Spiritual Writings of Kierkegaard

agosto 30, 2008

“A cristandade brinca de pegar Deus pelo nariz: Deus é amor, isso significa que Ele me ama – Amém!”

“A Igreja estabelecida é mais perigosa para o Cristianismo que qualquer heresia ou cisma… Brincar de Cristianismo nunca é incluído na lista de heresias, mas é a pior de todas…”

“A apostasia do Cristianismo não ocorre quando todos renunciam ao Cristianismo abertamente; não, mas astutamente, ocorre quando todos dizem ser cristãos.”

Provocations – Spiritual writings of Kierkegaard – Charles Moore (org) – Leitura recomendada

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Fé e coragem

agosto 30, 2008

“Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí; mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa da segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.”

Paul Tillich


Por que não sigo o Antigo Testamento?

agosto 26, 2008

Velho Testamento – Porque não o sigo (Por David Oliveira)

Introdução

Os cristãos, de modo geral têm a bíblia, num todo, como regra de fé e prática. Nela, na bíblia, estão contidos os dois únicos testamentos existentes; o Velho e o Novo Testamento. O Novo Testamento é composto em sua grande parte, pelas cartas que o apóstolo Paulo escreveu às Igrejas existentes e que naquela época já eram consideradas sagradas escrituras. Na maior parte de seus conteúdos, Paulo insiste na necessidade de que os judaizantes esqueçam as práticas e costumes religiosos do Velho Testamento. Penso que não podemos chegar a ponto de “abominar” o Velho Testamento, apesar de que o apóstolo Paulo tenha sido muito contundente ao afirmar que o considerava escória (detrito, resto, restolho, resíduo etc), quando se referia a tudo aquilo que deixava, como judeu-fariseu conhecedor da Lei, para optar por seguir somente o evangelho de Jesus. Mas o que para mim era ganho (o velho testamento, a lei, a tradição etc) reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo”. (Filipenses 3:7-8)

Histórica e religiosamente, no bom sentido, o Novo Testamento é o complemento do Velho Testamento, porém modificado inteiramente pelo Nosso Senhor Jesus Cristo, principalmente no episódio do famoso sermão do monte (capitulo 5 de Mateus), e como já mencionei, modificado também pelo apóstolo Paulo em sua maravilhosa revelação e compreensão das “boas novas” do Logos, o verbo de Deus que é Cristo. Devemos imitar a Paulo? Então quem “tiver” ainda alguma Lei, deve “perdê-la” também!

Como Jesus disse, a salvação “vinha” dos judeus, no tempo dos judeus; mas quando se mudou o testamento (e a hora chegou), a adoração que o Pai requer agora é totalmente diferente e independente daquela adoração. Vós (samaritanos) adorais o que não sabeis; nós (judeus) adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram, o adorem em espírito e em verdade. (João 4:22)

Sagradas Escrituras; quais?

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça. (II Timóteo 3:14-16)

Paulo, quando disse isso, já estava com idade avançada e prestes a se aposentar. Já havia disseminado as boas novas de Cristo por todo o mundo conhecido de sua época. Agora estava a instruir o “jovem” Timóteo, já criado em suas doutrinas. Quando o apóstolo Paulo menciona aqui, “Toda a escritura”, ele estava se referindo a um conteúdo acumulado de instruções e revelações que viria a ser o Novo Testamento, tal como o conhecemos hoje.

O apóstolo Pedro menciona “alguns pontos difíceis de entender” nas cartas Paulinas, mas também fala de “outras Escrituras”. E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição. (II Pedro 3:15-16) Aqui, Pedro qualifica todas as cartas paulinas, como Escrituras, e menciona também “outras escrituras”, talvez incluindo a carta aos hebreus, feita por alguém muito conhecido que infelizmente não conseguimos identificar, os Atos dos apóstolos e as cartas de Pedro e João, além dos quatro os evangelhos, que já eram lidos por toda a parte e ainda “outras mais” que não chegaram até nós. Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os santos irmãos. (I Tessalonicenses 5:27) E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodicéia, lede-a vós também. (Colossenses 4:16)

Não creio que Paulo tenha “indicado” o Velho Testamento ao jovem Timóteo em II Timóteo 3:14-16, depois de toda a sua luta para que os judaizantes esquecessem a “velha ordenança”. Se Timóteo já tivesse lido o trecho: “… pelo qual (Cristo) sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo. (Filipenses 3:7-8), certamente o teria questionado dizendo: Como pode uma coisa considerada escoria por ti, fazer-me sábio para a salvação? De fato, Paulo não estava falando do Velho Testamento!

