Ímpio

outubro 5, 2016

livro-o-impioAcabei de ler um livro que fazia muito tempo estava parado aqui. Trata-se de “Ímpio, o evangelho de um ateu”, de Fábio Marton.

Minha primeira observação é saber porque um ateu dá nome de “evangelho” a um livro. Evangelho significa “boas novas”, e o livro do Fábio Marton, está longe de ser parecido com uma boa nova. É apenas mais um livro de um ateu, um ex-crente, criticando os crentes e as igrejas das quais fez parte ao longo da vida, e tentando ganhar dinheiro com a história. A diferença deste para outros que já li, é que o Fábio satiriza mas ao mesmo tempo demonstra certo afeto por aquelas pessoas todas que aparecem no livro.

No texto, o autor critica os crentes e detalha a sua vida desde criança no meio evangélico, começando numa igreja em Osasco e depois vindo morar em Curitiba, nos piores bairros possíveis. E uma vida repleta de dramas e tragédias pessoais. Era nerd, solitário, obeso e sofria bullying na escola, e a oração dele mais frequente, segundo ele mesmo, era pedindo a Deus uma namorada e um amigo. Sua mãe morre num acidente de carro; o irmão fica paraplégico nesse mesmo acidente; o pai, pula de fracasso em fracasso, de um relacionamento para outro e de igreja em igreja. Fábio passa a morar de favor com parentes depois da morte da mãe, numa cidade que também não era a sua, e da qual ele nitidamente não gostava.

O autor foi transformado num pequeno fanático religioso, tipo Nietzsche, que como ele também havia sido uma espécie de pregador-mirim. Virava alvo na escola por ser crente, nerd e obeso. O grau de fanatismo dele era tão grande, que chegou a entrar numa “disputa” mental com uma macumbeira quando tinha sete anos. Acreditou ter ganho um dente de ouro de Jesus. Acreditou ter sido escolhido por Deus para uma revelação: o mundo ia acabar numa certa noite. Obviamente a noite passou e o mundo continuou onde estava. Mais adiante no livro, ele conta como pediu a Deus para ressuscitar sua mãe quanto esta morreu. Para mim parece óbvio que isso ia acabar em grande decepção, como de fato acabou. Afinal, Deus tem culpa da visão deturpada que o autor tinha a respeito de quem ou como Ele é ou devia ser? Que culpa Ele tem de não ser aquela lâmpada mágica pronta a resolver todos os problemas, desde que seja bem esfregada com muita oração,  como é pintado em muitas igrejas? O próprio autor disse em uma entrevista a respeito do livro, que quando era crente, acreditava que as coisas deviam cair prontas do céu. Expectativas erradas, baseadas em péssima teologia e abusos por parte de igrejas totalmente sem noção, geraram o Fábio Marton e o seu livro.


Nós e os outros

outubro 3, 2016

Por pouco acusamos o próximo, e por muito nos escusamos; queremos vender muito caro e comprar bem barato; queremos que se faça justiça na casa do outro, e misericórdia e conivência  na nossa casa; queremos que nossas palavras sejam tomadas em bom sentido, e somos melindrosos e exageradamente sensíveis às palavras do outro…

Queremos nossos direitos cumpridos à risca, e que os outros sejam corteses na exação dos deles; guardamos rigorosamente nossa posição, e queremos que os outros sejam humildes e condescendentes; nós nos queixamos facilmente do próximo, e não queremos que ninguém se queixe de nós; o que fazemos pelo outro sempre nos parece muito, e o que ele faz por nós nos parece ser nada.

Resumindo, nós somos como as perdizes da Paflagônia que têm dois corações, pois temos um coração doce, afável e cortês para conosco e um coração duro, severo e rigoroso para com o próximo. Temos dois pesos: um para pesar nossas comodidades com a maior vantagem que podemos, e o outro para pesar as do próximo com a maior desvantagem possível. Mas, como diz a Escritura: Falam com lábios lisonjeiros, mas com duplicidade no coração (Sl 12,3), isto é, eles têm dois corações, e por ter dois pesos, um forte para receber, o outro fraco para dar, é coisa abominável diante de Deus.

Tomás de Kempis, Imitação de Cristo.


