Desculpas esfarrapadas

junho 28, 2011

Os crentes/evangélicos/cristãos/afins, arrumam cada desculpa esfarrapada, para ver se conseguem fugir, ou se isentar ou criar exceções inexistentes, para o mandamento de amar as outras pessoas, como amam a si mesmos, que só rindo mesmo.

Ame a Deus acima de todas as coisas, e ame ao próximo como a ti mesmo. Não tem entrelinhas, nem vírgulas, nem senões, nem parênteses, nem poréns, nem adendos, nem entretantos, nem talvez, nem quase, nem se, nem quando, nem onde.

Difícil? Eu sei. Mas isso também não é desculpa.


Radical grace: how belief in a benevolent God benefits our health – J. Harold Ellens

junho 28, 2011

Depois que o Paulo Brabo postou na Bacia das Almas (que eu obviamente tomei a liberdade de replicar parcialmente aqui), um texto de J. Harold Ellens (A saúde divina e a saúde humana) que faz parte deste livro, lá fui eu, cheia de curiosidade, ler o resto. Coloco mais uns trechos abaixo.

[…]É maldade que uma bactéria ou vírus penetre numa folha de capim, que é depois ingerida por uma vaca, cujo leite fica contaminado e mata um bebê, e talvez a própria vaca? É trágico, mas não maldade. Do ponto de vista da bactéria, é uma façanha considerável. Do ponto de vista da vaca e do bebê, é doloroso e difícil. A disputa entre duas formas ou ordens de vida toma lugar, e um vive às expensas do outro, justamente como nós humanos, vivemos às expensas da vida das plantas, e de ordens inferiores de animais, todos os dias. É um tipo infeliz de imperialismo humano, chamar estes processos de maus. Que concede uma prioridade moral, ou prerrogativas a isso que chamamos de espécies superiores, e uma exploração inerente das formas consideradas inferiores.

Os processos que aparecem nesta ilustração, da bactéria e da vaca, não são maus. Trata-se apenas da ordem natural das coisas criadas neste mundo. A morte do bebê é trágica e terrivelmente dolorosa aos pais, mas não é um evento maléfico, apenas um evento trágico. Não é a consequência de alguma força má atuando neste mundo. A doença não é do mal, mas apenas o corolário doloroso, do concurso de formas de vida, ou da disfunção de células e organismos com problemas, num mundo dominado por seres humanos que, arrogantemente, pensam que temos que ser excluídos desse tipo de inconveniências e desconfortos. Então, nós chamamos nossos sofrimentos e inconveniências particulares de maléficos, mesmo quando outros organismos criados por Deus, estão envolvidos no processo.[…]

[…]A única exceção ou alternativa a este impasse e esta patologia psicoreligiosa que a história nos apresenta, é o conceito de graça divina, que tem sua aparição exclusivamente no judaísmo. Aqui, e em nenhum outro lugar na história da religião, na visão da fé de Abraão, há a noção de que Deus transcende arbitrariamente a imperfeição do universo e da nossa humanidade; de que Deus, incondicionalmente, nos aceita como somos, onde estamos; e que este Deus nos assegura de que temos valor, apesar de nós mesmos.  Esta certeza é dada por Deus, para deixar claro para nós, que vamos sair da vida vivos e bem, não importa como. Esta é a visão que a fé cristã herdou e encontra sintetizada em Jesus de Nazaré, como Cristo de Deus.

Esta é a razão, apesar da noção popular prevalente do contrário, de haver dois, e apenas dois, tipos de religião na história da humanidade: aquele que parte do pressuposto de que Deus é por nós, e aquele que parte do princípio de que Deus está contra nós, ou é no mínimo, uma ameaça perigosa contra nós. Religiões que assumem que Deus é uma ameaça, criam estratégias elaboradas de ética e rituais de adoração, designados para prover técnicas de auto-justificação. Estão cercadas pela escravidão psicológica, de loucos becos sem saída. Aquelas religiões que assumem que Deus é por nós, expressam a si mesmas em celebrações autênticas de graça e gratidão. São religiões saudáveis, que proporcionam a liberdade da vida como uma busca aberta e criativa, onde cada exploração arriscada – exploração teológica, experimentação moral ou espiritual –  é totalmente segura, pois a graça é maior do que qualquer dos nossos pecados.

