachorro era católico!

Brennan Manning – do livro O impostor que vive em mim.


A igreja de Cristo

novembro 23, 2008

As três horas da manhã de um sábado, meu amigo Tony se desperta com fome. Deixa as dependências do hotel que estava hospedado em busca de algum restaurante aberto para comprar comida. Cansado das conferências que vinha fazendo durante toda a semana no Hawai, Tony deixa de prestar atenção nas belezas do local e nas tristezas que o rodeiam.

Chegando ao um pequeno botequim, se depara com um grotesco e estúpido atendente e diz ao homem :
-Posso ter um café e um donnouts ? [uma espécie de pão]
Sem limpar as mãos, o dono do estabelecimento serve o café morno e o donnuts imundo à mesa , injuriado Tony os come do mesmo jeito.
Para não ser tão rude, o homem pergunta a Tony :
-O que você faz ?
Tony responde :
-Sou sociólogo
Encerrando o papo por ali, os interlocutores são surpreendidos pelas prostitutas que invadem o local, eram mais ou menos umas quinze(15)mulheres, que entraram no recinto tirando sarro uma das outras. As prostitutas satirizavam Agnes(uma delas) por que havia dito que nunca tinha tido uma festa de aniversário, e que domingo estaria completando 22 anos. Uma delas dizia :
-Que você espera da gente, que lhe façamos uma festa com bolo e coca-cola?
Tony escutando a conversa, pergunta ao proprietário após as prostitutas deixarem o lugar:
-Elas aparecem sempre aqui ?
Ele responde :
-Todos as noites as três da madrugada.
Após ter conversado com o dono do casa , Tony planeja uma festa surpresa para Agnes(a prostituta que iría fazer aniversário). Interessante que após essa iniciativa, a grosseria do atendente se vai, e até a esposa do mesmo aparece no cenário. [Se oferecendo p/ fazer o bolo].
Depois de tudo planejado, a taberna se encontrava enfeitada as 3 da madrugada para recepcionar Agnes e as prostitutas, quando inesperadamente todas entram na venda cantando em uma só voz :
Parabéns p/ você…nesta data querida….
Agnes estagnada não diz nada, assopra as velas e pergunta a Tony se poderia levar o bolo para mãe ver (uma quadra de distância do local).
Tony responde :
-O bolo e a festa lhe pertencem, você faz o que quiser.
Enquanto ela deixa o boteco prometendo voltar, o silêncio e as indagações tomam conta do ambiente, e Tony diz:
-Bem, acredito que a melhor coisa a fazer é pedir para Deus que proteja Agnes, vamos dar as mãos e conversar com Ele, cada um faz do jeito que sabe.
Após alguns minutos, Agnes retorna e todos celebram seu aniversário com alegria. No meio da celebração o dono do local pergunta a Tony:
-Vem cá, você disse que era sociólogo, por acaso é padre também?
Tony replica:
-Sim, sou pastor
O grotesco homem indaga a resposta e pergunta :
-De qual Igreja ?
Tony diz :
-Da Igreja que faz festa de aniversário para prostitutas as 3 da madrugada!
Encerrando a conversa o atendente e as prostitutas perguntam :
– Tem lugar para gente nessa Igreja ?

http://igrejaemergente.blogspot.com/2006/11/igreja-de-cristo.html

Pensando sobre Deus

novembro 22, 2008

Acreditar em Deus é acreditar na salvação do Mundo. O paradoxo de nosso tempo é a idéia entre acreditar em Deus mas não na salvação do Mundo, ou acreditar no futuro do Mundo e não acreditar em Deus.
Cristãos acreditam no “Apocalipse” e na punição dos não cristãos.
Ateus por outro lado… se recusam acreditar em Deus por que os cristãos acreditam Nele e se recusam em zelar pelo Mundo.
Quem é culpado por tal ignorância?
Muitas vezes digo a mim mesmo que em nossa religião pessoal, Deus se sente muito só, pois quem além Dele acreditaria na salvação do Mundo?
Deus procura entre nós filhos e filhas que o adorem de verdade e que amem o Mundo de tal maneira, para que Ele possa enviá-los ao Mundo para salvá-lo!

– Louis Evely, In the Christian Spirit (Image,1975).

Link: http://igrejaemergente.blogspot.com/2008/08/acreditar-em-deus-acreditar-na-salvao.html


Você…

novembro 22, 2008

amigo_especial

É você mesmo(a)! Não adianta fugir! : P


Cristãos e homossexuais…

novembro 21, 2008

Esses dias, lendo uma matéria no jornal sobre o PL 122, vi o seguinte comentário, de alguém que dizia ser homossexual:

“Eu tentei procurar Deus, mas o seu exército (os crentes), não me deixou passar.”

