Sobre fé…

agosto 29, 2009

“A fé não é coisa que se conserve num cofre-forte para a proteger, é vida que se exprime no amor e na dedicação aos outros. Nos Evangelhos ter medo equivale a não ter fé… A parábola dos talentos ensina-nos que uma vida cristã, baseada não na formalidade, na auto-proteção e no medo, mas na gratuidade, na coragem e no sentido do outro, constitui a alegria do Senhor. E a nossa”.

Gustavo Gutierrez Merino


Teologia da indecência

agosto 29, 2009

por Alan Brizotti

É indecente quando pastores aumentam gritantemente seu patrimônio enquanto a maioria dos membros da igreja faz verdadeiros malabarismos financeiros para conseguir pagar o dízimo e o aluguel. Ainda mais indecente é saber que esses membros recebem doses monstruosas de ilusão, via teologia da prosperidade, para que se acostumem nessa perversa seletividade arbitrária nojenta. Afinal, se não existir o miserável, quem vai alimentar a indústria da prosperidade? E, se não existir o pastor magnata, quem vai “garantir” os resultados? Lógicas indecentes.

É indecente quando a membresia honesta das igrejas fecha os olhos e tenta se iludir chamando tudo isso de “fim dos tempos”. Tudo o que os indecentes mais querem é uma escatologia do desespero, da fuga. Enquanto isso, paraísos fiscais substituem o céu por aqui. É indecente saber que não existe pecado para os que têm credencial.

É indecente cantar tanta coisa ridícula e ainda culpar o Espírito Santo pela tal inspiração (ou seria alucinação?). É indecente pagar somas astronômicas a cantores e pregadores que fazem da fé a senha de sua conta bancária obesa. A bandidagem eclesiástica é mesmo milagrosa: faz sumir seu suado dinheirinho e ainda deixa você sonhando… Não me lembro onde li essa frase, mas serve: “não desista do seu sonho, apenas vá a outra padaria”. O pão que a igreja vende envelheceu…

É indecente a passividade silenciosa do povo. Por mais antigo que seja o que vou dizer, ainda precisa ser dito: o povo tem o poder! Só esquece disso. Diga não aos indecentes! Diga não a essa pulpitocracia canalha, a essa sacanagem divina, a essa pilantragem sagrada, a essa malandragem eclesiástica. Envie esse post pra todo mundo. A net é uma arma poderosa!

Não compre CD’S e DVD’S de cantores e pregadores mercenários. Não os convide para seus congressos. Há tantos cantores e pregadores honestos e abençoados “guardados” no anonimato. Não aceite tudo que os pastores dizem. Questione. Duvide. Exija explicações bíblicas genuínas. Cuidado: ano que vem é ano de eleição. Não venda seu voto! Ao invés de gastar seu dinheiro para ir aos carnavais evangélicos bizarros, contribua com orfanatos, creches, asilos, ong’s, casas de recuperação, hospitais.

A teologia da indecência adora bodes expiatórios, portanto, se você quiser descarregar sua raiva em mim, vá em frente! Pode me chamar de herege (é uma honra, pois é maravilhoso ser contra essa indecência toda). Pode me chamar de rebelde (inclusive, tenho um pôster do Che bem à minha frente). Ah, se quiser pode até me mandar pro inferno, pois nesses casos, o inferno é o lugar para onde os covardes mandam os lúcidos.

Teologia da indecência – Alan Brizotti


A ciência na Bíblia

agosto 22, 2009

Sou cristão, teólogo e biólogo evolucionista. Dito de outra forma, amo Jesus e aceito a evolução. Evidentemente, esse tipo de declaração não costuma ser ouvida nas nossas igrejas. Mas se me permitem usar um único argumento para explicar meu ponto de vista, é este: a Bíblia não é um livro de ciências, mas um livro para encontrar Deus.

De fato, a escritura apresenta uma antiga visão sobre a estrutura, operação e origem do universo e da vida. O desenho (ver no original no link ao final do texto) apresenta o mundo como era concebido pelos antigos povos do Oriente Próximo, incluindo os Hebreus. Pode ser uma surpresa para muitos leitores cristãos da Bíblia, mas um universo constituído por três níveis é encontrado na mesma. Algumas dessas antigas concepções sobre o mundo natural incluem:

(1) A terra é plana. A palavra “Terra” aparece mais de 2.500 vezes no Antigo Testamento (em hebraico: ‘eres) e 250 vezes no Novo Testamento (grego: ge). Em nenhuma das vezes a Terra é denominada como sendo esférica ou redonda. Em vez disso, o universo da Escritura é comparado a uma tenda com a terra como seu piso (Salmos 19:4, Salmos 104:2, Isaías 40:22).

