Se a bíblia fosse escrita hoje…

março 31, 2011

Se a bíblia fosse escrita hoje, por exemplo, uma continuação do livro de Atos, será que conseguiriam fazer a verdade falar mais alto do que preocupação com a imagem? Será que conseguiriam sair da propaganda e do marketing, para enxergar e relatar as coisas sem dourar a pílula para lado nenhum?

Será que os líderes teriam coragem, ou gostariam de ver publicadas, como se fossem livros da bíblia, as “epístolas” que escrevem uns para os outros? Não passariam vergonha? Será que teriam coragem de expor as mesquinharias com as quais ocupam seu tempo, para aparecerem ao lado das epístolas de Pedro, Tiago, João, Paulo?

Será que os erros de homens como Davi, Salomão e Pedro, as brigas, as dúvidas, os fracassos, que são descritos na bíblia para quem quiser ler, apareceriam nessa continuação? Ou só “vitórias”, coisas “tremendas”, “explosão de milagres”, “chuva de bençãos”, “manifestações de poder”,  e “moveres sobrenaturais”?

Será que os fatos seriam descritos fielmente, sem poupar erro algum, de líder nenhum? Sem puxar a sardinha para o lado dos ídolos gospel, sem se preocupar em preservar a reputação de vendedores de prosperidade, dos milagreiros de plantão, dos que inventam mentiras para parecerem mais espirituais do que os outros, dos tele-evangelistas que só faltam vender a mãe na televisão? E as maracutaias, os conchavos por baixo dos panos, as puxadas de tapete, a inveja que um pregador famoso tem do outro, os bastidores dos eventos, a indústria de músicas e DVDs de péssimo gosto, cachês milionários, as negociatas em época de eleições, tanto para cargos dentro das igrejas, quanto para cargos públicos etc?

Com essa ênfase na imagem, onde é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um líder de qualquer coisa que envolva a instituição chamada igreja, admitir quando comete erros (e mais difícil ainda do que admitir, corrigir), acho difícil. Acho que nem Deus conseguiria fazer com que deixassem de lado essa necessidade doentia de ter imagens imaculadas de pessoas que nunca erram, e serem idolatrados como deuses, acima do resto da humanidade, para ficar com a verdade, expor e tratar os erros com sinceridade. Foi errando, enxergando e se corrigindo que os doze discípulos de Jesus aprenderam, e não escondendo, ignorando, e fazendo de conta que eram X-Men e não homens de carne e osso, e os erros não existiam, enquanto empurravam com a barriga até o próximo escândalo.

Eu não entendo essa falta de naturalidade para lidar com os próprios erros que vejo entre muitos cristãos. Seria falta de humildade? Preocupação em passar ao mundo, uma imagem de perfeição, que só seria verdade na eternidade? Eu às vezes fico chocada com essa necessidade, que vejo entre muitos, de parecer mais perfeitos do que realmente são. E falar isso, não tem nada a ver com dizer que não se deve buscar ser melhor, e sim, que isso é bem diferente de parecer ser o que não se é. Porque se os cristãos fossem, realmente, como dizem que são nas propagandas de igreja, o mundo não estaria vendo o contrário, todos os dias, em todos os meios de comunicação. Se as pessoas dentro da igreja não se enxergam, quem está fora, enxerga muito bem. A propaganda é pra enganar quem? Ou é para se auto-enganar, enquanto faz de conta que é discípulo exemplar de Jesus?

O que evangélicos/crentes/cristãos/afins geralmente fazem, quando um líder faz ou diz uma bobagem e recebe críticas, é apelar para “não julgue”, “não toque no ungido”, “ninguém joga pedra em árvore que não dá fruto”, ou dizem que é “perseguição” ou que os líderes estão sendo vítimas de “conspirações” (quando são, isso sim, vítimas da própria concupiscência, e nada mais). Nem passa pela cabeça deles, cogitar qualquer possibilidade de o seu líder idolatrado, estar errado de verdade, ou ser capaz de errar, como qualquer ser humano. E muito menos ainda, passa pela cabeça das pessoas em posição de liderança, admitir diante do seu “séquito”, que fizeram ou disseram mesmo uma besteira. Vão negar até a morte, e incitar o “séquito” de crentes a atacar quem estiver criticando. Enquanto isso, os erros continuam e só aumentam, junto com a vaidade e o ego da liderança, que adora ter o povo nas suas mãos e beijando seus pés.