Só esqueceram de perguntar o que é que Deus pensa a respeito desse “exército”, que escolhe as pessoas  que julgam ser “dignas” de procurar por Ele. E as que são reputadas por indignas, têm o caminho barrado.

Sim, eu sei que Deus não está somente dentro das igrejas (tem muitas por aí que Deus não freqüenta), mas a maioria das pessoas, quando pensa em buscar Deus, pensa na igreja e em ir à igreja. E se o exército crente impede os que buscam a Deus, de entrar na igreja, qual a finalidade da igreja? Ser um gueto de crentes? Um clube seleto onde só entra quem for crente?

Que igreja é essa que deixa as pessoas que buscam Deus, do lado de fora, e onde só ficam aqueles que já O encontraram (ou acham que encontraram)? Se as pessoas que buscam por Deus ficam do lado de fora, Deus vai lá pra fora também…

Porque Ele veio para os que estão perdidos, e vai procurar por eles onde estiverem…


A cabana – William P. Young – livro

novembro 18, 2008

Prefácio

Quem não duvidaria ao ouvir um homem afirmar que passou um fim de semana inteiro com Deus e, ainda mais, em uma cabana? Principalmente naquela cabana.
Conheço Mack há pouco mais de 20 anos, desde o dia em que nós dois fomos à casa de um vizinho para ajudá-lo a embalar feno para suas poucas vacas. A partir de então a gente se encontra compartilhando um café — ou, para mim, um chá tailandês superquente, com soja. Nossas conversas nos dão um prazer profundo e são sempre salpicadas de muito riso e de vez em quando de uma ou duas lágrimas. Francamente, quanto mais velhos ficamos, mais a gente se dá bem, se é que você me entende.
O nome completo dele é Mackenzie Allen Phillips, mas a maioria das pessoas o chama de Allen.
É uma tradição de família: todos os homens têm o primeiro nome igual, mas são conhecidos pelo nome do meio, provavelmente para evitar a ostentação do I, II e III ou Júnior e Sênior. Assim, ele, o avô, o pai e agora o filho mais velho têm o nome de Mackenzie, mas só Nan, a mulher dele, e os amigos íntimos o chamam de Mack.
Ele nasceu em uma fazenda do Meio-Oeste, numa família irlandesa-americana de mãos calejadas e regras rigorosas. Ainda que aparentemente religioso e exageradamente rígido, seu pai bebia muito, sobretudo quando a chuva não vinha ou quando vinha cedo demais, e quase sempre entre uma coisa e outra. Mack nunca fala muito sobre o pai, mas quando O menciona a emoção abandona seu rosto, como se fosse uma maré vazante, deixando seus olhos sombrios e sem vida.
Pelo pouco que Mack me contou, sei que seu pai não era o tipo de alcoólatra que cai num sono rápido e feliz, e sim um bêbado perverso que batia na mulher e depois pedia perdão a Deus.
A coisa (chegou a tal ponto que, aos 13 anos e com certa relutância, Mack abriu o coração para um líder da igreja durante um encontro de jovens. Dominado pelo clima do momento, Mack confessou chorando que nunca fizera nada para ajudar a mãe nas várias vezes em que testemunhara o pai bêbado lhe dar uma surra até deixá-la inconsciente. O que Mack não pensou foi que seu confessor freqüentava a mesma igreja que seu pai. Quando chegou em casa, o pai o esperava na varanda e a mãe e as irmãs não estavam. Mais tarde, Mack ficou sabendo que elas tinham sido mandadas à casa da tia May para que o pai pudesse ter liberdade para dar ao filho rebelde uma lição inesquecível. Durante quase dois dias, amarrado ao grande carvalho nos fundos da casa, ele foi castigado com um cinto e com versículos da Bíblia todas as vezes que o pai acordava de sua bebedeira e largava a garrafa.
Duas semanas depois, quando enfim conseguiu ficar em pé, Mack simplesmente se levantou e foi embora de casa. Mas antes de partir colocou veneno de rato em cada garrafa de bebida que conseguiu encontrar na fazenda. Depois desenterrou de perto da latrina externa a pequena lata onde guardava todos os seus tesouros: uma foto da família em que o pai estava meio afastado, uma figurinha de beisebol do Luke Easter de 1950, uma garrafinha com mais ou menos 30ml de Ma Griffe (o único perfume que sua mãe havia usado), um carretel de linha e duas agulhas, um pequeno jato F-86 da Força Aérea americana em metal fundido e todas as economias de sua vida: 15 dólares e 13 centavos. Esgueirou-se pela sala e enfiou um bilhete debaixo do travesseiro da mãe, enquanto o pai roncava, curtindo mais um porre. O bilhete dizia simplesmente: “Um dia espero que você possa me perdoar.” Jurou que nunca mais olharia para trás e não olhou — durante um longo tempo.
