O demônio do campo

maio 26, 2010

Texto extraído do livro “O livro das fábulas“, de Hermann Hesse

Na época em que, no Egito, o paganismo decadente cedia cada vez mais terreno à nova doutrina e floresciam nas cidades e mais humildes lugarejos inúmeras congregações cristãs, os antigos demônios viam-se forçados a retirar-se mais e mais para o deserto tebano. Era um vasto ermo então completamente desabitado, pois os devotos penitentes e os eremitas ainda não se atreviam a penetrar nessa perigosa região e preferiam viver, fechados a toda comunicação com o mundo, em pequenos hortos ou palheiros vizinhos das aldeias ou para além das grandes cidades. Assim, esse grande deserto estava completamente à disposição de Belzebu, com seu exército e séquito, pois as únicas criaturas que lá habitavam eram as feras e uma infinidade de vermes e répteis venenosos. A elas se juntavam agora — desalojados de toda a parte pelos santos e penitentes — os demônios superiores e os diabos inferiores, assim como todos os seres pagãos e heréticos. Entre estes havia os sátiros ou faunos, chamados demônios do campo ou silvanos, os unicornes e centauros, os druidas e muitos outros espíritos; pois Belzebu exercia poder sobre todos eles e era tido como certo que, tanto pela sua origem pagã como pela conformação meio animal, eram desprezados por Deus e não podiam jamais aspirar à sua glória.

Entre esses homens-animais e ídolos pagãos derrubados nem todos eram maus; alguns só a contragosto se submetiam a Belzebu. Outros, porém, obedeciam-lhe com prazer e, em sua raiva, comportavam-se de maneira muito diabólica, visto não saberem por que motivo haviam sido expulsos de sua anterior existência, tranqüila e inofensiva, e empurrados para o seio das criaturas desprezadas, perseguidas e maldosas. Segundo as crônicas da vida do saudoso eremita Paulo e as notícias de Atanásio sobre o santo frade Antônio, parece que os centauros eram seres hostis e malignos mas os sátiros ou demônios do campo eram, até certo ponto, pacíficos e mansos. Pelo menos, está escrito que o bem-aventurado Antônio, durante sua prodigiosa viagem pelo deserto ao encontro de Paulo, deparou-se com um centauro e um demônio do campo; enquanto o primeiro o tratou com rudeza e malícia, o sátiro, pelo contrário, conversou amenamente com o santo e demonstrou até desejo de receber a sua bênção. É desse sátiro ou demônio do campo que trata esta lenda.

O demônio do campo, com outros da sua estirpe, acompanhara os demais espíritos maus até o deserto inóspito e nele vagueava. Como vivera outrora numa frondosa e bela floresta e suas relações se limitavam unicamente aos seus semelhantes e às graciosas driades, ou ninfas dos bosques, o pobre sátiro ressentia-se profundamente desse exílio para lugar tão selvático e da convivência com os espíritos e demônios malignos.

Durante o dia, gostava de afastar-se dos outros, errando solitário entre os rochedos e dunas de areia, sonhando com os lugares verdejantes e férteis de sua vida anterior, despreocupada, alegre, e cochilando umas horas na sombra rala das palmeiras esparsas. De noite, costumava sentar-se em um vale sombrio, rochoso e agreste, de onde brotava um riacho, e aí ficava tocando em sua flauta de junco nostálgicas e dolentes canções, a que sempre acrescentava uma nova. Quando escutavam, ao longe, essas melodias plangentes, os faunos relembravam, pesarosos, os melhores tempos passados. Alguns deles soltavam doloridos suspiros ou entregavam-se a penosas lamentações. Outros, que não sabiam mais do que isso, entregavam-se a danças turbulentas, soltando gritos e silvos estridentes, para esquecer mais depressa o que haviam perdido. Os demônios superiores, porém, debochavam do solitário e pequeno sátiro, arremedavam-no, troçavam dele e ridicularizavam-no de inúmeras maneiras.

Pouco a pouco, depois de ter largamente meditado sobre o motivo de sua tristeza, ter chorado os antigos e perdidos prazeres, e lamentado a desprezível existência atual no deserto, o sátiro passou a discutir tais assuntos com seus irmãos. E logo se formou entre os demônios do campo mais sérios uma pequena comunidade, empenhada em investigar as causas de sua degradação e a possibilidade de refletir sobre retorno ao antigo e paradisíaco estado de espírito.

Todos eles tinham consciência de se encontrarem submetidos ao poder supremo de Belzebu e suas hostes, pois o mundo era regido agora por um novo Deus. Desse novo Deus pouco sabiam. Mas da conduta e modo de ser do Príncipe das Trevas sabiam muito. E do que sabiam não gostavam. Era poderoso, sem dúvida, e entendia muito de feitiçarias, tendo com elas dominado a todos, e suas leis eram duras e terríveis.

Mas, agora, davam-se conta de que o todo-poderoso Belzebu também fora exilado e obrigado a refugiar-se no deserto. Por conseguinte, o novo Deus teria certamente de ser ainda mais poderoso do que ele. Assim, os demônios do campo acabaram por chegar à conclusão de que seria talvez melhor para eles manterem-se-sob as leis de Deus, em vez de obedecerem às de Lúcifer. E por isso estavam ansiosos por conhecer melhor esse Deus, resolvendo procurar todas as informações possíveis sobre Ele. Então, se gostassem do que lhes fosse dito, tratariam de se aproximar d’Ele.