Esse tipo de coisas: o artificialismo, falta de naturalidade para lidar com erros e problemas comuns das pessoas; hipocrisia desembestada; tentativas de impressionar; desonestidade; propagandas que não condizem com a realidade; pessoas que se consideram acima das demais e acima de qualquer repreensão ou crítica, porque são os “pregadores/pastores/bispos/apóstolos oficiais; falta de senso crítico, de uma pessoa simplesmente olhar o que se faz dentro da própria igreja e dizer: “cara, isso é ridículo, vamos parar”, sem ser apedrejada ou afastada por causa disso; fora o excesso de barulho, que me incomoda profundamente, são algumas coisas que fazem com que não tenha vontade alguma de participar delas.

Do lado de fora, como já devo ter falado em alguma outra postagem anterior, tenho encontrado ar mais respirável.

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Desconfie…

março 28, 2011

Desconfie de instituições religiosas/igrejas que procuram elogios dos homens, e que gostam de se auto-elogiar e exaltar a si mesmas. Desconfie de igrejas/instituições que se auto-declaram como diferentes ou melhores do que todas as demais, e onde, de acordo com a propaganda da igreja, não tem ninguém errando, nenhum doente, nenhum deprimido, nenhum fofoqueiro, maldizente ou traidor, nenhum mentiroso, nenhum fingido ou hipócrita, enfim, não tem nenhum pecador, e só Ele sabe porque ainda não os arrebatou, de tão bons que eles acham que são – ou seja: não tem gente de verdade nela, só gente de mentira. Desconfie de igrejas/instituições que se auto-proclamam como os únicos lugares onde você encontrará amigos de verdade, e onde todos os seus problemas serão resolvidos, e suas necessidades e carências, serão supridas. Se elas se colocam na posição de supridoras de carências humanas, o que querem é apenas gerar pessoas dependentes da instituição, eternamente infantilizadas. Onde tem gente de verdade, tem mais ou menos problemas, mas sempre haverá problemas; é mentira dizer que dentro dessas igrejas/instituições, isso vai ser diferente. A não ser é claro, que o grau de hipocrisia dentro delas seja tão grande, que as pessoas se relacionam umas com as outras como se vivessem um teatrinho. Ou porque pessoas mais problemáticas, simplesmente são excluídas do grupo, ou acabam não encontrando esse lugar de amor, misericórdia e perdão que está nas propagandas da igreja/instituição, e vão embora. Acabam ficando só os que não precisam de médico. Ironicamente, exatamente o contrário do que Jesus imaginou: “eu vim para os que precisam de médico.” Se a instituição só quer fazendo parte dela, os que não precisam mais de médico, e lança fora todos os que incomodam, que dão trabalho, que não se comportam como se espera que se comportem, que sofrem de males crônicos incuráveis, e seriam péssima propaganda pra instituição (a instituição só quer gente bonita, feliz, sorridente e curada aparecendo nas fotos, e dando depoimentos e testemunhos, para não estragar a propaganda), qual a finalidade dela existir?

Desconfie de igrejas/instituições que não admitem críticas. Desconfie de igrejas/instituições onde os membros perdem a capacidade de olhar com senso crítico para si mesmos e para o grupo, aceitando como correto e verdadeiro e sem contestação, tudo que vem da liderança, seja bom ou ruim. Desconfie de igrejas/instituições que geram consumidores passivos de religião, que apenas consomem o que é preparado pelos que supostamente são os “líderes”.

Desconfie de igrejas/instituições onde se pensa que apenas outros cristãos (e tanto pior se isso se limitar apenas aos que são membros da mesma igreja/instituição) devem ser tratados de acordo com o que Jesus ensinou, e todas as demais pessoas, são tratadas de forma diferente, e muitas vezes, como inimigos. Desconfie de igrejas/instituições, onde muito se fala de amor, misericórdia e perdão, mas você só descobre o quanto isso é apenas discurso bonito, quando precisa de amor, misericórdia e perdão, de verdade. Fuja de igrejas/instituições que punem e isolam pessoas até que elas aprendam a “se comportar direito”, ou a dar as “respostas certas”, ou até que aprendam a jogar o jogo da hipocrisia e das falsas aparências, para aparecer todo mundo bonito no marketing. A tarefa da igreja não é punir ninguém, e sim, aceitar a pessoa mesmo ela falhando e falhando, porque Jesus fez a mesma coisa com os discípulos. O que seria de Pedro, por exemplo, se Jesus o disciplinasse e o afastasse, o ignorasse ou o tratasse como criminoso, em vez de tomar a iniciativa de amar e perdoar?

