Jesus: A New Vision: Spirit, Culture, and the Life of Discipleship – Marcus J. Borg

dezembro 21, 2010

Trechos da Conclusão

Quem Jesus foi é tanto um desafio para a igreja e a cultura no século XXI como era em sua própria época. A “nova visão” de Jesus – uma imagem do que pode ser conhecido a respeito dele, assim como sua própria visão sobre a vida – radicalmente coloca em questão nossas formas mais comuns de ver e nos convida a ver de forma diferente. Tanto para cristãos quanto para não cristãos, o que pode ser conhecido sobre Jesus é um testemunho vívido da realidade do Espírito. A maioria das gerações não precisou ouvir isso, porque a maioria das gerações tinha a realidade do Espírito como verdade. Nós não, We do not, em grande medida até dentro da igreja, por causa do efeito pervasivo da imagem moderna da realidade nas mentes dos que creem e dos que não creem. Para muitos, a fé torna-se uma luta para acreditar no que é ensinado pela igreja, apesar do fato de não fazer muito sentido para nós. Como um conjunto de crenças nas quais se deve acreditar, o cristianismo (e todas as religiões que afirmam “outro mundo”), é radicalmente desafiado pela imagem da realidade que preenche a mente moderna.

Precisamente nessa situação, o Jesus histórico como uma pessoa cheia do Espírito na vertente carismática do judaísmo chega até nós. A experiência de Jesus de um mundo do Espírito desafia a visão moderna de mundo de uma forma que nenhum sistema de crenças faz. O que ele parece estar tentando nos lembrar é que houve figuras em todas as culturas que experimentaram o “outro mundo”, e que somos apenas nós, em nosso período moderno, que passamos a duvidar dessa realidade.

A relação intensa com o Espírito vivida por ele, nos convida a considerar que a realidade pareça outra diferente daquela que nós, em nossa visão moderna, imaginamos ser. A sua vida sugere poderosamente que o Espírito é “real”. Sendo o Jesus histórico um testemunho sobre a realidade do Espírito, ele nos fornece uma imagem vívida sobre o que seria essa vida no Espírito. É uma imagem impressionante. Há, é claro, os poderes espetaculares do Espírito fluindo por meio dele. Mas não podemos pensar somente no espetacular; os registros históricos sobre ele sugerem outras qualidades excepcionais. Ele era uma pessoa marcadamente livre. Livre do medo e da preocupação ansiosa, era livre para ver com clareza e amar. Sua liberdade era embasada no Espírito, de onde vinham as outras qualidades centrais da sua vida: coragem, discernimento, alegria, e acima de todas essas, a compaixão. Todas eram produto do Espírito – “frutos do Espírito”, como Paulo as chamava. Então, o que podemos saber sobre Jesus nos convida a ver “vida no Espírito” como uma alternativa marcante à essa forma pela qual nós tipicamente vivemos nossas vidas.[…]

[…]O Jesus histórico como epifania de Deus

Como uma epifania de Deus, Jesus era uma “divulgação” ou “revelação” de Deus. Ele não revelou Deus apenas em seus ensinamentos (mesmo que a revelação consista primariamente de informação), mas no seu jeito de ser. A epifania era Jesus – sua “pessoa” assim como sua mensagem. Assim, ele era uma “imagem” de Deus, um “ícone” de Deus, revelando e mediando a realidade divina. O que ele era portanto, revela como Deus é.

Em linguagem tradicional, Jesus era uma revelação do amor de Deus. Para os cristãos, como “Verbo feito carne”, ele era o amor de Deus encarnado. Sua vida, portanto, fornece uma ideia sobre como o amor de Deus é, dando forma concreta ao que era só uma abstração. A qualidade particular desse amor é vista acima de tudo na compaixão que vemos no Jesus histórico. É a compaixão que o leva a tocar leprosos, curar no sábado, ver nos membros ostracizados da comunidade humana, “crianças de Deus”, e arriscar sua vida com o objetivo de salvar essas pessoas de um futuro o qual ele podia ver e elas não podiam.