Ministros divinamente inspirados de um novo testamento.

Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus. O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica. (II Coríntios 3:5-6)

Aqui, Paulo está dizendo que o que ele e os outros ministros estavam escrevendo, não era originário de seus próprios pensamentos, pois segundo ele mesmo diz, não teria essa capacidade. Deus os capacitava a ministrar as doutrinas novas do Novo Testamento, que já consideravam “Escrituras sagradas”. A isso, ele chama de divina inspiração! Era o novo “cânon” neotestamentário; mas fazia questão de salientar a diferença fundamental “da letra para o Espírito”.

Os verdadeiros “ministros do Novo Testamento” eram os donos de suas palavras, mas a inspiração era divina. Ministrar aqui, neste contexto, é ser usado pelo Espírito Santo para inaugurar uma série de doutrinas e orientações para Novo Testamento de Cristo. Essa era a tão mencionada doutrina dos apóstolos. Quem estava vivificando no começo deste Novo Testamento era na verdade o Espírito Santo, que acompanhava as palavras dos seus ministros; por isso estes consideravam suas cartas e instruções como “sagradas escrituras ou sagradas letras, divinamente inspiradas”. Segundo a compreensão de Paulo, (Efésios 3:1-21), ele e os outros apóstolos, estavam desvendando o mistério, desde os séculos oculto em Deus, e formatando a Igreja, que viria a ser um lugar de todas as famílias do céu e da terra, aonde as pessoas teriam a capacidade de conhecer o amor de Deus; fazer com que Cristo habitasse em seus corações etc.

Paulo menciona dois testamentos: um, da letra e o outro do Espírito. O da letra era essencialmente legalista, voltado para as coisas “da carne”; do mundo, ou tratava das coisas da terra; dos relacionamentos e falhas humanos, onde o vencedor era aquele que conseguia matar mais inimigos, mulheres e crianças em guerras e ficar mais rico com os despojos e escravos. Devia ser seguido em tudo o que estava escrito. O Ministério do Espírito, porém, suprimia totalmente todos aqueles conceitos primitivos de Deus, ordens e mandamentos. Era voltado para as coisas “do alto”, em preparação para a futura vida eterna. Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra. (Colossenses 3:2)

A salvação pela graça, sem méritos humanos, era o ponto central da pregação de Paulo. Esse Novo Testamento era estabelecido de bom grado pela aceitação do coração ou vontade interior (Romanos 6:17). Não haveria legalidades nem imposições no Novo Testamento. Cristo desprezou qualquer valor humano, que pudesse servir na sua salvação. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. (Efésios 2:8)

Para quê nos serve o Velho Testamento?

Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão. (Romanos 4:15)

Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. (Romanos 5:13)

Estes são princípios fundamentais do código civil brasileiro. “O que não é proibido é permitido”, ou “só é proibido aquilo que foi codificado ou previsto em lei como proibitivo”.

Se não existisse o Velho Testamento (Lei), a graça não teria razão de existir. A Lei determina que somos transgressores e carentes de perdão. A graça nos redime de toda condenação contida na Lei. Isso é o que o apóstolo Paulo ensinava. Mas a quem ele estava se dirigindo? Aos judaizantes; àqueles judeus que aceitaram a graça, mas que não queriam “largar” a velha Lei. Nós não chegamos a ser escravos da Lei, como os judaizantes. Como poderemos nos livrar daquilo que nunca fomos escravos? Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” (Romanos 7:6). Penso que para nós, gentios, seja muito mais fácil aceitarmos o Evangelho que para os judeus. Não temos que “morrer para a Lei”, pois “não nascemos para ela”. A pior parte, a meu ver, é largar aquilo em que fomos criados. A tradição familiar-religiosa tem muito peso para quem foi instruído “desde a meninice”.

Nós (não judeus), não fomos criados na revelação do Velho Testamento. Teríamos que preocupar com a Lei? Será que temos de consultar aquelas velhas leis, para ver se estamos a pecar?  Não é assim que orienta o nosso Mestre.  E, quando ele (o consolador) vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo (João 16:8). Portanto não precisamos consultar a Lei (Velho Testamento) para ver se estamos a pecar, pois já somos devidamente convencidos pelo Consolador. Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma (Gálatas 2:17). Para esse tipo de consulta, não nos serve o Velho Testamento, pois já temos o Espírito Santo que está no mundo para esse fim, além de nos convencer da justiça e do juízo.