Desconfie das instituições, confie em Deus.


Receita para anular a subversão de Jesus…

março 25, 2011

E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus. Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego. E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que significa o Enviado). Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo. Então os vizinhos, e aqueles que dantes tinham visto que era cego, diziam: Não é este aquele que estava assentado e mendigava? Uns diziam: É este. E outros: Parece-se com ele. Ele dizia: Sou eu. Diziam-lhe, pois: Como se te abriram os olhos? Ele respondeu, e disse: O homem, chamado Jesus, fez lodo, e untou-me os olhos, e disse-me: Vai ao tanque de Siloé, e lava-te. Então fui, e lavei-me, e vi. Disseram-lhe, pois: Onde está ele? Respondeu: Não sei. Levaram, pois, aos fariseus o que dantes era cego. E era sábado quando Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos. Tornaram, pois, também os fariseus a perguntar-lhe como vira, e ele lhes disse: Pôs-me lodo sobre os olhos, lavei-me, e vejo. Então alguns dos fariseus diziam: Este homem não é de Deus, pois não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tais sinais? E havia dissensão entre eles. Tornaram, pois, a dizer ao cego: Tu, que dizes daquele que te abriu os olhos? E ele respondeu: Que é profeta. Os judeus, porém, não creram que ele tivesse sido cego, e que agora visse, enquanto não chamaram os pais do que agora via. E perguntaram-lhes, dizendo: É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Como, pois, vê agora? Seus pais lhes responderam, e disseram: Sabemos que este é o nosso filho, e que nasceu cego; Mas como agora vê, não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos, não sabemos. Tem idade, perguntai-lho a ele mesmo; e ele falará por si mesmo. Seus pais disseram isto, porque temiam os judeus. Porquanto já os judeus tinham resolvido que, se alguém confessasse ser ele o Cristo, fosse expulso da sinagoga. Por isso é que seus pais disseram: Tem idade, perguntai-lho a ele mesmo. Chamaram, pois, pela segunda vez o homem que tinha sido cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador. Respondeu ele pois, e disse: Se é pecador, não sei; uma coisa sei, é que, havendo eu sido cego, agora vejo. E tornaram a dizer-lhe: Que te fez ele? Como te abriu os olhos? Respondeu-lhes: Já vo-lo disse, e não ouvistes; para que o quereis tornar a ouvir? Quereis vós porventura fazer-vos também seus discípulos? Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dele sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés. Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas este não sabemos de onde é. O homem respondeu, e disse-lhes: Nisto, pois, está a maravilha, que vós não saibais de onde ele é, e contudo me abrisse os olhos. Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a sua vontade, a esse ouve. Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer. Responderam eles, e disseram-lhe: Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós? E expulsaram-no. Jesus ouviu que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deus? Ele respondeu, e disse: Quem é ele, Senhor, para que nele creia? E Jesus lhe disse: Tu já o tens visto, e é aquele que fala contigo. Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou. E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem sejam cegos. E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? Disse-lhes Jesus: Se fosseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.

João 9

Uma pena, que um texto tão cheio de significados, que apresenta Jesus em toda a sua subversão contra os poderes religiosos da sua época, conseguindo, numa única oportunidade, desfazer uma crença errada dos discípulos, curar uma pessoa, fazer com que ela passasse a crer nele, e atacar os fariseus direta e indiretamente, é transformado numa mera “receita pra curar cego de nascença, usando terra e saliva”, na interpretação de muitos evangélicos…

E então os caras saem por aí, colocando terra com cuspe nos olhos dos outros (e alguns cobrando pra fazer isso), sem perceber nada do resto.


Coisas que nunca vou entender…

março 24, 2011

Crente que se escandaliza com quem bebe, com quem fuma, com quem fala palavrão, com tatuagem, com vestimentas e cortes de cabelo, com música “do mundo”, com a opção sexual alheia; mas não se escandaliza com a corrupção, a fofoca, a ganância, a maledicência, a idolatria, a desonestidade e hipocrisia que grassam dentro das igrejas.


Por que a igreja não fala sobre violência doméstica?

março 24, 2011

por Michael Spencer

Do Kentucky.com, depois de um assassinato antecedido por um histórico de violência doméstica:

Os novos relatos sobre a morte recente de Amanda Ross, mostram que ela era vítima de violência doméstica. Com base em estatísticas, é sabido que a violência doméstica acontece em todas as comunidades de fiéis do Kentucky. (De acordo com com a Associação contra Violência Doméstica do Kentucky, em 2007, mais de 4 mil pessoas estavam em risco, sendo 2313 mulheres e 1760 crianças.) As comunidades religiosas estão tratando o problema de forma adequada?