Apenas as formas judaico-cristãs de fé são formadas e informadas por uma teologia assim, com um Deus que é Deus de graça radical, incondicional e universal. A graça de Deus é radical no sentido de que não podemos nos esconder dela, nem nos defender contra ela, ou nos afastar dela por causa de nossos pecados. É incondicional no sentido de que é um presente arbitrário de Deus, por causa do valor que temos para Ele, e não por causa da nossa bondade. É universal na medida em que ninguém pode cair da graça de Deus, ou escapar do Seu abraço.  Nenhuma outra religião atingiu esta perspectiva. Infelizmente, muito da história, tanto do judaísmo quanto do cristianismo, tem sido um sério afastamento desta herança única, e uma regressão à preocupação pagã com legalismos dirigidos pela angústia, e a heresia destrutivamente má da ortodoxia. Isso demonstra o grau com o qual nosso terror humano comum, é um produtor e modelador endêmico  da nossa religião e espiritualidade.[…]

[…]A graça é tão inacreditável, que nos deixa um tanto quanto desconfortáveis, por não termos nenhum poder de barganha, e de não estarmos no controle, porque estamos à mercê de Deus e de sua graça e misericórdia. Se não podemos, ou não nos lançamos nos braços de Deus, na certeza de que sabemos que a única justiça para seres como nós, é a misericórdia, então sempre a graça será um indutor de angústia, e a religião e a espiritualidade fracassam, pela deterioração numa psicopatologia da hesitação e dúvidas.  Estes, por sua vez, nos levam a criar rituais de adoração rígidos, e ortodoxias teológicas estupidificantes, planejados para manipular um Deus ameaçador…[…] (ou para manipular pessoas, colocando um Deus ameaçador contra elas – acrescentaria eu, humildemente).

[…]Pastorear é cuidar desse pessoal ansioso, necessitado, inadequado, cheio de culpa, confuso e inquieto, que todos nós, humanos, somos. Todos nós estamos famintos e sedentos de justiça, conscientemente ou não, cada um do seu próprio jeito. Ser uma pessoa pastoral é tratar compassivamente os seres humanos, nos seus próprios mundos pessoais, para procurar soluções para o vazio que cada um sente na sua própria alma: a sensação de segurança que chega com a entrada na comunhão com nosso Deus paternal e com a comunidade dos Seus filhos. Pastorear é ajudar outros seres humanos a perceber que a amizade pode ser a resposta para essa fome de significado, segurança e destino que dirige todos nós.[…]Pastorear é comunicar o significado da afirmação de Deus a respeito de cada um de nós, quando nos diz: “Serei Deus para você e para os seus filhos, para sempre!” (Gênesis 12 e 17). Esta afirmação não depende de qualificações, requisitos, não tem condições limitantes. Pastorear é comunicar que a graça e, desse modo, as boas novas para os pobres, incluem aqueles que são vítimas de si mesmos ou do seu mundo; liberdade para aqueles que estão aprisionados, e a oportunidade de conhecer a aceitação, por parte de Deus, de cada um de nós, pessoas necessitadas. Pastorear é comunicar relacionalidade curativa a uma humanidade ansiosa e angustiada. O mesmo é verdade para um psicoterapeuta responsável.[…]

Radical Grace: how belief in a benevolent God benefits our health – J. Harold Ellens – Barnes & Noble

Não importa quantos erros você pensa ter cometido, o amor dEle não é condicionado ao desempenho, Ele ama sempre do mesmo jeito. Não importa quão longe você pense ter ido, Ele vai te receber da forma como aquele pai recebeu o seu filho pródigo, com festa. E Deus não vai exigir que você seja perfeito, porque a misericórdia dEle, se renova todos os dias. Deus sabe que somos humanos e falhos, e jamais lançará fora alguém que O busca e põe sua confiança nEle.


