Understanding religious experiences: What the bible says about spirituality – J. Harold Ellens

julho 31, 2011

[…]No final das contas, adotar as crenças ou liturgias do passado, sem fazer delas as nossas próprias num nível interior, nos impede de ter espiritualidade verdadeira ou religião autêntica. No final das contas, são apenas os meus próprios significados que podem verdadeiramente satisfazer a fome da minha alma. Como eu posso ser uma pessoa de Deus autêntica, se não sou meu próprio eu real e verdadeiro?[…]

[…]Este processo de busca de significado e preenchimento é muito individual e pessoal, mesmo quando tende a tomar rumos humanos similares e previsíveis em todos nós. É particular de cada pessoa, buscar as questões definitivas pelas quais a psique tem necessidade de respostas que funcionem para o seu espírito individualmente. Isso significa que rituais de rotina, em adoração pública, celebrações comunitárias ou vida devocional pessoal, nunca são suficientes e não podem ser por si mesmas, autênticas.  Práticas religiosas, fórmulas, padrões ou liturgias que existem por si mesmas, ou que são simplesmente encaradas como rituais, não funcionam para nenhum de nós. No passado, muitas pessoas diziam que as instituições e líderes religiosos tinham autoridade suprema e seus programas religiosos prescritos deviam ser seguidos porque eles tinham que ser obedecidos, não porque  proporcionavam significados espirituais interiores. Isso é mero ritual por si mesmo, e esta é uma forma doente de espiritualidade.[…]

[…]O reinado de Deus como Jesus o percebia como presente na experiência humana, era muito diferente das aspirações e modos de percepção que os líderes religiosos ao seu redor tinham seguido por tanto tempo e que nos seus dias, estavam sendo encaradas com crescente vigor e fervor. Enquanto seus discípulos o entendiam parcialmente, parte da razão para a natureza alusiva e parabólica dos seus ensinamentos residem no fato de que ele estava tentando induzir seus ouvintes a uma nova visão, uma mudança de ponto de vista. Ele estava concentrado em sacudir as pessoas das suas velhas categorias, fossem elas sofisticadas e instruídas ou tivessem a fé simples dos agricultores, prostitutas e pescadores, entre os quais ele vivia.

Ele ansiava por tirar as pessoas das estruturas ossificadas dos rituais religiosos, para colocá-las nas possibilidades dinâmicas de estar em contato com sua espiritualidade interior. No processo, ele esperava que elas estivessem em contato com Deus como Pai, uma percepção que era tão real para ele mesmo.[…]

[…]Aparentemente, como os antigos israelitas contam, caminhar com Deus não requer perfeição moral, material ou espiritual. Isto é, pessoas comuns podem andar com Deus.  Pessoas falhas como você e eu, podem caminhar com Deus. No fim, porque andou com Deus e agiu sob os significados espirituais que esta caminhada gera, Noé se tornou um símbolo da presença construtiva de Deus nas vidas de seres humanos falhos. No Novo Testamento, particularmente nos quatro evangelhos, Jesus faz referência frequente a Noé, como um exemplo de como a presença e intimações de Deus para as pessoas que caminham com Ele, melhoram a qualidade de uma vida com significado. Nas epístolas posteriores, Noé é especificamente citado como um exemplo dos benefícios de se caminhar com Deus.

[…]Não precisamos levar os detalhes da lenda seriamente. Como as parábolas, tais lendas ou mitos sempre possuem um ponto central que o autor tenta estabelecer. Se ficamos preocupados com ou damos muita atenção aos detalhes periféricos, ou se a história é história ou mito, perdemos o foco. Essa história quer dizer apenas uma coisa: é possível para nós humanos, em nossa busca de significado, experimentar o que pode ser chamado de caminhar com Deus, e que isso faz uma grande diferença para melhor em nossa espiritualidade, e até mesmo em nosso comportamento religioso.[…]

[…]Adão perdeu uma boa caminhada com Deus no paraíso, no frescor da noite. Ele perdeu sua caminhada com Deus porque a ignorância, medo, culpa e vergonha, fizeram com que se sentisse alienado, separado de Deus. Isso é sempre verdade. Isso é sempre verdade para todo ser humano. Isso sempre acontece. Leia a história da queda novamente. Você verá como esta história inacreditavelmente fantasiosa em Gênesis 3 realmente é, mas no centro dela, há uma verdade espiritual. É sempre nossa ignorância (falta de informação),  medo (falta de fé),  culpa (falta de confiança), que nos distancia desta percepção, de que estamos caminhando com Deus em nossa busca por significado.[…]

[…]Não sou um evangélico fundamentalista, e não acredito que a bíblia é verbalmente inspirada e inerrante, ou algum tipo de livro mágico, como muitos dos meus colegas cristãos. Entretanto, acredito que se nós desenhamos nossas vidas como uma caminhada com Deus ou uma busca por Deus, vamos experimentar Deus de uma forma tão gratificante como experimentamos uma boa ceia e uma boa taça de vinho numa boa mesa. Acredito que os personagens bíblicos viveram no mesmo tipo de mundo espiritual no qual nós mesmos vivemos. É por isso que acredito  que a bíblia está cheia da palavra de Deus, isto é, o testemunho dos personagens bíblicos a respeito de como eles experimentaram Deus em suas vidas. Em muitas ocasiões eles foram acurados em seu discernimento. Em outras, estavam muito errados e até patológicos no que significava presença de Deus para eles.  É fácil saber a diferença, porque aquelas experiências que ajudam e melhoram a vida humana são certamente de Deus, e aquelas que falham nisso não são. Acreditar que Deus está dizendo a você para matar seu filho, é, obviamente, loucura. Acreditar que Deus ama tanto o mundo, que pretende salvar todos, como João e Paulo percebiam, e não condená-lo, vem obviamente, de Deus.[…]

Understanding religious experiences: What the bible says about spirituality – J. Harold Ellens

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Um olhar para a sociedade

julho 25, 2011

por Márcio Rosa da Silva

Somos seres sociais, gregários, a vida em sociedade é uma imposição da própria natureza humana. Mas qual é o olhar da igreja e dos cristãos para a sociedade? Para responder a essas perguntas, precisaríamos saber de que “igreja” e de que “cristão” estamos falando, tendo em vista as enormes e irreconciliáveis diferenças entre os muitos grupos que se identificam como igreja e como cristãos.

Tenho a impressão que por muito tempo o olhar de setores da igreja evangélica para a sociedade tem sido como o de alguém que olha de fora, como se separado fosse. Seria um grupo dissociado, não conectado com o todo, que olha para o resto do mundo, mas não se identifica como parte dele.

E o que ela vê? Multidões a serem convertidas ao seu grupo. Ou para serem conquistadas, para usar um termo muito apreciado nesse meio. Almas que precisam ser arrancadas do inferno para povoar o céu. Miseráveis perdidos condenados ao fogo do inferno, esperando o momento de “ouvirem” a boa nova. Caso adiram a essa boa nova serão livres de todo o mal e terão a terra prometida (no futuro – depois da morte), caso a rejeitem, continuarão condenados ao inferno, mas o grupo que proclamou a “verdade” já não tem mais nenhuma responsabilidade ou culpa nisso, pois já cumpriu o seu papel.