Será que o Velho Testamento nos serve como complemento para a nossa salvação? Penso que não. Se em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos (Atos 4:12) então não haverá no Velho Testamento nenhum nome; nem Moisés, os sacerdotes, os profetas ou outra pessoa pela qual devamos ser salvos! O nosso foco é Cristo, a maior revelação de Deus a nós. Se voltarmos a atenção e formos cada vez mais “afixados” ao Velho Testamento, estaremos a regredir em tudo o que aprendemos de Cristo. Ele é o fim da Lei e das lições do Velho Testamento. Enquanto alguém estiver na Lei, estará preso à Lei. Mesmo se alguém, gerado pelo ministério do Espírito, cair no buraco da Lei, somente a graça de Cristo poderá libertá-lo de lá.

Há vida, para nós, no “ministério da morte”?

E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória, como não será de maior glória o ministério do Espírito? (II Coríntios 3:7-8)

Algumas pessoas, por ignorância ou por más intenções, estabelecem leis carnais, tiradas tanto da velha ordenança, como inventadas de suas próprias cabeças, e trazem para dentro do “ministério do Espírito”, fugindo totalmente aos ensinos básicos do verdadeiro Evangelho de Cristo. Não se deve aproveitar nenhuma lei carnal impositiva que está na velha ordenança, seja ela qual for. Todas as leis do Velho Testamento foram cumpridas por Cristo e com este cumprimento, foram abolidas todas as exigências de se cumprir ao pé da letra, aquelas velhas leis. Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei (Romanos 3:31). Há dois principais entendimentos concernentes ao Velho Testamento (Lei). Não nos serve como instrumento ou complemento para a salvação, portanto, neste sentido está obsoleto para nós, e ao aceitarmos (de coração) o Novo Testamento (graça), para a nossa justificação, estaremos a cumprir (estabelecer) a Lei. Mas os seus sentidos foram endurecidos; porque até hoje o mesmo véu está por levantar na lição do Velho Testamento, o qual foi por Cristo abolido. (II Coríntios 3:14)

“Velho” Testamento

Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios. (Jeremias 7:22)

Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais se oferecem segundo a lei). (Hebreus 10:4-8)

Assim como o Apóstolo Pedro tinha dificuldades em compreender as cartas Paulinas, eu também tenho grandes dificuldades em compreender que todo o Velho Testamento é Escritura divinamente inspirada. Nesses versículos acima (há vários outros), Isaías e o escritor aos hebreus estão dizendo que havia uma confusão muito grande, entre aquilo que foi ensinado e aquilo que estava sendo praticado. Se Deus nunca havia ordenado coisa alguma acerca de holocaustos e sacrifícios, então cai por terra a maioria dos ensinamentos contidos no Pentateuco. Essa prática de sacrifícios de animais e de seres humanos (Jeremias 19:5-6), os judeus aprenderam dos povos pagãos que já estavam em Canaã há dois milênios, quando chegaram lá.

Há coisas boas no Velho Testamento, porém não são lições para nós, que aprendemos de Cristo, ensinamentos totalmente opostos. Há exemplos de fé e espiritualidade, porém o que os oportunistas e aproveitadores da fé alheia mais aplicam, são os exemplos de “prosperidades” contidos no Velho testamento, para seus próprios proveitos.

Há muitas pessoas de renome e títulos religiosos no chamado meio evangélico, que defendem, achando que Deus está metido nisso, as invasões e atrocidades (no mesmo modelo veterotestamentário), que os países ricos e prepotentes aprontam no planeta. Será que Cristo está a torcer por eles? Será que o tempo da Graça faz jus a esses conceitos que essas pessoas têm de Jesus?

Não temos que considerar como “perdido” o Velho Testamento, como Paulo o considerava, pois nunca nos pertenceu e para quem o oferece a nós, estejamos prontos para o rejeitar.

David de Oliveira

Goiânia – Brasil – Junho de 2006

http://www.estudos-biblicos.com/VT-DO.html


Mundanos, graças a Deus…

agosto 23, 2008

Mundanos, graças a Deus

Certa vez, em um congresso de jovens, em um estudo sobre afetividade, um rapaz encaminhou a seguinte pergunta: “O que o senhor acha de se namorar uma moça do mundo?” A minha resposta foi: “Parabéns por sua normalidade. Estaria preocupado se você estivesse namorando uma ET”. Em nossas igrejas, artistas dão testemunho, dizendo que deixaram de cantar ou tocar “no mundo”. Talvez já tenham contratos para atuar em Marte ou Vênus, ou para fazer uma exibição para as potestades angélicas…

O mundo
Um problema de tradução de vários termos do grego para um só vocábulo em português tem concorrido para distorções teológicas de trágicas implicações.