Assim vivia essa pequena comunidade desalentada de demônios do campo, sob a direção daquele que era exímio tocador de flauta, numa tênue esperança de que seus tristes dias pudessem ter fim. Ignoravam, porém, até que ponto era grande o poder de Lúcifer sobre eles. Mas não tardariam em sabê-lo.

Na verdade, foi por essa mesma época que os piedosos eremitas devotos deram os primeiros passos no deserto tebano, até então jamais pisado por seres humanos. Só há pouco anos Frei Paulo, e mais ninguém, ousara penetrar nessas paragens. Dele conta a santa lenda que, durante esses anos, levou uma vida de penitente, vivendo numa estreita caverna, alimentando-se unicamente da água de uma fonte, dos frutos de uma palmeira e de um pedaço de pão que lhe era trazido diariamente das alturas por um corvo.

Foi justamente desse Paulo de Tebas que um dia o demônio do campo tomou conhecimento e como uma certa inclinação, embora tímida, o atraia para as pessoas, procurava observar e escutar freqüentemente o santo eremita. Achava maravilhoso o modo de vida desse homem; pois Paulo vivia na mais santa pobreza e em completa solidão. Não comia nem bebia mais do que um pássaro, cobria o corpo de folhas de palma, dormia sem esteira, numa estreita gruta, e suportava o calor, as geadas, os ventos e a umidade sem um queixume, sujeitando-se ainda a penitências extraordinárias, como ficar rezando de joelhos, horas a fio, numa rocha áspera, ou jejuar dias inteiros, evitando até sua tão parca refeição.

Tudo isso parecia sumamente estranho ao curioso demônio do campo que, no começo, considerou aquele homem um tanto louco. Mas logo notaria que, afinal, Paulo levava realmente uma vida triste e dura, mas sua voz, quando ele orava, tinha um timbre singularmente suave e fervoroso, como se fosse o eco de uma grande felicidade interior; no rosto descarnado pairava uma expressão de tranqüila bem-aventurança e sobre a cabeça grisalha havia como que uma auréola luminosa.

O demônio do campo ficou espiando o penitente durante dias ê
chegou à conclusão de que esse anacoreta era um homem feliz e recebia fluidos de uma felicidade extraterrena que brotavam de ignotas fontes. E como o ouvia louvar e evocar tantas vezes o nome
de Deus, concluiu que Paulo era, certamente, um servo e amigo desse novo Deus e que seria bom pertencer-Lhe.

Assim foi que, um dia, se armou de coragem, saiu de trás de uma rocha e acercou-se do encanecido eremita. Este desviando-se dele exclamou:
— Para trás! Para trás, Satanás! — Mas, ignorando as imprecações, o demônio do campo saudou-o humildemente e, em voz baixa, disse:
— Vim porque gosto de t i , eremita. Se porventura és um servo de Deus, oh, fala-me então d’Ele, conta-me algo do teu Deus e ensina-me o que é preciso fazer para que também eu possa servi-Lo.

Ouvindo essas palavras, Paulo hesitou e, movido pela sua natureza
benévola, explicou:
— Deus é amor, fica sabendo. E bem-aventurado é aquele que O serve e por Ele sacrifica sua vida. Tu me pareces um espirito impuro, por isso não posso dar-te a bênção de Deus. Para trás, demônio!

O demônio do campo afastou-se muito triste, carregando consigo as palavras do crente. Teria dado com prazer sua vida para assemelhar-se àquele servo de Deus. As palavras Amor e Bem- Aventurança, apesar de seu significado um tanto obscuro, soavam–lhe promissoras e deliciavam seu coração, despertando nele uma nostalgia violenta, não menos doce e forte do que a saudade dos perdidos tempos passados. Após alguns dias de silenciosa inquietação, lembrou-se novamente de seus amigos que, como ele, estavam cansados de ser diabos, e contou-lhes tudo. Discutiram muito sobre o caso, suspiraram e não sabiam ao certo o que fazer.

Aconteceu então que nessa mesma época surgiu um outro penitente. Foi instalar-se num lugar ermo e uma multidão de vermes asquerosos fugia e contorcia-se diante de seus pés. Era o santo Antônio. Lúcifer, porém, irritado com a presença do intruso e temendo por sua soberania nesse deserto, logo se empenhou em usar todo seu poder para afastá-lo daqueles lugares. É do conhecimento geral os mil e um ardis a que Lúcifer recorreu para desencaminhar, assustar e afugentar o santo homem. Surgiu-lhe como uma bela e sedutora mulher, como um irmão e confrade; ofereceu-lhe deliciosas iguarias e colocou prata e ouro em seu caminho.

