Despertar, ou viver chapado?

junho 13, 2017

Terminei de ler um suposto guia para a “espiritualidade sem religião”, escrito por Sam Harris. Só o fato de o autor ser ateísta, já me deu pistas do que podia esperar do livro. E ele não decepcionou. Negativamente falando, é claro.

A primeira pergunta que fiz é: por que diabos um ateu precisaria de um guia sobre espiritualidade? Fui ateísta a maior parte da minha vida, e na época simplesmente encarava o que chamavam de “vida espiritual” como mentira pura e simples; ou no máximo, uma ilusão confortável. Não ficava por aí rastejando atrás de “gurus” no Nepal e no Tibete, enquanto usava drogas alucinógenas, em busca de transcendência, como Sam Harris relata ter feito quando tinha 20 e poucos anos. Eu com 20 e poucos anos, estava cursando uma graduação, e não quase morrendo afogada, depois de cair na água sob efeito de drogas alucinógenas, num país oriental distante. Sam Harris cita Aldous Huxley, mas nem chega perto dele no que diz respeito a discorrer sobre espiritualidade. Seu principal erro foi ter desconsiderado as experiências da espiritualidade ocidental como merecedoras de crédito ou de serem levadas a sério, coisa que Aldous Huxley não fez. Sam Harris fala quase com deslumbramento dos seus ex-gurus indianos, nepaleses ou tibetanos e de suas experiências com drogas alucinógenas. É isso que ele chama de espiritualidade? Se minha espiritualidade for baseada na fé em um ser superior, ela é tratada como inválida pelo autor, mas ele mesmo considera valiosa a experiência espiritual provocada por alucinógenos. Afinal, quem precisa ter fé quando tem LSD e Ecstasy, não é mesmo? Quem precisa amar de verdade, quando uma droga oferece falso afeto? O problema é quando você descobre que existe algo chamado “vida espiritual” estando bem acordado e consciente, e não sob efeito de alucinógenos. Foi dessa forma que eu descobri. Esse é o tipo de experiência impossível de esquecer. É real, e não uma ilusão, ou alucinação que passa quando a droga deixa de circular no seu sistema.

Já faz muitos anos que usei substâncias psicodélicas, e minha abstinência  nasceu de um respeito saudável pelos riscos que elas trazem. Contudo, aos vinte e poucos anos houve um período em que considerei a psilocibina e o LSD ferramentas indispensáveis, e passei algumas das horas mais importantes da minha vida sob a influência destas substâncias. Sem elas eu talvez nunca descobrisse que existe na mente uma paisagem interior que vale a pena explorar.

Não há como deixar de lado o papel da sorte. Se você tiver sorte, e se usar a droga certa, saberá o que é ser iluminado (ou chegará suficientemente perto disso para se convencer de que a iluminação é possível). Se tiver azar, saberá o que é ser insano clinicamente.[…]

Se você tiver sorte com o LSD ou o Ecstasy, segundo Sam Harris, se sentirá iluminado. Se tiver azar, poderá ficar louco, ou ter uma parada cardíaca e morrer, por exemplo. Entrar em coma também é uma possibilidade. É como brincar de roleta russa. Nem vou comentar sobre o uso de palavras como “sorte” e “azar” no texto de um “cético”. Nosso autor relata uma sensação de intenso amor por um amigo, enquanto fazia uso de Ecstasy, uma droga que por sinal, é ilícita. É ilícita não porque alguma bancada evangélica por aí pretende impedir nosso prazer, e sim, porque oferece muito mais riscos do que benefícios, tanto em curto quanto a longo prazo. Esta falsa sensação de afeto, é um dos efeitos colaterais da droga. O autor sabe disso. É uma sensação FALSA de afeto. Ela passa quando cessa o efeito da substância. Bem diferente do amor que vem do alto. Bem diferente do amor genuíno que uma pessoa é capaz de vivenciar, sem estar usando nenhum tipo de droga. Tentar juntar este falso afeto, quimicamente induzido por um alucinógeno, com o amor genuíno do qual o ser humano é capaz, como se ambos fossem a mesma coisa, é pura desonestidade intelectual. Que pena para você, Sam Harris, ter passado as horas que considera as mais importantes na sua vida, chapado.

