Nós e os outros

outubro 3, 2016

Por pouco acusamos o próximo, e por muito nos escusamos; queremos vender muito caro e comprar bem barato; queremos que se faça justiça na casa do outro, e misericórdia e conivência  na nossa casa; queremos que nossas palavras sejam tomadas em bom sentido, e somos melindrosos e exageradamente sensíveis às palavras do outro…

Queremos nossos direitos cumpridos à risca, e que os outros sejam corteses na exação dos deles; guardamos rigorosamente nossa posição, e queremos que os outros sejam humildes e condescendentes; nós nos queixamos facilmente do próximo, e não queremos que ninguém se queixe de nós; o que fazemos pelo outro sempre nos parece muito, e o que ele faz por nós nos parece ser nada.

Resumindo, nós somos como as perdizes da Paflagônia que têm dois corações, pois temos um coração doce, afável e cortês para conosco e um coração duro, severo e rigoroso para com o próximo. Temos dois pesos: um para pesar nossas comodidades com a maior vantagem que podemos, e o outro para pesar as do próximo com a maior desvantagem possível. Mas, como diz a Escritura: Falam com lábios lisonjeiros, mas com duplicidade no coração (Sl 12,3), isto é, eles têm dois corações, e por ter dois pesos, um forte para receber, o outro fraco para dar, é coisa abominável diante de Deus.

Tomás de Kempis, Imitação de Cristo.


Jararacas e homens

março 11, 2016

Fico aqui pensando como seria se um político acusado de corrupção, em vez de esforçar-se tanto para negar o óbvio, simplesmente admitisse, de forma espontânea: “sim, fui corrupto, traí meus eleitores e prejudiquei toda a nação, mereço a cadeia, estou arrependido e vou devolver tudo”. Seria bombástico, palavra esta que tem sido repetida na imprensa nas últimas semanas. Só em sonho mesmo. Mas nem tudo está perdido, pois temos as delações premiadas.

Voltando à realidade, o ex-presidente Lula andou se comparando com serpentes, mais especificamente, uma jararaca. Lembro que ele também já se comparou com Jesus, citando alguma coisa sobre a barba que os dois teriam em comum, como se usar barba o tornasse parecido com Jesus. Mais recentemente, Lula comparou os delatores do esquema do Petrolão, com Herodes, e seus companheiros de partido acusados de participar do esquema corrupto, com Jesus crucificado, algo totalmente sem noção. Lula não foi o primeiro populista a se comparar com Jesus, mas foi talvez o que o fez de forma mais tosca. Mas o pior é testemunhar a manifestação da idoLULAtria, a idolatria ao ex-presidente Lula. E perceber, atingidos por este mal, não só militantes, mas também religiosos. No caso destes últimos, associado com grave dissonância cognitiva.

O mesmo Jesus que este Lula totalmente sem noção deturpa, afirmou: O que contamina o homem, é o que sai da sua boca. Pois o que sai da boca, vem do coração.

O que vai no coração de um homem que se denomina publicamente como jararaca, só Deus sabe. Eu, prefiro não saber.

Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de “sabedoria” não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. Tiago 3:13-18


Sapatos sujos

fevereiro 23, 2016

Em seu livro de ensaios “E se Obama fosse africano?”, Mia Couto incluiu um texto sobre os desafios que os africanos e/ou moçambicanos têm à frente para alcançar o futuro que desejam. Ele citou algumas coisas materiais, como hospitais, escolas, investidores, projetos. Porém, na opinião dele, o mais importante é uma nova atitude. “Sem mudarmos de atitude”, afirma ele, “não conquistaremos uma condição melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não seremos construtores de futuro.”

Ele escreveu como africano e pensando em seu próprio povo, mas acredito que o texto serve para o Brasil, também. Para passar pela porta da modernidade, seria necessário descalçar alguns sapatos sujos, deixando-os do lado de fora. Que sapatos?

Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas.

…Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas, ao mesmo tempo, continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: somos peritos na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos:… que o político abusou do poder porque, coitado, na tal África profunda, essas práticas são antropologicamente legítimas….

Troquemos no texto acima, África, por Brasil. Corrupção institucionalizada.

Segundo sapato: A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.

…Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos acontece (de bom ou de mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino…

Terceiro sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.

…Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demônios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa…

Estratégia dos políticos brasileiros quando são pegos com a boca na botija de dinheiro público, ou flagrados com propina na cueca, ou possuindo bens adquiridos com recursos de lavagem de dinheiro, ou contas no exterior não declaradas e movimentações financeiras muito suspeitas. Dizem que é perseguição política. Intriga da oposição. Preconceito. E continuam com as propagandas mentirosas. Os petistas em propaganda veiculada pela televisão, têm coragem de mandar o povo trabalhar mais. Como se o governo já não ficasse com cinco meses de trabalho dos brasileiros, na forma de impostos. O que temos em contrapartida por uma carga tributária entre as maiores do mundo? Notícias sobre desvios e corrupção todos os dias. E o PMDB, oportunista, aparece como salvador da pátria. Ambos pensam que somos burros. O PMDB esteve ao lado do governo do PT o tempo todo, e agora quer se desgrudar? Deviam ter aproveitado a propaganda, para explicar o apartamento, o sítio, a antena, as propinas, o rombo da Petrobras, o rombo dos fundos de pensão. Ninguém engole mais essa piada de que o ex-presidente Lula  é vítima de perseguição. Ele é, sim, suspeito de cometer crimes e tem que ser investigado como qualquer um. Vai ver eles acham mesmo que somos burros.

Não seria lindo se eles usassem o tempo da propaganda na TV, para confessar? Admitir que não honraram os votos recebidos, que agiram mal, que prejudicaram o país deliberadamente ? Que são culpados? No dia em que isso acontecer, aí sim o Brasil poderá ter jeito.

Quarto sapato: A ideia de que mudar as palavras, muda a realidade.

“A Petrobras está de pé.” (Presidenta Dilma Rousseff) Aham, senta lá!

“Não poso de santo. Nunca fui candidato a santo.”, que recentemente mudou para “Não tem uma viva alma mais honesta do que eu.” (ex-presidente Lula, agora candidato a santo, afinal as palavras mudam, não é?)

“Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz.” (Lênin). Este princípio é um dos que mais vem sendo aplicado por aqui.

Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e  o culto das aparências.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Tênis falsificado, bolsa falsificada, ou pior, o  “funk ostentação” (que fez aumentar o aliciamento de meninos por traficantes de drogas em 3200%, em Florianópolis, por exemplo). Igreja que vende prosperidade e sucesso financeiro, para não dizer que não falei das flores.

Sexto sapato: A passividade perante a injustiça.

Nem precisa explicar isso.

Sétimo sapato: A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.

Se as capacidades de uma nação estiverem viradas para o enriquecimento rápido de uma pequena elite, então de pouco valerá haver mais quadros técnicos.

Que semelhança com a realidade do Brasil, onde estar no governo, é visto como oportunidade para enriquecer, e não como oportunidade para colaborar com o desenvolvimento e construir o futuro. Não importa se é de esquerda ou de direita. O partido que se dizia dos trabalhadores por exemplo, hoje tem milionários nas suas fileiras. Mas pergunte a eles agora, se querem socializar o capital que amealharam. Só não vale socializar o patrimônio daquele jeitinho brasileiro, colocando tudo em nome de laranjas, e dizer que não é seu, ok?

O ex-presidente Lula palestrou em Moçambique, terra do Mia Couto, tempos atrás. A palestra, dizem que custou 815 mil reais, pagos à vista, por uma empreiteira brasileira. Os moçambicanos poderiam ter passado sem essa. Eles têm Mia Couto como conterrâneo, afinal. A palestra foi sobre combate à desigualdade social. Lula disse que é necessário distribuir a riqueza (a riqueza dele também, espero). Lembro, de novo, que ele ganhou 815 mil para palestrar sobre desigualdade social. Que contradição!

Menos políticos. Mais poetas. Um poeta africano é muito melhor para falar sobre desigualdade social, do que qualquer político brasileiro. E sai mais barato também.

A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassinato espetacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder a crença no futuro.


