Plenitude da fanfarronice

janeiro 26, 2016

Um auto intitulado “apóstolo”, egresso de duas “igrejas da prosperidade”, que abriu em seguida sua própria franquia de “igreja”. Daí para atrair muitos, aparecer na Internet, e chamar a atenção, foi um pulinho. História que já vimos várias vezes. Mais do mesmo tipo de igreja judaizante, onde se vende óleo milagroso engarrafado, e se fazem campanhas com nome de muralha de Jericó, batalha de Josué, quebra de maldição, com decoração dourada pra todo lado, e outras coisas do tipo. Até aí, nada de novo. É a mesma receita de outras neopentecostais já há muito tempo no “mercado”. Sim, mercado.

O fanfarrão em questão, usa por cima da roupa, um simulacro de pano de saco. Muitos o chamam de Fred Flintstone por conta da roupa inusitada, a fantasia que usa nos cultos da igreja. Fora da igreja, nada de humildade, vale andar de Porsche e BMW e ostentar roupas de marca. Além de fanfarrão, é ator, e gosta de encenar duelos com pais de santo, amaldiçoar pessoas em vídeos, e mais recentemente, estava usando uma coroa que o deixava parecido com um personagem do carnaval. Púlpito ou picadeiro, eis a questão.

Num país cheio de escândalos de corrupção, Petrolão, Mensalão, Zelotes, Lava jato, dá para entender porque as pessoas procuram esse tipo de lugar. Simples de entender a atração que este tipo de “pregação” exerce. Busca de soluções fáceis para os problemas comuns da vida: casamento destruído, desemprego, dívidas, problemas de relacionamento, vícios e doenças. Pessoas desesperadas viram alvo dos parasitas da fé. A fórmula de mostrar Deus como fosse a lâmpada mágica que resolve todos os problemas, sem que você precise fazer nada além de entregar seu dinheiro, apenas reflete o que acontece em todos os escalões da política do país, onde tudo se resolve com propina. Tudo é questão de “molhar a mão” certa. Em vez de cantar “segura na mão de Deus”, vão na igreja para tentar molhar a mão dEle. Deve ser por isso que alguns políticos fazem questão de aparecer em igrejas quando é época de eleição. O povo vai de uma igreja de prosperidade para outra, e elas competem entre si pelo mercado de desesperados. Um povo fraco, que corre atrás de qualquer carismático que se diz “apóstolo”, abre um negócio que chama de “igreja” e sobe em púlpito. E quanto mais espalhafatoso o culto, melhor. Não é de estranhar os políticos que temos por aí. Cada nação tem o governo que merece. E cada crente tem o pastor que merece. Simples assim.

“Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos. Isso também não faz sentido.”
Eclesiastes 5:10

O médico, o monstro e as anfetaminas

janeiro 10, 2016

No final de 2015 o livro Mein Kampf, de Hitler, entrou em domínio público. Li o livro faz muito tempo, e por achá-lo horrendo, não cheguei a terminar. Li o suficiente para considerar seu autor um fanático racista, defensor de uma suposta raça superior, da qual ele obviamente não só fazia parte, como estava predestinado a ser o líder. Trechos como o que consta abaixo, estão neste livro:

[…] A cultura humana e a civilização nesta parte do mundo estão inseparavelmente ligadas à existência dos arianos. A sua extinção ou decadência faria recair sobre o globo o véu escuro de uma época de barbaria. A destruição da existência da cultura humana pelo aniquilamento de seus detentores é, porém, aos olhos de uma concepção racista do mundo, o mais abominável dos crimes. Quem ousa pôr as mãos sobre a mais elevada semelhança de Deus ofende a essa maravilha do Criador e coopera para a sua expulsão do paraíso. Assim corresponde a concepção racista do mundo ao intimo desejo da Natureza, pois restitui o jogo livre das forças que encaminharão a uma mais alta cultura humana, até que, enfim, conquistada a terra, uma melhor humanidade possa livremente chegar a realizações em domínios que atualmente se acham fora e acima dela.[…]

[…] Os direitos humanos estão acima dos direitos do Estado. Se, porém, na luta pelos direitos humanos, uma raça é subjugada, significa isso que ela pesou muito pouco na balança do destino para ter a felicidade de continuar a existir neste mundo terrestre, pois quem não é capaz de lutar pela vida tem o seu fim decretado pela providência. O mundo não foi feito para os povos covardes. […]