[…]Portanto, o que quer que se possa ver ou sentir depois de ingerir LSD, provavelmente poderia ser visto ou sentido por alguém, em algum lugar, sem a droga.

Então por quê cargas d’água eu usaria uma droga que pode me fazer parar numa ala psiquiátrica, ou talvez, no cemitério?

O que fica, sobre esta tentativa de enveredar pela carreira de guru espiritual, feita por Sam Harris, é: o ateísmo segue incapaz de responder aos anseios e dúvidas mais profundos da humanidade. As camadas de verniz espiritual que o autor tenta colocar sobre sua proposta filosófica para um mundo onde alma, fé e Deus não existem, não são capazes de esconder isso. Como guru, Sam Harris é um cético razoável. Não se fazem mais ateus como antigamente.

A droga que Sam Harris usou, não abre portas da percepção, e sim, arromba essas portas. Viola as fechaduras, como um ladrão. Uma porta arrombada nunca mais funciona normalmente. Como Deus não é ladrão, nem brinca de roleta russa com ninguém, talvez a gente só consiga ver uma frestinha de luz. Continue a bater, em vez de colocar dinamite na porta pra forçar a passagem, correndo o risco de explodir junto com ela. Fica a dica. ; P

Hoje vemos em parte, um dia veremos face a face.


Dos males o menor

junho 6, 2017

Trechos do livro Tremendas Trivialidades, de G. K. Chesterton:

[…] Admito que aqueles que sofrem grandes males têm um direito real de queixar-se, desde que se queixem sobre outra coisa. É um fato singular que, se são pessoas sãs, quase sempre queixam-se mesmo sobre outras coisas. Falar de forma racional sobre os próprios problemas reais é a forma mais rápida de perder a cabeça. Mas pessoas com grandes problemas falam sobre os pequenos, e o homem que reclama da pétala de rosa amassada tem com frequência sua carne cheia de espinhos. Porém, se um homem tem habitualmente uma vida diária muito clara e feliz, então acho que temos o direito de pedir-lhe que não transforme tocas de toupeira em montanhas.[…]

[…] Levando tudo isso em consideração, repito que podemos pedir a um homem feliz que suporte o que é pura inconveniência, e até que faça dela parte da sua felicidade. Não me refiro aqui à dor objetiva ou à pobreza objetiva. Refiro-me àquelas inúmeras limitações acidentais que estão sempre cruzando nosso caminho – mau tempo, confinamento a esta ou aquela casa ou aposento, desencontros, esperas em estações de trem, extravios de correspondência, deparar-se com a falta de pontualidade quando queríamos pontualidade, ou, o que é pior, encontrar pontualidade onde não a queríamos. É sobre o prazer poético que pode ser tirado de todas estas coisas, que eu canto […]

Como seria a convivência entre as pessoas, caso todos conseguissem suportar os pequenos incômodos, em vez de buscar em todo o tempo a própria satisfação, e isso até nos mínimos detalhes?

[…]O elemento de esperança no universo foi continuamente negado e reafirmado nos tempos modernos; mas o elemento do desespero nunca foi negado nem por um momento. A única coisa em que o mundo moderno acredita, é a condenação. O maior dos poetas puramente modernos resumiu a atitude realmente moderna, naquele belo verso agnóstico:

Pode haver Céu; deve haver Inferno.

Talvez por isso as tentativas dos ateus de dar sentido à existência, nunca são satisfatórias. Para eles não há Céu, mas o Inferno continua bem visível nas nossas experiências de todos os dias. Então eles preenchem, ou tentam preencher, o espaço vazio de várias formas retóricas, mas nem toda a retórica do mundo, tem força para deixar a equação da vida humana reequilibrada.

Da minha parte, não preciso mais de malabarismos retóricos, pois Deus já inventou o Céu. Aliás, o Céu sempre esteve lá. Eu que demorei para descobrir.

 


Nós e os outros

outubro 3, 2016

Por pouco acusamos o próximo, e por muito nos escusamos; queremos vender muito caro e comprar bem barato; queremos que se faça justiça na casa do outro, e misericórdia e conivência  na nossa casa; queremos que nossas palavras sejam tomadas em bom sentido, e somos melindrosos e exageradamente sensíveis às palavras do outro…

Queremos nossos direitos cumpridos à risca, e que os outros sejam corteses na exação dos deles; guardamos rigorosamente nossa posição, e queremos que os outros sejam humildes e condescendentes; nós nos queixamos facilmente do próximo, e não queremos que ninguém se queixe de nós; o que fazemos pelo outro sempre nos parece muito, e o que ele faz por nós nos parece ser nada.