O médico, o monstro e as anfetaminas

janeiro 10, 2016

No final de 2015 o livro Mein Kampf, de Hitler, entrou em domínio público. Li o livro faz muito tempo, e por achá-lo horrendo, não cheguei a terminar. Li o suficiente para considerar seu autor um fanático racista, defensor de uma suposta raça superior, da qual ele obviamente não só fazia parte, como estava predestinado a ser o líder. Trechos como o que consta abaixo, estão neste livro:

[…] A cultura humana e a civilização nesta parte do mundo estão inseparavelmente ligadas à existência dos arianos. A sua extinção ou decadência faria recair sobre o globo o véu escuro de uma época de barbaria. A destruição da existência da cultura humana pelo aniquilamento de seus detentores é, porém, aos olhos de uma concepção racista do mundo, o mais abominável dos crimes. Quem ousa pôr as mãos sobre a mais elevada semelhança de Deus ofende a essa maravilha do Criador e coopera para a sua expulsão do paraíso. Assim corresponde a concepção racista do mundo ao intimo desejo da Natureza, pois restitui o jogo livre das forças que encaminharão a uma mais alta cultura humana, até que, enfim, conquistada a terra, uma melhor humanidade possa livremente chegar a realizações em domínios que atualmente se acham fora e acima dela.[…]

[…] Os direitos humanos estão acima dos direitos do Estado. Se, porém, na luta pelos direitos humanos, uma raça é subjugada, significa isso que ela pesou muito pouco na balança do destino para ter a felicidade de continuar a existir neste mundo terrestre, pois quem não é capaz de lutar pela vida tem o seu fim decretado pela providência. O mundo não foi feito para os povos covardes. […]

Poucas pessoas questionam o fato de Adolf Hitler ter sido um dos piores vilões da história da humanidade. Na Alemanha, dar o nome de “Adolf” a um filho, é impensável. Chamar um filho de “Adolf” poderia ser visto como uma homenagem a este genocida, e nenhum cidadão de bem por lá, quer correr este risco. Há quem argumente afirmando que outros ditadores mataram mais gente em comparação com Hitler. Mas no caso dos nazistas, a forma como executaram seus planos mirabolantes, assassinando pessoas em massa nas câmaras de gás em nome de um ideal racista, o torna sem dúvida o pior genocida da história, um verdadeiro monstro. Stalin e Mao não ficaram atrás em termos de extermínio de pessoas. Stalin e Hitler, acabaram um contra o outro na segunda guerra mundial. Quando deu de cara com Stalin, Hitler começou a perder a guerra. Estes três vilões viveram mais ou menos na mesma época. Juntando os feitos dos três, foram responsáveis pela morte de pelo menos 130 milhões de pessoas. Mas as motivações de Hitler eram mais sinistras, com aquela história de raça pura, e por ele se considerar um enviado divino, encarregado de salvar o mundo da degeneração racial. Se ele tivesse guerreado somente por motivos políticos, territoriais ou financeiros, para aumentar o território ou o poder da Alemanha, talvez não fosse hoje considerado o pior e mais insano de todos os ditadores. Estaria em pé de igualdade com seus colegas do mal.

Pervitin 3Na Alemanha nazista, sabe-se sobre o uso de drogas entre os soldados e também entre os líderes. Depois da invasão da Polônia e antes de atacar a França, os nazistas encomendaram 35 milhões de comprimidos de Pervitin, para distribuir aos soldados. Era uma metanfetamina, mais conhecida hoje como “cristal”. Na época, o Pervitin era vendido legalmente, como remédio. Usava-se Pervitin, como usamos o café agora. Havia chocolate recheado com Pervitin. As pessoas ficavam eufóricas, sentiam-se invencíveis e capazes de qualquer coisa. Imagine soldados lutando numa guerra e usando este tipo de droga. Eu não gostaria de encontrar com um deles.

O médico de Hitler, Theodor Morell, prescrevia ao ditador, injeções que continham metanfetamina e um psicotrópico chamado oxicodona (o remédio do Dr House). Hitler teria passado boa parte do tempo de duração da segunda guerra mundial, usando um coquetel de drogas prescritas pelo Dr Morell. O médico de Hitler era tão louco quanto seu chefe, e o coquetel incluía, além de metanfetamina e oxicodona, vitaminas, proteínas, barbitúricos, esteroides, morfina, petidina, entre outros. Hitler tomava injeções praticamente todos os dias e parecia confiar cegamente neste médico, que era também dono da indústria produtora de parte das drogas usadas por Hitler. O super homem nazista era isso? Este “super homem ariano” do qual supostamente dependia o futuro da humanidade, seria um zumbi dependente de drogas? No Mein Kampf, Hitler cita o aperfeiçoamento físico como um dever. Era esse tipo de aperfeiçoamento físico o ideal dos nazistas?

