O bom e velho Chesterton

setembro 17, 2017

Do livro “Ortodoxia“, de G. K. Chesterton, escrito em 1908.

[…]O cristianismo era atacado de todos os lados e por todas as razões contraditórias. Mal um racionalista acabara de demonstrar que ele pendia demais para o oriente, outro demonstrava com igual clareza que ele pendia demais para o ocidente. Mal a minha indignação se arrefecia diante de sua configuração quadrada angular e agressiva, minha atenção era novamente chamada para observar e condenar sua irritante natureza redonda e sensual.[…]

[…]Não parecia tanto que o cristianismo era suficientemente perverso a ponto de incluir qualquer vício, mas sim que qualquer pau era bom para bater nele. Como seria essa coisa assombrosa que as pessoas queriam tanto contradizer, a ponto de fazê-lo sem importar-se em contradizer a si mesmas?[…]

[…] Subestimam o cristianismo os que dizem que ele descobriu a misericórdia; qualquer um poderia descobrir a misericórdia. De fato todo mundo o fez. Mas descobrir o plano para ser misericordioso e também severo – isso foi antecipar uma estranha necessidade da natureza humana. Pois ninguém quer ser perdoado por um pecado grande como se fosse um pecado pequeno.

Qualquer um poderia dizer que não deveríamos ser totalmente infelizes, nem totalmente felizes. Mas descobrir até que ponto alguém pode ser totalmente infeliz sem eliminar a possibilidade de ser totalmente feliz – isso foi uma descoberta na psicologia. Qualquer um poderia dizer: “Nem pavonear-se, nem rastejar”, e seria um limite. Mas dizer: “aqui você pode pavonear-se e ali pode rastejar” – isso foi uma emancipação.[…]

[…] O que o pastor cristão conduzia não era um rebanho de ovelhas, mas sim uma manada de touros e tigres, de terríveis ideais e vorazes doutrinas, cada uma delas forte o suficiente para transformar-se numa falsa religião e devastar o mundo.[…]

[…] Essa é a emocionante aventura da ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante quanto a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética.[…]

[…] É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo – isso teria sido de fato simples.

É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda; e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.

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Cegueira Moral

setembro 9, 2017

[…]Os pontos de referência e as linhas de orientação que hoje parecem confiáveis amanhã serão identificados como equivocados ou corruptos. Empresas em teoria sólidas são desmascaradas como produtos da imaginação de seus contadores. O que quer que hoje possa ser “bom para você” amanhã pode ser reclassificado como veneno. Compromissos em aparência firmes e acordos assinados com solenidade podem ser rompidos da noite para o dia. E as promessas, ou pelo menos a maioria delas, são feitas só para serem traídas e quebradas. Não parece haver alguma ilha estável e segura em meio às correntes. Mais uma vez citando Melucci, “não temos mais um lar; somos sempre compelidos a construir um lar e depois a reconstruí-lo, tal como na história dos três porquinhos, ou temos de levá-lo conosco sobre nossas costas, como os caramujos”.

O tsunami de informações, opiniões, sugestões, recomendações, conselhos e insinuações que inevitavelmente nos assola nos tortuosos itinerários de nossas vidas resulta numa “atitude blasé” em relação a “conhecimento, trabalho e estilo de vida” (em relação à vida em si e a tudo que ela contém)[…]

Os trechos acima foram extraídos do livro Cegueira Moral – a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zigmunt Bauman e Leonidas Donskis.

O irônico nisso, é que se hoje muitos se sentem sem ter um lar ou sem base, foi por escolha própria. Primeiro dinamitamos as nossas próprias bases, inclusive as morais, e depois nos espantamos quando somos arrastados pela enxurrada, nos agarrando a qualquer coisa que pareça sólida. E infelizmente para nós, em tempos de física quântica, nada parece sólido, não é? Não sabemos mais como levar nossas vidas (ou simplesmente somos levados, sem ter como, nem onde nos segurar), e com isso enriquecemos os que conseguem colocar a cabeça por cima da água e se intitulam “gurus” dos demais, ou parecem saber para onde a água está nos levando. Não sabemos mais distinguir entre o que realmente importa e o sem importância alguma. Quando se está a deriva, qualquer porto serve. Será?