Por que a igreja não fala a respeito de violência doméstica?

1. É um problema onde mulheres e crianças são as vítimas do pecado dos homens (primariamente), então temos uma batalha árdua.

2. O ensinamento da Escritura “ame sua esposa como Cristo ama a igreja”, e a sua aplicação, é óbvio, mas nenhuma das listas de pecados de Paulo, ou nossas histórias ou parábolas favoritas, falam sobre caras que batem nas namoradas ou sobre um homem que bate na esposa quando está bêbado.

3. Qual é a recompensa para o pastor que fala sobre isso? Aconselhar mulheres e ouvir segredos embaraçosos. E então… divórcios. Nós todos sabemos como os evangélicos se sentem a respeito de divórcios… ou pelo menos uma boa parte deles.

4. Nunca esteve óbvia a necessidade de a igreja desenvolver seus próprios recursos, com mulheres especializadas em ajudar outras mulheres.

5. Se lidar com esse assunto, alguém na sua igreja pode ir para a cadeia, ou a um advogado. As famílias vão apontar o dedo, telefones irão tocar, e-mails serão enviados, e será tudo culpa sua.

6. Você pode ter certeza que vai chegar muito perto da própria casa. Talvez muito perto de muitos líderes da igreja. Muitas pessoas estão agindo errado. Muitas pessoas são culpadas e muitas pessoas terão que admitir coisas assustadoras. Quem vai querer se envolver nisso?

7. A maior parte dos homens e mulheres prefere ouvir sobre como a submissão resolverá qualquer problema no casamento, e eles precisam que isso esteja correto. É isso que aprenderam e isso que estão ensinando para outras mulheres.  Se alguém diz que estou abandonando um marido que me bate, uma série de problemas ocorre com a versão de submissão da maioria das pessoas. (Não creio que seja necessário, mas penso que se dá ênfase de forma errada na submissão e é necessária a ênfase correta. Amor mútuo em Cristo).

8. Você terá que falar sobre abuso emocional, e agora o círculo ficou muito, muito, muito grande. Você tem certeza que vai querer que as mulheres da igreja comecem a falar sobre isso? Pastor? Pastor? Alôôô?

9. Abuso sexual? Abuso religioso? Abuso financeiro? Muitos tipos de abuso, todos com dinâmicas similares. Vamos apenas dizer que não queremos que as feministas e liberais causem problemas. Quem estamos incentivando com essa discussão? Uh-huh.

10. E, como todos sabem, nós não temos esse tipo de problemas. Nós somos cristãos, não é?

Uma grande saudação, para aquelas igrejas e pastores que estão na linha de frente e envolvidos com esse assunto. Esses são os verdadeiros guerreiros da compaixão, justiça e reconciliação.

Why doesn’t the church talk about domestic abuse? Michael Spencer


Sobre os profetas…

março 23, 2011

“Os escritos dos profetas estão entre as partes mais mal entendidas da Bíblia hoje, em grande medida porque são comumente lidos fora do contexto. Muitas pessoas atualmente, especialmente os cristãos conservadores, leem os profetas como se eles fossem videntes usando bolas de cristal, prevendo eventos que ainda estão para acontecer em nosso próprio tempo, há mais de dois mil anos de distância da época para a qual os profetas estavam falando. Esta é uma abordagem totalmente egocêntrica da Bíblia. Mas os escritores da Bíblia tinham seus próprios contextos e, como resultado, suas próprias agendas. E esses contextos e agendas não são os mesmos nossos. Os profetas não estavam interessados em nós; eles estavam preocupados consigo mesmos e com o povo de Deus que vivia em sua época. Não surpreende que a maioria das pessoas que lê os profetas desta forma (eles previram o conflito no Oriente Médio! Eles previram Saddam Hussein! Os profetas nos falam sobre o Armageddon!) simplesmente escolhe ler um ou outro versículo ou passagem de forma isolada, e não lê os profetas em sua totalidade. Quando os profetas são lidos do início ao fim, fica claro que escreveram para sua própria época. Eles muitas vezes, de fato, nos contam exatamente quando estavam escrevendo – por exemplo, quem era o rei – então, desta forma, seus leitores podem entender a situação histórica que estavam preocupados em abordar.”