Então é isso? É esse o olhar que a igreja e os cristãos devem ter para a sociedade? Entendo que não. Precisamos de um outro olhar.

Esse olhar não pode ser como de alguém que se julga superior. Quem se julga salvo e vê os demais apenas como pecadores destinados à danação corre o risco de enxergar dessa forma.

Também não pode ser indiferente, como o de quem não tem nenhuma responsabilidade para com a dor do outro. O sujeito não se sente causador do sofrimento alheio, logo não tem porque se importar e não precisa fazer nada para mudar a situação. Peca-se pela omissão.

Não pode ser um olhar simplista, porque a sociedade é complexa, diversa. Olhar a todos como uma massa homogênia é desconsiderar as múltiplas características que uma sociedade como a nossa tem e não reconhecer as enormes disparidades e as muitas injustiças sociais existentes.

Não pode ser um olhar como de quem deseja instrumentalizar o povo.  Fazer proselitismo com o propósito de afirmar poder institucional, ou ação social com a mal disfarçada intenção de “forçar” a conversão dos beneficiados, são apenas algumas das formas de instrumentalização das pessoas. Quem age assim tem uma ação interesseira que não reflete o amor e graça que devem estar presentes nesse tipo de trabalho.

Também não se pode olhar para a sociedade e “espiritualizar” as mazelas sociais. Por mais absurdo que pareça, isso ainda é muito comum. Por esse raciocínio, a pobreza da África seria culpa dos cultos africanos (e não da espoliação dos colonizadores europeus ou da corrupção imperante). A pobreza de muitas famílias do nordeste seria culpa da idolatria (e não dos coronéis da política que se perpetuam no poder, mas não mudam a situação do povo).

Esse tipo de espiritualização da realidade gera indiferença e cinismo, pois isenta o sujeito de qualquer responsabilidade, já que a causa está numa esfera sobrenatural. Quem assim pensa entende que não há o que fazer, a não ser orar para repreender o “espírito da pobreza”, o “demônio da fome e da corrupção”, etc.

Não, definitivamente não pode ser esse o olhar da igreja para sociedade.

Um olhar para a sociedade – Márcio Rosa da Silva


Deus não tem ninguém na sua lista

julho 14, 2011

por Paulo Brabo

[…]Em resumo, para Ellens a graça ou é radical (isto é, absolutamente resoluta e invariável) ou é na verdade graça nenhuma. Ela só tem poder curativo se for de fato radical, incondicional e universal: privar a graça de seu caráter incondicional seria privá-la de todo seu poder. Dito de outra forma, a graça só é realmente capaz de curar se não fizer diferença para Deus se você vai ser curado ou não. Essa fragilidade é o único mecanismo da coisa toda, e dela depende toda a sua eficácia.

O toque de uma graça radical – aquilo que Ellens chama de “uma perspectiva graciosa e incondicional de apreço positivo” – é a única solução concebível para nossos entraves, traumas, neuroses e inadequações. Essa graça implacável é o único bálsamo com o potencial de nos aplacar em regime definitivo as doenças do espírito, sendo portanto a única chance que temos de encontrar o bem-estar e de o vermos aplicado neste mundo.

Esse é o poder subversivo do perdão universal dos pecados, apregoado por João Batista e endossado por Jesus. Somente a boa nova (somente essa boa nova) é capaz de agir eficazmente na anulação do poder diabólico da culpa, raiz daquela “ansiedade destrutiva que produz em nós toda enfermidade e todo o pecado”. Quem torna-se livre da culpa torna-se livre, e ponto final.

Isso porque “uma perspectiva graciosa e incondicional de apreço positivo” implica numa aceitação radical ao ponto da mais atordoante descaracterização. A singularidade do Deus de Jesus está em que ele não vai amar você menos se você o rejeitar; não vai amá-lo menos se você o matar. Não vai deixar de aceitá-lo em caso algum. O apreço positivo que ele nutre pelo ser humano é a expressão mais destilada e invariável da pessoa e do caráter dele; o céu e o inferno não teriam como alterá-la um milímetro em qualquer direção, muito menos algo que você puder fazer. “Nada poderá nos separar do amor de Deus”, e nada é muita coisa.

Em termos teológicos, essa visão de um Deus de amor invariável cuja matriz e coroa é Jesus já foi articulada (e questionada) muitas vezes ao longo dos séculos. A tarefa que Ellens tomou sobre si foi a de estabelecer além da dúvida o caráter e o valor terapêutico dessa graça ampla, invariável e arbitrária. Porque se Deus nos ama independentemente da nossa cura, só então a cura torna-se possível – mas, pasme-se, ela então torna-se possível. Se Deus pode nos aceitar como somos, só então nos tornamos livres para mudar. Isso não quer dizer que Deus exige que mudemos; pelo contrário, o cerne e o único poder da coisa toda está em que a aceitação e o apreço divinos pelo ser humano (e o nosso uns pelos outros) devem resistir galhardamente à rejeição, ao desprezo, ao esquecimento, à distração.[…]

[…]É um Deus que não se rebaixa ao proselitismo, isto é, um Deus que não quer converter ninguém para além da sacada de que nenhuma conversão é necessária (e que portanto toda mudança é possível). É um Deus sem outro critério que não o amor, que abraça o filho pródigo e espera o mesmo do filho comportado; que dá a mesma recompensa ao cara que suou o dia todo e ao folgado que só apareceu para trabalhar na hora de ir embora. Um Deus que não tem ninguém na sua lista.[…]

Leia o restante aqui: O Deus que não tem ninguém na sua lista – Paulo Brabo


Maravilhosa graça – Philip Yancey

julho 13, 2011

Estive verificando as postagens, e ainda não tinha postado a respeito deste livro de Philip Yancey. Seguem abaixo, alguns trechos.

[…]Há muitos anos, cheguei à conclusão de que as duas causas principais da maioria dos problemas emocionais entre os cristãos evangélicos são estas: o fracasso em entender, receber e viver a graça e o perdão incondicionais de Deus; e o fracasso de distribuir esse amor, perdão e graça incondicionais aos outros… Nós lemos, ouvimos, cremos em uma boa teologia da graça. Mas não é assim que vivemos. As boas novas do evangelho da graça não penetraram no nível de nossas emoções.[…]

[…]No seu livro Guilt and Grace [Culpa e Graça], o médico suíço Paul Tournier, um homem de profunda fé pessoal, admite: “Não consigo estudar com você este sério problema da culpa sem levantar o fato óbvio e trágico de que a religião — a minha própria como também a de todos os crentes — pode esmagar em vez de libertar”.