Para Ariovaldo Ramos

março 31, 2016

Discurso sobre justiça social é bonito e faz sucesso, eu sei. É politicamente correto. E também concordo que todo governo deve se preocupar com questões sociais. É dever do cristão ter estas preocupações.

Mas lamento informar: Jesus não morreu porque quis ser o Che Guevara de Israel. Pensar que justiça social pode ser imposta, à força, por um governo, e que isso tem alguma coisa a ver com a justiça pregada por Jesus, é ingenuidade. Se não for pura desonestidade. Nenhum governo será capaz de implantar um “paraíso na Terra”. Acreditar nisso é ilusão. Chegar a uma Hell’s Kitchen é resultado mais provável, em comparação com o de chegar ao paraíso terrestre por obra de políticos. Imaginar que a luta de classes, base do marxismo, tem relação com o que foi pregado por Jesus, é demonstração de ignorância.

Governos representando ao mesmo tempo os papéis de corruptos e corruptores, causam mais mortes do que a própria criminalidade. Geram injustiças. Tiram recursos da saúde, da educação, da segurança pública, da agricultura, do saneamento básico. Desviam recursos que poderiam ser usados para construir escolas, hospitais, creches, bibliotecas, e etc. Recursos que poderiam ser usados para ajudar pessoas a se libertarem do populismo, não precisarem mais de auxílios, os quais o próprio governo usa para manipular, fazer terrorismo eleitoral e ganhar votos. E um líder cristão, seguidor de Jesus, não pode ao mesmo tempo, pregar o Evangelho, e defender sistemas políticos totalmente corruptos, onde a corrupção se transformou em instituição. Sistemas políticos que debocham da Constituição, do Judiciário, e dos cidadãos. Onde se trata voto, como cheque em branco, e onde tudo é permitido desde que se mantenham no poder. Jesus não era nem de esquerda nem de direita, o projeto de Jesus era o do Pai, e não projeto de poder político, humano. Mas ele jamais emprestaria seu nome, para defender as injustiças e a corrupção estabelecidas. Causa temor quando lideranças supostamente cristãs, se prestam a um papel ao qual Jesus jamais se submeteria. É contraditório um líder cristão que se diz defensor da justiça social, ao mesmo tempo defender políticos corruptos, sendo a corrupção causadora de graves injustiças que atingem a todos.

A parte boa, é que o disfarce “piedoso” sob o qual se esconde a ideologia política, a real motivadora de certos movimentos intitulados “cristãos progressistas”, cai, quando estes se defrontam com a necessidade de defender o indefensável. Ao negociar o inegociável buscando defender o indefensável, torna-se claro então, que Jesus e o cristianismo para tais movimentos, são na verdade, secundários. A ideologia é mais importante. Isso já havia ficado evidente, na ocasião do apoio dado a Hugo Chávez, e o silêncio subsequente deste senhor Ariovaldo Ramos, quando pessoas começaram a ser assassinadas na Venezuela, por serem contrárias ao governo.

Repudio totalmente uma liderança que se diz cristã, mas empresta sua imagem e suas palavras, para defesa de estruturas políticas imersas em corrupção, ou para defender regimes totalitários. Governos que apenas usam tais movimentos e líderes religiosos, para atingir objetivos de poder, sem conexão com o Evangelho. Misturar Jesus com política, nunca deu certo. Transformar o que é espiritual, em ideologia política, puxar Deus para um lado ou outro, é chamar Deus de mentiroso. É fazer de Deus, cúmplice de corrupção e totalitarismo. Pior do que colocar o nome de Jesus no meio dessa suposta teologia, é colocar a ideologia e o projeto de poder político, acima do Evangelho.

Como cristão, você ajuda o próximo com a liberdade que lhe é dada, pelo amor que vem do alto. E não porque um governo o obriga, ou tira recursos de você, por meio de impostos cada vez maiores, para supostamente dar aos menos favorecidos, enquanto este mesmo governo, é ineficiente, corrupto, autoritário, contrário à liberdade individual em nome de um suposto “interesse coletivo”, e aplica as leis de forma parcial, em busca de se eternizar no poder. Quando, em nome desta suposta “justiça social”, líderes que se dizem cristãos, passam a não enxergar como erros o que é escancaradamente errado, é porque em vez de serem sal e luz, a ideologia é que os envenenou.