tumblr_mrvj1eTSTq1spwr70o1_1280.png

Hitler perdeu a guerra, e antes disso, seus próprios generais tentaram matá-lo. O fato da derrocada dos nazistas na guerra, ter começado quando atacaram a União Soviética, um Estado ateísta, parece ironia. Como Hitler reagiu à derrota, se considerava como um direito divino da tal raça ariana, subjugar as supostas raças inferiores? Qual explicação para essa “raça superior” apoiada em metanfetaminas, como se fosse um elixir da invencibilidade? Hitler usou aquele coquetel de drogas esperando, talvez, se transformar num super herói, daqueles de dar inveja em qualquer personagem da Marvel. Como, em vez de se transformar em super herói, foi ficando cada vez mais doente e dependente de drogas, enquanto os aliados estavam próximos de derrotá-lo, terminou por se suicidar. Não venceu a guerra e muito menos venceu a morte. Ele não era nenhum super homem, afinal.

“Como um Cristão amoroso e como um homem, leio a passagem que nos conta como o Senhor finalmente se ergueu em Sua força e apanhou o azorrague para expulsar do Templo a raça de víboras. Como foi esplêndida a sua luta em defesa do mundo e contra o veneno judeu. Hoje, depois de 2 mil anos, é com muita emoção que reconheço, mais profundamente do que nunca, o fato de que foi em nome disso que Ele teve que derramar Seu sangue na cruz. Como cristão tenho o dever de não me deixar enganar, tenho o dever de lutar pela verdade e pela justiça. E como homem, tenho o dever de zelar para que a sociedade humana não sofra o mesmo colapso catastrófico que sofreu a civilização do mundo antigo 2 mil anos atrás – uma civilização que foi levada a ruína por esse mesmo povo judeu.”

Num país como a Alemanha na época nazista, onde a maioria absoluta da população era formada por católicos e protestantes, se Hitler se declarasse ateu ou invocasse Odin ou Thor como patronos dos nazistas, dificilmente seria levado a sério. Mas ele também não era cristão, mesmo quando afirmava ser um ou citava trechos do novo testamento. Era apenas mais um dos muitos que usaram a religião para montar sua própria ideologia. Enganou a muitos, e causou a morte de milhões de pessoas. Católicos e protestantes se deixaram enganar pela propaganda racista deste homem. Adolf é um nome relacionado a lobos. Neste caso, Hitler foi um lobo confundido com um cordeiro. Um lobo que sabia usar a propaganda.

Enganou a si mesmo, acima de tudo, pois Deus não é nazista.


Escadaria para o céu

janeiro 4, 2016

Um episódio da série Grey’s Anatomy, quinta temporada, apresenta uma situação complexa, envolvendo compaixão, ética médica, crime e punição. Um serial killer, condenado à morte pelo assassinato de cinco mulheres, dá entrada no hospital, com um problema que demandava neurocirurgia. Faltam poucos dias para a sentença dele ser executada, ou seja, a dias de ser morto pelo Estado pelos crimes que cometeu, ele tem um problema de saúde que pode matá-lo. Sabendo que o prognóstico pode ser fatal, o prisioneiro hospitalizado se recusa a fazer a cirurgia indicada pelo neurocirurgião. O assassino prefere que seu estado piore, para morrer no hospital em vez de ser executado. O neurocirurgião, cujo pai foi assassinado muitos anos atrás, insiste no tratamento cirúrgico, e deixa claro: não pretende permitir que o paciente morra ali, confortavelmente assistido, e escape da execução na cadeia. Não dá para saber se o cirurgião está mais preocupado em salvar a vida do paciente, ou quer deixá-lo vivo para que volte à prisão e seja executado, castigo considerado justo por ele.

Ao mesmo tempo, no mesmo hospital, um menino está em situação crítica, precisando de transplante de fígado e intestino. O criminoso e o menino se conhecem num corredor do hospital, e o menino explica ao prisioneiro porque está internado. O criminoso pergunta a ele se não gostaria de ficar com seus órgãos. O menino e o criminoso se empolgam com a ideia, e o assassino tem mais um motivo para não querer receber tratamento: doar os órgãos. Os médicos acabam intervindo, explicando que não era tão simples assim, que para o transplante ser feito o doador e o receptor precisavam ser compatíveis. A equipe do hospital continua buscando um doador para salvar a vida do menino, e o criminoso continua se recusando a ser operado.