Tournier fala de pacientes que o procuraram: um homem abrigando culpa por causa de um antigo pecado, uma mulher que não podia esquecer de um aborto que fizera há dez anos. O que os pacientes realmente buscam, diz Tournier, é graça. Mas, em algumas igrejas encontram a vergonha, a ameaça do castigo e um sentimento de julgamento. Resumindo, quando procuram graça na igreja, com freqüência encontram não-graça

Uma mulher divorciada contou-me que estava no santuário de sua igreja com sua filha de 15 anos de idade quando a esposa do pastor se aproximou. “Ouvi dizer que você e seu marido estão se divorciando. O que eu não consigo entender é, se vocês amam Jesus, por que estão fazendo isso?” A esposa do pastor nunca havia conversado com a minha amiga antes, e sua dura repreensão na presença da filha deixou-a perplexa. “A dor estava no fato de que eu e meu marido amávamos Jesus de coração, mas o casamento havia-se quebrado além do conserto. Se ela apenas tivesse me abraçado e dito: ‘Eu sinto muito…’.”

Mark Twain costumava falar de pessoas que eram “boas no pior sentido da palavra”, uma frase que, para muitos, capta a reputação dos cristãos de hoje. Recentemente, estive fazendo uma pergunta a pessoas desconhecidas — pessoas sentadas ao meu lado no avião, por exemplo — quando buscava dar início a uma conversa. “Quando eu digo as palavras ‘cristão evangélico’, no que você pensa?” Em resposta, ouço principalmente suas descrições políticas: ativistas barulhentos a favor da vida, ou oponentes aos direitos dos homossexuais, ou proponentes para censurar a Internet. Ouço referências à Maioria Moral, uma organização desbaratada anos atrás. Nenhuma vez — uma única vez sequer— ouvi uma descrição com fragrância de graça. Aparentemente, esse não é o aroma que os cristãos distribuem pelo mundo.

H. L. Mencken descreveu um puritano como uma pessoa com um medo obsessivo de que alguém, em algum lugar, seja feliz; hoje, muitas pessoas aplicariam a mesma caricatura aos evangélicos ou fundamentalistas. De onde vem essa reputação de retidão sem alegria? Um artigo da humorista Erma Bombeck5 nos dá uma pista:

Domingo passado, na igreja, eu prestava atenção a uma criança que se virava para trás e sorria para todos. Ela não estava fazendo nenhum barulho, nem estava cantarolando, ou chutando, nem rasgando os hinários, nem mexendo na bolsa da mãe. Apenas sorrindo. Finalmente, sua mãe olhou para ela com cara feia e num sussurro teatral que poderia ser ouvido em um pequeno teatro da Broadway, disse: “Pare de sorrir! Você está na igreja!”. Em seguida, deu-lhe um tapa e, quando lágrimas começaram a rolar pela face da criança, a mãe acrescentou: “Assim é melhor”, e retornou às suas orações…

Subitamente, eu fiquei zangada. Percebi que o mundo inteiro está em lágrimas e, se você não está chorando, é melhor começar. Eu quis abraçar aquela criança com o rosto molhado de lágrimas e lhe falar a respeito do meu Deus. O Deus feliz. O Deus sorridente. O Deus que precisava ter senso de humor para ter criado gente como nós… Por tradição, as pessoas usam a fé com a solenidade de acompanhantes de enterro, a seriedade de uma máscara trágica e a dedicação de um participante do Rotary.

Que loucura, eu pensei. Aqui está uma mulher sentada ao lado da única luz ainda existente em nossa civilização — a única esperança, nosso único milagre — nossa única promessa de infinidade. Se ela não podia sorrir na igreja, para onde deveria ir?

Essa caracterização de cristãos certamente está incompleta, pois conheço muitos cristãos que personificam a graça. Mas em algum ponto da história a igreja conseguiu receber uma reputação de falta de graça. Como orou uma menininha inglesa: “Ó Deus, transforme as pessoas ruins em pessoas boas, e as pessoas boas em pessoas agradáveis”.[…]

[…] Atualmente, o legalismo mudou de foco. Em uma cultura totalmente secular, a igreja está mais inclinada a demonstrar falta de graça por meio de um espírito de superioridade moral ou uma atitude violenta para com os oponentes na “guerra cultural”.[…]

[…]Consciente de nossa resistência inata à graça, Jesus falou dela com freqüência. Ele descreveu um mundo banhado pela graça de Deus: onde o sol brilha sobre bons e maus; onde as aves recolhem sementes de graça, sem arar nem colher para merecê-las; onde flores silvestres explodem sobre as encostas rochosas das montanhas sem serem cultivadas. Como um visitante de um país estrangeiro que percebe o que os nativos não percebem, Jesus viu a graça por toda parte. Mas Ele nunca analisou nem definiu a graça, e quase nunca usou essa palavra. Em vez disso, transmitiu graça por meio de histórias que nós conhecemos como parábolas — que tomarei a liberdade de transportar para um cenário moderno.[…]

[…] O evangelho não é, de maneira nenhuma, o que nós sugerimos. Eu, por minha vez, esperaria que se honrasse a virtude contra a libertinagem. Eu esperaria ter de me purificar para marcar uma audiência com um Deus Santo. Mas Jesus falou de Deus ignorando o mestre religioso que se achava fantástico e deu atenção a um pecador comum que rogava: “Ó Deus, tem misericórdia”.Em toda a Bíblia, na verdade, Deus demonstra uma notável preferência por pessoas “autênticas” em vez de pessoas “boas”. Nas palavras do próprio Jesus: “Haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”. Em um de seus últimos atos antes de morrer, Jesus perdoou o ladrão que pendia de uma cruz, sabendo muito bem que o ladrão havia-se convertido por causa de puro medo. Esse ladrão nunca estudaria a Bíblia, nunca freqüentaria uma sinagoga ou igreja e nunca acertaria a sua vida com todos aqueles que havia prejudicado. Ele simplesmente disse: “Senhor, lembra-te8 de mim”, e Jesus lhe prometeu: “Hoje estarás comigo no paraíso”. Foi outro lembrete chocante de que a graça não depende do que fizemos por Deus, mas, antes, do que Deus fez por nós.[…]

[…] A graça surge de tantas formas diferentes que tenho dificuldade em defini-la. Estou pronto, contudo, a tentar alguma coisa como uma definição da graça divina. Graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais — nenhuma quantida de renúncia, nenhuma quantidade de conhecimento recebido em seminários e faculdades de teologia, nenhuma quantidade de cruzadas em benefício de causas justas. E a graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos — nenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus já nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar. Há uma cura simples para pessoas que duvidam do amor de Deus e questionam a graça divina: voltar para a Bíblia e examinar o tipo de pessoas que Deus ama. Jacó, que se atreveu a se envolver em uma luta física com Deus e mesmo depois que fora ferido nessa luta tornou-se o epônimo do povo de Deus, os “filhos de Israel”. A Bíblia fala de um homicida e um adúltero que ganhou reputação como o maior rei do Antigo Testamento, um “homem segundo o coração de Deus”. E de uma igreja dirigida por um discípulo que praguejou e jurou que não conhecia Jesus. E de um missionário sendo recrutado das fileiras dos torturadores de cristãos. Eu recebo correspondência da Anistia Internacional e, quando examino as fotos de homens e mulheres que foram espancados, pisoteados, espetados, cuspidos e eletrocutados, pergunto a mim mesmo: “Que espécie de ser humano poderia fazer isso a outro ser humano?”. Então, leio o livro de Atos e encontro o tipo de pessoa que poderia fazer uma coisa dessas — agora um apóstolo da graça, um servo de Jesus Cristo, o maior missionário da história. Se Deus pode amar esse tipo de pessoa, talvez, apenas talvez, Ele também possa amar pessoas como eu.[…]