Os pecados de alguns são evidentes, mesmo antes de serem submetidos a julgamento; enquanto que os pecados de outros se manifestam posteriormente. Da mesma forma, as boas obras são evidentes, e as que não o são não podem permanecer ocultas. 1Timóteo 5:24,25


Jararacas e homens

março 11, 2016

Fico aqui pensando como seria se um político acusado de corrupção, em vez de esforçar-se tanto para negar o óbvio, simplesmente admitisse, de forma espontânea: “sim, fui corrupto, traí meus eleitores e prejudiquei toda a nação, mereço a cadeia, estou arrependido e vou devolver tudo”. Seria bombástico, palavra esta que tem sido repetida na imprensa nas últimas semanas. Só em sonho mesmo. Mas nem tudo está perdido, pois temos as delações premiadas.

Voltando à realidade, o ex-presidente Lula andou se comparando com serpentes, mais especificamente, uma jararaca. Lembro que ele também já se comparou com Jesus, citando alguma coisa sobre a barba que os dois teriam em comum, como se usar barba o tornasse parecido com Jesus. Mais recentemente, Lula comparou os delatores do esquema do Petrolão, com Herodes, e seus companheiros de partido acusados de participar do esquema corrupto, com Jesus crucificado, algo totalmente sem noção. Lula não foi o primeiro populista a se comparar com Jesus, mas foi talvez o que o fez de forma mais tosca. Mas o pior é testemunhar a manifestação da idoLULAtria, a idolatria ao ex-presidente Lula. E perceber, atingidos por este mal, não só militantes, mas também religiosos. No caso destes últimos, associado com grave dissonância cognitiva.

O mesmo Jesus que este Lula totalmente sem noção deturpa, afirmou: O que contamina o homem, é o que sai da sua boca. Pois o que sai da boca, vem do coração.

O que vai no coração de um homem que se denomina publicamente como jararaca, só Deus sabe. Eu, prefiro não saber.

Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de “sabedoria” não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. Tiago 3:13-18


A Lava Jato e nós

março 5, 2016

Vergonha do pronunciamento da Presidenta Dilma Rousseff ontem, 04 de março de 2016, motivado pela condução coercitiva do EX-PRESIDENTE Luis Inácio Lula da Silva, a qual depois descobrimos não ter sido tão coercitiva assim. Todos temos visto o quanto ele tem fugido da obrigação de nos dar respostas. Não sou da área jurídica para opinar sobre ter sido a opção certa ou não. Mas ao contrário do que foi dito pelos militantes do PT e pelo próprio Sr Lula, não houve nenhuma operação midiática. O Juiz Moro proibiu filmagens, e foram usados veículos descaracterizados, tudo visando não expor o ex-presidente. A operação midiática veio depois, com os militantes do PT, inclusive ameaçando instaurar a violência nas ruas.

Ameaçar pegar em armas só porque o ex-presidente foi levado para prestar depoimento? Chamar o ex-presidente de “preso político” sendo que nem preso ele foi? Falam em “conspiração das elites contra o ex-metalúrgico”, mas na investigação da Lava Jato, estão envolvidas empreiteiras de grande porte, como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Marcelo Odebrecht, presidente da primeira, está preso. O banqueiro André Esteves, também ficou preso, acusado de tentar obstruir as investigações. Os dois estão entre as pessoas mais ricas do Brasil. Por favor, isso insulta a nossa inteligência. Quem ameaça instaurar a violência no país, na tentativa de impedir que o ex-presidente se explique, mostra bem a que veio: o poder a qualquer custo. A opinião da população, que é contra a roubalheira, fica em segundo plano. Houve vazamentos sobre a quebra do sigilo do ex-presidente, investigado na operação Lava Jato, para piorar.

