Para Ariovaldo Ramos

março 31, 2016

Discurso sobre justiça social é bonito e faz sucesso, eu sei. É politicamente correto. E também concordo que todo governo deve se preocupar com questões sociais. É dever do cristão ter estas preocupações.

Mas lamento informar: Jesus não morreu porque quis ser o Che Guevara de Israel. Pensar que justiça social pode ser imposta, à força, por um governo, e que isso tem alguma coisa a ver com a justiça pregada por Jesus, é ingenuidade. Se não for pura desonestidade. Nenhum governo será capaz de implantar um “paraíso na Terra”. Acreditar nisso é ilusão. Chegar a uma Hell’s Kitchen é resultado mais provável, em comparação com o de chegar ao paraíso terrestre por obra de políticos. Imaginar que a luta de classes, base do marxismo, tem relação com o que foi pregado por Jesus, é demonstração de ignorância.

Governos representando ao mesmo tempo os papéis de corruptos e corruptores, causam mais mortes do que a própria criminalidade. Geram injustiças. Tiram recursos da saúde, da educação, da segurança pública, da agricultura, do saneamento básico. Desviam recursos que poderiam ser usados para construir escolas, hospitais, creches, bibliotecas, e etc. Recursos que poderiam ser usados para ajudar pessoas a se libertarem do populismo, não precisarem mais de auxílios, os quais o próprio governo usa para manipular, fazer terrorismo eleitoral e ganhar votos. E um líder cristão, seguidor de Jesus, não pode ao mesmo tempo, pregar o Evangelho, e defender sistemas políticos totalmente corruptos, onde a corrupção se transformou em instituição. Sistemas políticos que debocham da Constituição, do Judiciário, e dos cidadãos. Onde se trata voto, como cheque em branco, e onde tudo é permitido desde que se mantenham no poder. Jesus não era nem de esquerda nem de direita, o projeto de Jesus era o do Pai, e não projeto de poder político, humano. Mas ele jamais emprestaria seu nome, para defender as injustiças e a corrupção estabelecidas. Causa temor quando lideranças supostamente cristãs, se prestam a um papel ao qual Jesus jamais se submeteria. É contraditório um líder cristão que se diz defensor da justiça social, ao mesmo tempo defender políticos corruptos, sendo a corrupção causadora de graves injustiças que atingem a todos.

A parte boa, é que o disfarce “piedoso” sob o qual se esconde a ideologia política, a real motivadora de certos movimentos intitulados “cristãos progressistas”, cai, quando estes se defrontam com a necessidade de defender o indefensável. Ao negociar o inegociável buscando defender o indefensável, torna-se claro então, que Jesus e o cristianismo para tais movimentos, são na verdade, secundários. A ideologia é mais importante. Isso já havia ficado evidente, na ocasião do apoio dado a Hugo Chávez, e o silêncio subsequente deste senhor Ariovaldo Ramos, quando pessoas começaram a ser assassinadas na Venezuela, por serem contrárias ao governo.

Repudio totalmente uma liderança que se diz cristã, mas empresta sua imagem e suas palavras, para defesa de estruturas políticas imersas em corrupção, ou para defender regimes totalitários. Governos que apenas usam tais movimentos e líderes religiosos, para atingir objetivos de poder, sem conexão com o Evangelho. Misturar Jesus com política, nunca deu certo. Transformar o que é espiritual, em ideologia política, puxar Deus para um lado ou outro, é chamar Deus de mentiroso. É fazer de Deus, cúmplice de corrupção e totalitarismo. Pior do que colocar o nome de Jesus no meio dessa suposta teologia, é colocar a ideologia e o projeto de poder político, acima do Evangelho.

Como cristão, você ajuda o próximo com a liberdade que lhe é dada, pelo amor que vem do alto. E não porque um governo o obriga, ou tira recursos de você, por meio de impostos cada vez maiores, para supostamente dar aos menos favorecidos, enquanto este mesmo governo, é ineficiente, corrupto, autoritário, contrário à liberdade individual em nome de um suposto “interesse coletivo”, e aplica as leis de forma parcial, em busca de se eternizar no poder. Quando, em nome desta suposta “justiça social”, líderes que se dizem cristãos, passam a não enxergar como erros o que é escancaradamente errado, é porque em vez de serem sal e luz, a ideologia é que os envenenou.

Os pecados de alguns são evidentes, mesmo antes de serem submetidos a julgamento; enquanto que os pecados de outros se manifestam posteriormente. Da mesma forma, as boas obras são evidentes, e as que não o são não podem permanecer ocultas. 1Timóteo 5:24,25

Anúncios

A igreja que o pariu…

abril 9, 2013

por José Barbosa Júnior

Marco Feliciano é o nome da vez. Odiado por muitos, querido por uns tantos. Louco e vigarista para alguns, santo e profeta para outros. Uma coisa é certa: ele leva o nome da Igreja Evangélica atrelado à suas idiotices.