Poucas pessoas questionam o fato de Adolf Hitler ter sido um dos piores vilões da história da humanidade. Na Alemanha, dar o nome de “Adolf” a um filho, é impensável. Chamar um filho de “Adolf” poderia ser visto como uma homenagem a este genocida, e nenhum cidadão de bem por lá, quer correr este risco. Há quem argumente afirmando que outros ditadores mataram mais gente em comparação com Hitler. Mas no caso dos nazistas, a forma como executaram seus planos mirabolantes, assassinando pessoas em massa nas câmaras de gás em nome de um ideal racista, o torna sem dúvida o pior genocida da história, um verdadeiro monstro. Stalin e Mao não ficaram atrás em termos de extermínio de pessoas. Stalin e Hitler, acabaram um contra o outro na segunda guerra mundial. Quando deu de cara com Stalin, Hitler começou a perder a guerra. Estes três vilões viveram mais ou menos na mesma época. Juntando os feitos dos três, foram responsáveis pela morte de pelo menos 130 milhões de pessoas. Mas as motivações de Hitler eram mais sinistras, com aquela história de raça pura, e por ele se considerar um enviado divino, encarregado de salvar o mundo da degeneração racial. Se ele tivesse guerreado somente por motivos políticos, territoriais ou financeiros, para aumentar o território ou o poder da Alemanha, talvez não fosse hoje considerado o pior e mais insano de todos os ditadores. Estaria em pé de igualdade com seus colegas do mal.

Pervitin 3Na Alemanha nazista, sabe-se sobre o uso de drogas entre os soldados e também entre os líderes. Depois da invasão da Polônia e antes de atacar a França, os nazistas encomendaram 35 milhões de comprimidos de Pervitin, para distribuir aos soldados. Era uma metanfetamina, mais conhecida hoje como “cristal”. Na época, o Pervitin era vendido legalmente, como remédio. Usava-se Pervitin, como usamos o café agora. Havia chocolate recheado com Pervitin. As pessoas ficavam eufóricas, sentiam-se invencíveis e capazes de qualquer coisa. Imagine soldados lutando numa guerra e usando este tipo de droga. Eu não gostaria de encontrar com um deles.

O médico de Hitler, Theodor Morell, prescrevia ao ditador, injeções que continham metanfetamina e um psicotrópico chamado oxicodona (o remédio do Dr House). Hitler teria passado boa parte do tempo de duração da segunda guerra mundial, usando um coquetel de drogas prescritas pelo Dr Morell. O médico de Hitler era tão louco quanto seu chefe, e o coquetel incluía, além de metanfetamina e oxicodona, vitaminas, proteínas, barbitúricos, esteroides, morfina, petidina, entre outros. Hitler tomava injeções praticamente todos os dias e parecia confiar cegamente neste médico, que era também dono da indústria produtora de parte das drogas usadas por Hitler. O super homem nazista era isso? Este “super homem ariano” do qual supostamente dependia o futuro da humanidade, seria um zumbi dependente de drogas? No Mein Kampf, Hitler cita o aperfeiçoamento físico como um dever. Era esse tipo de aperfeiçoamento físico o ideal dos nazistas?

tumblr_mrvj1eTSTq1spwr70o1_1280.png

Hitler perdeu a guerra, e antes disso, seus próprios generais tentaram matá-lo. O fato da derrocada dos nazistas na guerra, ter começado quando atacaram a União Soviética, um Estado ateísta, parece ironia. Como Hitler reagiu à derrota, se considerava como um direito divino da tal raça ariana, subjugar as supostas raças inferiores? Qual explicação para essa “raça superior” apoiada em metanfetaminas, como se fosse um elixir da invencibilidade? Hitler usou aquele coquetel de drogas esperando, talvez, se transformar num super herói, daqueles de dar inveja em qualquer personagem da Marvel. Como, em vez de se transformar em super herói, foi ficando cada vez mais doente e dependente de drogas, enquanto os aliados estavam próximos de derrotá-lo, terminou por se suicidar. Não venceu a guerra e muito menos venceu a morte. Ele não era nenhum super homem, afinal.