(2) O mar cerca a circunferência da Terra. Provérbios 8:22-31 e Jó 26:7-14, descrevem a criação do mundo.  No início, “Deus inscreveu um círculo sobre a face do abismo” (v.27); e depois, “Deus inscreveu um círculo na superfície das águas” (v.10). A Bíblia também afirma que a Terra é circular. Isaías escreveu, “Deus está assentado sobre o círculo da Terra, e seu povo é para ele como gafanhotos. Ele estende o céu como cortina, e o desenrola como tenda para nela habitar. ” (Isaías 40:22)

(3) A Terra não se move. A Bíblia lembra três vezes que “o mundo está firmemente estabelecido, não pode se mover” ( 1 Crônicas 16:30; Salmos 93:1; Salmos 96:10). A estabilidade da Terra é entendida como semelhante a de um edifício sobre fundações sólidas. Os escritores da Bíblia frequentemente se referem a esta base sólida como “as fundações da Terra” (Jó 38:4-6; Provérbios 8:29; Jeremias 31:37). Por exemplo, “Deus assentou a Terra sobre suas fundações, para que ela não pudesse ser abalada em tempo algum (Salmos 104:5).

(4) Uma estrutura sólida em forma de abóbada, denominada o “firmamento”, sustenta uma grande massa de água sobre a Terra. Criado no segundo dia da criação, o firmamento separou as “águas acima” das “águas abaixo” (Gênesis 1:6-8). Notavelmente, esta abóbada e a massa de água não desmoronaram durante o dilúvio. Como os salmos de Davi revelam, “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento proclama o trabalho de Suas mãos (Salmos  19:1); e Deus estende os céus como uma tenda e coloca os vigamentos da Tua morada sobre as águas ” (Salmos 104:2-3).

(5) O sol se move através do céu. Criado e colocado no firmamento no quarto dia da criação (Gênesis 1:14-18), o movimento diário do sol é encontrado na observação do rei Salomão: “O sol se levanta e o sol se põe, e corre de  novo para o lugar de onde saiu” (Eclesiastes 1:5). Isso também aparece numa frase da oração do salmista: “O sol sai de uma extremidade dos céus e faz o seu caminho até a outra.” (Salmos 19:6)

Obviamente, muitos cristãos são rápidos para assinalar que todas as passagens citadas acima, são apenas como “aparecem” na natureza. Isto é, são descrições fenomenológicas (do grego phainomenon: aparência). A Terra “aparenta” ser plana, “parece” ser cercada por água, e não se sente o seu movimento; o céu dá a “impressão” de ser uma massa de água acima de nós; e o sol “aparece” para cruzar a abóbada celeste, aparecendo e desaparecendo todos os dias. Entretanto, para os povos da antiguidade, como os autores da Bíblia e seus leitores, essas são descrições atuais da estrutura e operação do universo. Como a história revela, a noção de que a Terra não se move, e de que  o Sol se move diariamente através do céu, eram parte da astronomia até o início dos anos 1600.  De fato, esse foi o motivo da controvérsia de Galileu.

Assim, qual o ponto central? Não vá à Bíblia em busca de fatos científicos; vá a ela para encontrar Jesus. Da mesma forma como Ele pessoalmente encontra cada um de nós onde nós estamos, o espírito santo se adaptou ao nível de entendimento dos escritores bíblicos antigos, e usou a compreensão que eles possuíam sobre o mundo físico, para comunicar de forma mais eficiente possível, verdades espirituais capazes de mudar vidas.  Usando a antiga ciência na Bíblia, Deus revelou de forma inerrante a mensagem de que Ele criou o mundo, mas não como Ele o criou.

Para ler mais sobre a ciência antiga na Bíblia, veja:
Denis O. Lamoureux’s I Love Jesus & I Accept Evolution (2009), páginas 43-70, e seu website: www.ualberta.ca/~dlamoure

Fonte: The ancient science in the Bible – Denis O. Lamoureux


A ciência torna obsoleta a crença em Deus?

agosto 18, 2009

Kenneth Miller responde: NÃO!

“Para ser ameaçado pela ciência, Deus teria de ser um substituto para a ignorância humana. Esse é o Deus dos criacionistas, do movimento do Design Inteligente, daqueles que buscam Deus na escuridão”, afirma – Miller inclusive publicou, há alguns anos, um artigo em que pretende comprovar o erro do conceito de complexidade irredutível, uma das bases do Design Inteligente. Mas o mesmo argumento que o biólogo usa para rechaçar o criacionismo e o DI serve também para rebater os que pretendem negar Deus por meio da ciência.