Como tudo fosse em vão, passou a apavorá-lo. Espancava o santo até jorrar sangue, aparecia-lhe nas mais pavorosas formas, atravessava sua caverna com hostes de diabos, espectros, duendes, sátiros e centauros, ou com verdadeiros exércitos de lobos ferozes, panteras, leões e hienas. Também o melancólico demônio do campo tinha de participar nessas cavalgadas tenebrosas mas, quando se acercava do mártir, fazia apenas gestos suaves e compadecidos. Se os seus irmãos zombavam dele, puxando-lhe a barba ou o grosseiro hábito, o demônio do campo pousava o olhar envergonhado no santo e pedia-lhe um silencioso perdão. Mas Antônio não entendia e tomava as atitudes do infeliz sátiro como chocarrice de um espírito maligno. Tendo assim resistido a todas as tentações diabólicas, pôde então viver muitos anos de solitária vida santa.

Quando chegou aos noventa anos, Deus achou por bem dar-lhe
a saber que nesse mesmo deserto vivia um ainda mais velho e digno penitente, e Antônio imediatamente se decidiu a visitá-lo. Sem conhecer o caminho certo, peregrinou ao acaso pelos ermos; mas o melancólico demônio do campo seguia-o furtivamente e ajudava-o, de modo discreto, a encontrar o rumo exato. Por fim, com a sua habitual timidez, apareceu diante de Antônio. Saudou-o com humildade e disse-lhe que ele e seus irmãos ansiavam por conhecer Deus, rogando-lhe que os abençoasse. Mas como Antônio desconfiasse dele, o sátiro afastou-se, entre lamentações compungidas, como também está escrito em todas as antigas crônicas das Vitae Pa trum.

Prosseguindo Antônio em seu caminho, encontrou Paulo, lançou- se-lhe aos pés e foi seu hóspede. Paulo morreu aos cento e treze anos e Antônio foi testemunha de que surgiram dois leões ferozes, rugindo lamentosamente, e com as garras cavaram a sepultura para o santo. Depois disso abandonou a região e regressou ao seu lugar anterior.

O demônio do campo presenciara todos esses acontecimentos à distância. Sentia profundamente no inocente e magoado coração
que os dois santos padres o tivessem rechaçado sem consolo. Como decidira ser preferível morrer a continuar escravo da maldade e como observara, e gravara bem o modo de vida e os gestos do saudoso Paulo, penetrou na mísera caverna onde ele vivera, vestiu seus trajes de penitente, feitos de folhas de palmeira, e passou a alimentar-se de água e tâmaras, ficava horas e horas ajoelhado numa postura incômoda, cheio de dores, sobre duras pedras, e procurava imitar em tudo o eremita defunto.

Apesar de tudo, seu coração entristecia cada vez mais. Era evidente que Deus não o aceitava como a Paulo, pois o corvo que vinha diariamente visitar o ancião nunca mais aparecera. Além disso, bem vira, quando foi visitar Frei Antônio, que o mesmo corvo lhe levara o dobro do pão. Na caverna havia um fólio com os Evangelhos mas o demônio do campo não sabia ler. Em certos momentos, quando ficava ajoelhado até à exaustão e clamava fervorosamente por Deus, sentia perpassar em seu íntimo como que uma suave e furtiva sombra, um pressentimento de Sua presença, mas não conseguia chegar ao pleno reconhecimento.

Lembrou-se então das palavras de Paulo, que para a salvação é preciso morrer por Deus, e decidiu morrer. Nunca vira um seu semelhante morrer e a idéia de morte parecia-lhe algo terrível e amargo. Mas sua intenção era firme. Deixou de comer e beber, e
passava dia e noite de joelhos, repetindo incansavelmente o nome de Deus.

E assim morreu. Morreu ajoelhado, tal como vira Frei Paulo. Momentos antes da morte, viu com espanto o corvo aproximar-se com um pão igual ao que costumava levar ao santo e apoderou-se dele um profundo júbilo, agora certo de que Deus aceitara o seu sacrifício e o elegera para a Redenção.

Pouco tempo depois de sua morte apareceram novos peregrinos, no intuito de se instalarem naquela região do deserto. Quando avistaram o vulto imóvel de joelhos, em traje de penitência e amparado pela rocha, acercaram-se e percebendo que estava morto, decidiram enterrá-lo cristãmente. Cavaram uma pequena sepultura, pois o morto era de pouca estatura, e entoaram preces.

Mas ao levantar o cadáver para sepultá-lo, os peregrinos observaram que, por baixo dos cabelos desgrenhados, havia dois pequenos chifres; e sob as folhas de palmeira viram ocultos dois pés de cabra. Então gritaram apavorados, crentes de que tudo não passava de uma zombaria do Príncipe do Mal. Largaram o morto e fugiram, entoando em altas vozes suas orações.

Moral da história?

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Fé raciocinada

maio 23, 2010

por Marco Alcantara

Disseram-me que para ter fé é preciso abrir mão da inteligência e simplesmente não concordo e nunca vou concordar, pois entendo que crer é um ato pensado (ou pelo menos deveria ser).

Para ter fé não creio que eu deva me desconectar do meu intelecto até o ponto de entrar em transe ou simplesmente abrir mão de qualquer conhecimento que exista no mundo seja ele filosófico, teológico ou proveniente de uma ciência exata qualquer.

Fé é a busca da racionalidade entre coisas que não se vê, mas são conscientes e ponderáveis bem diferentes da loucura, emoção e comoção. E até mesmo alienação.

Mas quem prega a não-inteligência da cristandade prega também as loucuras em nome de Deus e o achismo como revelação espiritual.