A onda “sou evangélico e Marco Feliciano não me representa” invadiu as redes sociais, numa tentativa última de alguns evangélicos se verem distanciados dos disparates desse indivíduo.

Mas é aqui que o caldo entorna…

Porque Marco Feliciano tem a cara da mãe. Da Igreja que o pariu…
Ele não é um fenômeno isolado.

Abro parênteses: se você acha que Marco Feliciano é um fenômeno isolado procure no youtube por crianças pregadoras, jovens “cheios da unção”, e pregadores “de poder”. De tudo o que mais me assusta são as crianças pregadoras/cantoras… verdadeiros monstrinhos e “Felicianinhos” em formação… quanta desgraça celebrada em cultos de “vitória”. Fecho parênteses.

Talvez Feliciano tenha ganhado mais espaço por sua desenvoltura teatral e performática, mas o seu conteúdo está recheado de velhos paradigmas que dominam ainda boa parte da igreja evangélica no Brasil: fundamentalismo, belicosidade e busca de poder.

A mãe pode olhar pro seu bebê monstro agora crescido e dizer: “fiz bem o trabalho!”

Os vídeos que tanto espantam milhares de pessoas na internet não me assustaram, por um simples motivo: nada, eu disse NADA, do que ouvi Marco Feliciano vociferar em suas transloucadas pregações eu já não ouvira antes, nesses 25 anos de caminhada nos arraiais evangélicos. Repito: NADA!

Maldição sobre os negros e África, um Deus que mata desafetos, um Deus que odeia homossexuais são figuras que você encontra na maioria das igrejas evangélicas espalhadas por aí, desde protestantes históricas às mais variadas correntes neopentecostais.

Existem milhares de Marcos Felicianos proliferados por aí, dizendo as maiores besteiras em nome de Deus, pervertendo a fé singela do povo que acredita neles, explorando pessoas, pregando um Deus sádico e vingador… só não se tornaram conhecidos como o “nobre” deputado.

Volto a dizer: Marco Feliciano não é um fenômeno isolado… Não é vítima e nem algoz, é só mais um fruto apodrecido de uma árvore podre. Talvez seja, hoje, o filho mais “famoso” dessa prostituta que se tornou grande parte da igreja evangélica brasileira. Mas seus irmãos gêmeos, Malafaia, Macedo, Valdomiro… continuam ganhando milhões massacrando a massa em nome de “Deus”.

Há esperança? Há… mas vou tratar disso em outro texto…

E agora?

Agora… quem pariu Feliciano que o embale…

A igreja que o pariu.. – Crer e Pensar – José Barbosa Júnior


Infeliz Feliciano

março 18, 2013

Eu não pretendia me pronunciar sobre o assunto. Mas quando uma pessoa que se diz pastor, ao ser indicado para a presidência de uma comissão que trata de direitos humanos e minorias, é rejeitada pelas pessoas que a dita comissão tem a função de proteger e defender, alguma coisa está errada. E não é com as pessoas que o estão rejeitando com tanta veemência. É com o pastor.

E não é pelo fato de Marco Feliciano ser pastor, que está sendo rejeitado. E sim, por inúmeras besteiras que costuma dizer publicamente. Aqui mesmo no blog, já postei sobre algumas delas.

Uma comissão como essa, precisa de uma pessoa com posições equilibradas, não um defensor da teologia da prosperidade, e pior, com opiniões sem profundidade, e principalmente, sem equilíbrio.

Marco Feliciano parece estar se achando. É fácil prever o final dessa história.

Jornais já o acusam de usar o mandato para benefício próprio:

Marco Feliciano usa mandato para beneficiar sua igreja e empresas, diz jornal


O amor vence – Rob Bell

março 17, 2013

O-amor-vence_IMPRENSA[…] Algumas pessoas ficam preocupadas principalmente com as manifestações sistemáticas do mal – nas empresas, nas nações e nas instituições que escravizam o povo, espoliam a terra e não respeitam os direitos dos mais fracos. Outras pessoas estão mais concentradas nos pecados individuais, colocando seu foco na moralidade e nos padrões, hábitos e vícios que impedem o crescimento individual e provocam o sofrimento.

Algumas pessoas distribuem folhetos que explicam como ficar em paz com Deus; outras trabalham em campos de refugiados em zonas de guerra; outras ainda apresentam programas de rádio nos quais discutem as diversas interpretações de versículos específicos da Bíblia; e há também aquelas que trabalham para livrar mulheres e crianças da prostituição.