Colhemos o que plantamos. E não é a primeira vez. Pois apesar de parecer algo novo, a humanidade já passou por isso antes, em diferentes graus de intensidade. Apenas não lembra. É tanta coisa para ver, ouvir e sentir, e nada permanece, nada parece importante. É como aquela postagem do Snapchat. Precisamos ver logo, pois em poucas horas não estará mais ali. E depois de ver, descobrimos ser apenas mais uma idiotice.

Pode demorar muito para percebermos que reconstruir as bases, poderá ser a nossa salvação. Como animais desembestados, saímos correndo ao perceber que o pasto parecia não ter mais cercas, o pastor tinha sumido ou nunca existiu, e o horizonte parecia não ter mais fim. Julgávamos os limites como obstáculos ao progresso da humanidade, mas não iremos descobrir um dia, que os limites eram na verdade grades de proteção, e não obstáculos a serem ultrapassados?

Assim como com a cegueira visual, na cegueira moral existem cegos de nascença, existem os que ficaram cegos ou foram cegados, e existem os que escolheram não ver. Existem também aqueles que enxergam seletivamente, são daltônicos morais.

É bom saber, vivendo no meio desta bagunça, que a rocha firme continua no mesmo lugar.


Despertar, ou viver chapado?

junho 13, 2017

Terminei de ler um suposto guia para a “espiritualidade sem religião”, escrito por Sam Harris. Só o fato de o autor ser ateísta, já me deu pistas do que podia esperar do livro. E ele não decepcionou. Negativamente falando, é claro.

A primeira pergunta que fiz é: por que diabos um ateu precisaria de um guia sobre espiritualidade? Fui ateísta a maior parte da minha vida, e na época simplesmente encarava o que chamavam de “vida espiritual” como mentira pura e simples; ou no máximo, uma ilusão confortável. Não ficava por aí rastejando atrás de “gurus” no Nepal e no Tibete, enquanto usava drogas alucinógenas, em busca de transcendência, como Sam Harris relata ter feito quando tinha 20 e poucos anos. Eu com 20 e poucos anos, estava cursando uma graduação, e não quase morrendo afogada, depois de cair na água sob efeito de drogas alucinógenas, num país oriental distante. Sam Harris cita Aldous Huxley, mas nem chega perto dele no que diz respeito a discorrer sobre espiritualidade. Seu principal erro foi ter desconsiderado as experiências da espiritualidade ocidental como merecedoras de crédito ou de serem levadas a sério, coisa que Aldous Huxley não fez. Sam Harris fala quase com deslumbramento dos seus ex-gurus indianos, nepaleses ou tibetanos e de suas experiências com drogas alucinógenas. É isso que ele chama de espiritualidade? Se minha espiritualidade for baseada na fé em um ser superior, ela é tratada como inválida pelo autor, mas ele mesmo considera valiosa a experiência espiritual provocada por alucinógenos. Afinal, quem precisa ter fé quando tem LSD e Ecstasy, não é mesmo? Quem precisa amar de verdade, quando uma droga oferece falso afeto? O problema é quando você descobre que existe algo chamado “vida espiritual” estando bem acordado e consciente, e não sob efeito de alucinógenos. Foi dessa forma que eu descobri. Esse é o tipo de experiência impossível de esquecer. É real, e não uma ilusão, ou alucinação que passa quando a droga deixa de circular no seu sistema.

Já faz muitos anos que usei substâncias psicodélicas, e minha abstinência  nasceu de um respeito saudável pelos riscos que elas trazem. Contudo, aos vinte e poucos anos houve um período em que considerei a psilocibina e o LSD ferramentas indispensáveis, e passei algumas das horas mais importantes da minha vida sob a influência destas substâncias. Sem elas eu talvez nunca descobrisse que existe na mente uma paisagem interior que vale a pena explorar.