O centro da tese de Miller é que devemos buscar Deus não por meio daquilo que não sabemos, ou não conseguimos explicar, mas justamente pelo que conhecemos. “Se Deus é real, precisamos encontrá-Lo em algum outro lugar – na luz brilhante do conhecimento humano, espiritual e científico. E que luz!”, exclama. Miller diz que, graças à ciência, sabemos que estamos inseridos em um universo borbulhante de potencial criativo. E faz sentido perguntar o porquê de o universo ser assim. “Para a pessoa de fé, Deus é a resposta a essa questão”, diz.

Miller dedicará boa parte do seu texto a desmontar as teses de ateus como Richard Dawkins e Daniel Dennett (o biólogo não menciona nomes, mas a quem mais ele poderia se referir ao falar de “brilhantes”?), para quem a religião e Deus não passam de muletas para gente fraca, que não suporta “as terríveis realidades reveladas pela ciência”. Uma constatação necessária, diz Miller, é que o cientista também vive de fé. “Fé no fato de que o mundo é inteligível, e que há uma lógica na realidade que a mente humana pode explorar e compreender”, descreve o biólogo. E o cientista, além de acreditar nisso, crê também que vale a pena o esforço para compreender essa lógica.

Dito isto, Miller segue para o que eu considero um dos melhores trechos do ensaio, ao explicar o grande erro dos ateus: “assumir que Deus é natural, e assim dentro da esfera do que a ciência pode pesquisar e testar. Ao fazer de Deus uma parte comum do mundo natural, e ao falhar em encontrá-Lo lá, eles concluem que Deus não existe. Mas Deus não é, nem pode ser parte da natureza; ele é a razão de a natureza existir, o motivo pelo qual as coisas são. Ele é a resposta para a existência, e não parte da existência em si.”

E Miller continua lembrando que, para quem rejeita Deus, as leis da natureza existem apenas, digamos, “porque sim”. O ateu abre mão de se perguntar os motivos da existência de um universo tão organizado, e cai na ingenuidade de achar que a vida é autoexplicativa. Quando comentei os ensaios de Victor Stenger e Michael Shermer, mostrei como certas posições ateístas acabam exigindo mais fé do que as crenças de um deísta. Até mesmo a afirmação de que Deus não existe implica em ter alguma fé (no caso, fé na inexistência de Deus). E, a julgar pelas mensagens dos ônibus londrinos, não parece uma fé tão sólida. Ou a publicidade diria apenas “There is no God”, em vez de “There’s probably no God”, concordam?

A consequência desse abrir mão é que o teísta se torna uma pessoa mais curiosa que um ateu, “porque ele busca uma explicação que é mais profunda do que aquilo que a ciência pode dar, uma explicação que inclui a ciência, mas vai além ao procurar a razão última pela qual a lógica da ciência funciona tão bem. A hipótese de Deus não vem de uma rejeição à ciência, mas de uma curiosidade penetrante que se pergunta por que a ciência é possível, e por que as leis da natureza estão aí para serem descobertas por nós”, diz Miller.

O ponto central da argumentação de Miller está exposto acima, mas ele não para por aí. Para quem aponta as diferentes visões de Deus, de acordo com as diferentes religiões, o biólogo explica que algo semelhante ocorre com a ciência, já que há teorias que se contradizem. Se a ciência, mesmo com erros, desonestidades e fraudes, não deve ser jogada fora, por que fazer isso com a religião, sujeita às mesmas limitações humanas?

A ciência torna obsoleta a crença em Deus?


Absolutamente não sei

agosto 18, 2009

por Jorge Camargo

Encontro quase que diariamente gente ferida pelas instituições religiosas. Organizações que estendem seus tentáculos e oprimem, controlam, machucam.

Gente do bem, sensível, amorosa, que crê em Deus, que ama a vida, que ama o mundo. Gente capaz de chorar quando se emociona, de se sensibilizar com a dor do outro; gente, como diria o Bono em sua canção “Grace”, que “finds beauty in everything” (encontra beleza em tudo). E gente que é acusada, entre outras coisas, de relativizar o que é absoluto.

Os guardiões das sãs doutrinas (seriam elas sãs mesmo?) afirmam que vivemos num mundo onde os valores divinos, que são imutáveis e absolutos, são desafiados pelo relativismo.

Gostei de uma reflexão que o Brian McLaren fez do conceito de pós-modernidade: “A pós-modernidade não relativiza o que é absoluto. Apenas admite que, diante do absoluto, nossas interpretações serão sempre relativas!”.

Nada mais humano.

Impossível não lembrar a voz rouca e angustiada do Renato Russo na canção “Monte Castelo”, parafraseando 1 Coríntios 13: “Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem. Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face”. E seu complemento, magistral: “É só o amor, é só o amor que conhece o que é verdade”.

Absolutamente não sei – Jorge Camargo – Editora Ultimato