Jefté era um bom camarada?

junho 27, 2011

No livro de Juízes 11:29-40, temos a história do voto de Jefté:

Então o Espírito do SENHOR veio sobre Jefté, e atravessou ele por Gileade e Manassés, passando por Mizpá de Gileade, e de Mizpá de Gileade passou até aos filhos de Amom. E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto. Assim Jefté passou aos filhos de Amom, a combater contra eles; e o SENHOR os deu na sua mão. E os feriu com grande mortandade, desde Aroer até chegar a Minite, vinte cidades, e até Abel-Queramim; assim foram subjugados os filhos de Amom diante dos filhos de Israel. Vindo, pois, Jefté a Mizpá, à sua casa, eis que a sua filha lhe saiu ao encontro com adufes e com danças; e era ela a única filha; não tinha ele outro filho nem filha. E aconteceu que, quando a viu, rasgou as suas vestes, e disse: Ah! filha minha, muito me abateste, e estás entre os que me turbam! Porque eu abri a minha boca ao SENHOR, e não tornarei atrás. E ela lhe disse: Meu pai, tu deste a palavra ao SENHOR, faze de mim conforme o que prometeste; pois o SENHOR te vingou dos teus inimigos, os filhos de Amom. Disse mais a seu pai: Conceda-me isto: Deixa-me por dois meses que vá, e desça pelos montes, e chore a minha virgindade, eu e as minhas companheiras. E disse ele: Vai. E deixou-a ir por dois meses; então foi ela com as suas companheiras, e chorou a sua virgindade pelos montes. E sucedeu que, ao fim de dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o seu voto que tinha feito; e ela não conheceu homem; e daí veio o costume de Israel, que as filhas de Israel iam de ano em ano lamentar, por quatro dias, a filha de Jefté, o gileadita.

Não vou falar o que penso a respeito deste sujeito chamado Jefté, ok? Nem a respeito dessa ideia que ele fazia de Deus. E sobre ser tão orgulhoso, a ponto de não voltar atrás nesse voto absurdo, quando viu que ia ter que matar a própria filha. Foi bocudo, e em vez de se arrepender de ter colocado a vida dos outros em jogo, como se fossem objetos de aposta ou barganha com Deus, entregou a própria e única filha em holocausto. Tem quem ache bonita a história, dele ter realmente mantido esse voto estúpido que fez, e entregue em holocausto o primeiro que saiu de sua casa, mesmo tendo sido sua filha única. Eu considero quem, lendo essa história hoje, século XXI, acha a história bonita e Jefté, um exemplo de homem cumpridor da sua palavra, um doente.

Eu já fico horrorizada imaginando como eram aqueles sacrifícios de animais feitos em nome de Deus, imagina uma pessoa, uma criança, sendo degolada, sangrada e esquartejada ritualmente, e depois tendo os pedaços do corpo, queimados num altar?

Tem pessoas que alegam que “holocausto” nesse caso, quer dizer outra coisa que não seja mesmo “holocausto”, ou seja “sacrifício queimado”. Querem fazer Jefté parecer mais bonito do que é, dourar a pílula, enquanto a bíblia não faz isso. Jefté era filho bastardo, de uma prostituta, e por isso foi segregado pelos seus irmãos. Foi habitar no meio dos pagãos, onde sacrificar seres humanos, era aceitável e normal, e deve ter aprendido com eles. Foi chamado de volta, porque os que antes o expulsaram, estavam em apuros. Antes de barganhar com Deus, já havia barganhado com as pessoas que o foram buscar de volta, exigindo ser feito chefe deles, caso vencesse. No mesmo capítulo, é possível perceber o sentido tribal pelo qual os hebreus entendiam Deus, já que o próprio Jefté afirma que, assim como Deus deu a Israel as terras que os israelitas conquistaram, Camos, deus dos amonitas, deu aos amonitas suas próprias terras. As disputas de terra entre eles na época, eram vistas também como disputas entre seus deuses. Perder na guerra, sinal de que Deus estava bravo com eles ou não estava com eles. Eles achavam que Deus só estava com eles, quando ganhavam as guerras, coisa que muitos evangélicos acham que é verdade até hoje. Em seguida, Jefté fez aquele voto infeliz, pensando supostamente, em Deus. Ele via Deus, da mesma forma que os pagãos com os quais vivia, entendiam. E muitos o consideram um exemplo de homem que cumpre a palavra, e tentam adicionar coisas que o texto não diz, para limpar a barra dele.