Uma médica residente se compadece da história do criminoso, o qual afirma querer ajudar o menino. Faz os testes e descobre que o criminoso e o menino são compatíveis. E indiretamente, dá ao serial killer uma dica de como ele mesmo poderia acelerar o processo, e fazer sua doença evoluir até levar à morte cerebral. O prisioneiro entende o recado, e provoca uma hemorragia, batendo a cabeça na cabeceira da cama. Seu estado piora de forma progressiva durante a noite, e a residente, de plantão no hospital, deixa o caso se agravar. Ela tenta ajudar o paciente a morrer, nas palavras dela, “ter uma boa noite”.

Nesse meio tempo, o hospital consegue os órgãos para o menino, que vai para a cirurgia. Mas algo dá errado, e o corpo dele reage contra os órgãos, que são retirados novamente. O tempo está se esgotando, e a equipe precisa encontrar outros doadores compatíveis. A situação é desesperadora. O chefe da cirurgia descobre outro paciente compatível com o menino, que está ali mesmo no hospital, já com morte encefálica, mas a familiar do paciente se recusa a permitir a doação. O criminoso perde a consciência e o neurocirurgião faz a cirurgia, contra a vontade do homicida. Durante a cirurgia, a médica do menino, tendo conhecimento de que o malfeitor é compatível e pode doar os órgãos, entra na sala cirúrgica e pede ao cirurgião que deixe o serial killer morrer, para salvar o seu próprio paciente. Eles discutem. A situação fica em suspenso.

O menino segue piorando, enquanto o chefe da cirurgia prossegue na tentativa de convencer a familiar do outro paciente, a doar os órgãos. O prisioneiro corre risco de morte, e o cirurgião deixa a vida dele nas mãos da médica, mas ela, arrependida do pedido anterior, pede que ele termine a cirurgia e salve o bandido. Ela volta ao leito do menino, então já à beira da morte, e autoriza a presença da mãe dele, para se despedir. Enquanto esta despedida ocorre, o chefe da cirurgia aparece no quarto. Havia conseguido os órgãos. O menino tem uma parada cardíaca e quase morre antes de receber o segundo transplante.

Mesmo sendo uma história de ficção, não escapamos do fato de que somos todos humanos, e nossa humanidade interfere nos nossos julgamentos, atitudes e decisões. O cirurgião estava apenas fazendo seu trabalho, ou visava impedir que o assassino burlasse o sistema, morrendo antes da própria execução? Não seria uma violação ética, esperar o paciente ficar inconsciente e proceder à cirurgia, contra a vontade do mesmo? Não seria contraditório, todo aquele dispêndio de recursos para salvar um paciente que não queria ser salvo? Por ser um assassino, o doente perdia o direito de decidir morrer no hospital, recusando o tratamento? A residente agiu certo ou errado, ao ensinar, ainda que de forma indireta, um jeito de o paciente precipitar a própria morte? Era a vontade dele, não era? No final ele acabaria morto de qualquer jeito. O assassino, caso morresse no hospital, salvaria outras vidas, doando seus órgãos. Com isso, outras pessoas viveriam por meio da sua morte. Uma tentativa de redenção, talvez? Provável, mas seja como for, o desejo do serial killer não se realiza. No final, tudo acaba aparentemente “bem”: o menino sobrevive e o assassino termina executado. Na vida real aqui no Brasil, é mais fácil morrer esperando um transplante de fígado, do que ter dois doadores compatíveis ao alcance da mão, situação do menino no episódio.

Observação 1: Existe uma estimativa de que 4% dos condenados à morte nos EUA, são na verdade, inocentes. Traduzindo, uma em cada 25 pessoas condenadas à pena capital, não cometeu o crime. Por isso a pena de morte vem sendo abolida. O índice de pessoas inocentes executadas injustamente, seria ainda maior, se a execução fosse imediata. Como os presos ficam um bom tempo no que chamam “corredor da morte”, uma evidência nova ou reviravolta no caso, pode fazer com que a pena seja cancelada. Em alguns países onde este tipo de punição continua sendo aplicada, vale para, entre outros, casos de adultério, blasfêmia e “bruxaria”. Que tipo de prova se usa num processo que visa condenar alguém pelo crime de “bruxaria”? Países como China, Irã e Arábia Saudita são os que mais aplicam a pena capital.