Não há como deixar de lado o papel da sorte. Se você tiver sorte, e se usar a droga certa, saberá o que é ser iluminado (ou chegará suficientemente perto disso para se convencer de que a iluminação é possível). Se tiver azar, saberá o que é ser insano clinicamente.[…]

Se você tiver sorte com o LSD ou o Ecstasy, segundo Sam Harris, se sentirá iluminado. Se tiver azar, poderá ficar louco, ou ter uma parada cardíaca e morrer, por exemplo. Entrar em coma também é uma possibilidade. É como brincar de roleta russa. Nem vou comentar sobre o uso de palavras como “sorte” e “azar” no texto de um “cético”. Nosso autor relata uma sensação de intenso amor por um amigo, enquanto fazia uso de Ecstasy, uma droga que por sinal, é ilícita. É ilícita não porque alguma bancada evangélica por aí pretende impedir nosso prazer, e sim, porque oferece muito mais riscos do que benefícios, tanto em curto quanto a longo prazo. Esta falsa sensação de afeto, é um dos efeitos colaterais da droga. O autor sabe disso. É uma sensação FALSA de afeto. Ela passa quando cessa o efeito da substância. Bem diferente do amor que vem do alto. Bem diferente do amor genuíno que uma pessoa é capaz de vivenciar, sem estar usando nenhum tipo de droga. Tentar juntar este falso afeto, quimicamente induzido por um alucinógeno, com o amor genuíno do qual o ser humano é capaz, como se ambos fossem a mesma coisa, é pura desonestidade intelectual. Que pena para você, Sam Harris, ter passado as horas que considera as mais importantes na sua vida, chapado.

[…]Portanto, o que quer que se possa ver ou sentir depois de ingerir LSD, provavelmente poderia ser visto ou sentido por alguém, em algum lugar, sem a droga.

Então por quê cargas d’água eu usaria uma droga que pode me fazer parar numa ala psiquiátrica, ou talvez, no cemitério?

O que fica, sobre esta tentativa de enveredar pela carreira de guru espiritual, feita por Sam Harris, é: o ateísmo segue incapaz de responder aos anseios e dúvidas mais profundos da humanidade. As camadas de verniz espiritual que o autor tenta colocar sobre sua proposta filosófica para um mundo onde alma, fé e Deus não existem, não são capazes de esconder isso. Como guru, Sam Harris é um cético razoável. Não se fazem mais ateus como antigamente.

A droga que Sam Harris usou, não abre portas da percepção, e sim, arromba essas portas. Viola as fechaduras, como um ladrão. Uma porta arrombada nunca mais funciona normalmente. Como Deus não é ladrão, nem brinca de roleta russa com ninguém, talvez a gente só consiga ver uma frestinha de luz. Continue a bater, em vez de colocar dinamite na porta pra forçar a passagem, correndo o risco de explodir junto com ela. Fica a dica. ; P

Hoje vemos em parte, um dia veremos face a face.


Dos males o menor

junho 6, 2017

Trechos do livro Tremendas Trivialidades, de G. K. Chesterton:

[…] Admito que aqueles que sofrem grandes males têm um direito real de queixar-se, desde que se queixem sobre outra coisa. É um fato singular que, se são pessoas sãs, quase sempre queixam-se mesmo sobre outras coisas. Falar de forma racional sobre os próprios problemas reais é a forma mais rápida de perder a cabeça. Mas pessoas com grandes problemas falam sobre os pequenos, e o homem que reclama da pétala de rosa amassada tem com frequência sua carne cheia de espinhos. Porém, se um homem tem habitualmente uma vida diária muito clara e feliz, então acho que temos o direito de pedir-lhe que não transforme tocas de toupeira em montanhas.[…]