Pode parecer contraditório que Jesus Cristo tenha dito que o seu reino não é deste mundo (Jo 18.36), enquanto afirma que Deus amou o mundo ao ponto de por ele sacrificar o seu filho. E, ainda, nos ensina em sua oração: “Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo” (Jo 17.18). O apóstolo do amor, João, também parece contraditório: “Não ameis o mundo, nem as coisas do mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” ( 1 Jo 2.15). Estaria João pedindo que fôssemos contrários a Deus, não amando o mundo, que Ele amou?

Deus criou o mundo, o universo (kosmos), e ama a sua criação. No universo da criação Ele incluiu o nosso mundo particular, a terra (geo), e também o ama. A terra, a natureza e as criaturas (oikumene) caíram, mas Deus não as desprezou. Ele havia planejado um estado de coisas perfeito, diferente do atual (aion), com o qual devemos nos inconformar, esperando um mundo novo (aiones), quando, por fim, viveremos em um mundo pleno (aionios).

Assim, a questão não é espacial — a rejeição do planeta, da vida, da história, da sociedade, das pessoas, do Estado, do corpo —, mas ontológica e moral — as formas de pensar, de agir, de organizar, que são contrárias ao projeto de Deus.

Em meu livro Cristianismo e Política, escrevi: “Quando amamos os homens estamos rejeitando ‘O mundo’ (que não ama, mas odeia); quando lutamos pela justiça, pela paz e pela liberdade no mundo (valores do Reino) estamos rejeitando ‘o mundo’ (que é injusto, conflituoso e escravizador); quando penetramos no mundo rejeitamos ‘o mundo’ (que é egoísta e alienante). O que assumimos é mais do que vida e ministério em um tempo dado (chronos), mas no tempo marcado pela Providência, designado por Deus para nossa missão (kairós). O que João está rejeitando? ‘… a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida…’, ou seja, o pecado. A isso ele chama, metaforicamente, de ‘Mundo’. A isso rejeitamos; aos homens amamos.”

Mundanidade
Deus entregou às criaturas humanas um mandato cultural, de gerenciar o mundo, dando continuação à obra da criação, segundo o seu projeto original. Deus exerce a sua providência sobre o mundo, nele estabelece alianças, a ele se revela e nele encarna. Jesus Cristo foi completamente humano em tudo, menos no pecado, e um ser cultural, completamente integrado à vida social do seu tempo e lugar, assumindo a sua cultura. Por fim, Ele nos enviou ao mundo.

Foi o evangelista Charles Finney quem afirmou que a tarefa do cristão é transformar o mundo. E não se transforma o mundo sem dele participar. É uma heresia dos desobedientes, dos medrosos, dos preconceituosos e dos acomodados a atitudes de isolamento dentro das quatro paredes da igreja, o separatismo, a alienação de um falso “triângulo da felicidade”: “trabalho—lar— igreja”, sem o exercício responsável de cidadania, como “sal” e “luz”.

É a falsa “teologia” do “crente não se mete nisso” ou “isso não é lugar para crente”. Ou essa gente não leu o evangelho ou não aprendeu nada com a vida de Jesus. Assim, a desobediência leva à não-influência na vida pública: cidadania, cultura. Assim, nos ausentamos dos esportes, das ciências, da literatura, das artes, das manifestações folclóricas. Assim, não vivemos, mas somos apenas pré-cadáveres.

No Brasil, uma ênfase particular contra tal “mundo” se refere à nossa cultura, por suas raízes ibero-católicas, ameríndias ou africanas. Por esse raciocínio, desmundanizar-se seria desbrasileirar-se.

