Idolatria a políticos

junho 5, 2018

Em postagem anterior, fiz uma crítica aos cristãos que falam de forma apaixonada sobre o condenado em duas instâncias, o ex-presidente petista Lula, como se ele fosse um deus e merecesse veneração. Pura idolatria, de quem colocou um partido e um político acima de Deus. E transformou ideologia em religião.

Porém, do outro lado, vejo outros cristãos, entregues ao mesmo tipo de idolatria, a outro político profissional, Jair Bolsonaro. Em torno dele, existe uma verdadeira seita, pronta a atacar ferozmente quem questionar ou criticar qualquer coisa que o líder deles diga ou faça.

O curioso é que Jair Bolsonaro usa um bordão onde diz: “Deus acima de todos”. Enquanto permite que seus “seguidores” se comportem como fanáticos, xingando e agredindo qualquer um que se recuse a ajoelhar diante deste “altar”.

O apóstolo Pedro deu o exemplo, quando Cornélio se prostrou diante dele:

No outro dia chegaram a Cesaréia. Cornélio os esperava com seus parentes e amigos mais íntimos que tinha convidado.
Quando Pedro ia entrando na casa, Cornélio dirigiu-se a ele e prostrou-se aos seus pés, adorando-o.
Mas Pedro o fez levantar-se, dizendo: “Levante-se, eu sou homem como você”.

Atos 10:24-26

Paulo e Barnabé também reagiram com veemência contra a idolatria da multidão:

“Homens, por que vocês estão fazendo isso? Nós também somos humanos como vocês. Estamos trazendo boas novas para vocês, dizendo-lhes que se afastem dessas coisas vãs e se voltem para o Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há.

Atos 14:15

Não sacrifique o seu senso crítico no altar de um político. Seja ele quem for, é humano e não merece nem deve ser idolatrado. Quando seres humanos se deixam dominar pela idolatria, os resultados são trágicos. Quem age assim, acaba se arrependendo depois. Todo ídolo está fadado a decepcionar seus adoradores.

Lembre que não existe salvador da pátria. E se você é cristão, o Salvador já veio. Então não busque salvação onde ela não existe. Militares, sindicalistas, populistas e demagogos, quando posam de salvadores da pátria, estão apenas mentindo.

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O ídolo está nu

abril 17, 2018

É triste quando os cristãos brasileiros gastam energias imensas defendendo um partido ou um político qualquer, e logo quebram a cara, pois ídolos de barro sempre acabam decepcionando. Muitos nem percebem o quanto agem por puro fanatismo. O exemplo mais assustador e recente, é o do ex-presidente e atual condenado Lula, alvo da idolatria de alguns cristãos.

Conheço cristãos que não falam em Deus de forma tão apaixonada como defendem este condenado em duas instâncias. É triste. São escravos de um ativismo político que já degringolou ao fanatismo irracional, sem base na realidade, sem conexão com os fatos. Estão cegos e pensam ter visão privilegiada, que vê o que os demais não conseguem.

Para eles eu digo: O seu ídolo está nu.


Mais ortodoxia

janeiro 1, 2018

Nesses dez anos desde que passei a me considerar cristã, gastei um bom tempo flertando como todo tipo de teologia considerada “não ortodoxa”. Não sei dizer se fiz isso por vontade de investigar a fundo a religião onde estava ingressando, ou por mera dificuldade em aceitar a fé como ela vem sendo explicada desde o princípio. Talvez fosse um pouco das duas coisas.

Não pretendo aqui entrar no mérito das teologias e doutrinas diferentes que vi por aí. Mas é possível ter uma ideia lendo coisas antigas aqui do blog. Posso apenas afirmar que depois de tanta viagem, encontrei, como Chesterton, o bom e velho cristianismo de 2000 anos. Os modismos passam, as teologias mudam, os teólogos morrem e com eles boa parte das suas ideias, desaparecem. Muitas delas sequer deixam vestígios. Muitos dos que eram recentemente bastante ativos, deixaram de ser relevantes e incensados, e foram rapidamente esquecidos. A boa e velha nova do evangelho é a que permanece.