[…] Levando tudo isso em consideração, repito que podemos pedir a um homem feliz que suporte o que é pura inconveniência, e até que faça dela parte da sua felicidade. Não me refiro aqui à dor objetiva ou à pobreza objetiva. Refiro-me àquelas inúmeras limitações acidentais que estão sempre cruzando nosso caminho – mau tempo, confinamento a esta ou aquela casa ou aposento, desencontros, esperas em estações de trem, extravios de correspondência, deparar-se com a falta de pontualidade quando queríamos pontualidade, ou, o que é pior, encontrar pontualidade onde não a queríamos. É sobre o prazer poético que pode ser tirado de todas estas coisas, que eu canto […]

Como seria a convivência entre as pessoas, caso todos conseguissem suportar os pequenos incômodos, em vez de buscar em todo o tempo a própria satisfação, e isso até nos mínimos detalhes?

[…]O elemento de esperança no universo foi continuamente negado e reafirmado nos tempos modernos; mas o elemento do desespero nunca foi negado nem por um momento. A única coisa em que o mundo moderno acredita, é a condenação. O maior dos poetas puramente modernos resumiu a atitude realmente moderna, naquele belo verso agnóstico:

Pode haver Céu; deve haver Inferno.

Talvez por isso as tentativas dos ateus de dar sentido à existência, nunca são satisfatórias. Para eles não há Céu, mas o Inferno continua bem visível nas nossas experiências de todos os dias. Então eles preenchem, ou tentam preencher, o espaço vazio de várias formas retóricas, mas nem toda a retórica do mundo, tem força para deixar a equação da vida humana reequilibrada.

Da minha parte, não preciso mais de malabarismos retóricos, pois Deus já inventou o Céu. Aliás, o Céu sempre esteve lá. Eu que demorei para descobrir.

 


Ímpio

outubro 5, 2016

livro-o-impioAcabei de ler um livro que fazia muito tempo estava parado aqui. Trata-se de “Ímpio, o evangelho de um ateu”, de Fábio Marton.

Minha primeira observação é saber porque um ateu dá nome de “evangelho” a um livro. Evangelho significa “boas novas”, e o livro do Fábio Marton, está longe de ser parecido com uma boa nova. É apenas mais um livro de um ateu, um ex-crente, criticando os crentes e as igrejas das quais fez parte ao longo da vida, e tentando ganhar dinheiro com a história. A diferença deste para outros que já li, é que o Fábio satiriza mas ao mesmo tempo demonstra certo afeto por aquelas pessoas todas que aparecem no livro.

No texto, o autor critica os crentes e detalha a sua vida desde criança no meio evangélico, começando numa igreja em Osasco e depois vindo morar em Curitiba, nos piores bairros possíveis. E uma vida repleta de dramas e tragédias pessoais. Era nerd, solitário, obeso e sofria bullying na escola, e a oração dele mais frequente, segundo ele mesmo, era pedindo a Deus uma namorada e um amigo. Sua mãe morre num acidente de carro; o irmão fica paraplégico nesse mesmo acidente; o pai, pula de fracasso em fracasso, de um relacionamento para outro e de igreja em igreja. Fábio passa a morar de favor com parentes depois da morte da mãe, numa cidade que também não era a sua, e da qual ele nitidamente não gostava.

O autor foi transformado num pequeno fanático religioso, tipo Nietzsche, que como ele também havia sido uma espécie de pregador-mirim. Virava alvo na escola por ser crente, nerd e obeso. O grau de fanatismo dele era tão grande, que chegou a entrar numa “disputa” mental com uma macumbeira quando tinha sete anos. Acreditou ter ganho um dente de ouro de Jesus. Acreditou ter sido escolhido por Deus para uma revelação: o mundo ia acabar numa certa noite. Obviamente a noite passou e o mundo continuou onde estava. Mais adiante no livro, ele conta como pediu a Deus para ressuscitar sua mãe quanto esta morreu. Para mim parece óbvio que isso ia acabar em grande decepção, como de fato acabou. Afinal, Deus tem culpa da visão deturpada que o autor tinha a respeito de quem ou como Ele é ou devia ser? Que culpa Ele tem de não ser aquela lâmpada mágica pronta a resolver todos os problemas, desde que seja bem esfregada com muita oração,  como é pintado em muitas igrejas? O próprio autor disse em uma entrevista a respeito do livro, que quando era crente, acreditava que as coisas deviam cair prontas do céu. Expectativas erradas, baseadas em péssima teologia e abusos por parte de igrejas totalmente sem noção, geraram o Fábio Marton e o seu livro.