“Como um Cristão amoroso e como um homem, leio a passagem que nos conta como o Senhor finalmente se ergueu em Sua força e apanhou o azorrague para expulsar do Templo a raça de víboras. Como foi esplêndida a sua luta em defesa do mundo e contra o veneno judeu. Hoje, depois de 2 mil anos, é com muita emoção que reconheço, mais profundamente do que nunca, o fato de que foi em nome disso que Ele teve que derramar Seu sangue na cruz. Como cristão tenho o dever de não me deixar enganar, tenho o dever de lutar pela verdade e pela justiça. E como homem, tenho o dever de zelar para que a sociedade humana não sofra o mesmo colapso catastrófico que sofreu a civilização do mundo antigo 2 mil anos atrás – uma civilização que foi levada a ruína por esse mesmo povo judeu.”

Num país como a Alemanha na época nazista, onde a maioria absoluta da população era formada por católicos e protestantes, se Hitler se declarasse ateu ou invocasse Odin ou Thor como patronos dos nazistas, dificilmente seria levado a sério. Mas ele também não era cristão, mesmo quando afirmava ser um ou citava trechos do novo testamento. Era apenas mais um dos muitos que usaram a religião para montar sua própria ideologia. Enganou a muitos, e causou a morte de milhões de pessoas. Católicos e protestantes se deixaram enganar pela propaganda racista deste homem. Adolf é um nome relacionado a lobos. Neste caso, Hitler foi um lobo confundido com um cordeiro. Um lobo que sabia usar a propaganda.

Enganou a si mesmo, acima de tudo, pois Deus não é nazista.


Escadaria para o céu

janeiro 4, 2016

Um episódio da série Grey’s Anatomy, quinta temporada, apresenta uma situação complexa, envolvendo compaixão, ética médica, crime e punição. Um serial killer, condenado à morte pelo assassinato de cinco mulheres, dá entrada no hospital, com um problema que demandava neurocirurgia. Faltam poucos dias para a sentença dele ser executada, ou seja, a dias de ser morto pelo Estado pelos crimes que cometeu, ele tem um problema de saúde que pode matá-lo. Sabendo que o prognóstico pode ser fatal, o prisioneiro hospitalizado se recusa a fazer a cirurgia indicada pelo neurocirurgião. O assassino prefere que seu estado piore, para morrer no hospital em vez de ser executado. O neurocirurgião, cujo pai foi assassinado muitos anos atrás, insiste no tratamento cirúrgico, e deixa claro: não pretende permitir que o paciente morra ali, confortavelmente assistido, e escape da execução na cadeia. Não dá para saber se o cirurgião está mais preocupado em salvar a vida do paciente, ou quer deixá-lo vivo para que volte à prisão e seja executado, castigo considerado justo por ele.

Ao mesmo tempo, no mesmo hospital, um menino está em situação crítica, precisando de transplante de fígado e intestino. O criminoso e o menino se conhecem num corredor do hospital, e o menino explica ao prisioneiro porque está internado. O criminoso pergunta a ele se não gostaria de ficar com seus órgãos. O menino e o criminoso se empolgam com a ideia, e o assassino tem mais um motivo para não querer receber tratamento: doar os órgãos. Os médicos acabam intervindo, explicando que não era tão simples assim, que para o transplante ser feito o doador e o receptor precisavam ser compatíveis. A equipe do hospital continua buscando um doador para salvar a vida do menino, e o criminoso continua se recusando a ser operado.

Uma médica residente se compadece da história do criminoso, o qual afirma querer ajudar o menino. Faz os testes e descobre que o criminoso e o menino são compatíveis. E indiretamente, dá ao serial killer uma dica de como ele mesmo poderia acelerar o processo, e fazer sua doença evoluir até levar à morte cerebral. O prisioneiro entende o recado, e provoca uma hemorragia, batendo a cabeça na cabeceira da cama. Seu estado piora de forma progressiva durante a noite, e a residente, de plantão no hospital, deixa o caso se agravar. Ela tenta ajudar o paciente a morrer, nas palavras dela, “ter uma boa noite”.

Nesse meio tempo, o hospital consegue os órgãos para o menino, que vai para a cirurgia. Mas algo dá errado, e o corpo dele reage contra os órgãos, que são retirados novamente. O tempo está se esgotando, e a equipe precisa encontrar outros doadores compatíveis. A situação é desesperadora. O chefe da cirurgia descobre outro paciente compatível com o menino, que está ali mesmo no hospital, já com morte encefálica, mas a familiar do paciente se recusa a permitir a doação. O criminoso perde a consciência e o neurocirurgião faz a cirurgia, contra a vontade do homicida. Durante a cirurgia, a médica do menino, tendo conhecimento de que o malfeitor é compatível e pode doar os órgãos, entra na sala cirúrgica e pede ao cirurgião que deixe o serial killer morrer, para salvar o seu próprio paciente. Eles discutem. A situação fica em suspenso.