Treze anos é muito pouco, porém Mack não tinha muitas opções e se adaptou rapidamente. Ele não fala muito sobre os anos seguintes. A maior parte foi passada fora do país, trabalhando pelo mundo, mandando dinheiro para os avós, que o repassavam à mãe. Acho que num desses países distantes chegou a pegar em armas e participar de algum conflito terrível; desde que o conheço, ele odeia a guerra com um fervor sinistro. Seja lá o que for que tenha acontecido, aos 20 e poucos anos foi parar num seminário na Austrália. Quando Mack se fartou de teologia e filosofia, retornou aos Estados Unidos, fez as pazes com a mãe e as irmãs e se mudou para o Oregon, onde conheceu Nannete A. Samuelson e se casou com ela.
Neste mundo de faladores, Mack é pensador e fazedor. Não diz muita coisa, a não ser que alguém pergunte, o que pouca gente faz. Quando fala, dá a impressão de ser uma espécie de alienígena que vê a paisagem das idéias e experiências humanas de modo diferente de todas as outras pessoas.
O que acontece é que as coisas que ele diz causam um certo desconforto em um mundo onde a maioria das pessoas prefere escutar o que está acostumada a ouvir, o que freqüentemente não é grande coisa. Os que o conhecem geralmente gostam muito de Mack, desde que ele mantenha guardados seus pensamentos. Porque as coisas que Mack diz nem sempre deixam as pessoas muito satisfeitas com elas mesmas.
Uma vez Mack me contou que quando era jovem costumava se abrir com mais liberdade, mas admitiu que a maior parte dessas conversas era um mecanismo de sobrevivência para encobrir suas feridas. Freqüentemente acabava derramando a dor sobre quem estivesse por perto. Disse que tinha prazer em apontar as falhas das pessoas e humilhá-las para manter seu sentimento de falso poder e controle. Nada muito elogiável.
Enquanto escrevo estas palavras, reflito sobre o Mack que sempre conheci: um sujeito bastante comum e certamente sem nada de especial, a não ser para os que o conhecem de verdade. Vai fazer 56 anos e não chama a atenção, está ligeiramente acima do peso, é meio careca, baixo e branco — uma descrição que serve para muitos homens dessas redondezas. Você provavelmente não o notaria numa multidão nem se sentiria incomodado sentado ao seu lado enquanto ele cochila no trem que o leva à cidade para a reunião semanal de vendas. Faz a maior parte de seu trabalho num pequeno escritório em sua casa na Wildcat Road, Vende alguma engenhoca de alta tecnologia que eu não pretendo entender: trecos eletrônicos que de algum modo fazem tudo andar mais depressa, como se a vida já não fosse rápida demais.
Você só percebe como Mack é inteligente quando, por acaso, escuta diálogo dele com um especialista. Já vivi algumas situações dessas quando a língua falada mal parecia com a nossa e eu me via lutando para captar os conceitos que jorravam como um rio de jóias despencando de uma cachoeira. Ele consegue falar com inteligência sob re quase tudo e, apesar da força de suas convicções, Mack tem um modo gentil e respeitoso que deixa você manter as suas.
Seus assuntos prediletos são Deus, a Criação e por que as pessoas acreditam em determinadas coisas. Seus olhos se iluminam e seu sorriso repuxa os cantos dos lábios para cima. De repente, como se fosse um garotinho, o cansaço se dissolve e ele rejuvenesce, praticamente incapaz de se conter. Mas, ao mesmo tempo, Mack não é muito religioso. Parece ter uma relação de amor e ódio com a religião e talvez até com Deus, que ele imagina como um ser mal-humorado, distante e altivo. Pequenas gotas de sarcasmo escorrem às vezes pelas rachaduras de seu reservatório, como dardos cortantes cheios de veneno. Embora algumas vezes nós dois vamos juntos à mesma igreja, dá para ver que ele não se sente muito à vontade lá.
Mack está casado com Nan há pouco mais de 33 anos — na maior parte do tempo, eles são felizes. Diz que ela salvou sua vida e pagou um preço alto por isso. Por algum motivo que não dá para compreender, Nan parece amá-lo agora mais do que nunca, apesar de eu ter a sensação de que ele a magoou de algum modo terrível nos primeiros anos. Acho que, assim como a maior parte das nossas feridas tem origem em nossos relacionamentos, o mesmo acontece com as curas, e sei que quem olha de fora não percebe essa bênção.
De qualquer modo, Mack se casou. Nan é a argamassa que mantém juntos os ladrilhos de sua família. Enquanto Mack lutou num mundo com muitos tons de cinza, o dela é principalmente preto e branco.
O bom senso é tão natural para Nan que ela nem consegue perceber o dom que isso representa. Ter uma família a impediu de realizar seu sonho de ser médica, mas ela se destacou como enfermeira e obteve um reconhecimento considerável em seu trabalho com pacientes terminais com câncer. Enquanto o relacionamento de Mack com Deus é amplo, o de Nan é profundo.