Em geral, como já mencionei anteriormente, as pessoas mais preocupadas com o fato de os outros irem para o inferno são as menos preocupadas com o inferno na terra aqui e agora, enquanto as mais preocupadas com o inferno na terra parecem se preocupar menos com o inferno após a morte.

A história sobre Lázaro e o homem rico demonstra que há uma variedade de infernos, porque há diversas maneiras de resistir e rejeitar o que é bom, verdadeiro, bonito e humano, agora, nesta vida, o que nos faz presumir que podemos fazer o mesmo na próxima.

Existem infernos individuais e sociais, infernos de abrangência mundial, e Jesus nos ensina a levar todos eles a sério.

Há um inferno agora, e haverá um inferno depois, e Jesus nos ensina a levar ambos a sério.[…]

[…] Muita gente no mundo de hoje só ouviu falar do inferno como o lugar reservado para aqueles que “estão fora”, que não creem, que não frequentam a igreja. Cristãos falam que os não cristãos vão para o inferno porque… não são cristãos. Porque são pessoas que não acreditam nas coisas certas.

No entanto, ao lermos todas as passagens em que Jesus usa a palavra “inferno”, percebemos que o que importa não é se as pessoas creem nas coisas certas ou erradas. Ele quase nunca falava sobre “crenças” como nós as entendemos – ele falava sobre ódio, egoísmo, cobiça e indiferença. Falava sobre o estado do coração dos seus ouvintes, sobre como eles se comportam, como interagem uns com os outros e o tipo de influência que exercem no mundo.

Jesus não usou o inferno para tentar convencer “gentios” e pagãos a acreditarem em Deus com o intuito de não arderem no fogo eterno quando morressem. Ele falou sobre o inferno para pessoas religiosas, com o objetivo de alertá-las sobre as consequências de se desviarem do chamado de Deus.

Isso não quer dizer que a possibilidade do inferno não seja um alerta incisivo e urgente ou que ele não esteja intimamente ligado àquilo que se crê, mas trata-se simplesmente de uma maneira que Jesus encontrou para advertir as pessoas que se julgavam escolhidas, de que seus corações duros poderiam pôr em risco sua salvação.  Ele as estava lembrando que sua salvação estava condicionada ao fato de serem pessoas generosas e amorosas por meio de quem Deus poderia mostrar ao mundo como o Seu amor se expressa em carne e sangue.[…]

[…]Amor exige liberdade. Sempre exigiu e sempre exigirá. Nós somos livres para resistir, recusar e nos rebelar contra os caminhos que Deus traçou para nós. Podemos ter todo o inferno que quisermos.

O que vc acha?

(Tirando as teias de aranha do blog)


Deus seja louvado…

novembro 17, 2012

Na verdade, penso que os cristãos é que deviam exigir que essa frase fosse retirada das cédulas de real, e não os ateus. O dinheiro é o que mais faz os cristãos tropeçarem, desde sempre. Não lembro de nenhum religioso que tenha parado pra ler essa frase escrita nas cédulas, antes de ser corrompido por elas.

Crentes que ficam ofendidos porque querem tirar essa frase das cédulas, estão apenas se envolvendo em mais uma das polêmicas inúteis com as quais as pessoas geralmente gostam de perder tempo.

Pra Deus, não vai fazer a menor diferença. Ele não habita cédulas de dinheiro.

Simples assim.


Todos somos hereges!

setembro 18, 2012

por José Barbosa Júnior

[…]O problema, quando se trata da questão do argumento “bíblico”, é que ele, simplesmente, não existe. Ou, se existe, existe imperfeito, refém de nossas interpretações e de nossas pré-leituras da própria Bíblia. Sim, por mais que nunca a tenhamos lido, quando a lemos pela “primeira vez”, antes disso já nos foi incutida uma ideia preconcebida, que acaba por delimitar nossa interpretação. Um exemplo: o “pecado original”. O texto nunca usa esse termo, e muito menos fala de “pecado” na narrativa de Gênesis, mas nós já vamos para o texto com a ideia pré-moldada: uma árvore frondosa, uma serpente enroscada nos galhos trazendo à boca uma enorme maça, linda, vermelha, e uma mulher, quase sempre loira (apesar da narrativa acontecer nas bandas do Oriente Médio), com cabelos longos e esvoaçantes que logo depois entrega a fruta, já com uma mordida, ao seu marido, de músculos bem definidos e cabelos curtos. Ele também come e, por causa disso, entra no mundo o “pecado original”. Onde estão estas coisas no texto? No texto, não estão, mas já estavam na cabeça de quem foi “ler” o texto.