Nisso ocasiona-se a morte espiritual de toda uma nação e a fé idiotizante impera. E com isso muitos se protegem da ciência pregando a desinformação como arma apologética.

Mistificamos a ciência e tentamos dar a fé ares de pseudociência para nos sentirmos protegidos de toda linha cientifica, que segundo as “vítimas cristãs” contradiz a bíblia.
Adotamos o criacionismo científico que fugiu da ciência faz tempo e abraçou a especulação sem ter vergonha de cair no ridículo.
Parece que muitos pregam a “ciênciofobia” enquanto do outro lado da moeda existe a “religiofobia”.
Onde foram parar os dinossauros? A ciência explica com clareza e razão, enquanto os que declaram viver por fé tomam duas posturas distintas; ignoram o fato ou mistificam o fato para que ele encaixe apertadinho em sua fé.
Entre estudos apologéticos acalorados e sem razão e frases crentes decoradas o mundo sofre e o homem continua confuso em sua fé e sem ter razão e conhecimento de si e do mundo que o cerca.

Eu não quero defender o “ateísmo-religiofobista” e claro eu não defendo a ciência como algo primordial na vida, mas sim necessário.

E também não posso dizer que um ateu é todo razão e é superior a qualquer crente e que a ciência tem todas as respostas, assim eu cairia em um fundamentalismo cético que me emputece.
Dá para crer e pensar considerando tudo e indo a todas as fontes de pensamento e ciência sem precisar ter medo de algo.

É um pouco engraçado ver gente torcendo o nariz para a ciência enquanto não abre mão da sua TV de Plasma, Aspirina e outras comodidades que os cientistas trouxeram para o nosso dia-a-dia.
Nunca vi a razão (ciência) querer ou se colocar para acabar com a fé de alguém. A razão quebra o dogmatismo, atraso, superstição e intolerância e isso deveriamos tomar para nós não como ato de descoberta científica e sim como prática cristã diária.
Fé raciocinada – Lion of Zion

A fé à luz da psicanálise – Françoise Dolto e Gérard Sévérin

maio 20, 2010
Em “A fé à luz da psicanálise”, a psicanalista francesa Françoise Dolto discorre sobre a fé da perspectiva de sua experiência cristã e de sua prática psicanalítica, com a condução do colega de profissão Gérard Sévérin. Esta obra revela a visão muito particular da psicanalista sobre a fé, a partir da leitura dos Evangelhos – textos, segundo a autora, fundadores da civilização ocidental.
Criada na religião católica romana, Dolto, na juventude, estudou avidamente os textos bíblicos. Já psicanalista, descobriu que a educação religiosa recebida por tantos de seus pacientes muitas vezes é inimiga da vida e da compaixão, em total contradição com aquilo que lhe parecia ser a mensagem de amor e alegria dos Evangelhos. Na visão da autora, tais textos anunciam que hoje é exatamente o momento em que a felicidade sorri para todos, mesmo para aqueles que não o sabem. Nesse sentido, ter fé, para Françoise Dolto, é o mesmo que agir e viver na realidade, e é essa realidade que pode conduzir à verdade incognoscível, ao Real, ou seja, ao campo de Deus.

Este livro, lançado originalmente na França, foi precursor do tema da aliança entre a fé e a psicanálise e causou uma verdadeira revolução nos meios psicanalíticos e religiosos. “A fé à luz da psicanálise” mostra que Jesus não conduz uma moral, mas ensina e provoca o desejo.

Nesta obra, traduzida para nove línguas e lida com entusiasmo pelo mundo todo, Françoise Dolto propõe uma chave de interpretação para descobrir Jesus de maneira inédita.

A fé à luz da psicanálise – Françoise Dolto e Gérard Sévérin


Unidade? Com quem?

maio 18, 2010

É comum pessoas não gostarem, quando outras criticam coisas com as quais não concordam em determinadas denominações que se dizem cristãs. Fala-se muito em não julgar, não separar o joio do trigo e outras coisas mais.

Mas espera aí…

Pode haver unidade entre coisas que não são iguais?

Se você mistura água e óleo num copo, são duas substâncias diferentes, com naturezas diferentes. Elas podem até ficar juntas dentro do copo, mas nunca se dissolvem uma na outra. Você pode claramente distinguir entre uma e outra. Pode separar uma da outra, com muita facilidade.

Se você coloca mais água num copo que já tem água, é tudo água, você não vai mais conseguir separar a água que já estava no copo, da água que foi colocada depois. Se a água que estava no copo estava mais limpa que a água que foi adicionada, a sujeira se dissolve e toda a água fica igualmente suja. Você pode separar a sujeira da água, e pode separar o óleo da água, mas não pode separar água de água.

Logo, unidade real mesmo, só pode existir quando as substâncias envolvidas têm a mesma natureza.

Não é possível, no meu ponto de vista, haver unidade entre defensores da prosperidade, os vendedores de milagres, e o evangelho de Cristo, como o que foi vivido por Madre Teresa de Calcutá, por exemplo. Não é a mesma substância.