[…]Essa questão de perdoar não é de maneira nenhuma uma coisa simples… Nós dizemos: “Muito bem, se o outro se arrepender e pedir o meu perdão, eu lhe perdoarei, eu desistirei”. Fazemos do perdão uma lei de reciprocidade. E isso não funciona nunca. Pois, então, ambos dizemos a nós mesmos: “O outro tem de tomar a iniciativa”.

Daí, fico observando como um gavião para ver se o outro vai sinalizar-me com os olhos ou se posso detectar alguma pequena indicação entre as linhas de sua carta que demonstre que está arrependido. Eu estou sempre pronto a perdoar… mas nunca perdôo. Eu sou justo demais.[…]

[…]Agora receio que a imagem prevalecente dos cristãos tenha mudado de um vaporizador de perfume para diferentes aparelhos de sprays: o tipo utilizado para exterminar insetos. Ali está uma barata!Bombeia, spray, bombeia, spray.  Olha ali um foco do mal! Bombeia, spray, bombeia, spray. Alguns cristãos que conheço assumiram a tarefa de “dedetizadores morais” para a sociedade infestada pelo mal que os rodeia.[…]

[…]Os leitores dos evangelhos se maravilham com a capacidade de Jesus de se relacionar facilmente com os pecadores e os párias. Tendo passado algum tempo com “pecadores”, e também com pretensos “santos”, tenho um palpite por que Jesus passou tanto tempo com o primeiro grupo: acho que Ele preferia a companhia deles. Porque os pecadores eram honestos a respeito de si mesmos e não fingiam, Jesus podia lidar com eles. Em contraste, os santos assumiam ares, julgavam-no e tentavam apanhá-lo em uma armadilha moral. No final, foram os santos, e não os pecadores, que prenderam Jesus.

[Nota minha: eu também me sinto bem mais à vontade com pecadores assumidos, do que diante de gente fingidamente santa. E acho que os crentes precisam ler mais sobre a graça dEle até entender o que isso significa de verdade, e parar de tratar os outros desta forma tão sem graça :P)

Maravilhosa Graça – Philip Yancey


Apocalipse: um guia para os jovens

julho 11, 2011

por Michael Spencer

Os jovens querem saber sobre o Apocalipse.

Uma das melhores coisas sobre trabalhar com jovens na igreja ou em uma escola cristã, como fiz por 28 anos, é responder perguntas sobre a bíblia. Há, entretanto, uma coisa que aprendi sobre as perguntas dos jovens a respeito da bíblia. A maioria delas são sobre o livro mais difícil, o livro do apocalipse. E essas questões são muito difíceis de responder.

Os mais jovens ficam curiosos a respeito do livro do Apocalipse por muitas razões. Se o leram, estão certamente curiosos a respeito do que foi lido. É um livro cheio de coisas misteriosas que não estão explicadas. O Apocalipse é também assunto de livros e filmes, como aquela série popular “Deixados para trás” e os filmes “The Omega Code”. Pregadores na TV e nas igrejas têm muito a dizer sobre o livro do Apocalipse, e muito do que dizem a respeito dos significados deste livro, parece certo. Naturalmente, os mais jovens ficam curiosos a respeito deste livro, quando ouvem falar que é um livro de previsões do futuro.

O livro do Apocalipse tem uma reputação diferente de qualquer outro livro da bíblia. É raro que eu tenha algum aluno que faça perguntas sobre o livro de Romanos ou o de Atos. Estes livros são considerados chatos, e se um estudante os lê a história e as ideias parecem ser todas de “muito tempo atrás”.  O Apocalipse, por outro lado, parece ser a respeito de um futuro imediato. Parece estar falando sobre “coisas que em breve acontecerão”. Qualquer pessoa normal fica curiosa a respeito do futuro, e o livro do Apocalipse parece atiçar a coceira da curiosidade.

O que nós sabemos sobre o livro do Apocalipse?

Talvez, a parte mais frustrante de tais questões é que, na maioria das vezes, é praticamente impossível explicar tudo que uma pessoa precisa saber sobre o livro do Apocalipse, com umas poucas frases. É um livro muito difícil! De fato, quando o Novo Testamento teve seus livros colocados todos juntos, muitos líderes cristãos sentiam que o livro não deveria estar na bíblia, porque seria muito confuso. Continua um livro confuso, mas certamente permaneceu na bíblia. Simplesmente temos que pagar o preço e estudar mais.

Há centenas de livros escritos sobre o livro do Apocalipse. A maior parte deles estão além da capacidade do jovem estudante mediano, de ler e entender. Parte do que estou escrevendo neste ensaio, é para encorajar esses jovens a querer aprender mais, e de forma perseverante, procurar e ler os livros mais fáceis, que possam ajudá-los a entender o livro do Apocalipse.

A dificuldade em entender o livro do Apocalipse não vem do que sabemos a respeito deste livro. A maioria dos estudiosos concorda na maioria das coisas básicas a respeito dele.

Foi escrito no final do primeiro século depois de Cristo, talvez em torno de 95 dC. O autor, João, e muitos cristãos acreditam que era o apóstolo João, um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus e o autor do evangelho segundo João. Há outros líderes cristãos acreditam que foi escrito por um João do primeiro século, mas o escritor do livro não nos conta muita coisa a respeito de si mesmo. Na verdade, ele deixa claro que é mais um “secretário” do que qualquer outra coisa, escrevendo o que viu e ouviu.

O livro foi escrito para sete igrejas que existiam no que era chamado de Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia. Estas igrejas eram todas diferentes umas das outras em tamanho, mas todas elas precisavam de encorajamento. Os capítulos dois e três do Apocalipse possuem mensagens específicas de Jesus para cada uma destas sete igrejas, e estes capítulos estão entre os mais fáceis de ler e entender.

Destas mensagens, sabemos que as igrejas que leram este livro pela primeira vez, estavam passando por tempos difíceis. Algumas estavam sendo perseguidas e tendo seus membros executados. Havia falsos mestres em outras igrejas. Algumas delas eram ricas e se tornaram frias em seu compromisso com Jesus. Outras eram igrejas pobres e sofredoras, e eram usualmente aconselhadas a permanecer fieis no sofrimento.