Infelizmente, para decepção de muitos, lamento dizer que não existe essa coisa do “a Bíblia diz…” Deveríamos ser mais honestos e afirmar: “O que interpreto da Bíblia, neste aspecto, pode ser…”

Os que defendem a “literalidade” da interpretação bíblica são de duas espécies: os ingênuos e os mal-intencionados.

Os ingênuos são aqueles que sempre foram ensinados assim. “Irmão, a Bíblia diz que é pecado…”, “O pastor disse que a Bíblia, no original, quer dizer isso…”. Para estes, o que está “escrito”, escrito está… e deve ser seguido ao pé da letra, mesmo que isso não faça o menor sentido. Mas aqui já enfrentamos um pequeno problema: não se segue TUDO o que está escrito. O que deve ser seguido ao pé da letra é apenas aquilo que me interessa.

Acabamos por cair no segundo grupo: os mal-intencionados: gente que sabe que “não é bem assim”, mas tem que dizer que “é assim”, porque é isso que lhes confere autoridade, poder e, muitas vezes, o emprego.

Ora, qualquer estudioso minimamente honesto, sabe que não há isso que chamamos de “interpretação literal”, porque isso é simplesmente impossível.
O que há na verdade são ESCOLHAS daquilo que deva ser “ensinado” literalmente. Leia-se aqui: eu escolho aquilo que me dá poder! Aquilo que me faz estar certo e os outros errados. Neste ponto, somos todos hereges, já que a palavra “heresia” vem do grego hairesis, que significa “escolher”…e  tem exatamente essa intenção: herege é aquele que escolhe (para seu proveito) o que lhe interessa de um texto.

Essa leitura literal da Bíblia é uma falácia. Ela não existe. E quando existe, como já falei, existe milimetricamente escolhida para favorecer o “meu” ponto de vista.

Os que defendem a leitura literal da Bíblia criam armadilhas das quais eles mesmos não conseguem escapar. Não conseguem, mas tentam… e sobra pra “soberania” (no caso dos históricos) ou pro “mistério” (no caso dos pentecostais, neo, etc…). É mais ou menos o “bota na conta do Papa”, frase pitoresca do filme “Tropa de Elite”.

Porque se formos totalmente literais, estamos em maus lençóis, nós e o Deus a quem dizemos servir… um Deus que mandou matar muita gente, que manda os homens todos de uma nação despedirem suas mulheres e filhos, e os lançarem  ao deserto; um Deus que manda matar a família toda de um cara porque ele escondeu “despojos de guerra”; um Jesus que fica bravo porque a figueira não tem fruto (fora da estação de frutos) e manda-a secar; enfim, um Jesus que diz que, caso teu olho ou mão te façam escandalizar, é melhor arrancá-los (Ah! Não…. esse é um dos versículos que nem os literalistas gostam que seja literal)…

Então você sugere que a Bíblia contenha erros históricos e de interpretação? Exatamente! O conceito de inerrância é o que sustenta o edifício da literalidade… aliás são retroalimentadores.

A Bíblia não arroga ser um livro histórico, nem mesmo um livro doutrinário… ela é um livro da fé. E da fé de um povo! E acompanha o desenvolver da fé desse povo… de seu “descobrir” Deus, ou daquilo que pensa ser Deus… e cuja revelação se dá, para um outro povo (já que o povo “original” não reconhece essa revelação) em plenitude, numa pessoa: Jesus, o Deus encarnado.

Ora, se Jesus é a encarnação do Deus que desde o princípio se revela… ou Deus mudou muito ou há algo de errado naquilo que se entende de Deus até então. E dizer que Deus mudou causa furor nos “literalistas”, ainda que, literalmente o texto diga que Deus “se arrependeu”. Neste caso ocorre uma coisa engraçada, que só reforça a heresia de cada um. Os fundamentalistas, impedidos que são de acreditar num Deus que mude de ideia, tem que dar um jeito nos textos que afirmam isso (as ginásticas para fazer um texto encaixar numa teologia sistemática são muito engraçadas). Tiram da cartola, então, o conceito de antropopatia, que seria atribuir a Deus sentimentos humanos quando não conseguimos explicar o que realmente acontece com a divindade. Qual o problema? É que a antropopatia só vale nos textos em que Deus se arrepende. Nos outros textos, todos os sentimentos são “literais”. Interessante, não?