Há também uma dimensão social assim como uma dimensão individual na compaixão de Deus como vista em Jesus. Para ele, assim como para os profetas antes dele, a compaixão divina inclui aflição e raiva contra a cegueira, injustiça e idolatria que causam sofrimento ao ser humano. Isso incluía aviso sobre o juízo, como ameaça e forma de intimidação, e como coisa atual.  A cegueira persistente e a negligência têm suas consequências. Como uma imagem de Deus, Jesus espelha o cuidado de Deus com o que acontece aos seres humanos no mundo da história. A vida cultural interessa a Deus.[…]

[…]Jesus como um modelo para o discipulado

Jesus é também um modelo para a vida cristã. A noção é expressa nos evangelhos com a imagem do discipulado. Ser discípulo de Jesus significa algo mais do que ser aluno de um professor. Ser discípulo significa “seguir após”. Quem quiser ser meu discípulo, disse Jesus, “venha e siga-me”.  O que significa ser um seguidor de Jesus? Significa levar a sério o que ele levava a sério, ser como ele em algum sentido. É sobre isso que Paulo está falando quando diz, “sejam imitadores de Cristo”. O que Jesus era como figura na história, torna-se um modelo para o discipulado, iluminando e encarnando a visão da vida para a qual ele chamou seus discípulos.

Esta visão é uma vida vivida nas fronteiras do Espírito e da cultura, participando em ambos os mundos. Tem três elementos principais. Primeiro, sua fonte é um “nascimento” no Espírito. O nascimento envolve aquele “morrer para si mesmo” sobre o qual Jesus falou e o qual ele mesmo experimentou: “se alguém quiser vir depois de mim, negue a si mesmo e pegue sua cruz, e siga-me”. O epigrama de Bonhoeffer tem esse significado: “Quando Cristo chama um homem, manda ele vir e morrer”. A morte leva para uma nova vida, um novo nascimento fora do mundo da sabedoria convencional e a preocupação com si mesmo e as seguranças que o sustentam, para uma nova forma de ser. Ser “nascido do Espírito” cria uma nova identidade radical, que não é mais a conferida pela cultura.  É uma caminhada até aquele “lugar” onde qualquer um pode chamar Deus de Pai.

O segundo elemento principal da vida no Espírito é sua qualidade dominante: compaixão. Era assim com Jesus Como a matriz sobre a qual ele ensinava e vivia, compaixão é tanto um sentimento quando um modo de ser. Alguém pode sentir compaixão e é compassivo. Não simplesmente um sentimento de boa vontade benevolente, mas a ternura e o acolhimento que torna a empatia possível – um sentimento para com os outros e uma capacidade para ser movido pela sua situação. Como um sentimento, torna-se um gerador de atitudes. Como um jeito de ser, é um modo persistente ou qualidade de caráter, uma “virtude”, para usar uma palavra comum. Alguém que é compassivo.

A compaixão é uma graça, e não uma conquista. Sua constância não depende, em última análise, de um esforço da vontade, mas de um relacionamento com o Espírito. Esse é o embrião da centralidade radical em Deus que vemos em Jesus; esvaziando-se de si mesmo, pode-se ser preenchido pelo Espírito de Deus o compassivo.Para mudar a metáfora, este é o principal “fruto do Espírito”. Se levamos Jesus a sério como uma revelação da vida no Espírito, então crescer na vida cristã é essencialmente crescer em compaixão.

O terceiro elemento central da vida no Espírito é um relacionamento dialético com a cultura. A nova vida é simultaneamente menos envolvida e mais envolvida na cultura. Como um movimento para uma vida embasada no Espírito de Deus, é um movimento para fora da maior parte das seguranças oferecidas pela cultura, entre as quais bens, status, identidade, nação, sucesso, justiça. As distinções geradas pelo mundo da sabedoria convencional são vistos como: produtos socialmente criados que não fornecem nenhuma satisfação permanente. A visão da vida vivida e ensinada por Jesus significa, pelo menos aos seus primeiros discípulos, deixar sua “casa” de sabedoria convencional, seja ela religiosa ou secular.