O livro do Apocalipse foi escrito durante a época do Império Romano. Os romanos dominavam a maior parte do mundo conhecido no primeiro século, e os imperadores romanos eram muito poderosos. Na verdade, muitos destes imperadores exigiam ser adorados como se fossem deuses. Em muitas cidades que queriam mostrar que eram grandes “fãs” do imperador, templos eram construídos e todo “bom cidadão” romano tinha que fazer uma oferta de incenso e afirmar “César é o Senhor” ou “O imperador é Deus”.

Esta “profissão de fidelidade” ao imperador não era problema para a maior parte das pessoas, mas para os primeiros cristãos, era uma escolha difícil.  Eles acreditavam que Jesus era Senhor e Deus, e seria errado ir a um templo e “adorar” o imperador romano.Muitos cristãos se recusavam a fazer isso, e como resultado, eram vítimas de perseguições de vários tipos. Na época em que o livro do Apocalipse foi escrito, o imperador romano era Domiciano, e ele era muito rigoroso a respeito da adoração nos seus templos. As cidades construíam templos para ele, tinham estátuas enormes para o povo adorar, e eram até mesmo empregados “pastores” para impor a adoração de Domiciano.

Esse tipo de situação é muito difícil para um cristão americano entender. Nós nunca vivemos sob o poder de um imperador ou império. Sempre governamos a nós mesmos e temos liberdade religiosa. Os cristãos algumas vezes são perseguidos ou proibidos de fazer algumas coisas, mas poucos cristãos americanos sabem o que é ser aprisionado ou morto por serem cristãos.

Mas imagine: Como era ser cristão na China comunista? Na ex-União Soviética? Em lugares como o Sudão ou em países islâmicos hostis, como a Arábia Saudita? Nesses lugares, era (e é) comum para milhares de cristãos sofrer e morrer porque não “adoram” os “deuses” destas nações, e sim, Jesus.

Estes cristão que estão sofrendo, provavelmente entendem o livro de Apocalipse muito melhor do que nós, porque eles entendem o que é sofrer, e ter que viver com a escolha de obedecer ou morrer.

O livro do Apocalipse é uma mensagem especial para os cristãos do primeiro século. É uma mensagem que afirma “Jesus é o Senhor!” O imperador Domiciano não é o Senhor! Deus está no controle de tudo que está acontecendo. O futuro será de acordo com os planos de Deus, e preencherá os propósitos dEle. Não importa quão ruins as coisas fiquem ao longo do caminho, os cristãos devem permanecer fieis, estar dispostos a sofrer, e esperar que Deus leve todas as coisas a termo no Seu Reino.

Entender que o livro do Apocalipse é uma mensagem para os cristãos do primeiro século, não significa que não serve para nós hoje. O Apocalipse é uma mensagem para todos os cristãos em todos os tempos. Sua mensagem e sua história pertencem a todas as gerações e a todos os cristãos.

Por que é tão difícil de entender?

Tudo isso não é realmente muito difícil de entender. Qualquer estudante mediano pode facilmente aprender essa informação e passar num teste!  O que não é fácil a respeito do livro do Apocalipse, é a forma pela qual é escrito, especialmente do capítulo três em diante. O livro se torna muito estranho. Vamos falar a respeito da forma com a qual o livro foi escrito, e porque foi escrito desse jeito.

O livro do Apocalipse usa muitos símbolos e imagens para contar sua história. É como assistir um filme muito, muito estranho. Há monstros, anjos, eventos estranhos, personagens misteriosos, muitos números e enigmas. Está tudo realmente acontecendo desse jeito?

Por exemplo, no capítulo 12, há realmente um dragão querendo devorar uma criança? Ele tem de verdade sete cabeças? O bebê é realmente levado para o céu? Será que a mulher teve mesmo que se esconder no deserto por mais de mil dias? O dragão realmente vomitou um rio, e a terra realmente se abriu e o engoliu?

Esta é a forma típica pela qual o Apocalipse fala conosco, e se você diz a si mesmo “Isso não pode ser real. Isso parece ser algum tipo de simbologia ou código”, então você acertou.  Isso não é como um videotape a respeito das notícias do dia. É muito mais parecido com uma pintura, cheia de personagens e cores e números e eventos que possuem significados ocultos, que fazem sentido para algumas pessoas, mas não para outras.

O apocalipse é escrito em algum tipo de “código”, como aqueles das charges políticas. Se você está lendo uma charge política, e vê um elefante pisando um jumento na estrada, você entende que não é isso que está “realmente” acontecendo. O elefante representa o partido republicano, e o jumento, os democratas. Se vemos “Tio Sam”, sabemos que se refere aos Estados Unidos, e um urso, se refere à Rússia.

No Apocalipse, o dragão, a besta, o falso profeta, o cordeiro, a grande prostituta e outros personagens, são fáceis de identificar se você sabe o que eles representam.

Os números funcionam da mesma maneira. Qualquer fã da NASCAR conhece o número “3”. Todo americano sabe o que representa “9-11”. Todo fã da NBA sabe que “23” é o número do Michael Jordan. Da mesma forma, o Apocalipse usa um código numérico para se comunicar com o leitor. O livro do Apocalipse usa também um código de cores com o mesmo objetivo.

Isso é uma resposta?

Seria perfeito se o Apocalipse nos fornecesse as chaves para todos esses códigos! Isso teria deixado as coisas bem mais fáceis. Mas não faz isso, ou pelo menos, não faz do jeito que queremos, com todos os códigos explicados no final de uma forma fácil de entender. Não, os códigos do Apocalipse têm que ser entendidos pelo entendimento de duas coisas.

Primeiro, o Apocalipse tem mais de 400 referências ao Antigo Testamento. Quanto melhor você conhecer o Antigo Testamento, melhor vai entender o Apocalipse. Por exemplo, o livro do Apocalipse fala frequentemente sobre “Babilônia” como um símbolo. Se você conhece o Antigo Testamento, sabe que Babilônia foi um império da antiguidade e um inimigo do povo de Deus, uma cidade onde os israelitas ficaram em cativeiro por 70 anos, e simboliza o poder do mal no mundo.

Outro exemplo é o templo. O Apocalipse usa com frequência a figura do templo como um símbolo. No Antigo Testamento, havia dois templos, e há muita informação sobre o que acontecia nos templos. Sacrifícios, sacerdotes, música, altares, incenso – tudo isso está descrito em diversos lugares diferentes no Antigo Testamento. Um dos livros do Antigo Testamento, Ezequiel, tem uma descrição detalhada de como seria um templo perfeito, do futuro. Então, quando o livro do Apocalipse fala sobre templo, temos muitas ideias sobre o que isso significa.

Num determinado momento, o livro do Apocalipse se refere a um certo falso mestre como “Jezebel”. Jezebel era uma rainha malvada que promoveu a adoração de falsos deuses e mandou matar profetas de Deus e outras pessoas. Sem citar nomes, o livro do Apocalipse diz que alguém se parece com Jezebel. É desta forma que o livro do Apocalipse usa referências do Antigo Testamento.