E a presidenta Dilma, em vez de cuidar do governo, está preocupada com o ex-presidente, em sair na defesa dele, coisa que tem feito repetidamente. Ele tem muitos advogados para defendê-lo. Bastou esta operação da Lava Jato para todos os problemas do país, sumirem do discurso do governo. O Brasil está em crise, desemprego e inflação em alta. Se o ex-presidente Lula deve explicações à justiça, que se explique, como qualquer cidadão. Não acreditamos que seja papel da presidenta, como chefe de Estado e governo, defender o ex-presidente, pois para isso ele tem condições de pagar advogados. O papel da presidenta, é defender o país e a população, é para isso que o povo paga o seu salário. Eles parecem não entender, ou fingem não entender, que a população brasileira, não gosta desta roubalheira. A população de bem, que pega no batente todo dia, enfrenta transporte lotado, caos na saúde, educação sem qualidade, não pode mesmo ficar satisfeita, ao passar por isso. Não parece justo a população trabalhar cinco meses do ano só para pagar impostos ao governo, enquanto os governantes, em vez de governar, perdem o sono  pensando de onde virá a próxima delação premiada, e o que a Polícia Federal ainda pode descobrir sobre eles. Os líderes máximos da nação, que deviam dar exemplo de improbidade, temem acordar com a Polícia Federal nas suas portas. O MP, a Polícia Federal, a Receita Federal, estão fazendo seu papel. Deixem o Juiz Sérgio Moro trabalhar. Presidenta, governe o país para nós, não para o ex-presidente Lula ou outros envolvidos, alguns inclusive já condenados por corrupção.

Tudo que queremos é que o ex-presidente e todos os envolvidos, expliquem-se, que o Sr Lula pare de enrolar, com tem feito sempre em seus pronunciamentos. Entrevista coletiva onde ninguém pode fazer perguntas, é farsa, e não entrevista coletiva, sr Lula. Não caímos mais nessa do Sr Lula se colocando como vítima, oprimido. Quem é oprimido não tem à disposição uma banca de advogados caríssimos, coisa que ele tem. Oprimido não sai de depoimento na Polícia Federal, numa BMW. Se o ex-presidente fez coisas boas no governo, não fez mais do que a obrigação. Foi eleito e pago, muito bem pago aliás, para isso. Não foi nenhum favor. O fato de ter feito coisas boas, não dá a ao ex-presidente, o direito de se considerar acima da lei, intocável, ou ser alvo de “vigílias”, como se fosse algum tipo de divindade. Coisa mais ridícula essa conversa de fazer vigília em defesa de um investigado por corrupção. Vigília para quê? Pensam em impedir a prisão do seu ídolo, caso seja considerado culpado? Vão enfrentar a Polícia Federal? Não devemos nenhum tipo de adoração ao ex-presidente Lula, ele não é um deus, muito menos santo, e ao que tudo indica, também não é inocente nesta história toda. Se fosse, estaria tranquilamente prestando todos os esclarecimentos, tanto à justiça quanto ao povo, do qual ele tanto gosta de falar quando precisa posar como perseguido. Não nos parece atitude de inocente, a incitação dos militantes à violência.

Enquanto presidente, Lula era funcionário público, pago com os nossos impostos, e deve sim satisfações. O que queremos saber, e ele não responde, é o que levou as empreiteiras envolvidas na corrupção da Petrobras, a dar tantos presentes e regalias para ele. Estamos falando de milhões de reais. Por que as empreiteiras envolvidas em corrupção, pagam despesas particulares dele? Como explica este relacionamento eivado de promiscuidade, envolvendo o ex-presidente e os filhos dele, com empreiteiras? Empreiteiras estas, citadas no maior escândalo de corrupção da história do Brasil. O que queremos saber, é quem vai pagar pelo prejuízo da Petrobras, tanto no que diz respeito à imagem da empresa, quanto aos prejuízos financeiros. Quem vai pagar pelo prejuízo à imagem do país? O que queremos saber, é quando o dinheiro desviado pela corrupção anos e anos a fio, será devolvido. O Brasil poderia ser um país de primeiro mundo, não fosse a corrupção que suga nossos recursos e impede nosso desenvolvimento, sem falar na má administração do dinheiro que não é desviado. Todos poderíamos ter uma vida realmente melhor, se o governo tivesse mais respeito pelo contribuinte, que sustenta tudo isso. Se o ex-presidente Lula foi favorecido por empresas envolvidas em corrupção, deve ser investigado e punido, e isso é apenas questão de justiça. Ele e todos os demais envolvidos, da mesma forma. A continuidade do projeto de poder de um partido, não é nem nunca será, mais importante que o progresso, o futuro do país. Não temos nada a ver com o projeto de poder de partidos políticos, sejam quais forem, de esquerda ou direita. Nós amamos o Brasil, e não um partido. O país precisa de gestão profissional, e não de corrupção. Administração pública responsável, e não a bandalheira que temos visto todos os dias nos jornais. Tratam verbas públicas como se elas não tivessem dono, e como se não fosse preciso prestar contas do que é feito com elas. Basta de corrupção, basta de políticos que trabalham para seus projetos partidários e não para o Brasil. Queremos governo para o Brasil e para os brasileiros, e não um governo que precisa ir a público a todo momento, para se defender em escândalos de corrupção de repercussão internacional, e depende de pedaladas fiscais para ficar bonito na estatística. Enquanto isso, o mosquito da dengue, a inflação e o desemprego, tomam conta do país. Não precisamos de políticos que perdem o sono, com medo de acordar com a Polícia Federal nas suas portas.  Não precisamos de um governo que se pronuncia prontamente quando é para defender seus “companheiros” investigados por corrupção e lavagem de dinheiro, mas não faz o mesmo quando é para se pronunciar sobre os problemas do país.