A vida no espírito, entretanto, não é simplesmente se afastar da cultura. Não é uma visão individualista, ela cria uma nova comunidade, uma comunidade alternativa ou uma cultura alternativa. Assim foi com Jesus e seus discípulos, durante sua vida e depois. A nova vida produz uma nova realidade social, inicialmente um “movimento” e então a “igreja”.Na verdade, a palavra igreja em si mesma significa uma comunidade a qual foi “chamada para fora”. No mundo judaico na qual nasceu e no mundo romano na qual viveu, destacou-se assim, como uma comunidade alternativa com visões e valores alternativos.[…]

[…]Há ainda uma outra dimensão na vida vivida nas fronteiras do Espírito e da cultura, chamada o relacionamento entre a igreja como comunidade do Espírito e a cultura na qual está inserida. Na história da igreja, esse relacionamento tem sido vivido de quatro formas diferentes. Alguns cristãos têm procurado rejeitar a cultura, tratando-a com indiferença ou hostilidade. A cultura é simplesmente “o mundo das trevas”, e a vida cristã implica em rejeição desse mundo e não ter relação com ele. Às vezes descrita como resposta “sectária”, pode assumir uma forma mais leve, como entre os Amish, ou uma forma mais militante, como entre aqueles para os quais a mensagem cristã consiste em pronunciar julgamento sobre o mundo, um julgamento do qual eles mesmos estão excluídos. Mais comumente, os cristãos tem optado por outras duas formas, ambas tentando domesticar o radicalismo da visão alternativa.

Uma vez que os cristãos tenham basicamente legitimado a cultura com suas crenças religiosas, vendo o cristianismo como o avalizador dos valores culturais centrais. Essa é a essência do “nacionalismo cristão”, em suas formas mais virulentas ou mais benignas formas, de “religião culturalizada”, na qual se assume que há uma harmonia básica entre os valores de alguém e os valores da sua religião. É então inconcebível que possa haver qualquer tensão entre os valores da cultura e os da tradição cristã. O radicalismo da comunidade alternativa do Espírito, é deixada de lado para outra resposta comum, chamada uma separação forte entre a vida no Espírito e a vida na cultura, uma divisão da vida em dois compartimentos, um religioso e outro secular, cada um com suas normas próprias. A vida no Espírito é domesticada ao se tornar restrita apenas a uma vida “interna”.

Há ainda uma quarta resposta: a convicção de que a cultura precisa ser transformada pelo poder do Espírito. Embora menos comum, veio às vezes à tona de forma dramática na história da igreja, e sem dúvida tem estado presente em alguns em todas as gerações.  Isso é o que vemos no Jesus histórico. A compaixão, o fruto do Espírito e o “ethos” de uma comunidade alternativa, era realizado por entre a cultura também. A “política da compaixão” não levou Jesus a se separar da cultura, mas a uma missão apaixonada de transformar a cultura do seu tempo. Porque ele disse que Deus se preocupa com o que acontece com os seres humanos na história, ele vê a cultura como algo a ser transformado, não simplesmente rejeitada ou legitimada.

Levar a visão de Jesus a sério então, implica em procurar estruturar a vida da sociedade de acordo com a política da compaixão. Apesar de não se identificar com nenhum programa econômico ou político específico, suas direções gerais são claras. Uma sociedade organizada em torno da política da compaixão deveria ser muito diferente da que se organiza em torno de outras normas. Certamente parecerá muito diferente da nossa cultura, a qual em grande medida é organizada em torno de políticas de um individualismo econômico radicalizado. De certa forma, nós vivemos dentro de uma forma secularizada de “política da santidade”, na qual apenas os padrões de justiça mudaram. Merecimento e recompensa são as energias que a dirigem. Uma política de compaixão é organizada em torno do sustento da vida humana, não em torno de recompensas por desempenhos culturalmente aceitos. Uma política de compaixão não enfatiza diferenças, dividindo o mundo entre merecedores e indignos, amigos e inimigos. Ao contrário, uma política de compaixão sublinha nossas semelhanças.  É inclusiva ao contrário de ser exclusiva. Esse tipo de política é bem diferente da forma pela qual ordenamos atualmente nossa vida nacional e internacional.[…]