Observação 2: Metade das pessoas que espera por um transplante de fígado no Brasil, morre na fila. Um único doador pode ajudar de uma até 25 pessoas com órgãos doados.


Sobre os protestos

junho 23, 2013

Protestar é um direito, em muitos casos um dever. As pessoas precisam deixar claro quando sentem que seus direitos foram violados, que foram prejudicadas ou estão sendo desrespeitadas por quem devia representá-las (no caso, os políticos em todos os níveis, os encarregados de administrar verbas e patrimônio público e etc). Acho que isso demorou muito para acontecer, inclusive. No caso do dinheiro que está sendo desperdiçado para a realização da copa do mundo, creio que as pessoas deviam ter se manifestado anos atrás, quando começou a conversa de fazer copa do mundo no Brasil, e não só agora, que muitos milhões de reais já foram desembolsados. Uma pergunta que deveriam fazer ao governo: Onde está a prestação de contas com relação aos gastos com a copa do Mundo? Em qualquer empresa, os sócios ou acionistas, ou investidores, exigem saber o que está sendo feito com o dinheiro que investiram na empresa. Então, o governo devia prestar contas de todo esse dinheiro que arrecada em impostos a todos nós, que somos os investidores, os que pagam a conta no final, não acham? Com tanto dinheiro arrecadado, devíamos ter escolas, transporte e saúde públicos em nível de primeiro mundo.  Nós passamos praticamente meio ano trabalhando, para pagar impostos. E a contrapartida, onde está? Em nenhuma empresa privada que se preze, uma diretoria financeira que não faz bom uso do dinheiro, permaneceria no cargo. Seriam todos demitidos e quem sabe, processados e obrigados a ressarcir a empresa para a qual causaram prejuízos. E com os administradores do dinheiro público, o que vemos acontecer? Nada. Quando muito, as roubalheiras com dinheiro público rendem alguns dias de manchetes nos jornais, e a maioria dos envolvidos nem sequer é presa, quanto mais obrigada a reparar os prejuízos. Muitos processos acabam arquivados, e nunca mais se ouve falar deles. Como se diz, tudo acaba em pizza, até o próximo escândalo. E não é de hoje que funciona assim.

Mas é lamentável quando pessoas mal intencionadas, desonestas e no meu entender, tão corruptas e sem caráter quanto certos políticos, que passam a vida envolvidos em maracutaias, usam um movimento legítimo para promover saques, destruir monumentos e obras que foram pagas, com o nosso dinheiro. E quem você acha que vai pagar a conta dos consertos? Eu, você, todos que pagam impostos. Você que vai em protestos, não para expressar sua opinião e seu direito de reclamar do que está errado, e sim, para exercer sua desonestidade e sua própria corrupção, promovendo saques e vandalismo, não é melhor do que os políticos corruptos. Vândalos e promotores de saques, não são em nada melhores moralmente, do que  políticos que desvirtuam licitações, desviam (saqueiam) dinheiro público ou recebem propinas e etc. São farinha do mesmo saco. Talvez uns se sintam representados pelos outros, afinal.

Atacam o patrimônio, talvez, como forma de atingir os causadores da indignação, os quais ficam escondidos dentro dos edifícios públicos, protegidos por soldados armados, grades, portas pesadas, e qualquer coisa, fogem de helicóptero ou veículos blindados. A polícia, usa spray de pimenta e gás lacrimogênio a torto e direito, para acalmar os ânimos. Mas você já viu alguém ficar mais calmo depois de receber um jato de pimenta no rosto, ou ser alvo de uma nuvem de gás lacrimogênio? Eu não, por isso não entendo se o objetivo é dispersar, ou deixar as pessoas mais irritadas ainda.