Usar referências do Antigo Testamento era uma forma de se comunicar apenas com as pessoas que conheciam a bíblia, mas esconder a mensagem de pessoas que não conheciam a bíblia tão bem… como os romanos, por exemplo.

A segunda maneira de entender os códigos do livro do Apocalipse é estudar outros livros parecidos, escritos na antiguidade, em situações semelhantes e usando linguagem semelhante. O problema aqui é que não há nada que se pareça exatamente com o livro do Apocalipse na Bíblia. Há um livro que se aproxima o suficiente e pode ser útil, e este, é o livro de Daniel.

Este estudo não vai falar sobre o livro de Daniel, mas posso contar para você como este livro é semelhante ao do Apocalipse. Ele também foi escrito quando o povo de Deus estava sofrendo. Ele também encoraja as pessoas a serem fieis e corajosas, como o próprio Daniel foi. Também usa muitas imagens e símbolos, em sonhos e visões, para comunicar a mensagem de que não importa o que aconteça na história, Deus está no controle. Ele usa muitos dos mesmos códigos, e algumas das mesmas criaturas.

Comparar Daniel com o Apocalipse pode ajudar muito. O que é útil também, é ler livros antigos que NÃO estão na Bíblia, mas usam “códigos” similares para comunicar suas mensagens. Aqui, é o ponto onde um estudante da bíblia deve confiar nos estudiosos que escreveram livros para nós. A maioria de nós não dispõe de tempo ou meios para aprender as línguas originais e para ir a bibliotecas e estudar. Mas podemos ler o que esses estudiosos têm descoberto e transmitido para nós.

Quando usamos estes dois códigos, o que encontramos? Encontramos que a maior parte do que está no livro do Apocalipse pode ser entendido com bem pouco trabalho. Não conheço ninguém que afirme que entende tudo o que diz no livro do Apocalipse, e muitos estudiosos discordam entre si. Mas uma parte substancial dos estudiosos que pesquisam sobre o livro do Apocalipse, concorda a respeito do que o livro do Apocalipse, basicamente, diz.

(De qualquer jeito, o código especial usado no livro do Apocalipse e em Daniel, é chamado de literatura “apocalíptica”. A palavra “apocalíptica é a expressão grega para “descoberto” ou “revelado” e é atualmente, a primeira palavra que aparece na primeira frase do livro do Apocalipse.

Por que tanta discordância?

Uma das coisas mais frustrantes a respeito da tentativa de falar sobre o livro do Apocalipse, é que não há outro livro que tenha gerado tantas opiniões e ideias diferentes, por pessoas diferentes – todas alegando estarem certas. Isso pode ser muito desencorajador para um jovem que quer entender o livro do Apocalipse.

Por exemplo, os populares livros “Deixados para trás”, venderam mais de 40 milhões de cópias. Eles trazem um ponto de vista a respeito da mensagem do livro do Apocalipse. Eu discordo desse ponto de vista em quase tudo, então realmente não gosto desses livros, e geralmente não recomendo aos meus alunos, que os leiam. Meus pontos de vista a respeito do livro do Apocalipse são mais parecidos com os pregadores de muito tempo atrás. Quem está certo?

Um estudante do livro do Apocalipse é levado a aceitar o fato de que precisa aprender várias formas diferentes de entender qualquer parte do livro, dependendo do que está lendo ou de quem está ensinando. Por exemplo, no capítulo sete, há 144 mil pessoas citadas. Eu penso que seja um símbolo. Outros professores pensam que é literal, um grupo de 144 mil pessoas, nem mais, nem menos. Sou influenciado pelo “código numérico” do mundo antigo, onde 12 era o número de tribos de Israel e qualquer variação que gire em torno desse número 12 faz total sentido,  Penso que é um símbolo para representar “todo o povo de Deus na Terra”. Outros professores dizem que são 144 mil judeus das 12 tribos de Israel.

Essas divergências são irritantes, eu sei! Mas são parte do que significa ser um estudante do livro de Apocalipse. A boa nova é que há apenas quatro ou cinco formas diferentes de olhar para o livro, e na maioria dos casos, apenas duas ou três opções para o significado de alguma coisa; então, se você começa a se tornar familiar com essas “versões”, o jogo não parece mais tão confuso.

Quais são as “Perguntas Frequentes” sobre o livro do Apocalipse?

1. O livro do Apocalipse é sobre o futuro?

Provavelmente o primeiro erro que a maioria das pessoas comete a respeito do Apocalipse é assumir que é todo sobre o futuro. A leitura do livro do Apocalipse mostra rapidamente que se trata de passado, presente e futuro. Certamente, muito do que está ali se refere ao fim dos tempos e eventos do final da história, mas não cometa o erro de pensar que tudo é a respeito apenas do futuro.

2. O livro do Apocalipse nos conta em detalhe sobre os eventos futuros?

Esta é uma daquelas discordâncias a respeito das quais avisei você! Muitas pessoas olham para  o Apocalipse como se fosse um tipo de “mapa” que prevê o futuro em detalhes. Se você pode ler o mapa, eles dizem, pode saber o que vai acontecer. Outros – como eu – acreditam que o Apocalipse apenas mostra-nos o futuro de uma forma muito, muito geral, que pode ser aplicada a qualquer cristão, em qualquer época, em qualquer lugar. Devo alertar você de que cada geração anterior de cristãos, tendeu a pensar que entendia os eventos no Apocalipse claramente, e todos estavam errados em muito do que disseram a respeito.

Portanto, seja humilde e ensinável. O livro do Apocalipse é como uma grande montanha. Escalar essa montanha, demanda tipos diferentes de conhecimento, para escapar dos perigos e armadilhas, mas uma vez que tenhamos trabalhado para pegar bons pontos de vista, o trabalho vale a pena.

3. Quem ou o quê é “a besta”?

Há dois tipos de “bestas” no Apocalipse. Uma é do mar, a outra, da terra. Estas bestas provavelmente representam o imperador romano e o “culto” de adoração ao imperador, especialmente os sacerdotes que forçavam os cristãos a adorar o imperador, ou morrer.

Alguns estudiosos do Apocalipse acreditam que essas bestas representam um futuro “anti-Cristo” que governará o mundo e será instrumento de Satanás no fim dos tempos. Outros, como eu, acreditam que qualquer um que alegue ser “deus” e demande que o adorem ou morram, é um “anti-Cristo”. Homens maus como Hitler, Stalin ou Mao, são os que me vem a mente como exemplos.

Uma das maiores perdas de tempo para os cristãos é tentar identificar a “besta” em alguém que esteja presente nos noticiários. Por dois mil anos, os cristãos têm adivinhado errado, alegando que o Papa, Hitler, Ronald Reagan e outros eram o anti-Cristo. Se haverá um anti-Cristo no fim dos tempos, ele será óbvio em suas ações, e Cristo o destruirá.