Hoje prefiro me aprofundar na história do cristianismo e deixar de lado esse tipo de debate sobre Deus ser onisciente ou não, saber o futuro ou não e coisas do tipo. Na história do cristianismo acabamos percebendo não haver mesmo nada novo sob o sol. Tudo já foi debatido antes. Deixei de lado também muitos dos teólogos pós-modernos, pois em algum momento percebi serem mais filósofos do que teólogos. Em outro momento, percebi também que muitos deles não são pensadores da religião, e sim pessoas contaminadas por ideologias alheias ao cristianismo. Tentam a todo custo fazer com que a teologia se conforme à ideologia, quando devia ser o contrário. Deus está acima da guerra ideológica, e por isso não os levo mais a sério de forma alguma. Bons tempos onde os teólogos sabiam ser Deus o início e o fim de todas as coisas e partiam deste princípio. Muitos deles consideram a si mesmos como o início e o fim de tudo.  São loucos, e não teólogos.

Hoje prefiro o mistério e não saber todas as respostas. Prefiro o bom e velho credo dos apóstolos e o Pai Nosso. Porque é o que fica quando todos os modismos passam. O cristianismo continua, já morreu e ressuscitou muitas vezes e continuará fazendo isso, pois o morrer e o ressuscitar fazem parte dele desde o início.

Todos nós desejamos o progresso, mas se você está na estrada errada, progresso significa fazer o retorno e voltar para a estrada certa; nesse caso, o homem que volta atrás primeiro, é o mais progressista. C. S. Lewis.


O bom e velho Chesterton

setembro 17, 2017

Do livro “Ortodoxia“, de G. K. Chesterton, escrito em 1908.

[…]O cristianismo era atacado de todos os lados e por todas as razões contraditórias. Mal um racionalista acabara de demonstrar que ele pendia demais para o oriente, outro demonstrava com igual clareza que ele pendia demais para o ocidente. Mal a minha indignação se arrefecia diante de sua configuração quadrada angular e agressiva, minha atenção era novamente chamada para observar e condenar sua irritante natureza redonda e sensual.[…]

[…]Não parecia tanto que o cristianismo era suficientemente perverso a ponto de incluir qualquer vício, mas sim que qualquer pau era bom para bater nele. Como seria essa coisa assombrosa que as pessoas queriam tanto contradizer, a ponto de fazê-lo sem importar-se em contradizer a si mesmas?[…]

[…] Subestimam o cristianismo os que dizem que ele descobriu a misericórdia; qualquer um poderia descobrir a misericórdia. De fato todo mundo o fez. Mas descobrir o plano para ser misericordioso e também severo – isso foi antecipar uma estranha necessidade da natureza humana. Pois ninguém quer ser perdoado por um pecado grande como se fosse um pecado pequeno.

Qualquer um poderia dizer que não deveríamos ser totalmente infelizes, nem totalmente felizes. Mas descobrir até que ponto alguém pode ser totalmente infeliz sem eliminar a possibilidade de ser totalmente feliz – isso foi uma descoberta na psicologia. Qualquer um poderia dizer: “Nem pavonear-se, nem rastejar”, e seria um limite. Mas dizer: “aqui você pode pavonear-se e ali pode rastejar” – isso foi uma emancipação.[…]

[…] O que o pastor cristão conduzia não era um rebanho de ovelhas, mas sim uma manada de touros e tigres, de terríveis ideais e vorazes doutrinas, cada uma delas forte o suficiente para transformar-se numa falsa religião e devastar o mundo.[…]

[…] Essa é a emocionante aventura da ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante quanto a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética.[…]

[…] É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo – isso teria sido de fato simples.