Já vimos na história, várias ocasiões onde os cidadãos silenciaram diante do ilícito, e este silêncio, custou muito caro. É o que vem acontecendo no Brasil.


Um Francisco nada santo

março 1, 2016

chatô o rei do brasilFrancisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand, ao contrário do seu homônimo, Francisco de Assis, o fundador da Ordem dos Franciscanos, não tinha a menor vocação para santo. Isso fica evidente após a leitura da sua biografia, escrita por Fernando Morais: Chatô: o rei do Brasil. O filme de mesmo nome, produzido por Guilherme Fontes, não mostra nem a metade de quem foi este que é considerado o patrono da comunicação no Brasil. O livro não é leitura fácil, com suas mais de 700 páginas. Mas vale o esforço.

Nas páginas do livro, encontramos um sujeito que vive de acordo com sua própria ética, totalmente duvidosa. Que inventava notícias falsas, usava os jornais para ameaçar qualquer um que se atravessasse no seu caminho. Fabricava notícias e chantageava empresários, para obrigar as empresas a anunciar nos seus jornais. Publicou reportagens falsas sobre mortes causadas por medicamentos. Os medicamentos eram fabricados por uma indústria que Chateaubriand tentou comprar, mas não conseguiu. Diante da recusa do dono da empresa em vendê-la, nosso personagem apelou para este jogo sujo. Fez o mesmo para obrigar a Coca-cola a anunciar nos seus jornais e revistas, publicando análises sobre males à saúde causados pelo refrigerante. Assim que os anúncios da bebida começaram a ser publicados, as críticas cessaram. Chegou ao ponto de publicar uma notícia sobre o linchamento, na Itália, do cunhado de um grande empresário paulista, após a queda do ditador Mussolini, na qual até a família do suposto morto que estava aqui no Brasil, acreditou. Era época de guerra e as comunicações estavam prejudicadas. Meses depois, o suposto morto apareceu na porta do cunhado. A notícia não passava de uma mentira, redigida e publicada por ordem de Assis Chateaubriand. Ajudou Getúlio Vargas a chegar ao poder, e apoiava mais de um candidato ao mesmo tempo, para poder ganhar favores, independente de quem vencesse. Getúlio Vargas alterou uma lei apenas com o objetivo de beneficiar Chateaubriand, e o mesmo pudesse vencer a luta judicial pela guarda da filha. Chateaubriand dizia que se a lei estava contra ele, era preciso mudar a lei. Os primeiros aparelhos de televisão chegados ao Brasil, foram importados por ele, mas de forma ilegal, como contrabando.