A mensagem do Apocalipse é a de que não temos nada a temer a respeito de ninguém, desde que confiemos em Jesus como Senhor e o obedeçamos.

4. A besta é um computador, a Internet, o código de barras, microchips ou cartões de crédito?

Outra forma bastante idiota de ler o Apocalipse é tentar e encontrar alguma coisa no livro que se encaixe com nossas tecnologias atuais, tais como computadores ou microchips. Qualquer tipo de tecnologia pode ser usado para o bem ou para o mal. Poderia dizer a você, que abandone qualquer interpretação de alguma coisa no livro do Apocalipse, que não faça sentido para o mundo do primeiro século. Computadores e códigos de barras podem fazer sentido para nós, mas não significam nada para os cristãos do primeiro século, e o livro do Apocalipse é muito mais deles do que nosso.

Hal Lindsey, uma vez interpretou os “gafanhotos monstros” que aparecem em Apocalipse 9, como helicópteros. Eu interpreto esses “monstros”, como demônios. Qual interpretação parece fazer mais sentido para todos os cristãos, e qual faz mais sentido apenas para as pessoas modernas? Penso que isso é importante, e nos impedirá de correr atrás de “coelhos estranhos” no livro do Apocalipse.

5. O Papa é o anti-Cristo?

Houve tempos, como na Reforma do século XVI na Europa, em que a igreja católica perseguiu e matou muitos cristãos não-católicos. Isso é mau e vergonhoso,  e a igreja católica tem admitido seus erros em usar de violência contra aqueles que discordavam dela.  Naquela época, entretanto, poderia parecer lógico dizer que o Papa era o anti-Cristo do Apocalipse. Hoje, o Papa, enquanto representante de outro ramo do cristianismo, é claramente um amigo dos cristãos de todo o mundo, e não é um candidato a “anti-Cristo”.

6. O que é a “marca da besta”?

Esta é uma das mais difíceis e obscuras partes do livro do Apocalipse. Ocorre sete vezes no livro, do capítulo 13 até o final. Cristãos modernos tendem a ver isso como algum tipo de sistema de identificação do futuro, que os cristãos deverão evitar, como aplicar um número na testa de alguém, ou um microchip no seu corpo. Ao exigir que os cristãos sejam identificados, isso permitiria que fossem controlados.

A “marca” atual sobre a qual se fala, é provavelmente uma tatuagem que era aplicada em qualquer um que participava da adoração do imperador romano. Esta tatuagem, marcaria você como um cidadão leal de Roma, e permitiria que tivesse trabalho ou negócios. Sem a tatuagem ou marca, sua lealdade ao imperador podia ser questionada. Se recusar a receber a marca, provavelmente significava que você era um cristão.

Obviamente, os cristãos ficariam preocupados com qualquer coisa que pudesse ser usada para marcá-los e facilitar a perseguição. Mas cartões de crédito, microchips com informações profissionais e de saúde, e a internet, não são coisas que os cristãos devem evitar por medo “da marca”.

De novo, podemos perguntar como os primeiros leitores deste livro viam essa “marca”, e então aplicar isso a todos os grupos de leitores.

7. O que é o “ferimento na cabeça” da besta?

De novo, uma parte muito, muito difícil do livro. Muitos estudiosos estão prontos para dizer “eu não sei” e eu estou com eles. É um quebra-cabeças.

A melhor sugestão se parece com essa. Os cristãos foram perseguidos até a morte, primeiro, pelo imperador Nero, em torno de 60 dC. Nero foi morto por um ferimento na cabeça. Quando o imperador Domiciano começou a perseguir os cristãos 30 anos depois, alguns cristãos se sentiram como se Nero tivesse voltado dos mortos. Pode estar se referindo a isso, mas, na realidade, ninguém sabe.

Seja muito cuidadoso e humilde com esta parte do livro de Apocalipse. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo!

8. Onde está o arrebatamento no livro do Apocalipse?

Muitos cristãos acreditam que Cristo vai retornar duas vezes. Uma vez em segredo, para pegar a igreja e tirá-la do mundo, antes de severa perseguição (o arrebatamento), e na segunda vez, para julgar todos no final dos tempos. Estou convencido de que a bíblia ensina que Jesus voltará apenas uma vez, e que os cristãos devem estar preparados para a perseguição, e não esperar um arrebatamento para fora do mundo, antes dos tempos realmente difíceis, começarem. Então, eu não encontro nenhum arrebatamento no livro do Apocalipse.

Aqueles que acreditam no arrebatamento, geralmente dizem que acontece no capítulo 4, quando João é levado ao céu. Há sérios problemas com este ponto de vista, mas este estudo não é sobre o arrebatamento!

9. Quanto tempo vai durar a tribulação?

Este é, novamente, um daqueles termos que é usado de diferentes formas por aqueles que leem e estudam o livro do Apocalipse. Muitos cristãos acreditam que a “tribulação”, é um período de sete anos quando o anti-Cristo vai governar a Terra, depois de os cristão terem sido arrebatados. Outros, como eu, acreditam que “tribulação” é uma palavra usada 40 vezes no Novo Testamento, e ela sempre se refere a algum tipo de sofrimento ou perseguição por ser cristão, e não apenas sete anos.

Acredito que o livro do Apocalipse deixa claro em 7:14 que toda a história é uma “grande tribulação” e que todos os cristãos podem viver nela, dependendo do tempo e lugar onde vivem. Muitos cristãos estão sendo perseguidos hoje ao redor do mundo. Outros cristãos acreditam, que é um período definido de tempo, de sete anos. Parece tolice para mim, dizer que os milhões de cristãos que sofrem no mundo hoje, não estão em “tribulação”, e que isso só virá em algum tempo futuro. Parece mais bizarro ainda, dizer que os cristãos americanos devem orar para escapar da sua própria luxúria, em vez de orar por fidelidade no sofrimento, se é isso que o futuro realmente traz.

10. O livro do Apocalipse não é assustador?

Tive muitos alunos que me falaram que o livro do Apocalipse deixava-os com medo. Alguns, me falaram que a tarefa de leitura do livro, o fez ter pesadelos!  Isso é muito ruim, porque o livro do Apocalipse era para ser encorajador e confortador. Ele termina com uma visão maravilhosa do céu, que tem dado conforto a milhões de cristãos ao longo dos anos.

Mas muitas das cenas no Apocalipse são assustadoras, e para pessoas jovens que já assistiram muitos filmes de terror, algumas destas cenas podem ser perturbadoras.  É especialmente assustador para crianças, ouvir que o mundo vai acabar, as pessoas más ficarão para trás, e coisas terríveis acontecerão aos cristãos. Algumas partes do Apocalipse, lidas sem todo o contexto do livro, podem dar a entender que Satanás e seus demônios estão fazendo tudo acontecer.

Lembre-se, que o livro do Apocalipse é sobre Deus acabando com todo mal, todo sofrimento, e trazendo todo o Seu povo para um lugar maravilhoso, num novo céu e uma nova terra.