Acabar com partidos? É como um marido traído colocar fogo no sofá onde a esposa o traiu. Não resolve nada. O problema não são os partidos, são as pessoas. Pessoas sem caráter, desonestas, sem valores, sem vergonha na cara, que geralmente entram na política, por causa de dinheiro e não por conta de ideais, não por vontade de construir um país melhor, e sim para garantir um “pé de meia” e quem sabe, uma aposentadoria bem polpuda. Por isso tem tanto “ex” alguma coisa, que como última opção, se filia a um partido qualquer e sai candidato, sem ter noção nenhuma do que seja Estado, legislação, administração de recursos públicos. Pessoas famosas, mas despreparadas, manipuláveis, e com milhares de eleitores prontos para votar nelas, apenas por serem famosas. Por isso que tem também pastor que vira político, muitos pensando não só no dinheiro, mas também em formas de usar o cargo para beneficiar sua denominação. Levar honestidade e integridade para a política? Isso nem passa pela cabeça desse pessoal. O que podemos esperar de bom, de pessoas que se filiam a partidos e montam chapas eleitorais, com objetivos como esses na cabeça? Há exceções? Há. Mas as exceções muito pouco podem fazer, num meio onde a corrupção parece que se tornou regra.

E onde está a novidade? Não há nada de novo sob o sol. Espero que essa onda de protestos, não acabe como tudo costuma acabar por aqui: o governo toma algumas medidas superficiais para acalmar a população, a população engole, e tudo termina em pizza.

“Um país se faz com homens e livros”, escreveu certa vez, Monteiro Lobato. Nesse caso, aparentemente estamos perdidos. :P


A igreja que o pariu…

abril 9, 2013

por José Barbosa Júnior

Marco Feliciano é o nome da vez. Odiado por muitos, querido por uns tantos. Louco e vigarista para alguns, santo e profeta para outros. Uma coisa é certa: ele leva o nome da Igreja Evangélica atrelado à suas idiotices.

A onda “sou evangélico e Marco Feliciano não me representa” invadiu as redes sociais, numa tentativa última de alguns evangélicos se verem distanciados dos disparates desse indivíduo.

Mas é aqui que o caldo entorna…

Porque Marco Feliciano tem a cara da mãe. Da Igreja que o pariu…
Ele não é um fenômeno isolado.

Abro parênteses: se você acha que Marco Feliciano é um fenômeno isolado procure no youtube por crianças pregadoras, jovens “cheios da unção”, e pregadores “de poder”. De tudo o que mais me assusta são as crianças pregadoras/cantoras… verdadeiros monstrinhos e “Felicianinhos” em formação… quanta desgraça celebrada em cultos de “vitória”. Fecho parênteses.

Talvez Feliciano tenha ganhado mais espaço por sua desenvoltura teatral e performática, mas o seu conteúdo está recheado de velhos paradigmas que dominam ainda boa parte da igreja evangélica no Brasil: fundamentalismo, belicosidade e busca de poder.

A mãe pode olhar pro seu bebê monstro agora crescido e dizer: “fiz bem o trabalho!”

Os vídeos que tanto espantam milhares de pessoas na internet não me assustaram, por um simples motivo: nada, eu disse NADA, do que ouvi Marco Feliciano vociferar em suas transloucadas pregações eu já não ouvira antes, nesses 25 anos de caminhada nos arraiais evangélicos. Repito: NADA!

Maldição sobre os negros e África, um Deus que mata desafetos, um Deus que odeia homossexuais são figuras que você encontra na maioria das igrejas evangélicas espalhadas por aí, desde protestantes históricas às mais variadas correntes neopentecostais.

Existem milhares de Marcos Felicianos proliferados por aí, dizendo as maiores besteiras em nome de Deus, pervertendo a fé singela do povo que acredita neles, explorando pessoas, pregando um Deus sádico e vingador… só não se tornaram conhecidos como o “nobre” deputado.

Volto a dizer: Marco Feliciano não é um fenômeno isolado… Não é vítima e nem algoz, é só mais um fruto apodrecido de uma árvore podre. Talvez seja, hoje, o filho mais “famoso” dessa prostituta que se tornou grande parte da igreja evangélica brasileira. Mas seus irmãos gêmeos, Malafaia, Macedo, Valdomiro… continuam ganhando milhões massacrando a massa em nome de “Deus”.

Há esperança? Há… mas vou tratar disso em outro texto…

E agora?

Agora… quem pariu Feliciano que o embale…

A igreja que o pariu.. – Crer e Pensar – José Barbosa Júnior