Ao mesmo tempo em que colocava para trabalhar em seus jornais e revistas, figuras que se tornariam grandes nomes da literatura e da arte brasileira, Chateaubriand construiu seu império jornalístico a custa de muita, mas muita maracutaia. Lendo o livro, perde-se a conta de tantos episódios envolvendo chantagens, intriga, abuso do poder, desonestidade jornalística. Para ele, aparentemente tudo era permitido, se aumentasse as vendas dos seus jornais e revistas, a quantidade de anunciantes, o seu poder pessoal, ou a audiência. O que dizer do episódio onde um importador de máquinas de impressão, após vender as dívidas de Chateaubriand para Getúlio Vargas, foi castrado a tiros por um capanga de Chateaubriand? O que diriam os politicamente corretos de hoje, quando Chateaubriand impediu um padre de celebrar a missa num evento organizado por ele, pois o tal padre era negro? Afirmou que “missa rezada por padre preto vai nos trazer uma urucubaca sem tamanho”. Poucos sabem que Chateaubriand foi dono da fábrica de chocolates Lacta, de um banco, e da Schering, indústria farmacêutica alemã que foi tirada dos seus donos, por Getúlio Vargas. Esta, leiloada pelo governo, foi comprada pelo grupo encabeçado por Chateaubriand. Chateaubriand foi senador por duas vezes, sendo que na primeira, ele fez isso obrigando o senador e o suplente que estavam no cargo, a renunciar, abrindo uma eleição para preencher o cargo supostamente vago, onde só ele concorreu. Na segunda vez, perdeu a eleição e mesmo assim conseguiu a vaga por outro estado (Maranhão), de novo, com maracutaia. Isso você não lê em nenhuma biografia dele das que se encontra na Internet, muito menos nos livros de história do Brasil. No livro, fica claro como comprar ou falsificar votos, era prática corriqueira no país, supostamente uma democracia. Ou seja, o problema já vem desde a raiz.

Muitos acusaram Fernando Morais de focar mais no lado negativo do personagem. Se a vida de Chateaubriand foi assim, com um pé na canoa do bem e outro na canoa do mal, ou acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo, a biografia tinha o dever de mostrar isso. Não há dúvidas a respeito da inteligência de Assis Chateaubriand, assim como também não há dúvidas de que ele se considerava acima da lei e acima do bem e do mal. Empreendedor, sim, mas também sem caráter. Inteligente, mas também corrupto. Visionário, mas igualmente preconceituoso. Pioneiro no uso da tecnologia, mas ao mesmo tempo, tendo um jagunço dentro de si. Patrono da comunicação no Brasil, e também o fundador de um modelo de imprensa onde a verdade ficava em último plano, e onde só ele tinha opinião. Hoje, com a Internet e o acesso à informação ocorrendo de forma instantânea, a vida dele seria bem mais difícil. As notícias falsas seriam desmascaradas quase imediatamente. Ele precisaria chantagear o mundo inteiro. Muitos artigos escritos por ele, usando nomes falsos, onde atacava de forma violenta os seus desafetos, hoje não seriam publicados em jornal nenhum. Hoje, qualquer pessoa com um celular e Internet, consegue enviar notícias em tempo real para qualquer lugar do mundo, sem precisar de jornal. Impérios da comunicação continuam existindo, mas a informação já não é mais monopólio de ninguém. Qualquer um com uma boa ideia na cabeça, pode escrever um livro e publicar na Amazon. Qualquer pessoa pode criar um blog, um podcast, um canal no Youtube. Se não existe imprensa realmente independente, estamos cada vez menos dependentes desta imprensa para saber o que acontece mundo afora. Assis Chateaubriand certamente ficaria louco, caso vivesse hoje, e tentasse dominar a indomável Internet.


Sapatos sujos

fevereiro 23, 2016

Em seu livro de ensaios “E se Obama fosse africano?”, Mia Couto incluiu um texto sobre os desafios que os africanos e/ou moçambicanos têm à frente para alcançar o futuro que desejam. Ele citou algumas coisas materiais, como hospitais, escolas, investidores, projetos. Porém, na opinião dele, o mais importante é uma nova atitude. “Sem mudarmos de atitude”, afirma ele, “não conquistaremos uma condição melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não seremos construtores de futuro.”

Ele escreveu como africano e pensando em seu próprio povo, mas acredito que o texto serve para o Brasil, também. Para passar pela porta da modernidade, seria necessário descalçar alguns sapatos sujos, deixando-os do lado de fora. Que sapatos?

Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas.

…Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas, ao mesmo tempo, continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: somos peritos na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos:… que o político abusou do poder porque, coitado, na tal África profunda, essas práticas são antropologicamente legítimas….