O menino segue piorando, enquanto o chefe da cirurgia prossegue na tentativa de convencer a familiar do outro paciente, a doar os órgãos. O prisioneiro corre risco de morte, e o cirurgião deixa a vida dele nas mãos da médica, mas ela, arrependida do pedido anterior, pede que ele termine a cirurgia e salve o bandido. Ela volta ao leito do menino, então já à beira da morte, e autoriza a presença da mãe dele, para se despedir. Enquanto esta despedida ocorre, o chefe da cirurgia aparece no quarto. Havia conseguido os órgãos. O menino tem uma parada cardíaca e quase morre antes de receber o segundo transplante.

Mesmo sendo uma história de ficção, não escapamos do fato de que somos todos humanos, e nossa humanidade interfere nos nossos julgamentos, atitudes e decisões. O cirurgião estava apenas fazendo seu trabalho, ou visava impedir que o assassino burlasse o sistema, morrendo antes da própria execução? Não seria uma violação ética, esperar o paciente ficar inconsciente e proceder à cirurgia, contra a vontade do mesmo? Não seria contraditório, todo aquele dispêndio de recursos para salvar um paciente que não queria ser salvo? Por ser um assassino, o doente perdia o direito de decidir morrer no hospital, recusando o tratamento? A residente agiu certo ou errado, ao ensinar, ainda que de forma indireta, um jeito de o paciente precipitar a própria morte? Era a vontade dele, não era? No final ele acabaria morto de qualquer jeito. O assassino, caso morresse no hospital, salvaria outras vidas, doando seus órgãos. Com isso, outras pessoas viveriam por meio da sua morte. Uma tentativa de redenção, talvez? Provável, mas seja como for, o desejo do serial killer não se realiza. No final, tudo acaba aparentemente “bem”: o menino sobrevive e o assassino termina executado. Na vida real aqui no Brasil, é mais fácil morrer esperando um transplante de fígado, do que ter dois doadores compatíveis ao alcance da mão, situação do menino no episódio.

Observação 1: Existe uma estimativa de que 4% dos condenados à morte nos EUA, são na verdade, inocentes. Traduzindo, uma em cada 25 pessoas condenadas à pena capital, não cometeu o crime. Por isso a pena de morte vem sendo abolida. O índice de pessoas inocentes executadas injustamente, seria ainda maior, se a execução fosse imediata. Como os presos ficam um bom tempo no que chamam “corredor da morte”, uma evidência nova ou reviravolta no caso, pode fazer com que a pena seja cancelada. Em alguns países onde este tipo de punição continua sendo aplicada, vale para, entre outros, casos de adultério, blasfêmia e “bruxaria”. Que tipo de prova se usa num processo que visa condenar alguém pelo crime de “bruxaria”? Países como China, Irã e Arábia Saudita são os que mais aplicam a pena capital.

Observação 2: Metade das pessoas que espera por um transplante de fígado no Brasil, morre na fila. Um único doador pode ajudar de uma até 25 pessoas com órgãos doados.


Pra não dizer que não falei do natal

dezembro 27, 2015

natalO natal já passou. E como acontece todo ano, em algum lugar aparece uma reportagem ou post em blog para nos informar de uma suposta “novidade”: Jesus não nasceu em 25 de dezembro! Sério?

E todo ano, reportagens deste tipo recebem centenas de comentários. Uma que eu vi esse ano, mas que na verdade é do natal de 2012, tinha mais de 500 comentários. Pessoas comentando como se fosse uma notícia inédita, algo que vinha sendo mantido escondido por mais de 2000 anos, e só agora tinha sido revelado. Nos comentários, pessoas se digladiam, citando termos como “argumento”, “refutar”, “falácia”, “ad hominen”, “lógica”, “paganismo”, “mitologia”, “fanatismo”, “fundamentalista”. Tem os que dizem que cristão de verdade não comemora o nascimento, e sim, a morte de Jesus, ou seja, a data mais importante para os cristãos, é a Páscoa, e não 25 de dezembro. Faz sentido. Mas não julgo quem tem por tradição, também celebrar o nascimento de Jesus, mesmo que seja numa data simbólica, já que ninguém sabe o dia correto. Saber isso não é importante. O fato de coincidir com um evento que hoje se tornou meramente comercial, seria mais um motivo para comemorar o nascimento de Jesus exatamente nesta data, e lembrar de Jesus e seus ensinamentos, em vez de participar do consumismo desenfreado de final de ano. Só para contrariar o mundo. Certamente seria uma coisa que Jesus faria. : P