[…]Vida no Espírito e o Reino de Deus

Uma das formas características pelas quais Jesus falava sobre o poder do Espírito e a vida no Espírito, era usando a expressão profundamente simbólica  “o Reino de Deus”.  Como um “símbolo linguístico”, com sua origem na tradição judaica, a expressão evoca uma rede de significados associados com a imagem de Deus como “rei”. A imagem do reinado de Deus é uma das formas clássicas de Israel para falar sobre o relacionamento entre o outro mundo e esse. Falar de Deus como rei era como falar sobre o “poder” do outro mundo, ativo neste: na criação, nos momentos decisivos da história (como o Êxodo e no retorno do exílio), e no “fim dos tempos”. A realeza de Deus  cria um reino, tanto no começo quanto no final da história. No presente, o reino é feito por aqueles que colocam a si mesmos sob a soberania divina, tomando sobre si mesmos o “jugo do Reino”. No final,  virá o reino eterno de paz e justiça, banquetes e alegria.[…]

Jesus usou a imagem do reinado e do reino de Deus, para falar sobre o que estava acontecendo no seu ministério. Como um exorcista, falou do Reino de Deus como poder do Espírito que fluía por meio dele: “Se é pelo Espírito de Deus que expulso demônios, então o Reino de Deus chegou até vocês”. Identificou sua época como um tempo onde o poder de Deus estava ativo: “O Reino de Deus já chegou, está próximo.” Falou sobre o reino como uma comunidade presente, como algo de que se pode participar agora, e algo pelo qual se deve orar:  “Venha o Reino.” E de acordo com a tradição, falou desse Reino como o Reino final do qual farão parte muitos, vindos do leste e do oeste, para se sentar à mesa do banquete com Abraão, Isaac e Jacó. Para Jesus, a linguagem do reino era uma forma de falar sobre o poder do Espírito e da nova vida proporcionada por ele. A chegada do Reino é a chegada do Espírito, tanto nas vidas das pessoas, quanto na história. Entrar nesse Reino é entrar na vida do Espírito, ser moldado de acordo com o que Jesus ensinou e foi.[…]

[…]Uma visão desafiadora

A imagem de Jesus descrita nesse livro, nos confronta de muitas formas. Como um carismático, Jesus é um desafio vivo à nossa noção de realidade, o “ateísmo prático” de muitos na nossa cultura e nas igrejas. Como sábio, nos chama a deixar a vida da sabedoria convencional, seja secular ou religiosa, Americana ou Cristã. Ele é, em certo sentido, um Jesus “não domesticado”, que não se tornou parte da sabedoria da cultura convencional, mas sim, que desafia todos os sistemas dessa sabedoria.  Como o fundador de  um movimento de renovação e profeta, ele nos aponta a comunidade humana e para a história, para uma cultura alternativa na qual se busca fazer do mundo um lugar com mais compaixão.[…]

Jesus: A New Vision: Spirit, Culture, and the Life of Discipleship – Marcus J. Borg

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Disneylândia da fé

dezembro 11, 2010

por capelão Mike

Deixe-me dizer já logo de cara – sempre gostei dos filmes e personagens Disney. Da minha infância, quando meus pais me levaram à Disneylândia, depois quando nadei no mar agitado junto com Pinocchio para escapar da baleia Monstro, aos dias quando nós e nossas meninas curtimos A pequena sereia e A bela e a fera juntos, até hoje, quando apresento meus netos para o que chamamos filmes “clássicos”, a Disney tem sido parte da minha experiência e da minha vida familiar.

Mas sei o que a Disney é e o que faz – Eles pegam histórias clássicas e fazem cartoons com elas.