Resumindo, nós somos como as perdizes da Paflagônia que têm dois corações, pois temos um coração doce, afável e cortês para conosco e um coração duro, severo e rigoroso para com o próximo. Temos dois pesos: um para pesar nossas comodidades com a maior vantagem que podemos, e o outro para pesar as do próximo com a maior desvantagem possível. Mas, como diz a Escritura: Falam com lábios lisonjeiros, mas com duplicidade no coração (Sl 12,3), isto é, eles têm dois corações, e por ter dois pesos, um forte para receber, o outro fraco para dar, é coisa abominável diante de Deus.

Tomás de Kempis, Imitação de Cristo.


Para Ariovaldo Ramos

março 31, 2016

Discurso sobre justiça social é bonito e faz sucesso, eu sei. É politicamente correto. E também concordo que todo governo deve se preocupar com questões sociais. É dever do cristão ter estas preocupações.

Mas lamento informar: Jesus não morreu porque quis ser o Che Guevara de Israel. Pensar que justiça social pode ser imposta, à força, por um governo, e que isso tem alguma coisa a ver com a justiça pregada por Jesus, é ingenuidade. Se não for pura desonestidade. Nenhum governo será capaz de implantar um “paraíso na Terra”. Acreditar nisso é ilusão. Chegar a uma Hell’s Kitchen é resultado mais provável, em comparação com o de chegar ao paraíso terrestre por obra de políticos. Imaginar que a luta de classes, base do marxismo, tem relação com o que foi pregado por Jesus, é demonstração de ignorância.

Governos representando ao mesmo tempo os papéis de corruptos e corruptores, causam mais mortes do que a própria criminalidade. Geram injustiças. Tiram recursos da saúde, da educação, da segurança pública, da agricultura, do saneamento básico. Desviam recursos que poderiam ser usados para construir escolas, hospitais, creches, bibliotecas, e etc. Recursos que poderiam ser usados para ajudar pessoas a se libertarem do populismo, não precisarem mais de auxílios, os quais o próprio governo usa para manipular, fazer terrorismo eleitoral e ganhar votos. E um líder cristão, seguidor de Jesus, não pode ao mesmo tempo, pregar o Evangelho, e defender sistemas políticos totalmente corruptos, onde a corrupção se transformou em instituição. Sistemas políticos que debocham da Constituição, do Judiciário, e dos cidadãos. Onde se trata voto, como cheque em branco, e onde tudo é permitido desde que se mantenham no poder. Jesus não era nem de esquerda nem de direita, o projeto de Jesus era o do Pai, e não projeto de poder político, humano. Mas ele jamais emprestaria seu nome, para defender as injustiças e a corrupção estabelecidas. Causa temor quando lideranças supostamente cristãs, se prestam a um papel ao qual Jesus jamais se submeteria. É contraditório um líder cristão que se diz defensor da justiça social, ao mesmo tempo defender políticos corruptos, sendo a corrupção causadora de graves injustiças que atingem a todos.

A parte boa, é que o disfarce “piedoso” sob o qual se esconde a ideologia política, a real motivadora de certos movimentos intitulados “cristãos progressistas”, cai, quando estes se defrontam com a necessidade de defender o indefensável. Ao negociar o inegociável buscando defender o indefensável, torna-se claro então, que Jesus e o cristianismo para tais movimentos, são na verdade, secundários. A ideologia é mais importante. Isso já havia ficado evidente, na ocasião do apoio dado a Hugo Chávez, e o silêncio subsequente deste senhor Ariovaldo Ramos, quando pessoas começaram a ser assassinadas na Venezuela, por serem contrárias ao governo.