Pois é. Mas todo ano é a mesma coisa. Todo ano se repete o debate sobre o porquê de o 25 de dezembro ter sido escolhido para comemorar o nascimento de Jesus. Aquela história toda de solstício e teorias de conspiração, que qualquer um pode descobrir fazendo uma pesquisa no Google, e saber todas as teorias sobre a origem da ideia de papai noel, árvore de natal e tudo o mais, e que a ideia do papai noel se espalhou pelo mundo graças à Coca-cola (afinal as cores da roupa dele são as cores da Coca-cola) e ele usou roupa vermelha pela primeira vez, por obra de um cartunista que o representou com essas cores, e nem faz tanto tempo assim.

E como acontece sempre, todo ano tem alguns que sentem necessidade de responder a todos os cristãos que comentam sobre o assunto, geralmente explicando como comemoram a data. Geralmente um ateu, ou alguém que se diz “cético”, “livre pensador”, “humanista” ou coisa do tipo. Supostamente querendo “abrir os olhos” dos “trouxas” que se baseiam supostamente numa fé cega, para o embuste das religiões que enganam as pessoas inclusive inventando uma data de aniversário para um suposto Jesus que provavelmente nem existiu e que é apenas uma montagem de uns espertos que queriam dominar o mundo e inventaram tudo isso. Deixei a frase sem vírgulas, de propósito, ok?

Posso falar disso com conhecimento de causa, afinal já fiz parte do time “ateístas/humanistas/livre pensadores querendo libertar o mundo da mentira das religiões”. Sim, já perdi muito tempo com discussões deste nível, totalmente inúteis e repetitivas. Religiosos dizem muitas mentiras, é verdade. O que não significa que ateus também não possam mentir. É também verdade que Jesus não nasceu em 25 de dezembro, e que não sabemos a data certa.  Mas nada disso faz Deus ser menos real.

Diz aquela velha letra de música tocada em todo lugar nesta época do ano: “eu pensei que todo mundo fosse filho de papai noel…”. Prefiro ser filha dEle.


Deus e o clarinete

setembro 19, 2015

clarinete_posterSe você já tentou aprender, ou sabe tocar um instrumento musical, entende que cada um deles tem seus truques. Mas já parou para pensar no quanto aprender a tocar um instrumento, e o relacionamento com Deus, possuem semelhanças e diferenças?

Primeiro você escolhe o instrumento com o qual mais se identifica, ou te obrigam a aprender algum deles na escola, por exemplo. No caso de Deus, existem várias “versões” em diferentes religiões (eu particularmente escolhi o cristianismo e creio que foi a melhor escolha). Pode acontecer de você tentar um, e depois não gostar e tentar outro, e também pode acontecer de você acabar se convencendo de que tocar, não é a sua praia. Quanto ao instrumento e a música, desistir é fácil, já que o aprendizado exige disciplina e paciência. No caso do relacionamento com Deus, a coisa já fica mais complicada, principalmente porque, mesmo você desistindo, Deus não desiste de você, e nem você consegue esquecer dEle completamente. Sei disso, porque já tentei. Tem aqueles que desistem e passam a odiar Deus. Mas dizem que amor e ódio são faces de uma mesma moeda. Então, a qualquer momento, a moeda pode virar novamente, com o lado do amor virado a favor dEle. Isso é um perigo. Deve ser o maior medo das pessoas que escolheram odiar Deus. : P

Sobre a minha escolha quanto ao instrumento musical a aprender, não foi difícil. Os de sopro sempre foram os meus preferidos e o som do clarinete, é muito bonito. E com relação ao cristianismo, também não é difícil se identificar com a figura central que norteia a fé dos cristãos, ou seja, Jesus. Como não se interessar pela história de um homem aparentemente maluco, que dizia ser Deus e deixava os religiosos da sua época, furiosos? O difícil aqui não é aceitar a pessoa de Jesus, mas o que ele fez. Difícil é lidar com uma palavrinha pequenina mas que incomoda muita gente, e quem alguns tratam como se fosse doença. A fé.