Mundanos
Eis o âmago da questão:
1. Somos todos seres humanos, e não anjos; seres sociais, e não eremitas; terráqueos, e não marcianos; e vivemos culturalmente: língua, roupa, culinária, arte, direito, religião, costumes, valores, estilos, etc. O mundo é pluricultural, e todos os cristãos vivem em uma cultura, como Jesus viveu na dele;

2. Todos as culturas, por serem produzidas por comunidades de pessoas, são ambíguas, têm aspectos positivos e negativos, refletem tanto a imagem de Deus quanto o pecado. As culturas (para a antropologia) não são piores ou melhores, são diferentes. Cada uma tem virtudes e fraquezas. As culturas não podem ser nem sacralizadas (tidas como absolutas, imutáveis e acima de tudo), nem demonizadas (rejeitadas em sua totalidade, como perversas);

3. A cultura judaica não era sagrada, nem normativa, nem pode servir, automaticamente e em um salto histórico, como paradigma para hoje. Ela foi, em sua ambigüidade, um espaço para a revelação e, por isso, tem muito que nos ensinar. Mas seria um absurdo o cristão desbrasileirar-se para judaizar-se;

4. A igreja primitiva também tem sido mitificada. Apesar de sua proximidade temporal com Jesus, também tinha os seus problemas. Não se pode reproduzi-la 2 mil anos depois, o que seria negar a história e a atuação do Espírito Santo nestes vinte séculos;

5. A atitude sectária isolacionista de alguns cristãos contradiz a destinação dos seres humanos na ordem da criação (mandato cultural) e o “ide” para ser “sal” e “luz” no mundo — e não fora dele. Esses cristãos seguem o modelo dos essênios, e não o exemplo de Jesus;

6. É compreensível a valorização das culturas em que o cristianismo (particularmente o cristianismo reformado) teve uma maior influência. Mas não devemos mitificá-las, esquecidos do seu lado pecaminoso, dos seus exageros e esquisitices, tantas vezes erroneamente identificados como reino de Deus. Não estamos na Alemanha do século XVI, ou na Inglaterra do século XIX, nem devemos querer ser o sul dos Estados Unidos, a Irlanda do Norte ou a África do Sul do século XX. Enveredar por esse caminho não torna ninguém mais cristão, apenas “americanalhado”…

Pela providência de Deus, somos brasileiros e temos a nossa nacionalidade. Pela graça de Deus, temos a nossa cultura e a nossa maneira de ser. Somente com o nosso amor à brasilidade poderemos questionar e propor mudanças, à luz da Palavra, e não de preconceitos importados de outras culturas.

A mundanidade é um fato. O mundanismo (versus santidade) não é uma questão de exterioridade, mas do nosso interior (obra da carne versus fruto do Espírito). Testemunho não é dado em riste, hipocrisia, anacronismo ou estrangeirismo, mas em vida de amor.

Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.


Violência contra a mulher

agosto 21, 2008

Já basta!


Cristianismo pagão – Frank A. Viola

agosto 17, 2008

Cristianismo Pagão, de Frank A. Viola

Prólogo

Este livro deveria ter sido escrito há 300 anos atrás. Se isso tivesse ocorrido, a direção da história cristã seria totalmente distinta daquela que tomou.
Se cada ministro lesse este livro hoje, ele deixaria o ministério amanhã ou viveria uma vida de hipocrisia.
A maioria de nossas práticas da fé cristã não tem absolutamente nada a ver com o NT. Praticamente tudo que fazemos hoje enquanto cristãos chegou até nós incidentalmente. Virtualmente, todas nossas principais práticas chegaram até nós durante os 50 anos do Imperador Constantino (d.C. 324) ou durante os 50 anos após o começo da Reforma (1517). O Sr. Viola nos prestou um grande serviço traçando a origem de todas nossas práticas protestantes. Meu único pesar é que este livro será apenas um entre os 100 mil livros impressos este ano sobre a temática cristã. Trezentos anos atrás — ou mesmo duzentos — Cristianismo Pagão seria um entre poucas centenas de livros… e, portanto, lido por uma grande porção de cristãos. Você pode ajudar a remediar isso falando deste livro para todos seus amigos. A propósito, você também enfrentará uma crise de consciência após você ler este livro. Você tomará conhecimento das origens pagãs e não bíblicas de tudo que fazemos hoje. Você nunca poderá voltar a dizer, “nos baseamos na Bíblia. Fazemos tudo conforme o NT”. Praticamente não fazemos nada que seja neotestamentário, como veremos.
Mas há uma tragédia maior aqui. Tomamos o NT e o torcemos, fazendo o NT endossar o que fazemos hoje. Esta mentalidade — que é universal — foi absorvida tanto pelo leigo como pelo clero… Esta mentalidade vem — e continua — destruindo a fé cristã.
Herdamos uma situação tal que não temos absolutamente nenhuma idéia de como nossa fé deveria ser praticada.