Repudio totalmente uma liderança que se diz cristã, mas empresta sua imagem e suas palavras, para defesa de estruturas políticas imersas em corrupção, ou para defender regimes totalitários. Governos que apenas usam tais movimentos e líderes religiosos, para atingir objetivos de poder, sem conexão com o Evangelho. Misturar Jesus com política, nunca deu certo. Transformar o que é espiritual, em ideologia política, puxar Deus para um lado ou outro, é chamar Deus de mentiroso. É fazer de Deus, cúmplice de corrupção e totalitarismo. Pior do que colocar o nome de Jesus no meio dessa suposta teologia, é colocar a ideologia e o projeto de poder político, acima do Evangelho.

Como cristão, você ajuda o próximo com a liberdade que lhe é dada, pelo amor que vem do alto. E não porque um governo o obriga, ou tira recursos de você, por meio de impostos cada vez maiores, para supostamente dar aos menos favorecidos, enquanto este mesmo governo, é ineficiente, corrupto, autoritário, contrário à liberdade individual em nome de um suposto “interesse coletivo”, e aplica as leis de forma parcial, em busca de se eternizar no poder. Quando, em nome desta suposta “justiça social”, líderes que se dizem cristãos, passam a não enxergar como erros o que é escancaradamente errado, é porque em vez de serem sal e luz, a ideologia é que os envenenou.

Os pecados de alguns são evidentes, mesmo antes de serem submetidos a julgamento; enquanto que os pecados de outros se manifestam posteriormente. Da mesma forma, as boas obras são evidentes, e as que não o são não podem permanecer ocultas. 1Timóteo 5:24,25


Jararacas e homens

março 11, 2016

Fico aqui pensando como seria se um político acusado de corrupção, em vez de esforçar-se tanto para negar o óbvio, simplesmente admitisse, de forma espontânea: “sim, fui corrupto, traí meus eleitores e prejudiquei toda a nação, mereço a cadeia, estou arrependido e vou devolver tudo”. Seria bombástico, palavra esta que tem sido repetida na imprensa nas últimas semanas. Só em sonho mesmo. Mas nem tudo está perdido, pois temos as delações premiadas.

Voltando à realidade, o ex-presidente Lula andou se comparando com serpentes, mais especificamente, uma jararaca. Lembro que ele também já se comparou com Jesus, citando alguma coisa sobre a barba que os dois teriam em comum, como se usar barba o tornasse parecido com Jesus. Mais recentemente, Lula comparou os delatores do esquema do Petrolão, com Herodes, e seus companheiros de partido acusados de participar do esquema corrupto, com Jesus crucificado, algo totalmente sem noção. Lula não foi o primeiro populista a se comparar com Jesus, mas foi talvez o que o fez de forma mais tosca. Mas o pior é testemunhar a manifestação da idoLULAtria, a idolatria ao ex-presidente Lula. E perceber, atingidos por este mal, não só militantes, mas também religiosos. No caso destes últimos, associado com grave dissonância cognitiva.

O mesmo Jesus que este Lula totalmente sem noção deturpa, afirmou: O que contamina o homem, é o que sai da sua boca. Pois o que sai da boca, vem do coração.

O que vai no coração de um homem que se denomina publicamente como jararaca, só Deus sabe. Eu, prefiro não saber.

Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de “sabedoria” não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. Tiago 3:13-18


A Lava Jato e nós

março 5, 2016

Vergonha do pronunciamento da Presidenta Dilma Rousseff ontem, 04 de março de 2016, motivado pela condução coercitiva do EX-PRESIDENTE Luis Inácio Lula da Silva, a qual depois descobrimos não ter sido tão coercitiva assim. Todos temos visto o quanto ele tem fugido da obrigação de nos dar respostas. Não sou da área jurídica para opinar sobre ter sido a opção certa ou não. Mas ao contrário do que foi dito pelos militantes do PT e pelo próprio Sr Lula, não houve nenhuma operação midiática. O Juiz Moro proibiu filmagens, e foram usados veículos descaracterizados, tudo visando não expor o ex-presidente. A operação midiática veio depois, com os militantes do PT, inclusive ameaçando instaurar a violência nas ruas.