Lembro que, no começo, eu perguntava onde ficava o botão liga/desliga, dessa coisa chamada fé. Claro, queria que fosse mais fácil, mais prática e totalmente indolor essa história de cristianismo. E como todo mundo geralmente busca o jeito mais fácil de fazer as coisas, claro que temos algumas “versões” de cristianismo onde tem de tudo, menos Jesus. Assim como tem professores que prometem ensinar a tocar em cinco minutos. Com relação à facilidade, tocar clarinete não tem maiores problemas, precisa treino, disciplina e insistência, mas não é problemático. Precisa treinar muito, estudar muito, e ter disciplina, mas com dedicação é possível. A parte mais complicada no começo, é conseguir soprar sem deixar o ar escapar. Mas não tem crises, nem altos e baixos, ou dúvidas, como acontece com a fé. Ninguém vai julgar você porque gosta de tocar clarinete. A maior parte das pessoas vai achar bem legal. Mas desencane dos cinco minutos, porque você não vai aprender a tocar nesse tempo, ok? Já quando você fala que é cristão, alguns podem tratar você como se a sua fé fosse coisa digna de hospício. Com um instrumento musical, quanto mais você toca, melhor fica. Na vida com Deus, é um paradoxo: quanto mais você sabe, menos você sabe.

Uma parte importante é desmontar e limpar o clarinete sempre, depois de usá-lo. E toda vez que vai tocar, montar de novo. Se você deixa o clarinete montado, ele não cabe no estojo. Então pode cair no chão, quebrar, fica exposto à poeira, e a umidade acumulada pela falta de limpeza, estraga os mecanismos. Se for de madeira, pode rachar. Os clarinetes de madeira são caros, pois são feitos de madeiras nobres e raras, como o ébano. Quem investe neles, não vai ser louco de ter preguiça de limpar. Montar, tocar, desmontar, limpar, guardar, é um ritual obrigatório. Faz parte. Aí temos mais uma semelhança com o relacionamento com Deus, pois este relacionamento se renova todas as manhãs. Não tem como saber o que cada novo dia neste relacionamento nos reserva. Deus não é feito de uma madeira rara, e ao mesmo tempo, nada pode comprá-lo. Ele se deixa encontrar por quem o procura. E quem encontra nunca mais vai querer perder. É como aquela parábola de quem encontrou um tesouro num campo. Tem quem saia por aí vendendo algo que dizem ser Ele, e os preços neste caso, variam muito. Assim como tem muito instrumento falso no mercado, apresentado como se fosse original, de marca famosa, mas a um preço que até santo desconfia. Então, fique atento. Um clarinete de ébano e prata, nunca vai ser barato; assim como Deus não está à venda. A graça dEle é dada, e Ele a distribui de formas, muitas vezes, inusitada. Inesperada. O curioso é que tem pessoas que passam a desconfiar de Deus, quando descobrem que a graça dEle é gratuita. Ficam achando que tem “gato na tuba”. : P

O som do clarinete me encantou. E o mesmo aconteceu com o Pai. Foi como diz a música: Ele gentilmente me atraiu. E eu, sem palavras, me aproximei. : ]


Refugiados somos todos…

setembro 16, 2015

refugiado síriaSignificado da palavra “refugiado”, no dicionário:

s.m. Indivíduo que se mudou para um lugar seguro, buscando proteção.
Aquele que foi obrigado a sair de sua terra natal por qualquer tipo de perseguição; quem se refugiou; pessoa que busca escapar de um perigo.
Refugiado político. Quem foi obrigado a deixar sua pátria por sofrer perseguição política.
adj. Que se encontra em refúgio, em local seguro e protegido.
(Etm. Part. de refugiar)

Não é a primeira vez (e provavelmente não será a última), que a Europa se enche de pessoas fugindo de seus países, por causa de guerras, perseguição política ou perseguição religiosa. Já aconteceu antes, e muitas e muitas vezes. Na primeira guerra mundial, na segunda guerra mundial (estimam-se que durante e após a segunda guerra mundial, 46 milhões de pessoas fugiram de seus países de origem), na revolução russa. Muitas vezes na história, os refugiados já se espalharam pelo mundo. Encontraram refúgio. Ou não.

Pessoas fugindo, procurando abrigo, lugar para se esconder. Apenas para lembrar, somos todos refugiados. Sendo cristãos, temos salmos e mais salmos, versículos e mais versículos que afirmam nossa situação.

Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.
Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares.
Salmos 46:1,2
O Senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio.
Salmos 18:2
Sê tu para mim uma rocha de refúgio a que sempre me acolha; deste ordem para que eu seja salvo, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza. Salmos 71:3
Tens sido refúgio para os pobres, refúgio para o necessitado em sua aflição, abrigo contra a tempestade e sombra contra o calor, quando o sopro dos cruéis é como tempestade contra um muro. Isaías 25:4

O Senhor será também um alto refúgio para o oprimido; um alto refúgio em tempos de angústia. Salmos 9:9

Habitarei no teu tabernáculo para sempre; abrigar-me-ei no esconderijo das tuas asas. (Selá.) Salmos 61:4

Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. Salmos 91:2

Olhei para a minha direita, e vi; mas não havia quem me conhecesse. Refúgio me faltou; ninguém cuidou da minha alma. Salmos 142:4

Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia de mim, porque a minha alma confia em ti; e à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades. Salmos 57:1

No meu entender, refugiado seria alguém que já encontrou um refúgio. Não é o caso atual dos sírios, por exemplo. Ele estão apenas fugindo, porque qualquer lugar, mesmo que seja para ficar num campo de refugiados, morando em barracas, é melhor do que o lugar onde eles estavam. E o inverno está chegando por lá, como diriam os fãs de Game of Thrones. Pior do que ser um refugiado, é ser um refugiado no inverno da Europa. Ser turista neste caso deve ser bem mais divertido. Você se joga na neve um dia ou dois, posta umas fotos no Facebook para que seus amigos curtam, e volta para o seu hotel quentinho. Nenhum país gosta de acolher refugiados. Acolhem, porque não fazer isso, seria pior. Acolhem porque existe uma resolução internacional a respeito. Já Deus, nos refugia por amor. Uma rocha, uma fortaleza, um refúgio, no alto. Sombra, abrigo e esconderijo. No dicionário dEle, “refugiado” tem um significado bem diferente.

Os fugitivos, clamam por refúgio. Qualquer um. Mas só um é “o” refúgio.

Crédito da foto: https://br.noticias.yahoo.com/vizinhos-fecham-a-fronteira-para-refugiados-s%C3%ADrios-134303222.html


A apologética ambígua

dezembro 28, 2014

por capelão Mike

Eu confesso. Não tenho apologética.

Não há como defender Deus. Não há como provar que o Seu caminho é o correto. Para isso, seria necessário que eu entendesse Deus, para que possa fundamentar as alegações de verdade que a minha fé me chama a abraçar.

Posso explicar muito bem no que creio. Posso demonstrar até certo grau que minha fé é razoável, e não um delírio de um lunático. Mas não posso provar nada. Não posso discutir um enigma. Não posso fazer campanha para Jesus, sobre uma plataforma de certeza.

Veja, toda a “evidência” é ambígua. É capaz de ser interpretada de diversas formas. O que convence uma pessoa a crer, pode levar outra a ter sérias dúvidas.

Até mesmo o acontecimento que é o alicerce da nossa fé – a ressurreição de Jesus – não foi o que podemos chamar de um evento público. Foi descoberto de forma inesperada por algumas pessoas comuns, no amanhecer enevoado de uma manhã de Páscoa. Todas as aparições de Jesus foram reservadas, a pessoas que se tornaram suas testemunhas. É na palavra destas pessoas que temos que confiar. Estou convencido de que elas eram confiáveis e não tinham motivos para inventar uma história tão fantástica, mas consigo entender que pessoas podem ter dúvidas a respeito disso.

Acho que é por isso que tantos cristãos sentem necessidade de apresentar uma Bíblia inerrante, uma revelação totalmente confiável, feita diretamente da boca de Deus, que demonstra em termos incontestáveis que é VERDADE™. Então, tudo que temos que fazer é abrir o livro e – lá está! – uma base segura  e certa para as nossas crenças. Entretanto, por mais confortáveis que isso possa fazer os crentes se sentirem, apenas cria outra proposição que os cristãos precisam defender. Provar a divina perfeição da Bíblia é um esforço hercúleo, e como séculos de disputas sobre a natureza, significado e interpretação da escritura, mostram, a evidência é obscura.

Então, realmente não tenho uma apologética. Na melhor das hipóteses, ela é ambígua.

Outro dia eu estava pensando sobre os pastores na história de Lucas sobre o nascimento de Cristo. Certamente eles tinham um senso de certeza. Certamente o que eles experimentaram foi tão inquestionável e transformador, que viveram o resto das suas vidas na certeza da fé. Com certeza o próprio Deus tinha provado a eles. Eles viram os anjos. Ouviram o evangelho ser anunciado, diretamente do céu. Eles viram o bebê Jesus em carne e osso!