É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda; e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.


Cegueira Moral

setembro 9, 2017

[…]Os pontos de referência e as linhas de orientação que hoje parecem confiáveis amanhã serão identificados como equivocados ou corruptos. Empresas em teoria sólidas são desmascaradas como produtos da imaginação de seus contadores. O que quer que hoje possa ser “bom para você” amanhã pode ser reclassificado como veneno. Compromissos em aparência firmes e acordos assinados com solenidade podem ser rompidos da noite para o dia. E as promessas, ou pelo menos a maioria delas, são feitas só para serem traídas e quebradas. Não parece haver alguma ilha estável e segura em meio às correntes. Mais uma vez citando Melucci, “não temos mais um lar; somos sempre compelidos a construir um lar e depois a reconstruí-lo, tal como na história dos três porquinhos, ou temos de levá-lo conosco sobre nossas costas, como os caramujos”.

O tsunami de informações, opiniões, sugestões, recomendações, conselhos e insinuações que inevitavelmente nos assola nos tortuosos itinerários de nossas vidas resulta numa “atitude blasé” em relação a “conhecimento, trabalho e estilo de vida” (em relação à vida em si e a tudo que ela contém)[…]

Os trechos acima foram extraídos do livro Cegueira Moral – a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zigmunt Bauman e Leonidas Donskis.

O irônico nisso, é que se hoje muitos se sentem sem ter um lar ou sem base, foi por escolha própria. Primeiro dinamitamos as nossas próprias bases, inclusive as morais, e depois nos espantamos quando somos arrastados pela enxurrada, nos agarrando a qualquer coisa que pareça sólida. E infelizmente para nós, em tempos de física quântica, nada parece sólido, não é? Não sabemos mais como levar nossas vidas (ou simplesmente somos levados, sem ter como, nem onde nos segurar), e com isso enriquecemos os que conseguem colocar a cabeça por cima da água e se intitulam “gurus” dos demais, ou parecem saber para onde a água está nos levando. Não sabemos mais distinguir entre o que realmente importa e o sem importância alguma. Quando se está a deriva, qualquer porto serve. Será?

Colhemos o que plantamos. E não é a primeira vez. Pois apesar de parecer algo novo, a humanidade já passou por isso antes, em diferentes graus de intensidade. Apenas não lembra. É tanta coisa para ver, ouvir e sentir, e nada permanece, nada parece importante. É como aquela postagem do Snapchat. Precisamos ver logo, pois em poucas horas não estará mais ali. E depois de ver, descobrimos ser apenas mais uma idiotice.

Pode demorar muito para percebermos que reconstruir as bases, poderá ser a nossa salvação. Como animais desembestados, saímos correndo ao perceber que o pasto parecia não ter mais cercas, o pastor tinha sumido ou nunca existiu, e o horizonte parecia não ter mais fim. Julgávamos os limites como obstáculos ao progresso da humanidade, mas não iremos descobrir um dia, que os limites eram na verdade grades de proteção, e não obstáculos a serem ultrapassados?

Assim como com a cegueira visual, na cegueira moral existem cegos de nascença, existem os que ficaram cegos ou foram cegados, e existem os que escolheram não ver. Existem também aqueles que enxergam seletivamente, são daltônicos morais.

É bom saber, vivendo no meio desta bagunça, que a rocha firme continua no mesmo lugar.


Despertar, ou viver chapado?

junho 13, 2017

Terminei de ler um suposto guia para a “espiritualidade sem religião”, escrito por Sam Harris. Só o fato de o autor ser ateísta, já me deu pistas do que podia esperar do livro. E ele não decepcionou. Negativamente falando, é claro.