A Disney não me induz a pensar que o que eles fazem é uma grande arte que contém ensinamentos profundos para a vida e experiência humanas. Aceito e curto eles pelos que são, não mais. Seus artistas e animadores são de primeira classe, e o que fazem, sabem fazer muito bem. Mas se você está falando sobre seus filmes, seus parques temáticos, ou seu merchandising generalizado, o fato é que a Disney é uma corporação da área de animação. Eles pegam estórias que são clássicas por causa dos seus temas universais, e simplificam de uma forma que tanto crianças quanto pais e mães podem apreciar juntos. Removem toda desordem, toda a complexidade, as nuances dessas estórias e fazem uma limpeza nelas para que se encaixem numa audiência de entretenimento moderna. São agradáveis, mas tão sutis quanto um soco no rosto; tão profundos quanto aquela poça d’água que se forma na minha garagem depois de uma chuva fina.

Infelizmente, muitos líderes cristãos americanos, parecem pensar que o método da Disney é o método que a igreja deve seguir. Eu poderia escrever um longo livro, sobre todos os exemplos disso por todo o nosso país, com as muitas formas pelas quais nós vendemos Jesus em livros, músicas, mídia, desde o excesso apelativo dos tele-evangelistas e da excelência corporativa das mega-igrejas, aos monumentos icônicos, como a Crystal Cathedral. Muito disso representa a mentalidade do “Reino Mágico”.

No mundo caricatural do evangelicanismo americano contemporâneo, é tudo maior, melhor, mais simples. Ajude o pessoal a acreditar que seus sonhos podem se tornar realidade. Crie “momentos” para as pessoas na congregação que elas nunca mais esqueçam, abençoem as famílias em locais seguros e higienizados. Remova a desordem e a realidade da vida diária. Em vez disso, coloque no lugar uma versão sentimental da vida e que toque o coração na tela, e faça as pessoas sentir isso. Abrace as possibilidades.

O evangelicanismo se tornou “Disney-lizado”.

Por exemplo, entre no mundo Mickey Mouse de Ken Ham e seu parque temático para a fé cristã.

O sempre vigilante correspondente do Internet Monk em Ohio, Jeff Dunn, reportou na edição de ontem do Saturday Ramblings, que Ken Ham e companhia estão na área novamente. O Creation Museum, perto de Cincinnati, decidiu se expandir e construir um parque temático com 800 acres, de estilo complexo, e com uma réplica da arca de Noé. O projeto terá um custo estimado de 125 milhões de dólares, e está planejado para ser inaugurado em 2014, perto de Williamstown, KY.

Alguns questionaram se é legalmente permissível para o estado de Kentucky fundar um parque temático religioso. Eu coloco outra questão: É apropriado para os cristãos “Disney-lizar” a fé desse jeito?[…]

[…]Como pode qualquer cristão racional apoiar um projeto como esse? Sei que alguns de vocês vão escrever e reclamar que estou sendo crítico demais, e por que Deus  não pode usar isso para levar outros a Cristo e ensinar pessoas sobre a bíblia? Por favor. Vou responder isso da forma mais clara, direta e contundente que puder – este projeto não tem nada a ver com o cristianismo bíblico.

Isso é uma caricatura da fé. Representa a “Disney-lização” da história bíblica. Quero dizer, seriamente, o povo cristão está gastando 125 milhões construindo essa imitação grotesca, e então, os crentes americanos sem discernimento vão gastar outros milhões e milhões, para ser doutrinados, impressionados pelo espetáculo e uma versão agradável e desinfetada da história bíblica. Ônibus cheios de jovens em busca de entretenimento serão “educados” numa interpretação “bíblica” do dilúvio que tem sua “gênesis” não na Torah, mas nas visões de Ellen G. White, cujos “conselhos inspirados pelo Senhor”, guiaram o movimento sectário adventista do século XIX.