Ameaçar pegar em armas só porque o ex-presidente foi levado para prestar depoimento? Chamar o ex-presidente de “preso político” sendo que nem preso ele foi? Falam em “conspiração das elites contra o ex-metalúrgico”, mas na investigação da Lava Jato, estão envolvidas empreiteiras de grande porte, como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Marcelo Odebrecht, presidente da primeira, está preso. O banqueiro André Esteves, também ficou preso, acusado de tentar obstruir as investigações. Os dois estão entre as pessoas mais ricas do Brasil. Por favor, isso insulta a nossa inteligência. Quem ameaça instaurar a violência no país, na tentativa de impedir que o ex-presidente se explique, mostra bem a que veio: o poder a qualquer custo. A opinião da população, que é contra a roubalheira, fica em segundo plano. Houve vazamentos sobre a quebra do sigilo do ex-presidente, investigado na operação Lava Jato, para piorar.

E a presidenta Dilma, em vez de cuidar do governo, está preocupada com o ex-presidente, em sair na defesa dele, coisa que tem feito repetidamente. Ele tem muitos advogados para defendê-lo. Bastou esta operação da Lava Jato para todos os problemas do país, sumirem do discurso do governo. O Brasil está em crise, desemprego e inflação em alta. Se o ex-presidente Lula deve explicações à justiça, que se explique, como qualquer cidadão. Não acreditamos que seja papel da presidenta, como chefe de Estado e governo, defender o ex-presidente, pois para isso ele tem condições de pagar advogados. O papel da presidenta, é defender o país e a população, é para isso que o povo paga o seu salário. Eles parecem não entender, ou fingem não entender, que a população brasileira, não gosta desta roubalheira. A população de bem, que pega no batente todo dia, enfrenta transporte lotado, caos na saúde, educação sem qualidade, não pode mesmo ficar satisfeita, ao passar por isso. Não parece justo a população trabalhar cinco meses do ano só para pagar impostos ao governo, enquanto os governantes, em vez de governar, perdem o sono  pensando de onde virá a próxima delação premiada, e o que a Polícia Federal ainda pode descobrir sobre eles. Os líderes máximos da nação, que deviam dar exemplo de improbidade, temem acordar com a Polícia Federal nas suas portas. O MP, a Polícia Federal, a Receita Federal, estão fazendo seu papel. Deixem o Juiz Sérgio Moro trabalhar. Presidenta, governe o país para nós, não para o ex-presidente Lula ou outros envolvidos, alguns inclusive já condenados por corrupção.

Tudo que queremos é que o ex-presidente e todos os envolvidos, expliquem-se, que o Sr Lula pare de enrolar, com tem feito sempre em seus pronunciamentos. Entrevista coletiva onde ninguém pode fazer perguntas, é farsa, e não entrevista coletiva, sr Lula. Não caímos mais nessa do Sr Lula se colocando como vítima, oprimido. Quem é oprimido não tem à disposição uma banca de advogados caríssimos, coisa que ele tem. Oprimido não sai de depoimento na Polícia Federal, numa BMW. Se o ex-presidente fez coisas boas no governo, não fez mais do que a obrigação. Foi eleito e pago, muito bem pago aliás, para isso. Não foi nenhum favor. O fato de ter feito coisas boas, não dá a ao ex-presidente, o direito de se considerar acima da lei, intocável, ou ser alvo de “vigílias”, como se fosse algum tipo de divindade. Coisa mais ridícula essa conversa de fazer vigília em defesa de um investigado por corrupção. Vigília para quê? Pensam em impedir a prisão do seu ídolo, caso seja considerado culpado? Vão enfrentar a Polícia Federal? Não devemos nenhum tipo de adoração ao ex-presidente Lula, ele não é um deus, muito menos santo, e ao que tudo indica, também não é inocente nesta história toda. Se fosse, estaria tranquilamente prestando todos os esclarecimentos, tanto à justiça quanto ao povo, do qual ele tanto gosta de falar quando precisa posar como perseguido. Não nos parece atitude de inocente, a incitação dos militantes à violência.