Podia parecer muito bonito ele não voltar atrás na sua palavra, mas se ele fez um voto que acabou contrariando as próprias leis onde holocaustos humanos eram proibidos, e eram inclusive considerados abomináveis, o voto não tinha validade alguma.

Não é irônico pensar que, de acordo com o pensamento evangélico, Deus já sabia quem sairia em primeiro lugar para encontrar Jefté, na volta da guerra? E não interfere em nada? A história não se parece muito mais, com uma demonstração do que pode acontecer com pessoas sem noção, que são dadas a fazer votos e barganhas supostamente com Deus, de forma insensata e, além da insensatez das promessas que fazem, ainda levam a insensatez até o fim?

Aliás, o livro de Juízes em resumo é: hebreus chafurdando na lama, e no sangue. O sinal que identificava, de acordo com os hebreus, alguém que estava tomado pelo Espírito do Senhor, era se encher de ódio e instinto assassino, se colocar como comandante de Israel na guerra, e matar muitos inimigos da forma mais sangrenta possível, inclusive em surtos psicóticos como os de Sansão. Nesse livro, tem até uma versão modificada da história de Sodoma e Gomorra, mas desta vez, envolvendo as tribos de Israel. Os benjaminitas fazendo o papel de vilões, sendo atacados pelas outras tribos, que matam quase todos os homens, e exterminam todas as mulheres, depois ficam com pena dos homens que sobraram, e não podendo voltar atrás no juramento de que não dariam suas filhas em casamento aos benjaminitas, dão um jeitinho digamos, pouco lícito, de conseguir mulheres para eles. Horrível.


Teologia da esperança – Jürgen Moltmann

junho 26, 2011

A ocasião pedia, por isso, fui reler este livro de Moltmann, apenas para colocar alguns trechos dele, e deixar que cada um, interprete como quiser, tanto o que ele escreveu quanto o que andaram dizendo a respeito dele por aí. E leia o livro todo, se achar que vale a pena. E por favor, você não precisa concordar com nada.

[…]Sem o conhecimento da fé, fundado em Cristo, a esperança se converte em utopia, que se perde no vazio. Porém, sem a esperança, a fé decai, se transforma em pusilanimidade, e por fim, em fé morta. Mediante a fé o homem encontra o caminho da verdadeira vida, mas só a esperança o mantêm neste caminho. Assim, a fé em Cristo transforma a esperança em confiança e a esperança, dilata a fé em Cristo, e a introduz na vida.

Crer significa ultrapassar, em uma esperança que se adianta, as barreiras que foram derrubadas pela ressurreição do crucificado. Se refletimos sobre isso, então a fé não pode ter nada a ver com a fuga do mundo, ou com a resignação e os subterfúgios.  Nesta esperança, a alma não se evade deste vale de lágrimas, para um mundo imaginário onde só habitam pessoas bem-aventuradas, nem tampouco se desliga da Terra.[…]

[…]Assim, pois, se a fé, para poder viver, tem que estar ligada à esperança, o pecado da incredulidade se baseia, então, evidentemente, na falta de esperança.  É verdade que se afirma que o pecado consiste, em sua origem, no fato de que o homem quer ser como Deus. Porém isso é apenas uma causa do pecado. A outra face desta arrogância, é a falta de esperança, a resignação, a tristeza. Disso brotam a infelicidade e a frustração, que impregnam todo vivente com os germes de uma doce putrefação. O apocalipse de João menciona, entre os pecadores cujo futuro é a morte eterna, aos “covardes” antes dos incrédulos, dos ímpios, dos assassinos e etc.[…]

[…]Este é o pecado que mais ameaça o crente. Não o mal que faz, mas sim o bem que deixa de fazer; não os seus delitos, e sim, as suas omissões, são as coisas de que pode ser acusado.[…]