Um Francisco nada santo

março 1, 2016

chatô o rei do brasilFrancisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand, ao contrário do seu homônimo, Francisco de Assis, o fundador da Ordem dos Franciscanos, não tinha a menor vocação para santo. Isso fica evidente após a leitura da sua biografia, escrita por Fernando Morais: Chatô: o rei do Brasil. O filme de mesmo nome, produzido por Guilherme Fontes, não mostra nem a metade de quem foi este que é considerado o patrono da comunicação no Brasil. O livro não é leitura fácil, com suas mais de 700 páginas. Mas vale o esforço.

Nas páginas do livro, encontramos um sujeito que vive de acordo com sua própria ética, totalmente duvidosa. Que inventava notícias falsas, usava os jornais para ameaçar qualquer um que se atravessasse no seu caminho. Fabricava notícias e chantageava empresários, para obrigar as empresas a anunciar nos seus jornais. Publicou reportagens falsas sobre mortes causadas por medicamentos. Os medicamentos eram fabricados por uma indústria que Chateaubriand tentou comprar, mas não conseguiu. Diante da recusa do dono da empresa em vendê-la, nosso personagem apelou para este jogo sujo. Fez o mesmo para obrigar a Coca-cola a anunciar nos seus jornais e revistas, publicando análises sobre males à saúde causados pelo refrigerante. Assim que os anúncios da bebida começaram a ser publicados, as críticas cessaram. Chegou ao ponto de publicar uma notícia sobre o linchamento, na Itália, do cunhado de um grande empresário paulista, após a queda do ditador Mussolini, na qual até a família do suposto morto que estava aqui no Brasil, acreditou. Era época de guerra e as comunicações estavam prejudicadas. Meses depois, o suposto morto apareceu na porta do cunhado. A notícia não passava de uma mentira, redigida e publicada por ordem de Assis Chateaubriand. Ajudou Getúlio Vargas a chegar ao poder, e apoiava mais de um candidato ao mesmo tempo, para poder ganhar favores, independente de quem vencesse. Getúlio Vargas alterou uma lei apenas com o objetivo de beneficiar Chateaubriand, e o mesmo pudesse vencer a luta judicial pela guarda da filha. Chateaubriand dizia que se a lei estava contra ele, era preciso mudar a lei. Os primeiros aparelhos de televisão chegados ao Brasil, foram importados por ele, mas de forma ilegal, como contrabando.

Ao mesmo tempo em que colocava para trabalhar em seus jornais e revistas, figuras que se tornariam grandes nomes da literatura e da arte brasileira, Chateaubriand construiu seu império jornalístico a custa de muita, mas muita maracutaia. Lendo o livro, perde-se a conta de tantos episódios envolvendo chantagens, intriga, abuso do poder, desonestidade jornalística. Para ele, aparentemente tudo era permitido, se aumentasse as vendas dos seus jornais e revistas, a quantidade de anunciantes, o seu poder pessoal, ou a audiência. O que dizer do episódio onde um importador de máquinas de impressão, após vender as dívidas de Chateaubriand para Getúlio Vargas, foi castrado a tiros por um capanga de Chateaubriand? O que diriam os politicamente corretos de hoje, quando Chateaubriand impediu um padre de celebrar a missa num evento organizado por ele, pois o tal padre era negro? Afirmou que “missa rezada por padre preto vai nos trazer uma urucubaca sem tamanho”. Poucos sabem que Chateaubriand foi dono da fábrica de chocolates Lacta, de um banco, e da Schering, indústria farmacêutica alemã que foi tirada dos seus donos, por Getúlio Vargas. Esta, leiloada pelo governo, foi comprada pelo grupo encabeçado por Chateaubriand. Chateaubriand foi senador por duas vezes, sendo que na primeira, ele fez isso obrigando o senador e o suplente que estavam no cargo, a renunciar, abrindo uma eleição para preencher o cargo supostamente vago, onde só ele concorreu. Na segunda vez, perdeu a eleição e mesmo assim conseguiu a vaga por outro estado (Maranhão), de novo, com maracutaia. Isso você não lê em nenhuma biografia dele das que se encontra na Internet, muito menos nos livros de história do Brasil. No livro, fica claro como comprar ou falsificar votos, era prática corriqueira no país, supostamente uma democracia. Ou seja, o problema já vem desde a raiz.