Essas visões ganham vida numa verdadeira aparência Disney – apelo esmagador, sentimentalismo piegas, um fino verniz de credibilidade, e mais importante, a convicção absoluta da crença inabalável em detrimento de qualquer evidência contrária ou interpretações que sejam contraditórias. Este projeto é fundamentalismo em sua pior forma criativa. Não nos leva ao Jesus real, ao Jesus da bíblia. Nos leva a uma caricatura de Jesus, o Jesus Disney, a versão americana e desinfetada de Jesus, o Jesus que nos diverte, e mantém tudo seguro, para toda a família poder desfrutar. O Jesus que nos dão é o herói Jesus que viveu e morreu na tela em toda a sua glória, não o “homem de dores” que sofreu e morreu na cruz em vergonha. Este Jesus foi elaborado e trazido à vida para nós por fornecedores de tecnologia espiritual, não compartilhada conosco por apóstolos como Paulo fez – em meio a uma vida diária humilde de sofrimento e am0r, em nome de Jesus. Existe o “método de Jesus” e existe o “método Disney“, e o abismo entre eles é muito vasto.

Não sei você, mas quando se trata da fé, eu prefiro a coisa real, não uma caricatura Disney.

Vou falar de novo. Este projeto não tem nada a ver com o cristianismo baseado no Jesus bíblico. Isso é promoção de uma ideologia, pura e simplesmente. É um desejo mesquinho de ser estrela do fundamentalismo, exibindo uma abordagem da fé que não tem nada de sutil, nada de misterioso, nada de humano. Sem dúvidas, apenas certezas. O tipo de certezas que tem audácia suficiente para pedir para as pessoas 125 milhões de dólares para construir um parque de propaganda pretensiosa. Pelo menos Walt Disney teve caráter suficiente para aprender uma profissão, trabalhar, e construir um negócio para financiar seus sonhos.

Leia o texto inteiro aqui: The Disney-ization of Faith – Chaplain Mike – Internet Monk

Disse tudo que eu estava com vontade de dizer, depois de ler essa notícia absurda. 125 milhões de dólares num parque temático fundamentalista idiota, enquanto mais de um bilhão de pessoas não tem comida para colocar no prato. Que tipo de “cristianismo” é esse? Eu coloco essa Disneylândia da fé com direito à réplica da arca de Noé, no mesmo nível daquela réplica do templo de Salomão que o sr Edir Macedo pretende construir em São Paulo.


The road not taken – Robert Frost

dezembro 5, 2010

por Robert Frost

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I–
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

The road not taken – Robert Frost


The meaning of Jesus: two visions – Marcus J. Borg e N. T. Wright

dezembro 4, 2010

trechos da Introdução

Este livro nasceu da amizade. Os autores se encontraram pela primeira vez em 1984, depois que Tom Wright leu o livro de Marcus Borg, chamado Conflict, Holiness, and Politics in the Teachings of Jesus. Como Tom descreveu depois, considerou o livro excitante e iluminador, e procurou Marcus para cumprimentá-lo, assim como para explorar algumas “questões emergentes” e perguntar porque o livro terminou da forma como terminou em vez de terminar de outras formas possíveis.

Desde que a nossa amizade nasceu por causa do estudo fascinante de Jesus dentro do seu contexto histórico, seria apropriado que originasse, catorze anos depois, a um livro no qual colocamos alguns pontos indicando para onde esse diálogo nos levou. Durante este período, nós dois publicamos vários livros e artigos, a maior parte deles sobre Jesus. É impossível num trabalho como o presente, abranger todos os  argumentos e mostrar toda a documentação, que seriam os requerimentos normais do conhecimento. As linhas principais do que resumimos aqui foram demonstradas e argumentadas nesses outros trabalhos, apesar de que em alguns pontos, ambos vamos além do que já dissemos em outro lugar não menos importante, como resultado do nosso diálogo contínuo.[…]

[…]Em primeiro lugar, esperamos que aqueles que não se consideram cristãos, achem a nossa conversa interessante e refrescante. Nós dois acreditamos com muita força que o que dizemos sobre Jesus e a vida cristã, não diz respeito a um mundo privado, inacessível e incompreensível e salvo “de fé em fé”, mas num mundo público de estudo histórico e transcultural, no mundo contemporâneo assim como na igreja.