[…]Nem a esperança, nem o modo de pensar que correspondem a ela podem aceitar, portanto, a acusação de que são utópicos, pois não se estendem a algo que não tem “nenhum lugar”, e sim até o que “ainda” não tem lugar, porém, chegará a ter.[…]

[…]Onde a fé e a esperança começam a viver orientadas perante estas possibilidades e promessas de Deus, se abre a plenitude integral da vida como vida histórica e, por isso, como vida que devemos amar. Só tendo este Deus no horizonte, se torna possível um amor maior do que o philia, mais do que amor ao existente e ao que é idêntico, um amor ágape, amor ao que ainda não existe, ao desigual, ao indigno, ao fútil, ao perdido, ao passageiro, ao que está morto; um amor que pode tomar sobre si o elemento aniquilador da dor e do estranhamento, porque recebe sua força da esperança de uma “creatio ex nihilo“. Este amor não desvia o olhar do que não é existente, para dizer que não é, posto que ele mesmo se converte no poder mágico que o faz ser. Em sua esperança, o amor mede as possibilidades abertas da história. No amor, a esperança introduz tudo às promessas de Deus.[…]

Resumindo: Algumas igrejas são mais parecidas com filiais do inferno, antros de mentira, corrupção, maldade, fofoca, intriga, idolatria e coisas semelhantes a estas. Se cada uma das bilhões de pessoas que se dizem cristãs no mundo, buscasse a justiça e a paz para todos, como verdadeiros discípulo de Jesus, em vez de se conformar em ser adepto de uma religião, mesmo que fosse num raio de 100 metros em torno de si mesmo, alguém tem dúvida de que este mundo seria um lugar melhor? Não ficaria perfeito (imaginar que um “mundo perfeito” é possível de ser construído por seres humanos imperfeitos como nós, isso sim é utopia), mas ficaria menos pior, muitas dores seriam amenizadas. Não contribuir para gerar mais mal, já seria uma grande coisa.

Por que o espaço ao seu redor não pode ser um “microclima”, onde uma amostra do Reino dEle, de liberdade e amor, justiça e paz, pode ser experimentada, ainda que de forma parcial e imperfeita?

Eu pessoalmente, acho o Moltmann otimista demais em alguns momentos, lembra o ufanismo dos evangélicos. Esse otimismo excessivo que transparece nele em determinadas falas dele, parece exagerado para mim, que não sou tão otimista assim com relação ao ser humano. O ser humano é habitado pelo bem e pelo mal, e é capaz de extremos tanto de maldade quanto de bondade, e muitas vezes age de forma imprevisível, para ambos os lados. Mas nunca estive num campo de concentração, e ele sim. Ele sentiu na pele, o alto preço que inocentes pagam, quando pessoas não fazem o bem que poderiam fazer, e se omitem. Eu fico mais no equilíbrio, entre ser otimista, mas sem tirar os pés do chão, da realidade de que o ser humano é falho e limitado. É imagem de Deus, mas também sabe ser diabólico. E ser crente, não livra ninguém de ter seu lado “diabo” falando mais alto. Não dizem que até o diabo é crente? :P


Só quem ama tem ouvido

junho 21, 2011

por Nelson Costa Jr

O espanhol Miguel de Molinos conhecia profundamente os efeitos do silêncio consentido – hoje diríamos assumido – sobre a mente do homem. Para o quietista que converteu Fenelon e Mme. Guénon, “há o silêncio da boca, o silêncio da mente e o silêncio da vontade”.  Malbaratamos energia,  seriedade, sinceridade, nos volteios da conversa frívola, nos exercícios da memória e da imaginação, nos caprichos aparentemente inexplicáveis da vontade. Na “Idade do Ruído”, achamos natural ouvir seletivamente – maneira de não  enlouquecer, ou de não embrutecer completamente os reflexos. O ouvido seletivo é esse que escuta o que quer e fica surdo para o que teme. Preferimos ouvir o que já conhecemos e testamos devidamente a abrir nossos sentidos para um fato que vai  abalar velhas convicções, estruturas enrijecidas pelo temor de estar errado. Não é por outra razão que nos tornamos tão agressivos quando nos propõe revisões desagradáveis de  conceitos que desejamos solidificados para sempre.