Troquemos no texto acima, África, por Brasil. Corrupção institucionalizada.

Segundo sapato: A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.

…Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos acontece (de bom ou de mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino…

Terceiro sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.

…Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demônios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa…

Estratégia dos políticos brasileiros quando são pegos com a boca na botija de dinheiro público, ou flagrados com propina na cueca, ou possuindo bens adquiridos com recursos de lavagem de dinheiro, ou contas no exterior não declaradas e movimentações financeiras muito suspeitas. Dizem que é perseguição política. Intriga da oposição. Preconceito. E continuam com as propagandas mentirosas. Os petistas em propaganda veiculada pela televisão, têm coragem de mandar o povo trabalhar mais. Como se o governo já não ficasse com cinco meses de trabalho dos brasileiros, na forma de impostos. O que temos em contrapartida por uma carga tributária entre as maiores do mundo? Notícias sobre desvios e corrupção todos os dias. E o PMDB, oportunista, aparece como salvador da pátria. Ambos pensam que somos burros. O PMDB esteve ao lado do governo do PT o tempo todo, e agora quer se desgrudar? Deviam ter aproveitado a propaganda, para explicar o apartamento, o sítio, a antena, as propinas, o rombo da Petrobras, o rombo dos fundos de pensão. Ninguém engole mais essa piada de que o ex-presidente Lula  é vítima de perseguição. Ele é, sim, suspeito de cometer crimes e tem que ser investigado como qualquer um. Vai ver eles acham mesmo que somos burros.

Não seria lindo se eles usassem o tempo da propaganda na TV, para confessar? Admitir que não honraram os votos recebidos, que agiram mal, que prejudicaram o país deliberadamente ? Que são culpados? No dia em que isso acontecer, aí sim o Brasil poderá ter jeito.

Quarto sapato: A ideia de que mudar as palavras, muda a realidade.

“A Petrobras está de pé.” (Presidenta Dilma Rousseff) Aham, senta lá!

“Não poso de santo. Nunca fui candidato a santo.”, que recentemente mudou para “Não tem uma viva alma mais honesta do que eu.” (ex-presidente Lula, agora candidato a santo, afinal as palavras mudam, não é?)

“Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz.” (Lênin). Este princípio é um dos que mais vem sendo aplicado por aqui.

Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e  o culto das aparências.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Tênis falsificado, bolsa falsificada, ou pior, o  “funk ostentação” (que fez aumentar o aliciamento de meninos por traficantes de drogas em 3200%, em Florianópolis, por exemplo). Igreja que vende prosperidade e sucesso financeiro, para não dizer que não falei das flores.

Sexto sapato: A passividade perante a injustiça.

Nem precisa explicar isso.

Sétimo sapato: A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.

Se as capacidades de uma nação estiverem viradas para o enriquecimento rápido de uma pequena elite, então de pouco valerá haver mais quadros técnicos.

Que semelhança com a realidade do Brasil, onde estar no governo, é visto como oportunidade para enriquecer, e não como oportunidade para colaborar com o desenvolvimento e construir o futuro. Não importa se é de esquerda ou de direita. O partido que se dizia dos trabalhadores por exemplo, hoje tem milionários nas suas fileiras. Mas pergunte a eles agora, se querem socializar o capital que amealharam. Só não vale socializar o patrimônio daquele jeitinho brasileiro, colocando tudo em nome de laranjas, e dizer que não é seu, ok?

O ex-presidente Lula palestrou em Moçambique, terra do Mia Couto, tempos atrás. A palestra, dizem que custou 815 mil reais, pagos à vista, por uma empreiteira brasileira. Os moçambicanos poderiam ter passado sem essa. Eles têm Mia Couto como conterrâneo, afinal. A palestra foi sobre combate à desigualdade social. Lula disse que é necessário distribuir a riqueza (a riqueza dele também, espero). Lembro, de novo, que ele ganhou 815 mil para palestrar sobre desigualdade social. Que contradição!

Menos políticos. Mais poetas. Um poeta africano é muito melhor para falar sobre desigualdade social, do que qualquer político brasileiro. E sai mais barato também.

A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassinato espetacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder a crença no futuro.