Em segundo lugar, esperamos mudar o foco do debate para possibilidades mais frutíferas. Muito do que se tem escrito sobre Jesus não passa das distinções estéreis “ou isso – ou aquilo” (como são os debates clássicos entre os fundamentalistas e os modernistas); nos atrevemos a sugerir outros caminhos pelos quais o assunto pode ser levado. Esperamos assim, fazer avançar o diálogo ecumênico que é frequentemente ignorado. Luteranos liberais, pelo menos (usando um termo adequado para o momento), têm mais em comum com os os anglicanos ou presbiterianos liberais do que com os membros mais conservadores das suas próprias denominações. Nosso diálogo pode fornecer estímulo para tais grupos para que comecem a conversar uns com os outros. Mesmo que os mais fundamentalistas e radicais possam talvez ranger seus dentes, nós esperamos que esse livro possa servir como uma ponte entre muitos outros grupos cristãos.

Nesse ponto, pode parecer que Tom é um tradicionalista em seu ponto de vista, e Marcus um revisionista. Há um fundo de verdade nisso, mas nós consideramos esses rótulos, como quaisquer outros, como muito enganadores. Tom chegou, viajando através da história e cultura do judaísmo do primeiro século, a uma imagem de Jesus que está seriamente em desacordo com as visões cristãs tradicionais em muitos assuntos (por exemplo, as supostas previsões de Jesus sobre a sua segunda vinda), enquanto está de acordo com as visões mais tradicionais em outros pontos, embora com muitos novos ângulos. Marcus chegou, depois de viajar em argumentos transculturais sobre como descrever de forma apropriada uma figura como Jesus, a uma imagem que é firmemente suportada pela tradição em muitos pontos (por exemplo, as curas que Jesus executou, sua espiritualidade, e a fundação de um movimento), enquanto questiona as tradições em muitos outros pontos, embora nem sempre de acordo com o padrão daquilo que alguém poderia chamar de revisionista. Tom se sente capaz, como historiador, a atribuir mais do material dos evangelhos a Jesus do que Marcus, embora os significados que Tom sugere para o material nem sempre seria o que um tradicionalista poderia esperar. Marcus, que sugere que menos do que está nos evangelhos pode ser atribuído a Jesus, insiste na sua importância, veracidade, em outros sentidos que não o histórico, e na sua validade dentro de uma vocação cristã contemporânea de seguir Jesus.

Em terceiro lugar, esperamos abrir mais especificamente a questão, de importância perene, sobre como diferentes visões a respeito de Jesus se relacionam a diferentes visões da vida cristã. Muitos dos que estão profundamente envolvidos com assuntos como justiça, espiritualidade, cuidado pastoral e outros assuntos internos das igrejas, nem sempre relacionam esses assuntos à questão de Jesus. Propomos algumas formas pelas quais isso pode ser feito.[…]

[…]Concordamos num ponto. O debate recente sobre Jesus se tornou rabugento, com uma grande quantidade de xingamentos e polêmicas raivosas, tanto em discursos públicos quanto em conversas privadas. Esperamos neste livro, demonstrar que esta não é a única forma de se fazer as coisas. Claro, é comparativamente mais fácil para nós: nossas posições, embora muito diferentes em muitos pontos, não estão em polos opostos do debate, e nós compartilhamos, como já dissemos, tanto a amizade quanto histórias pessoais semelhantes. Mas esperamos, e na verdade, oramos, para que neste livro possamos ser úteis em mostrar um modelo para os cristãos conduzirem suas discordâncias públicas sobre assuntos sérios e centrais, que possa inspirar outros a tentar o mesmo tipo de coisa. Se, nesse processo, pudermos ajudar tanto cristãos quanto não cristãos, e aqueles que não estão certos a respeito de qual lado ficar, a lidar com pontos de vista que poderiam ter desconsiderado sem nenhuma reflexão séria, ficaríamos muito felizes. Se, mais ainda, ambos crescermos nesse processo, no nosso entendimento do assunto em questão, e habilitarmos outros ao mesmo, teremos sucesso em nosso mais profundo objetivo.[…]

M. J. B.
N. T. W.

The meaning of Jesus: two visions – Marcus J. Borg and N. T. Wright