Os que “encontraram a resposta” acabam treinando um discurso bastante eficiente,  com toda a argumentação favorável de que dispõe o arsenal da racionalização. Ideólogos, teólogos, apologistas, gurus, apóstolos são identificados não pela proposta que fazem de discutir algum tema, mas pela água que procuram trazer ao seu moinho, à sua convicção previamente escolhida e protegida da lógica num nicho seguro de  argumentos  mais  verbais  que  racionais.  Ouvir seletivamente é uma escandalosa desonestidade, mas esse é um pecado que muitos perdoam com facilidade atualmente, porque quase todos o cometem. Entre as artes perdidas de nosso tempo, está seguramente a de escutar – muito mais do que ouvir, sem dúvida. Ela consiste apenas em não interferir, em permanecer tranqüilo e receptivo, o que é dificílimo.

Só quem ama tem ouvido – Nelson Costa Jr


Vale a pena ler de novo: Kierkegaard

junho 20, 2011

“Por que é que as pessoas preferem ter a palavra dirigida a si em grupos em vez de individualmente? É porque a consciência é uma das maiores inconveniências da vida, uma faca que corta muito fundo? Nós preferimos ser “parte de um grupo”, “formar um partido”, pois se nós somos parte de um grupo isso significa “adeus, consciência!” Nós não podemos ser dois ou três, um “Irmãos Silva & Cia.” em torno de uma consciência. Não, não! A única coisa que o grupo assegura é a abolição da consciência.

A mesma coisa acontece com a agitação. Uma pessoa pode muito bem comer uma alface antes que ela forme um “coração”, porém a delicadeza desse “coração” e o seu adorável núcleo são bem diferentes das folhas. Da mesma forma, no mundo do espírito, a agitação, a tentativa de competir com outros, correndo para lá e para cá, torna quase impossível para um indivíduo formar um coração, tornar-se um indivíduo responsável e vivo. Toda e qualquer vida que está preocupada em ser como outros é uma vida desperdiçada, uma vida perdida.

Uma pomba, uma mosca ou um inseto venenoso são objetos da preocupação de Deus. Não são vidas desperdiçadas ou perdidas. Mas massas de imitadores, uma multidão de copiadores são vidas desperdiçadas. Deus foi misericordioso conosco, demonstrando sua graça ao ponto de estar disposto a se envolver, Ele mesmo, com cada pessoa. Se nós preferimos ser como todos os outros, isso resulta numa alta traição contra Deus. Nós que simplesmente seguimos os outros somos culpados, e nosso castigo é ser ignorado por Deus.

Ao formar um partido, ao derreter-se dentro de algum grupo, nós não só evitamos nossa consciência mas também o martírio. É por isso que o medo dos outros domina esse mundo. Ninguém se atreve a ser um genuíno “eu mesmo”; todo mundo está escondido em algum tipo de “comunhão”. Órgãos sensíveis são blindados e não estão em contato imediato com outros objetos, e da mesma forma nós, pessoas ordinárias, temos medo de chegar num contato pessoal e imediato com o eterno. Em vez disso, nós confiamos em tradições e na voz dos outros. Nós nos contentamos em ser um espécie ou uma cópia, vivendo uma vida blindada contra a responsabilidade individual diante da Verdade.

A verdadeira individualidade é medida assim: por quanto tempo ou até que ponto alguém aguenta estar sozinho sem a compreensão dos outros. A pessoa que suporta estar sozinha está do outro lado do mundo em relação ao “socializável”. Ele está a quilômetros de distância do agradador de pessoas, aquele que se dá bem com todo mundo – aquele que não tem arestas afiadas. Deus nunca usa tais pessoas. O verdadeiro indivíduo, qualquer um que vai estar diretamente envolvido com Deus, não vai e não pode evitar a mordida humana. Ele será completamente incompreendido. Deus não é amigo de reuniões humanas aconchegantes.