A young person’s guide to the book of Revelation – Michael Spencer – Internet Monk

A imagem que ilustra a postagem, é uma gravura chamada “Os quatro cavaleiros do apocalipse“, de Albrecht Dürer, feita em 1498.


Siga as regras… ou não…

julho 8, 2011

Esses dias me vi tendo necessidade de usar um software chamado AutoCAD, e percebi que estava enferrujada. Procurei alguns tutoriais para lembrar de algumas coisas, e comecei a treinar. Num determinado exercício do tutorial, o instrutor ensinava um jeito de desenhar uma porta numa planta baixa, que era muito mais complicado e demorado, do que uma outra forma possível de se fazer o mesmo desenho. Se você já usou tutoriais para aprender a usar algum software, você sabe que, primeiro, ensinam o jeito mais difícil e trabalhoso de executar alguma coisa. Depois que você já aprendeu o mais difícil, é que eles mostram um jeito mais fácil de fazer, os atalhos. E no caso, eu já sabia o atalho. Então, em vez de seguir o tutorial, fiz a porta do jeito mais simples. O resultado, ficou exatamente igual. Obviamente que se a execução de todos os passos, conforme estava no tutorial, fosse usada para avaliar meu desempenho, eu seria reprovada. :P

No começo, eu até estava seguindo os passos do tutorial. Depois, à medida que ia lembrando das coisas que estavam esquecidas mas continuavam arquivadas em algum lugar do meu cérebro, comecei a colocar as asinhas de fora. Como era só um exercício, e não um projeto real, incluí coisas que não estavam no original, mudei outras.

Quando alguém decide seguir Jesus, é a mesma coisa. No começo pode parecer mais seguro seguir os passos de algum tutorial, escrito por alguma outra pessoa. Mas a aventura começa mesmo, é quando você usa o modelo do tutorial como base, mas cria os seus próprios passos, arrisca, ousa, inventa, transforma isso num empreendimento pessoal. Isso quer dizer, que sua inteligência está envolvida na caminhada, que entrou num processo criativo e único, construído entre a pessoa e Deus. Fugindo dos esquemas de produção de crentes em série. A pessoa que está apenas decorando, memorizando procedimentos, não está envolvida na atividade com todo o entendimento. Estar envolvido com todo o entendimento, implica em interagir, entender, pensar junto, participar, dar palpite, e não simplesmente engolir as coisas como são colocadas no prato.

E desde sempre entendi, como Kierkegaard, que amar a Deus acima de todas as coisas, de todo coração, alma e entendimento, implica em ter pessoas, únicas, conscientes, pensantes, livres (inclusive para errar) e criativas, envolvidas pessoalmente, uma por uma, nessa tarefa. Sem intermediários, e sem intérpretes mastigando tudo. Relacionamento pessoal com Deus, não tem nada a ver com a massificação das religiões, que tentam formatar pessoas e nivelar personalidades, porque isso facilita sua própria sobrevivência.

O único jeito de você amar a Deus de todo coração, alma e entendimento, é o seu próprio jeito. O jeito dos outros, é dos outros, não seu.


O fracasso da cruz

julho 6, 2011

por Roger Ferreira

Como eu ia dizendo, a ética ou moral divinas não têm o seu ponto alto no Sinai, mas no Gólgota; não na força da Lei, mas na fraqueza da Cruz. E isso nos perturba deveras, nos confunde.

Hoje, já estamos cansados de saber que Jesus ressuscitou e que subiu ao céus. Estamos até mesmo convictos de que ele, um dia, voltará triunfante em glória. Mas não é essa majestade que nos seduz, que nos conquista: Deus nos cativa pelo fracasso da cruz.

Somos como aquele torcedor que ao ligar a televisão, já no meio do jogo, sem ter simpatia por um ou outro time, de repente, se vê torcendo para o mais fraco. Torcemos por Cristo por causa das chibatadas que levou, por causa da coroa de espinhos, por causa dos cravos em suas mãos e pés. Pelas suas chagas somos sarados.

Essa lucidez é porém abalada quando nos encontramos em crise e estamos vulneráveis à tentação. O Diabo parece nos incitar para que mostremos nosso poder, ou desafiar a que demonstremos o poder de Deus, esquecemos-nos assim, rapidamente, da sedutora fraqueza.

Note a pequena, porém gritante diferença: não negamos o poder, ou a possibilidade de ação e intervenção divinas; o que não se deve é fazer disso um show, uma necessidade. Deus não é um show maker, Deus é um íntimo amante.

As ruas de Nazaré e as poeiras dos caminhos da Galileia assistiram por trinta anos um menino transformar-se em homem, numa forma pacata num viver singelo. Um dia o extraordinário despontou e começou a sacudir aquelas pedras e aqueles rios e lagos. Milagres foram feitos, pessoas foram curadas, comida foi multiplicada, mortos ressuscitaram, demônios foram expulsos, água virou vinho.

Todo palco foi preparado para um ato. Todo poder sobrenatural dos céus foi convocado e exercido durante três anos na preparação de uma cena, a cena do fracasso: Ali no Gólgota homens e ladrões encaram Jesus crucificado e lhe propuseram um sarcástico desafio, “você salvou a tantos, então salve-se a si mesmo”. Todo seu potencial havia se esgotado. Ele se esbarrara em seus próprios limites – se for possível… afaste de mim – não era possível, nem mesmo para o “todo poderoso” Jesus de Nazaré. Ele não podia salvar-se a si mesmo.

Jesus deixou patente que o que lhe prendia àquela cruz era uma força maior que todo poder que Ele já havia demonstrado – e Ele havia mostrado poder de sobra. O fracasso da Cruz é o símbolo de alguém que amou desesperadamente. A ressurreição tem seu peso, mas não seria nada se viesse antes da morte, contornando o calvário. A ascensão ao céus deixaram os homens boquiabertos, mas nada que se compare a loucura ou escândalo da cruz. A segunda volta de Cristo alarga nossos horizontes, mas não chega nem perto da perspectiva insana oferecida pela Cruz.

A fé de um Cristo fracassado, de um Deus nu e morto pendurado no madeiro é o que verdadeiramente impulsiona nossos espíritos a se lançarem sepultura a fora, a deixarem as cadeias do inferno que mordazmente nos acorrenta.

A moral da Cruz, antes de fazer separação entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, ela vem, muito mais, resgatar o verdadeiro e único valor de uma alma, de um ser humano, o real valor de toda e qualquer pessoa, o meu e o seu valor.

Enquanto o Sinai trovejava medo o Gólgota irradiava graça. A morte do Sinai gerava medo e causava pânico, a morte da cruz gera amor e quietude. A ética do Sinai é a ética da força e da condenação, a ética da cruz é a da fraqueza e do perdão. A impotência da Cruz supera a prepotência do Sinai.

O amor lança fora o medo – como todos nós já há muito deveríamos saber.

O fracasso da cruz – A teologia livre