Bart D. Ehrman


Prayer: A study in the history and psychology of religion – Friedrich Heiler

março 23, 2011

Introdução (trechos)

Religiosos, estudantes de religião, teólogos de todas as crenças e tendências, concordam com o pensamento de que a oração é o fenômeno central da religião, a fonte de calor de toda piedade. A fé é, no entendimento de Lutero, “oração e nada mais do que oração”. “Aquele que não ora ou não clama por Deus nas suas horas de necessidade, certamente não pensa nEle como Deus, nem dá a Deus a honra que lhe é devida.” O grande místico evangélico, Johann Arndt, constantemente enfatiza a verdade de que “sem a oração não podemos encontrar Deus; a oração é o meio pelo qual procuramos e encontramos Deus.” Schleiermacher, o restaurador da teologia evangélica no século XIX, observou em um dos seus sermões: “Ser religioso e orar – essas coisas são na verdade uma e a mesma coisa”. Novalis, o poeta do romantismo, comenta: “a oração é para a religião, o que o pensamento é para a filosofia. Orar é religião em funcionamento. O senso religioso ora, assim como o mecanismo do pensamento, pensa.” A mesma ideia é expressa por Richard Rothe, quando diz, “… o impulso religioso é essencialmente o impulso à oração. É pela oração, de fato, que o processo da vida religiosa individual é governado, o processo da gradual habitação de Deus no indivíduo e em sua vida religiosa. Entretanto, o homem que não ora pode ser considerado religiosamente morto.”[…]

[…]De acordo com Sabatier, o fenômeno religioso se distingue de fenômenos similares, tais como, por exemplo, o senso estético ou os sentimentos morais, pela particularidade da oração. E até mesmo um dos mais radicais críticos da religião, Feuerbach, que classificou todas as religiões como ilusões, declarou que ” a essência mais íntima da religião é revelada pelo ato mais simples da religião: a oração.” Assim, não há dúvidas de que a oração é o coração e centro da religião. Não é pelos dogmas e instituições, nem nos rituais ou ideais éticos, mas na oração que apreendemos a qualidade específica da vida religiosa. Por meio das palavras de uma oração, podemos penetrar nos movimentos mais profundos e íntimos da alma religiosa. “Examine as orações dos santos de todas as épocas, e terá sua fé, sua vida, o motivo que os move, seu trabalho”, afirma Adolphe Monod, famoso pregador calvinista. O mundo variado de concepções e ações religiosas é sempre nada mais do que o reflexo da vida religiosa pessoal. Todos os diversos pensamentos sobre Deus, criação, revelação, redenção, graça, a vida eterna, são produtos cristalizados nos quais o rico fluxo da experiência religiosa, fé, esperança e amor, ganha contornos firmes. Todos os rituais e sacramentos, consagrações e purificações, ofertas e festas sagradas, danças sagradas e procissões,  todo o trabalho do ascetismo e moralidade, são apenas a expressão indireta da experiência interior da religião, a experiência de admiração, confiança,  rendição, anseio e entusiasmo. Pela oração, por outro lado, esta experiência é diretamente revelada; a oração, segundo Tomás de Aquino, “é a prova prática específica da religião”; ou, como Sabatier colocou de forma brilhante, “A oração é religião em ação, ou seja, é a verdadeira religião.”[…]

[…]Mas não só as diferenças religiosas individuais são reveladas pela oração, mas a mesma coisa é verdade a respeito de povos inteiros, épocas, culturas, igrejas, religiões. Auguste Sabatier comenta: “Nada nos revela de forma melhor, a respeito do valor moral e dignidade espiritual de uma forma de adoração, que o tipo de oração que emana da boca dos seus aderentes”. Althaus escreveu na introdução ao seu estudo sobre a oração na literatura da reforma: “A oração é, como quase nada mais pode ser, a mais confiável indicação deste ou daquele tipo de piedade. Junto com os hinos, as orações refletem de maneira clara a excelente qualidade da vida religiosa em qualquer estágio de seu desenvolvimento”.

Dr. L. R. Farnell, talvez um dos mais eminentes historiadores contemporâneos da religião, observa como forma de introdução em seu rascunho sobre o desenvolvimento da oração: “Não há nenhuma parte do serviço religioso da humanidade, que tão claramente revele os pontos de vista diferentes a respeito da natureza divina, mantidos por diferentes etnias em diferentes estágios do seu desenvolvimento, ou que reflita de forma tão vívida, a história material e psicológica do homem, como a formulação das suas orações”. Então, como afirma Deissmann, “pode-se, sem mais delongas, escrever uma história da religião escrevendo a história da oração”.

Prayer: A study in the history and psychology of religion – Friedrich Heiler