Porém, às vezes adoraria saber o que aconteceu depois. O Evangelho nos diz que os pastores voltaram ao trabalho naquela mesma noite. Não temos mais notícias deles. Como será que foi para os pastores uma semana depois? Um mês depois? Dez ou vinte anos depois? Não sei se eles estavam por perto quando Jesus andou ao longo da Judeia proclamando o Reino. Gosto de pensar que a fé deles foi confirmada e fortalecida ao longo dos anos, talvez por meio de encontros pessoais com Jesus no seu ministério.

Por outro lado, é possível que eles não tenham mais ouvido falar de Jesus novamente, talvez pelo resto das suas vidas. Se foi assim, o que aquele longo silêncio teria comunicado a eles? Baseados na mensagem do anjo, eles podem ter aguardado, em algum momento ao longo da estrada, que o Filho de Davi chegasse ao trono em Jerusalém, trazendo a paz duradoura e alívio com relação aos seus inimigos. Um cumprimento inquestionável da promessa de Deus. Mas mesmo que eles tenham feito parte da multidão e seguido Jesus ao longo da Judeia e Galileia, eles podem nunca ter percebido. Como eles poderiam ter relacionado aquele grande anúncio de nascimento, com a realidade anos depois – um rabino itinerante que não tinha onde reclinar a cabeça? E então, a cruz? Algum rei. Algum trono.

Tudo isso é pura especulação, é claro, mas penso em uma conclusão: em minha opinião, os cristãos (e me incluo nisso), parecem convencidos quando falam sobre Jesus e sobre a fé. Como se tivéssemos um senso de certeza que nos faz sentir felizes ao longo da vida. Como se o que acreditamos e as razões pelas quais acreditamos fossem tão claras, tão transparentes, tão inquestionáveis, que não podemos imaginar que os outros sejam incapazes de ver isso.

Tive um despertar espiritual enquanto estava na escola secundária, e foi causado por relacionamentos que desenvolvi com um grupo de jovens cristãos, na escola e na igreja. O que eu gostava neles, é que eram reais. Eu notava suas imperfeições e podia encontrar furos em seus argumentos. Mas não podia deixar de perceber a alegria deles, e a convicção que tinham de que a vida valia a pena apesar dos problemas e dúvidas. Havia algo que os mantinha em movimento para abraçar o divino da vida, da fé, esperança e do amor. Eles eram péssimos quando tentavam explicar isso, mas estava lá. No fim das contas, percebi que não podia resistir à canção que a vida deles cantava para mim.

Então é a isso que quero voltar. Algum dia muito tempo atrás, numa noite escura, ouvi anjos cantando. Vi a face do salvador. E era real.

Minha experiência com certeza não foi tão espetacular como o que os pastores testemunharam. Entretanto, foi suficiente para prender minha atenção e me fazer mudar de direção, de uma forma que suponho pareceria tanta loucura quanto largar seu trabalho, no meio da noite, para procurar uns estranhos e seu bebê recém nascido, baseado numa visão divina.

Entretanto, como estes pastores, tive que retornar à vida, à velha vida comum, a vida de todos os dias.

Ao longo dos anos, tive razões pra duvidar, inúmeras vezes, de que aquela experiência foi real. Queria saber se aquelas promessas que recebi eram verdadeiras, ou se não passava de fantasia adolescente gerada por hormônios, novidades e dinâmicas de grupo. Pode parecer muito ambíguo às vezes.

Se os pastores viram Jesus novamente ou não, posso testificar que desde minha epifania, algumas vezes ao longo do caminho, eu o encontrei. Uma coisa é certa: ele nunca é como espero. Ele constantemente me deixa confuso e me faz coçar a cabeça. Quanto mais tento definir o que ele é e o que está fazendo em minha vida, mais confuso eu fico. E quando vou falar, fico rodeando, procurando palavras que o expliquem, para expressar o que significa para mim, tocar os presentes com os quais ele graciosamente tem preenchido a minha vida.

Ele é real, e isso é o melhor que posso fazer.

E é isso que você tem. Minha apologética ambígua.

Talvez você estivesse esperando ler alguma coisa hoje, que explicasse tudo a você, aliviasse suas dúvidas, respondesse suas perguntas, fizesse tudo virar certezas.

Desculpe. Sou apenas um pastor aqui.

A maioria das noites é bem quieta.

Link: A sheperd’s ambiguous apologetic


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.