A primeira pergunta que fiz é: por que diabos um ateu precisaria de um guia sobre espiritualidade? Fui ateísta a maior parte da minha vida, e na época simplesmente encarava o que chamavam de “vida espiritual” como mentira pura e simples; ou no máximo, uma ilusão confortável. Não ficava por aí rastejando atrás de “gurus” no Nepal e no Tibete, enquanto usava drogas alucinógenas, em busca de transcendência, como Sam Harris relata ter feito quando tinha 20 e poucos anos. Eu com 20 e poucos anos, estava cursando uma graduação, e não quase morrendo afogada, depois de cair na água sob efeito de drogas alucinógenas, num país oriental distante. Sam Harris cita Aldous Huxley, mas nem chega perto dele no que diz respeito a discorrer sobre espiritualidade. Seu principal erro foi ter desconsiderado as experiências da espiritualidade ocidental como merecedoras de crédito ou de serem levadas a sério, coisa que Aldous Huxley não fez. Sam Harris fala quase com deslumbramento dos seus ex-gurus indianos, nepaleses ou tibetanos e de suas experiências com drogas alucinógenas. É isso que ele chama de espiritualidade? Se minha espiritualidade for baseada na fé em um ser superior, ela é tratada como inválida pelo autor, mas ele mesmo considera valiosa a experiência espiritual provocada por alucinógenos. Afinal, quem precisa ter fé quando tem LSD e Ecstasy, não é mesmo? Quem precisa amar de verdade, quando uma droga oferece falso afeto? O problema é quando você descobre que existe algo chamado “vida espiritual” estando bem acordado e consciente, e não sob efeito de alucinógenos. Foi dessa forma que eu descobri. Esse é o tipo de experiência impossível de esquecer. É real, e não uma ilusão, ou alucinação que passa quando a droga deixa de circular no seu sistema.

Já faz muitos anos que usei substâncias psicodélicas, e minha abstinência  nasceu de um respeito saudável pelos riscos que elas trazem. Contudo, aos vinte e poucos anos houve um período em que considerei a psilocibina e o LSD ferramentas indispensáveis, e passei algumas das horas mais importantes da minha vida sob a influência destas substâncias. Sem elas eu talvez nunca descobrisse que existe na mente uma paisagem interior que vale a pena explorar.

Não há como deixar de lado o papel da sorte. Se você tiver sorte, e se usar a droga certa, saberá o que é ser iluminado (ou chegará suficientemente perto disso para se convencer de que a iluminação é possível). Se tiver azar, saberá o que é ser insano clinicamente.[…]

Se você tiver sorte com o LSD ou o Ecstasy, segundo Sam Harris, se sentirá iluminado. Se tiver azar, poderá ficar louco, ou ter uma parada cardíaca e morrer, por exemplo. Entrar em coma também é uma possibilidade. É como brincar de roleta russa. Nem vou comentar sobre o uso de palavras como “sorte” e “azar” no texto de um “cético”. Nosso autor relata uma sensação de intenso amor por um amigo, enquanto fazia uso de Ecstasy, uma droga que por sinal, é ilícita. É ilícita não porque alguma bancada evangélica por aí pretende impedir nosso prazer, e sim, porque oferece muito mais riscos do que benefícios, tanto em curto quanto a longo prazo. Esta falsa sensação de afeto, é um dos efeitos colaterais da droga. O autor sabe disso. É uma sensação FALSA de afeto. Ela passa quando cessa o efeito da substância. Bem diferente do amor que vem do alto. Bem diferente do amor genuíno que uma pessoa é capaz de vivenciar, sem estar usando nenhum tipo de droga. Tentar juntar este falso afeto, quimicamente induzido por um alucinógeno, com o amor genuíno do qual o ser humano é capaz, como se ambos fossem a mesma coisa, é pura desonestidade intelectual. Que pena para você, Sam Harris, ter passado as horas que considera as mais importantes na sua vida, chapado.

[…]Portanto, o que quer que se possa ver ou sentir depois de ingerir LSD, provavelmente poderia ser visto ou sentido por alguém, em algum lugar, sem a droga.