É possível haver unidade entre pessoas que, dentro ou fora das instituições, são discípulos de Jesus. Tais pessoas se reconhecem mutuamente, ou pelo menos, deveriam se reconhecer. E essa unidade existe, ainda que muitas vezes, de forma invisível, de uma forma que apenas Deus pode ver. Mas não acho que seja possível haver essa mesma unidade, entre quem tenta viver de acordo com o evangelho, e quem vive de acordo com “teologias” totalmente estranhas aos ensinamentos deixados por Jesus, apesar de usarem e citarem seu nome, de forma abundante.

É possível que haja discípulos sinceros, em instituições que pregam esse Jesus distorcido, que vendem milagres, prosperidade e outras coisas mais, como se vendem mercadorias numa feira? Sim. Mas não creio que conseguirão permanecer em tais locais, onde o que se prega não é o que tais pessoas vivem enquanto discípulos de Jesus. A experiência delas como discípulos, não bate com o que é pregado pela “teologia” de tais instituições. Ficar numa instituição como essa, com a esperança de corrigir os caminhos da mesma, já provou ser uma ilusão. Sair ferido de uma tentativa dessas, é o resultado óbvio.

Escrever frases de efeito usando o nome de Jesus em placas, outdoors e paredes de igreja, tem muito pouco a ver com seguir Jesus.

No próprio Novo Testamento, existe clara distinção entre a multidão, pela qual Jesus tinha compaixão, mas que também sabia que só o procurava por causa do pão que haviam comido e pelos milagres que presenciaram; e os discípulos, os quais eram ensinados em separado; e duvido muito que Jesus falava a eles, nessas “aulas particulares”, sobre prosperidade, sobre a vida vitoriosa e os bens materiais, roupas de luxo, altos salários, e moradias confortáveis que Deus daria a eles,  se fossem fiéis no dízimo e ofertassem com abundância; isso sem contar a hospedagem em hotéis de luxo que eles teriam, durante suas viagens missionárias. O que Pedro pensaria de Jesus, se, depois de ter ouvido falar em tais coisas [prosperidade, bens materiais em abundância, vida confortável, ser recebidos em hotéis de luxo, receber altos cachês, etc], o que se apresentou a ele, foi o suplício de morrer também numa cruz? No mínimo, ia chamar Jesus de mentiroso.

E justamente por não acreditar que tal unidade entre o verdadeiro evangelho de Jesus e essas “teologias estranhas” possa, ou deva ser buscada, é que não uso o espaço aqui do blog, exclusivamente para ficar criticando tais pessoas que vendem prosperidade e milagres; a não ser é claro, quando alguém confunde o que eles pregam, com o que está verdadeiramente escrito no evangelho, coisa que é comum acontecer entre não cristãos. Aí, é preciso sim esclarecer que uma coisa é uma coisa, e outra coisa, é outra coisa.

De forma alguma se trata de juízo de valor, onde quem não segue tais “teologias estranhas” é melhor, menos pecador ou mais salvo do que quem segue. Se trata apenas de separar a Verdade, das mentiras que se dizem em nome da Verdade. Pessoas que têm fé em Jesus e, ao mesmo tempo, acreditam em coisas como a teologia da prosperidade, apesar de estarem, no  meu ponto de vista, iludidas, são irmãos em Cristo também. Mas não se pode dizer o mesmo, de quem prega esse tipo de teologia, e vende ilusões para as pessoas, a respeito de uma vida que nada tem a ver com a vida real do cristão. Tais pregadores, sabem muito bem o que estão fazendo, e as pessoas são apenas meios de conseguir o que desejam: lucro. Nem devo viver em função de atacar esses vendilhões, porque sei que o único capaz de levá-los a corrigir o caminho errado por onde entraram, é Deus. Simplesmente deixo-os de lado, não dou atenção a eles, mesmo porque nem teríamos assunto, e eu não suportaria suas falas cheias de jargões e frases de efeito.

Quem experimentou a graça gratuita de Deus, não vai em seguida tratar de vendê-la ao vizinho, e auferir altos lucros, vendendo algo que recebeu gratuitamente. Graça vendida não é graça, é prestação de serviços; graça comprada não é graça, é suborno.

Eu particularmente, não tenho muito assunto a conversar, com pessoas que acreditam que cristão tem que ser rico, não pode ficar doente, não pode sofrer, não pode ter problemas e etc, e que acham que Deus é seu mordomo particular, e que podem exigir qualquer coisa dEle. Na maior parte das vezes, ouço calada, pois sei por experiência própria, que não adianta muito discutir com essas pessoas. Não suporto esse ufanismo [quando Jesus disse que quem quisesse ser o maior no Reino, devia ser o servo de todos, e não pretender ser servido por todos], e confesso que não tenho muita paciência com esse tipo de discurso, desconectado da realidade e dos ensinamentos de Jesus. Ouço calada e triste, e ainda tenho que controlar a ira que esses pregadores de ilusões, me causam.