Muitos acusaram Fernando Morais de focar mais no lado negativo do personagem. Se a vida de Chateaubriand foi assim, com um pé na canoa do bem e outro na canoa do mal, ou acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo, a biografia tinha o dever de mostrar isso. Não há dúvidas a respeito da inteligência de Assis Chateaubriand, assim como também não há dúvidas de que ele se considerava acima da lei e acima do bem e do mal. Empreendedor, sim, mas também sem caráter. Inteligente, mas também corrupto. Visionário, mas igualmente preconceituoso. Pioneiro no uso da tecnologia, mas ao mesmo tempo, tendo um jagunço dentro de si. Patrono da comunicação no Brasil, e também o fundador de um modelo de imprensa onde a verdade ficava em último plano, e onde só ele tinha opinião. Hoje, com a Internet e o acesso à informação ocorrendo de forma instantânea, a vida dele seria bem mais difícil. As notícias falsas seriam desmascaradas quase imediatamente. Ele precisaria chantagear o mundo inteiro. Muitos artigos escritos por ele, usando nomes falsos, onde atacava de forma violenta os seus desafetos, hoje não seriam publicados em jornal nenhum. Hoje, qualquer pessoa com um celular e Internet, consegue enviar notícias em tempo real para qualquer lugar do mundo, sem precisar de jornal. Impérios da comunicação continuam existindo, mas a informação já não é mais monopólio de ninguém. Qualquer um com uma boa ideia na cabeça, pode escrever um livro e publicar na Amazon. Qualquer pessoa pode criar um blog, um podcast, um canal no Youtube. Se não existe imprensa realmente independente, estamos cada vez menos dependentes desta imprensa para saber o que acontece mundo afora. Assis Chateaubriand certamente ficaria louco, caso vivesse hoje, e tentasse dominar a indomável Internet.


Sapatos sujos

fevereiro 23, 2016

Em seu livro de ensaios “E se Obama fosse africano?”, Mia Couto incluiu um texto sobre os desafios que os africanos e/ou moçambicanos têm à frente para alcançar o futuro que desejam. Ele citou algumas coisas materiais, como hospitais, escolas, investidores, projetos. Porém, na opinião dele, o mais importante é uma nova atitude. “Sem mudarmos de atitude”, afirma ele, “não conquistaremos uma condição melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não seremos construtores de futuro.”

Ele escreveu como africano e pensando em seu próprio povo, mas acredito que o texto serve para o Brasil, também. Para passar pela porta da modernidade, seria necessário descalçar alguns sapatos sujos, deixando-os do lado de fora. Que sapatos?

Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas.

…Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas, ao mesmo tempo, continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: somos peritos na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos:… que o político abusou do poder porque, coitado, na tal África profunda, essas práticas são antropologicamente legítimas….

Troquemos no texto acima, África, por Brasil. Corrupção institucionalizada.

Segundo sapato: A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.

…Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos acontece (de bom ou de mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino…

Terceiro sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.

…Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demônios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa…

Estratégia dos políticos brasileiros quando são pegos com a boca na botija de dinheiro público, ou flagrados com propina na cueca, ou possuindo bens adquiridos com recursos de lavagem de dinheiro, ou contas no exterior não declaradas e movimentações financeiras muito suspeitas. Dizem que é perseguição política. Intriga da oposição. Preconceito. E continuam com as propagandas mentirosas. Os petistas em propaganda veiculada pela televisão, têm coragem de mandar o povo trabalhar mais. Como se o governo já não ficasse com cinco meses de trabalho dos brasileiros, na forma de impostos. O que temos em contrapartida por uma carga tributária entre as maiores do mundo? Notícias sobre desvios e corrupção todos os dias. E o PMDB, oportunista, aparece como salvador da pátria. Ambos pensam que somos burros. O PMDB esteve ao lado do governo do PT o tempo todo, e agora quer se desgrudar? Deviam ter aproveitado a propaganda, para explicar o apartamento, o sítio, a antena, as propinas, o rombo da Petrobras, o rombo dos fundos de pensão. Ninguém engole mais essa piada de que o ex-presidente Lula  é vítima de perseguição. Ele é, sim, suspeito de cometer crimes e tem que ser investigado como qualquer um. Vai ver eles acham mesmo que somos burros.

Não seria lindo se eles usassem o tempo da propaganda na TV, para confessar? Admitir que não honraram os votos recebidos, que agiram mal, que prejudicaram o país deliberadamente ? Que são culpados? No dia em que isso acontecer, aí sim o Brasil poderá ter jeito.

Quarto sapato: A ideia de que mudar as palavras, muda a realidade.

“A Petrobras está de pé.” (Presidenta Dilma Rousseff) Aham, senta lá!

“Não poso de santo. Nunca fui candidato a santo.”, que recentemente mudou para “Não tem uma viva alma mais honesta do que eu.” (ex-presidente Lula, agora candidato a santo, afinal as palavras mudam, não é?)

“Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz.” (Lênin). Este princípio é um dos que mais vem sendo aplicado por aqui.

Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e  o culto das aparências.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Tênis falsificado, bolsa falsificada, ou pior, o  “funk ostentação” (que fez aumentar o aliciamento de meninos por traficantes de drogas em 3200%, em Florianópolis, por exemplo). Igreja que vende prosperidade e sucesso financeiro, para não dizer que não falei das flores.

Sexto sapato: A passividade perante a injustiça.

Nem precisa explicar isso.

Sétimo sapato: A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.

Se as capacidades de uma nação estiverem viradas para o enriquecimento rápido de uma pequena elite, então de pouco valerá haver mais quadros técnicos.

Que semelhança com a realidade do Brasil, onde estar no governo, é visto como oportunidade para enriquecer, e não como oportunidade para colaborar com o desenvolvimento e construir o futuro. Não importa se é de esquerda ou de direita. O partido que se dizia dos trabalhadores por exemplo, hoje tem milionários nas suas fileiras. Mas pergunte a eles agora, se querem socializar o capital que amealharam. Só não vale socializar o patrimônio daquele jeitinho brasileiro, colocando tudo em nome de laranjas, e dizer que não é seu, ok?

O ex-presidente Lula palestrou em Moçambique, terra do Mia Couto, tempos atrás. A palestra, dizem que custou 815 mil reais, pagos à vista, por uma empreiteira brasileira. Os moçambicanos poderiam ter passado sem essa. Eles têm Mia Couto como conterrâneo, afinal. A palestra foi sobre combate à desigualdade social. Lula disse que é necessário distribuir a riqueza (a riqueza dele também, espero). Lembro, de novo, que ele ganhou 815 mil para palestrar sobre desigualdade social. Que contradição!

Menos políticos. Mais poetas. Um poeta africano é muito melhor para falar sobre desigualdade social, do que qualquer político brasileiro. E sai mais barato também.

A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassinato espetacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder a crença no futuro.