Então por quê cargas d’água eu usaria uma droga que pode me fazer parar numa ala psiquiátrica, ou talvez, no cemitério?

O que fica, sobre esta tentativa de enveredar pela carreira de guru espiritual, feita por Sam Harris, é: o ateísmo segue incapaz de responder aos anseios e dúvidas mais profundos da humanidade. As camadas de verniz espiritual que o autor tenta colocar sobre sua proposta filosófica para um mundo onde alma, fé e Deus não existem, não são capazes de esconder isso. Como guru, Sam Harris é um cético razoável. Não se fazem mais ateus como antigamente.

A droga que Sam Harris usou, não abre portas da percepção, e sim, arromba essas portas. Viola as fechaduras, como um ladrão. Uma porta arrombada nunca mais funciona normalmente. Como Deus não é ladrão, nem brinca de roleta russa com ninguém, talvez a gente só consiga ver uma frestinha de luz. Continue a bater, em vez de colocar dinamite na porta pra forçar a passagem, correndo o risco de explodir junto com ela. Fica a dica. ; P

Hoje vemos em parte, um dia veremos face a face.


Ímpio

outubro 5, 2016

livro-o-impioAcabei de ler um livro que fazia muito tempo estava parado aqui. Trata-se de “Ímpio, o evangelho de um ateu”, de Fábio Marton.

Minha primeira observação é saber porque um ateu dá nome de “evangelho” a um livro. Evangelho significa “boas novas”, e o livro do Fábio Marton, está longe de ser parecido com uma boa nova. É apenas mais um livro de um ateu, um ex-crente, criticando os crentes e as igrejas das quais fez parte ao longo da vida, e tentando ganhar dinheiro com a história. A diferença deste para outros que já li, é que o Fábio satiriza mas ao mesmo tempo demonstra certo afeto por aquelas pessoas todas que aparecem no livro.

No texto, o autor critica os crentes e detalha a sua vida desde criança no meio evangélico, começando numa igreja em Osasco e depois vindo morar em Curitiba, nos piores bairros possíveis. E uma vida repleta de dramas e tragédias pessoais. Era nerd, solitário, obeso e sofria bullying na escola, e a oração dele mais frequente, segundo ele mesmo, era pedindo a Deus uma namorada e um amigo. Sua mãe morre num acidente de carro; o irmão fica paraplégico nesse mesmo acidente; o pai, pula de fracasso em fracasso, de um relacionamento para outro e de igreja em igreja. Fábio passa a morar de favor com parentes depois da morte da mãe, numa cidade que também não era a sua, e da qual ele nitidamente não gostava.

O autor foi transformado num pequeno fanático religioso, tipo Nietzsche, que como ele também havia sido uma espécie de pregador-mirim. Virava alvo na escola por ser crente, nerd e obeso. O grau de fanatismo dele era tão grande, que chegou a entrar numa “disputa” mental com uma macumbeira quando tinha sete anos. Acreditou ter ganho um dente de ouro de Jesus. Acreditou ter sido escolhido por Deus para uma revelação: o mundo ia acabar numa certa noite. Obviamente a noite passou e o mundo continuou onde estava. Mais adiante no livro, ele conta como pediu a Deus para ressuscitar sua mãe quanto esta morreu. Para mim parece óbvio que isso ia acabar em grande decepção, como de fato acabou. Afinal, Deus tem culpa da visão deturpada que o autor tinha a respeito de quem ou como Ele é ou devia ser? Que culpa Ele tem de não ser aquela lâmpada mágica pronta a resolver todos os problemas, desde que seja bem esfregada com muita oração,  como é pintado em muitas igrejas? O próprio autor disse em uma entrevista a respeito do livro, que quando era crente, acreditava que as coisas deviam cair prontas do céu. Expectativas erradas, baseadas em péssima teologia e abusos por parte de igrejas totalmente sem noção, geraram o Fábio Marton e o seu livro.