Unidade? Difícil… não estamos falando da mesma coisa…


More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns

maio 18, 2010

Prefácio do autor

As causas da violência são variadas e complexas, assim como a violência motivada pela religião. Violência em nome de ideologias religiosas não é algo novo, mas seu potencial destrutivo tem crescido exponencialmente, ao mesmo tempo em que as tecnologias bélicas se tornam mais eficientes. Centenas de livros sobre o assunto religião e violência têm sido publicados nas décadas recentes, com aumento depois do 11 de setembro. As perspectivas oferecidas por esses trabalhos nos ajudam a entender o papel que textos religiosos, política, economia, uso dos recursos naturais, história, nacionalismo, etnocentrismo, fatores sociais, psicologia humana, e imagens do divino possuem na justificação da violência. Apesar dessas perspectivas serem importantes e úteis em proporcionar argumentos para o diálogo, fazem pouco para aliviar a frustração pessoal que muitos de nós sentem em face desse problema crescente. A maior parte da literatura falha em uma ou duas categorias: nas tentativas de explicar o fenômeno, ou nas tentativas de identificar sinais de alerta antes que a violência aconteça.

A primeira abordagem, teorizar para explicar, é importante, mas pode parecer muito abstrata para falar com pessoas fora da academia. A segunda abordagem é igualmente importante e certamente muito útil para órgãos responsáveis pela segurança pública. Este livro é diferente nisso, enquanto há uma discussão a respeito dos motivos, ocorrendo em toda parte, meu objetivo é oferecer um arcabouço teórico que se aproxime mais da aplicação prática do que os trabalhos atualmente disponíveis. Sou formada em teologia com especialização em psicologia da religião, e meu trabalho é de certa forma, transdisciplinar.  Por transitar entre esses dois mundos, talvez esteja em melhor posição que muitos dos teóricos para explorar os meios pelos quais crenças religiosas e mecanismos psicológicos interagem.

O objetivo principal do livro é lançar luz sobre as interações entre nossas imagens de Deus, nosso ego individual e o self coletivo, e trazer à luz o grau em que cada um de nós compartilha a responsabilidade pela transformação do cenário religioso. Porque a posição que eu assumo nesse trabalho, é a de que cada um de nós tem um grau de responsabilidade pessoal pela violência que é cometida em nome da religião, é importante esclarecer alguns termos básicos.

Mesmo em alguns dos melhores textos sobre o assunto hoje, é comum ver “violência” e “terrorismo” usados como sinônimos, e as distinções raramente são feitas entre categorias de violência. A violência é definida aqui como “exercício de força física para causar injúria, ou causar dano a pessoas ou propriedades; ação ou conduta caracterizada por isso; tratamento ou comportamento que tende a causar injúria corporal ou interferir à força com a liberdade pessoal” (Oxford English Dictionary, 2nd ed.). O terrorismo é definido como “uma violência cujo alvo são as populações civis… comunidades, e instituições do estado com o objetivo de atrair o máximo de atenção pública, visando causar mudanças políticas ou alterações de poder em favor da causa dos seus perpretadores.”  Nesse ponto de vista, nem toda violência é terrorismo, e todo terrorismo é violência.

Desde que nem toda violência religiosa é terrorismo, muitos importantes trabalhos teóricos, por se concentrar em atos terroristas, podem não se encaixar. O terrorismo é um fenômeno complicado afetado por muitas variáveis. Toma diferentes formas e ocorre por meios políticos, nacionais e econômicos. É executado para atingir muitos objetivos diferentes e executado por pessoas religiosas e não religiosas. Importante para definir o terrorismo é o fato de que os grupos terroristas são mais fracos do que seus inimigos percebidos. Também importante é sua prontidão em matar não-combatentes para atingir seus objetivos. É bom notar porque a violência religiosa é muitas vezes perpretada não pelo fraco, mas por aqueles que estão no poder. Os exemplos incluem a Inquisição da Igreja Católica Romana, e a guerra formal declarada por autoridades religiosas como os papas, na história cristã, e Maomé no Islã. A psicologia terrorista pode ter muito em comum com violência de gangues, enquanto a violência religiosa sancionada pelos poderosos podem operar por mecanismos distintos, observados por psicoanálises.

Neste trabalho, assumo a posição de que, se estamos interessados nas origens da violência cometida em nome de nossos deuses, precisamos entender a psicologia do ator individual, que é onde a violência começa. Obviamente, indivíduos agem mais destrutivamente em grupos, por isso psicologia social e dinâmica de grupos são importantes, mas não podemos perder de vista o fato de que grupos são feitos de indivíduos. Embora a política, a secularização, condições econômicas, lideranças carismáticas, e muitos outros fatores exerçam influência, o que importa é o que passa nas mentes dos indivíduos. Como veremos, a experiência subjetiva da injustiça ou depravação contam mais que as condições da realidade objetiva.  Fatores externos são necessários, mas claramente não são condições suficientes para a ocorrência da violência religiosa. Perpretadores de violência o fazem porque a forma como percebem suas situações, que, curiosamente, muitas vezes, são objetivamente aquelas do cidadão de classe média que possuem os recursos necessários para mudar seus próprios futuros. Muitas das mais populares teorias sociológicas, políticas e econômicas se baseiam nesse fato.