Sim, no mundo puramente humano a regra é a seguinte: busque a ajuda e a opinião dos outros. Jesus diz: cuidado com os homens! A maioria das pessoas não têm somente medo de ter uma opinião errada, elas têm medo de manter uma opinião solitária. No mundo físico a água apaga o fogo. Assim também é no mundo espiritual. Os “muitos”, a massa de pessoas, apaga o fogo interior – cuidado com os homens!

De acordo com o Novo Testamento, ser um cristão significa ser sal. Cristianismo faz essa pergunta a cada indivíduo: você está disposto a ser sal? Você está disposto a ser sacrificado, em vez de fazer parte da multidão que busca tirar algum lucro do sacrifício de outros? Aqui, novamente, está a distinção: ser sal ou derreter-se dentro da massa; deixar outros serem sacrificados por nós em nome da Verdade ou permitir a si mesmo ser sacrificado – entre essas duas opções existe uma eterna diferença qualitativa.[…]”

Soren A. Kierkegaard

Texto que já foi postado aqui no blog em 2009, e que eu, se fosse você, leria todo:

Consciência inconveniente e a multidão


Evangélicos e baratas

junho 19, 2011

É sempre interessante observar o comportamento dos grupos humanos. Mas dentre os diferentes grupos que seres humanos criam em torno de interesses comuns, um se comporta de forma peculiar: os evangélicos de uma forma geral.

Observando a forma como evangélicos reagem como grupo, percebi uma analogia entre a forma pela qual eles se movimentam, e as baratas, quando atingidas por um jato de baygon, por exemplo, ou quando são obrigadas a se desentocar de seus esconderijos por qualquer motivo. A expressão “barata tonta” não existe por acaso, porque elas correm em desespero, mas estão na verdade desorientadas fora das tocas, fora do ambiente que consideram seguro.

O que isso tem a ver com os movimentos dos evangélicos? A forma é a mesma. Eles parecem movidos por um botão de PÂNICO. Um botão que, quando pressionado, faz com que saiam desesperados, angustiados, apavorados, ou simplesmente raivosos, supostamente para defender a fé, a igreja, Deus, Jesus, a sã doutrina, a moral, os bons costumes, ou seja lá o que for. Sem equilíbrio, de forma irracional e emocional, num movimento de histeria coletiva induzida, que seus líderes sabem tanto detonar, quanto sabem explorar muito bem. Os líderes tocam o terror, literalmente, nesse caso, e os crentes correm ora contra algum “ismo”, ora contra gays, ora contra hereges, ora contra ateus, não necessariamente nesta ordem.

Aliás, evangélicos em geral são os mais angustiados que já conheci. Parece que essa história de ficar sentados esperando Jesus voltar a qualquer momento, faz mais mal do que bem à saúde mental deles. Mas, quando alguém fala em esperar sim, mas não sentados, e sim com as mangas arregaçadas, e trabalhando para ser o corpo de Deus aqui na Terra, distribuindo o amor e  o perdão dEle a quem quiser (porque como diz um velho ditado, cabeça vazia é oficina do diabo – e como tem cabeça de crente vazia por aí, vou te contar), de novo, alguém aperta o botão de PÂNICO e lá vão eles, para mais um ataque de nervos. “Despedacem este herege, que está dizendo que Jesus não vai voltar.” Vale sensacionalismo barato, desonestidade intelectual, distorção, qualquer coisa, desde que o resultado seja disparar o alerta vermelho, e as “baratas” fiquem tontas. Desperdício de energia, ou uma forma de descarregar o excesso de energia e neurose acumuladas, de forma surtada?

E eu que pensei que a ideia era descansar nEle, e não viver a beira de um ataque histérico.  Me tornei cristã, para me juntar a essas pessoas, em seus movimentos de baratas tontas? Claro que não. Isso seria o mesmo que propor que eu ficasse pior do que era antes de ser cristã, e não acho que seja uma boa proposta. Participar de movimentos irracionais, incitados por um botão de pânico, não é um projeto de vida capaz de me atrair.

Jesus veio para libertar pessoas, e não para propor que elas fossem feitas reféns desse tipo de liderança, que incentiva o desequilíbrio emocional, a irracionalidade, a ignorância, as reações destemperadas e baseadas no medo.