Esse casal contraditório teve cinco filhos de beleza incomum. Mack gosta de dizer que todos pegaram a beleza dele, “… porque Nan ainda conserva a dela”. Dois dos três meninos já saíram de casa: Jon, casado há pouco, trabalha como vendedor de uma empresa local, e Tyler, recém-formado na faculdade, está fazendo mestrado. Josh e uma das duas garotas, Katherine (Kate), cursaram a escola comunitária local. E a que chegou por último é Melissa — ou Missy, como gostávamos de chamá-la. Ela… bem, você vai conhecer melhor alguns dos filhos de Mack ao longo deste livro.
Os últimos anos foram… como é que posso dizer… notavelmente peculiares. Mack mudou: agora está ainda mais diferente e especial. Durante todos os nossos anos de convívio ele sempre foi bastante gentil e amável, mas desde a estada no hospital há três anos ficou… bem, melhor ainda. Tornou-se uma daquelas raras pessoas que estão totalmente à vontade dentro da própria pele. E eu também me sinto mais à vontade perto dele do que de qualquer outra pessoa. Cada vez que nos separamos, tenho a sensação de ter tido a melhor conversa da minha vida, mesmo que eu tenha falado mais. E, a respeito de Deus, Mack não é mais simplesmente amplo. Ficou muito profundo. Mas o mergulho custou caro.
Os dias de hoje são muito diferentes de há sete ou oito anos, quando a Grande Tristeza entrou em sua vida e ele quase parou de falar. Mais ou menos nessa época, e por quase dois anos, nossos encontros foram interrompidos, como se por um acordo mútuo não verbalizado. Eu só via Mack de vez em quando na mercearia ou, mais raramente ainda, na igreja. E, embora em geral trocássemos um abraço educado, não falávamos de muita coisa importante. Para ele era até difícil me encarar. Talvez não quisesse entrar numa conversa capaz de arrancar a casca de seu coração ferido.
Porém tudo isso mudou depois de um acidente feio com… Mas lá vou eu outra vez botando o carro na frente dos bois. Vamos chegar lá no devido tempo. Basta dizer que estes últimos anos parecem ter devolvido a vida de Mack e tirado o fardo da Grande Tristeza. O que aconteceu há três anos mudou totalmente a melodia de sua vida e é uma canção que mal posso esperar para tocar.
Apesar de se comunicar bastante bem verbalmente, Mack não se sente seguro sobre sua capacidade de escrever — algo que ele sabe que me apaixona. Por isso, perguntou se eu escreveria esta história, a história dele “para as crianças e para a Nan”. Queria uma narrativa que o ajudasse a expressar para eles a profundidade de seu amor e que os ajudasse a entender o que havia se passado em seu mundo interior. Você conhece o lugar: é onde você está sozinho — e talvez com Deus, se acredita Nele. É claro que Deus pode estar lá, mesmo que você não acredite. Isso seria bem o jeito de Deus. Não é à toa que ele é chamado de O Grande Intrometido.
A história que você vai ler é resultado de uma luta minha e do Mack para, durante muitos meses, colocar em palavras o que ele viveu. Tem um lado um pouco… digamos, muito fantástico. Não vou julgar se algumas partes são verdadeiras ou não. Prefiro dizer que, mesmo que algumas coisas não possam ser cientificamente provadas, talvez sejam verdadeiras. Mas preciso afirmar honestamente que fazer parte desta história me afetou de modo profundo, desvendando detalhes meus que eu desconhecia. Confesso que desejo desesperadamente que tudo o que Mack me contou seja verdade. Na maioria das vezes eu me sinto próximo dele, mas em outras — quando o mundo visível de concreto e computadores parece ser o real — perco o contato e tenho dúvidas.
Algumas observações finais. Mack gostaria que eu lhe transmitisse o seguinte recado: “Se você odiar esta história, desculpe, ela não foi escrita para você.” Mas eu quero acrescentar: afinal, talvez tenha sido. O que você vai ler é o máximo que Mack consegue recordar daquilo que aconteceu. Esta é a história dele, não a minha. Por isso, nas poucas vezes em que apareço, vou me referir a mim mesmo na terceira pessoa — e do ponto de vista de Mack.
Às vezes a memória pode ser uma companheira enganosa, em especial com relação ao acidente, e eu não ficarei surpreso se, apesar de nosso esforço conjunto para contar a história com exatidão, alguns fatos e lembranças aparecerem distorcidos nestas páginas. Não é intencional. Garanto que as conversas e eventos foram registrados do modo mais fiel possível, de acordo com as lembranças de Mack. Portanto, por favor, tente não se aborrecer com ele. Como você verá, essas coisas não são fáceis de contar.

Willie