O que é que precisamos fazer? No que se refere à prática de nossa fé hoje, necessitamos começar tudo da estaca zero, deixando de lado tudo que praticamos hoje.
Em segundo lugar, necessitamos aprender a história do século I e depois prosseguir em nossas próprias práticas.
Mais uma vez, recomendo não apenas a leitura deste livro, mas também falar sobre ele com outros cristãos que conhece para que também o leiam.
E depois? Siga sua consciência. Faça isso, e verá o ressurgimento daquelas simples e primitivas práticas do século I.


E Deus, como fica?

agosto 14, 2008

Muitas pessoas que visitam esse espaço, podem ficar em dúvida a respeito da minha posição. Vamos esclarecer, portanto. Creio em Deus, e me considero cristã, muito embora não freqüente igrejas nem pertença a nenhuma denominação. Mas o fato de ser cristã ou me considerar como tal, não faz de mim uma pessoa incapaz de ver os erros cometidos pelo cristianismo, na maior parte do tempo representado pela igreja católica, principalmente com relação à ciência, filosofia e outras linhas do conhecimento universal. Assim como não posso ignorar que a igreja cristã institucionalizada, tem falhado no que diz respeito a virtudes, à ética, ao amor ao próximo, entre tantos outros pontos que são primordiais na filosofia cristã. E isso vale para católicos, para protestantes, vale para todos. Para mim, de nada adianta pregar sobre coisas que não são vividas pelos pregadores e muito menos ainda, pelos membros das igrejas. Se todas as pessoas que se dizem cristãs, realmente fossem, o mundo obrigatoriamente deveria ser um lugar melhor para se viver.

Muitos cristãos desconhecem a história do cristianismo, principalmente no que diz respeito às barbáries cometidas pela igreja institucionalizada, supostamente em nome de Deus. Foi realmente em nome de um deus, mas do deus dinheiro. A suposta motivação de pregar o evangelho apenas serviu como justificativa para matar, exterminar, roubar, destruir, perseguir e enriquecer a igreja e transformá-la num império. A suposta defesa da fé cristã, que a Inquisição pretendia fazer, não passou de defesa de interesses e do próprio poder político e financeiro da igreja. Infelizmente, as páginas negras e sangrentas são mais freqüentes na história do cristianismo, do que as páginas douradas do amor, da humildade, da justiça. É esse tipo de cristianismo sangrento, mentiroso, supersticioso, preconceituoso, fanático, assassino e cruel que Jesus inspirou? Acho que vocês precisam reler as palavras de Jesus…

Ou então, assumam que vocês estão defendendo apenas seus próprios interesses, que sua religião existe apenas para ser um instrumento para atingir objetivos puramente humanos, e que Deus nada tem a ver com isso. A não ser que estejamos falando do deus “dinheiro”, claro…

Agora, com relação à Bíblia. Como pode alguém defender a inerrância da Bíblia se ela foi escrita por seres humanos tão falhos quanto eu e você? Como pode alguém ler a Bíblia como se fosse um tratado científico, coisa que ela não é, nunca foi e nunca pretendeu ser? Ciência é ciência, religião é religião. Ciência (a verdadeira), exige imparcialidade, isenção, não tem nada a ver com dogmatismo religioso. As pessoas que escreveram a Bíblia tinham seus próprios preconceitos, sua cultura, bastante atrasada por sinal. Impossível que não tenham colocado isso na Bíblia. Se você tem fé suficiente pra aceitar que realmente a humanidade se originou de Adão e Eva, exatamente e literalmente, tudo bem, eu nada tenho contra isso. Só não ridicularize a ciência por dizer o contrário, pois ela diz isso se baseando em fatos. A função da ciência é essa: explicar o mundo natural através de fatos, de forma isenta e imparcial. E é isso que ela faz. Fico muito triste, muito mesmo, quando vejo cristãos usando mentiras e falácias, para tentar ridicularizar e desmerecer a pesquisa e o conhecimento científico. Pior ainda são as calúnias, como as que costumam dirigir a Charles Darwin e outros… como se caluniar Darwin invalidasse a teoria evolucionista. É patético isso…

A própria Bíblia ensina a analisar tudo e reter o que é bom, então eu aplico isso à ela também, estudando muito e tentando tirar de cima dela, a carga imensa de preconceitos puramente humanos. Mais importante é saber quem Deus realmente é, como Ele realmente é…

E para ser bem sincera, quando Deus se parece tanto conosco, que se confunde conosco e fica humano demais, principalmente com relação ao que o ser humano tem de pior (coisa muito comum em vários textos da Bíblia), é porque nós é que não estamos sabendo explicar direito quem Ele é…

Descubra por si mesmo…