Encontrei na abordagem psicoanalítica dos arquétipos, desenvolvida por Car G. Jung, a mais promissora. A psicologia de Jung é robusta não só porque é, como veremos, totalmente compatível com os conhecimentos correntes em ciência cognitiva, psicologia e pensamento evolutivo. Está ressurgindo por essas e outras razões. A psicologia dos arquétipos tem se provado ser heuristicamente poderosa. Apesar de haver uma tendência entre muitos psicólogos do século XX para minimizar o trabalho de Jung, a psicologia Jungiana tem tido seguidores entre os analistas para os quais o seu trabalho enriquece outros sistemas e abordagens terapêuticas.  Os clérigos cristãos têm encontrado na psicologia Jungiana e de arquétipos, uma abundante fonte de ideias para melhorar a vida dos seus paroquianos. Muitos leigos inteligentes descobriram na psicologia arquetípica, ferramentas para transformação pessoal. Textos de psicólogos como James Hillman e Thomas Moore, entre outros, tem sido bastante lidos. As teorias de Jung falam com todo um segmento de profissionais e pessoas leigas, talvez mais do que qualquer outro sistema psicoanalítico. Seu trabalho faz sentido com a experiência das pessoas. Então um objetivo desse trabalho, é proporcionar ferramentas conceituais para trabalhar contra a perversão das ideologias religiosas, e fazer uso de conceitos que comprovadamente se comunicam com não especialistas, é a abordagem mais razoável. Tomada como uma lente interpretativa, a psicologia arquetípica pode nos ajudar a construir formas poderosas de tratar o sério problema da violência religiosa.[…]

O prefácio continua, mas para não me estender muito aqui, vou resumir os assuntos dos capítulos do livro, sobre os quais a autora discorre no restante do texto. No primeiro capítulo, ela começa com uma pergunta: a religião pode causar violência? Nesse capítulo, além de uma breve introdução sobre as origens da religião, ela fala sobre como se usa a religião para fugir da responsabilidade pessoal sobre comportamentos e decisões. No segundo capítulo, ela trata de citar grandes eventos de violência religiosa e examina a função exercida pelas escrituras sagradas nesses casos de violência. Cita casos não tão conhecidos como os da história do cristianismo e do islamismo, para demonstrar que violência religiosa nem sempre se baseia em textos sagrados e que portanto, a culpa não seria das escrituras sagradas, e sim do uso que se faz delas. No terceiro capítulo, cujo título em português seria “Buscando as origens da violência religiosa”, a autora se concentra nas teorias sobre o assunto. Com ênfase numa das mais comuns, de que o monoteísmo, por suas características particulares, tem mais potencial de levar pessoas a atos de violência, do que as demais formas de teísmo. No quarto capítulo, as explicações psicológicas mais importantes para os comportamentos religiosos violentos, são examinadas. O quinto capítulo é dedicado à psicologia da religião com ênfase nos princípios de Jung, os quais, segundo a autora, oferecem muitos subsídios para entender a questão com mais profundidade. No sexto capítulo, ela explora premissas filosóficas e teológicas da psicologia arquetípica. Oferece correções sobre falhas comuns no entendimento das teorias de Jung sobre a religião. No último capítulo, ela conclui dizendo que a “imoralidade” dos nossos deuses só pode ser transformada, quando nós mesmos nos tornamos mais morais do que nossos próprios deuses. Uma vez que grupos de pessoas, como os grupos religiosos, são moldados por padrões emocionais acumulados, e pensamentos de pessoas desconhecidas, o problema do grupo é a acumulação de maldades individuais. Como acontece em toda experiência humana coletiva, o mesmo sistema que possui as sementes da violência, contém também as sementes da paz.

Qual semente vai germinar, se é a da violência ou a da paz, é uma escolha dos indivíduos envolvidos nos grupos.

More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns


Reflexão sobre as experiências espirituais

maio 14, 2010

A recente confissão de Davi Silva, sobre as mentiras que propagou em seus testemunhos, tanto em ministrações públicas quanto em gravações de CDs e DVDs, nos leva a refletir sobre a forma correta de tratar fatos e experiências que consideramos espirituais.

Esse tipo de experiência é comum. Mas qual o limite para torná-las públicas, quando são experiências extremamente pessoais, que dificilmente serão vividas de forma igual, por outras pessoas, e que são difíceis de serem comprovadas?

Depois de pensar bastante a respeito, cheguei à conclusão que a melhor coisa a se fazer quando se vive esse tipo de experiência, é guardá-la para você mesmo. Porque afinal, foi algo pessoal entre você e Deus, parte da história do seu relacionamento com Ele, algo que devia ser preservado por você, com todo o carinho. Não são coisas que devam ser banalizadas, tratadas como objeto de comercialização, mesmo que a ideia seja edificar outras pessoas. Principalmente no meio evangélico atual, onde se esquecem dos escrúpulos, para atrair mais pessoas para as igrejas. Vale mentir, vale inventar, vale aumentar os testemunhos, torná-los mirabolantes, verdadeiras viagens na maionese de tanta mentira e invenção humana, desde que isso aumente o IBOPE ou deixe a igreja mais lotada.

Pessoas mal intencionadas, não terão escrúpulos em usar isso para seus próprios interesses. Para elas, os fins justificam os meios, mesmo que Deus não concorde com os meios. O significado que tem para você, não importa para elas.

Outro perigo, é a pessoa se encher de soberba por causa disso. Se considerar melhor do que os outros. E começar a mentir, para impressionar mais ainda, e parecer alguém de alto nível espiritual. E quando se começa a mentir, o ciclo vicioso só vai ser interrompido quando houver um flagrante. E junto, virá a vergonha, a desmoralização, perda de confiança das pessoas que antes confiavam em você, e achavam que você estava falando a verdade. Muitos podem até perder a fé, quando mentiras envolvendo testemunhos de pessoas públicas, são descobertas – e nesse caso, o erro foi também de quem embasou a fé em tais coisas, porque usou como base um testemunho humano, e não Deus.