Enquanto presidente, Lula era funcionário público, pago com os nossos impostos, e deve sim satisfações. O que queremos saber, e ele não responde, é o que levou as empreiteiras envolvidas na corrupção da Petrobras, a dar tantos presentes e regalias para ele. Estamos falando de milhões de reais. Por que as empreiteiras envolvidas em corrupção, pagam despesas particulares dele? Como explica este relacionamento eivado de promiscuidade, envolvendo o ex-presidente e os filhos dele, com empreiteiras? Empreiteiras estas, citadas no maior escândalo de corrupção da história do Brasil. O que queremos saber, é quem vai pagar pelo prejuízo da Petrobras, tanto no que diz respeito à imagem da empresa, quanto aos prejuízos financeiros. Quem vai pagar pelo prejuízo à imagem do país? O que queremos saber, é quando o dinheiro desviado pela corrupção anos e anos a fio, será devolvido. O Brasil poderia ser um país de primeiro mundo, não fosse a corrupção que suga nossos recursos e impede nosso desenvolvimento, sem falar na má administração do dinheiro que não é desviado. Todos poderíamos ter uma vida realmente melhor, se o governo tivesse mais respeito pelo contribuinte, que sustenta tudo isso. Se o ex-presidente Lula foi favorecido por empresas envolvidas em corrupção, deve ser investigado e punido, e isso é apenas questão de justiça. Ele e todos os demais envolvidos, da mesma forma. A continuidade do projeto de poder de um partido, não é nem nunca será, mais importante que o progresso, o futuro do país. Não temos nada a ver com o projeto de poder de partidos políticos, sejam quais forem, de esquerda ou direita. Nós amamos o Brasil, e não um partido. O país precisa de gestão profissional, e não de corrupção. Administração pública responsável, e não a bandalheira que temos visto todos os dias nos jornais. Tratam verbas públicas como se elas não tivessem dono, e como se não fosse preciso prestar contas do que é feito com elas. Basta de corrupção, basta de políticos que trabalham para seus projetos partidários e não para o Brasil. Queremos governo para o Brasil e para os brasileiros, e não um governo que precisa ir a público a todo momento, para se defender em escândalos de corrupção de repercussão internacional, e depende de pedaladas fiscais para ficar bonito na estatística. Enquanto isso, o mosquito da dengue, a inflação e o desemprego, tomam conta do país. Não precisamos de políticos que perdem o sono, com medo de acordar com a Polícia Federal nas suas portas.  Não precisamos de um governo que se pronuncia prontamente quando é para defender seus “companheiros” investigados por corrupção e lavagem de dinheiro, mas não faz o mesmo quando é para se pronunciar sobre os problemas do país.

Já vimos na história, várias ocasiões onde os cidadãos silenciaram diante do ilícito, e este silêncio, custou muito caro. É o que vem acontecendo no Brasil.


Um Francisco nada santo

março 1, 2016

chatô o rei do brasilFrancisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand, ao contrário do seu homônimo, Francisco de Assis, o fundador da Ordem dos Franciscanos, não tinha a menor vocação para santo. Isso fica evidente após a leitura da sua biografia, escrita por Fernando Morais: Chatô: o rei do Brasil. O filme de mesmo nome, produzido por Guilherme Fontes, não mostra nem a metade de quem foi este que é considerado o patrono da comunicação no Brasil. O livro não é leitura fácil, com suas mais de 700 páginas. Mas vale o esforço.

Nas páginas do livro, encontramos um sujeito que vive de acordo com sua própria ética, totalmente duvidosa. Que inventava notícias falsas, usava os jornais para ameaçar qualquer um que se atravessasse no seu caminho. Fabricava notícias e chantageava empresários, para obrigar as empresas a anunciar nos seus jornais. Publicou reportagens falsas sobre mortes causadas por medicamentos. Os medicamentos eram fabricados por uma indústria que Chateaubriand tentou comprar, mas não conseguiu. Diante da recusa do dono da empresa em vendê-la, nosso personagem apelou para este jogo sujo. Fez o mesmo para obrigar a Coca-cola a anunciar nos seus jornais e revistas, publicando análises sobre males à saúde causados pelo refrigerante. Assim que os anúncios da bebida começaram a ser publicados, as críticas cessaram. Chegou ao ponto de publicar uma notícia sobre o linchamento, na Itália, do cunhado de um grande empresário paulista, após a queda do ditador Mussolini, na qual até a família do suposto morto que estava aqui no Brasil, acreditou. Era época de guerra e as comunicações estavam prejudicadas. Meses depois, o suposto morto apareceu na porta do cunhado. A notícia não passava de uma mentira, redigida e publicada por ordem de Assis Chateaubriand. Ajudou Getúlio Vargas a chegar ao poder, e apoiava mais de um candidato ao mesmo tempo, para poder ganhar favores, independente de quem vencesse. Getúlio Vargas alterou uma lei apenas com o objetivo de beneficiar Chateaubriand, e o mesmo pudesse vencer a luta judicial pela guarda da filha. Chateaubriand dizia que se a lei estava contra ele, era preciso mudar a lei. Os primeiros aparelhos de televisão chegados ao Brasil, foram importados por ele, mas de forma ilegal, como contrabando.

Ao mesmo tempo em que colocava para trabalhar em seus jornais e revistas, figuras que se tornariam grandes nomes da literatura e da arte brasileira, Chateaubriand construiu seu império jornalístico a custa de muita, mas muita maracutaia. Lendo o livro, perde-se a conta de tantos episódios envolvendo chantagens, intriga, abuso do poder, desonestidade jornalística. Para ele, aparentemente tudo era permitido, se aumentasse as vendas dos seus jornais e revistas, a quantidade de anunciantes, o seu poder pessoal, ou a audiência. O que dizer do episódio onde um importador de máquinas de impressão, após vender as dívidas de Chateaubriand para Getúlio Vargas, foi castrado a tiros por um capanga de Chateaubriand? O que diriam os politicamente corretos de hoje, quando Chateaubriand impediu um padre de celebrar a missa num evento organizado por ele, pois o tal padre era negro? Afirmou que “missa rezada por padre preto vai nos trazer uma urucubaca sem tamanho”. Poucos sabem que Chateaubriand foi dono da fábrica de chocolates Lacta, de um banco, e da Schering, indústria farmacêutica alemã que foi tirada dos seus donos, por Getúlio Vargas. Esta, leiloada pelo governo, foi comprada pelo grupo encabeçado por Chateaubriand. Chateaubriand foi senador por duas vezes, sendo que na primeira, ele fez isso obrigando o senador e o suplente que estavam no cargo, a renunciar, abrindo uma eleição para preencher o cargo supostamente vago, onde só ele concorreu. Na segunda vez, perdeu a eleição e mesmo assim conseguiu a vaga por outro estado (Maranhão), de novo, com maracutaia. Isso você não lê em nenhuma biografia dele das que se encontra na Internet, muito menos nos livros de história do Brasil. No livro, fica claro como comprar ou falsificar votos, era prática corriqueira no país, supostamente uma democracia. Ou seja, o problema já vem desde a raiz.

Muitos acusaram Fernando Morais de focar mais no lado negativo do personagem. Se a vida de Chateaubriand foi assim, com um pé na canoa do bem e outro na canoa do mal, ou acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo, a biografia tinha o dever de mostrar isso. Não há dúvidas a respeito da inteligência de Assis Chateaubriand, assim como também não há dúvidas de que ele se considerava acima da lei e acima do bem e do mal. Empreendedor, sim, mas também sem caráter. Inteligente, mas também corrupto. Visionário, mas igualmente preconceituoso. Pioneiro no uso da tecnologia, mas ao mesmo tempo, tendo um jagunço dentro de si. Patrono da comunicação no Brasil, e também o fundador de um modelo de imprensa onde a verdade ficava em último plano, e onde só ele tinha opinião. Hoje, com a Internet e o acesso à informação ocorrendo de forma instantânea, a vida dele seria bem mais difícil. As notícias falsas seriam desmascaradas quase imediatamente. Ele precisaria chantagear o mundo inteiro. Muitos artigos escritos por ele, usando nomes falsos, onde atacava de forma violenta os seus desafetos, hoje não seriam publicados em jornal nenhum. Hoje, qualquer pessoa com um celular e Internet, consegue enviar notícias em tempo real para qualquer lugar do mundo, sem precisar de jornal. Impérios da comunicação continuam existindo, mas a informação já não é mais monopólio de ninguém. Qualquer um com uma boa ideia na cabeça, pode escrever um livro e publicar na Amazon. Qualquer pessoa pode criar um blog, um podcast, um canal no Youtube. Se não existe imprensa realmente independente, estamos cada vez menos dependentes desta imprensa para saber o que acontece mundo afora. Assis Chateaubriand certamente ficaria louco, caso vivesse hoje, e tentasse dominar a indomável Internet.