Guarde essas experiências para si mesmo, como um tesouro. Como presentes, dados por um amigo especial. Como se guardam segredos que foram confiados a você, por uma pessoa que você ama. Assim como você faria, com relação a coisas que dizem respeito a quem você ama, faça com o que diz respeito ao seu relacionamento com Deus. Não deixe que sua história com Deus seja transformada em objeto de venda e manipulação, por outras pessoas.

Afinal, o relacionamento mais importante da sua vida, é o que você tem com Deus.


Jesus não nos mandou abrir igrejas

maio 13, 2010

por Hugo

A RECESSÃO AMERICANA causou um fenômeno interessante na área em que vivo: muitos negócios estão fechando suas portas e diversas áreas comerciais estão se tornando depressivas. Em muitos salões comerciais onde antes havia restaurantes, lojas, farmácias e supermercados, hoje há o vazio da recessão. Em uma época em que o metro quadrado comercial nunca esteve tão barato aqui na Califórnia, diversas igrejas estão tentando preencher o vazio da recessão, alugando estes imóveis, para a alegria de seus proprietários. Este é um costume novo aqui nos EUA, trazido em grande parte pelas comunidades latinas: usar prédios comerciais como casas de adoração. Como resultado, em uma única área comercial, às vezes é possível observar uma babilônia de quatro ou cinco igrejinhas, cada qual com seu nome diferente e com meia dúzia de gente dentro. A febre imobiliária no meio evangélico é tanta que em uma determinada cidade aqui do Vale, há um projeto de lei municipal que proíbe que igrejas aluguem qualquer imóvel situado em centros comerciais.

Hoje em dia fala-se muito em “plantação de Igrejas”. Na maioria das vezes em que alguém usa esta expressão, está na verdade se referindo à abertura de mais um negócio religioso. Em outras palavras, se o cidadão tem a intenção de “plantar uma igreja” na cidade, logo começa a buscar um imóvel para alugar, um lugar onde possa encher com cadeiras, sistemas de som, um púlpito e um gasofilácio (nas igrejas mais tradicionais). A partir daí, o obreiro se mune de um microfone e começa a pregar (às vezes aos berros) na esperança de que os transeuntes decidam entrar no mais novo aprisco de tijolos da cidade, entre os diversos já existentes, às vezes no mesmo quarteirão. Seu alvo, a partir daí, é colocar o maior número possível de pessoas dentro deste cubículo, como sardinhas enlatadas, para assim poderem mudar a um lugar maior. Em termos de igreja, isso é o que se chama de progresso: quanto maior o aperto, maior a benção…

Não julgo tais pessoas por entender que a maioria dos obreiros que assim fazem trabalham para o Senhor de coração, somente reproduzindo aquilo que viu seus pais na fé fazerem. Mas sinto que muitas vezes queremos começar a construir a Casa de Deus pelo telhado, ao invés do alicerce.

Jesus chamou um pequeno grupo de homens para caminharem com ele. Sua prioridade era edificar na vida destes discípulos para que eles fossem suas testemunhas. Se lermos as Escrituras com atenção, veremos que Jesus muitas vezes despedia as multidões para poder estar a sós com estes homens. Muito daquilo que Cristo fazia entre as multidões visava, na verdade, ensinar os seus discípulos a ministrar de forma prática, e não necessariamente atrair multidões atrás de si e fundar uma mega-igreja no Oriente Médio. Ironicamente, hoje em dia, fazemos justamente o contrário: sonhamos com as multidões e negligenciamos nossos discípulos em um nível mais pessoal. A grandeza de um homem de Deus se mede, hoje em dia, pelo tamanho da multidão à qual ele ministra, não pelos relacionamentos profundos que ele nutre com seus discípulos e pelos sólidos alicerces que lança em suas vidas. Queremos impactar a cidade ou o país a partir do púlpito, mas não sabemos cultivar “a intimidade do cenáculo” com alguns poucos. Adoramos trovejar às massas sem rosto e sem nome, mas fugimos do indivíduo e de suas esquisitices pessoais (afinal, estamos ocupados com coisas mais importantes). Compramos horários de rádio e TV, queremos que o mundo ouça nossa mensagem, mas não temos ouvidos para escutar alguns poucos ao nosso redor. Muitos de nós nos tornamos girafas pescoçudas que não sabem comer das pastagens mais baixas, somente das árvores mais altas. Queremos fazer coisas grandes para Deus sem, no entanto, cuidar das pequenas coisas que dão forma e característica a uma verdadeira Igreja. Deixamos de ser pastores, para nos tornarmos servidores de mesa, administradores de mais um feudo religioso, entre tantos existentes na cidade.

Tenho a impressão que muito daquilo que alguns chamam de “ministério” acabou se tornando church business. Nos tornamos demasiadamente sofisticados e pouco pessoais.

Leia o restante da postagem, no link abaixo:

Jesus não nos mandou abrir igrejas – Hugo – Pão & Vinho