Não existe leitura “pura” da Bíblia. Toda leitura bíblica já é, em si, uma interpretação. E se é uma interpretação, não pode mais ser “literal”. O sentido já foi deturpado há muito. Como saber, então, o sentido verdadeiro do texto? Fácil, pergunte ao seu autor (se bem que o texto geralmente é polissêmico e não pertence mais ao seu autor depois de escrito). Mas, como perguntar ao autor, se este já não existe mais há milênios? Quem poderá resolver o problema? É aí que os literalistas são mais esquizofrênicos. Criam a “iluminação” do Espírito para que haja a VERDADEIRA interpretação do texto. Claro, porque para defender isso também têm que colocar o Espírito Santo como verdadeiro autor das Escrituras. Logo, se Ele é o autor, Ele nos responderá.

Muito boa resposta!

Mas… qual “Espírito Santo” estará com a razão?

O da Igreja Católica, que também inspira o magistério na “interpretação”?

O dos protestantes históricos, para os quais o Espírito não dá mais línguas, mas que é uma babel de interpretações?

O dos pentecostais, cuja pluralidade de línguas nos faz imaginar que cada língua é uma estranha interpretação?

O dos neopentecostais, que produz pastores em série, com a mesma voz e o mesmo discurso, mas com interpretações cada vez mais loucas?

O de outras confissões religiosas (ou você acha que o vento só sopra debaixo do nosso nariz)?

Resolvi caminhar com a interpretação plena em Jesus… e o que se parece com Ele, eu procuro seguir… o que não se parece, descarto, como sendo algo fruto de uma época e de um contexto, mas não tendo mais o que dizer hoje.[…]

Todos somos hereges! – José Barbosa Júnior – Crer e pensar

Sou herege, e você? Seja um pouco mais herege, e leia o texto todo, está no link acima.


Dúvidas

setembro 15, 2012

“Queria lhe dizer que eu fui criado e lecionado desde o berço sobre o evangelho, meu pai é teólogo e diácono, eu já fui uma pessoa muito religiosa, estudei muita a Bíblia, eu conheço a palavra, eu quero acreditar que isso é verdade, mas depois de certo tempo eu parei para pensar um pouco: o que eu estou fazendo? Tem algum sentido nisto?
  A verdade é que o tal Espírito Santo nunca me revelou nada em minha vida, eu pedi, busquei, acreditei, mas nada, e tudo o que vejo nas igrejas são desqualificados elegendo outros desqualificados, as pessoas que estão na igreja pregam sobre um Jesus, de um Salvador que nem elas mesmo sabem da onde veio e não sabem explicar em que acreditam, mas querem te transmitir confiadamente que isso é verdade, e nem elas mesmo sabem em quem estão crendo.
Se está palavra é verdadeira… eu já pedi a Deus que me mostre a realidade, a verdade, e que a verdade seja bem nítida e confiável, aí sim eu irei a frente com isso. Por mais que eu procurei eu nunca tive uma experiência com o tal Jesus, e com o citado Espirito Santo. Eu respeito a vossa crença. O que eu desejo é a verdade, simples palavras não são suficientes, expor uma divindade não é suficiente, se alguém aqui realmente teve uma experiência pessoal com Jesus e crer que isso é real com toda a certeza, parabéns, pois eu nunca tive, o dia em que eu tiver eu vou testemunhar sobre ela, mas em toda a minha vida que eu busquei e não tive o que eu vou testemunhar? Eu acredito na verdade, isso é tudo o q importa, a verdade. É hipocrisia querer acreditar na verdade, encontrar a verdade? Pedir a Deus q me revele a sua verdade? Ao invés de simplesmente aceitar meia tonelada de história contada que não se pode provar. Se eu fosse hipócrita eu estaria aqui falando de Jesus e do Espírito Santo, estaria falando de coisas que eu nunca vivi praticamente embora busquei…
“que você se foda muito na vida, para que possa pedir de coração.” Então para crer é uma questão de apuros, de necessidade? Uma grande verdade é que muitos crêem simplesmente pelo fato de que é mais confortável acreditar que ressuscitaremos, que existe um lugar melhor após a morte, que os bons serão recompensados e os maus castigados, é tão bom poder acreditar nisso, é muito confortável saber disso, nos faz sentir consolados, aliviados, então muitos optam e acreditar ao ter o trabalho de conflitar e buscar a verdade…”

 

Você tem razão em muitas coisas que coloca. Sim, é verdade que muitas pessoas acreditam apenas porque foram ensinadas assim, e nunca pensaram a respeito. É verdade que muita gente só acredita e segue uma religião, porque ela faz com q se sintam melhores, mais confortáveis, superiores aos que não acreditam, escolhidos e etc.

Mas talvez o seu erro esteja exatamente no lance de achar que merece uma “revelação” de Deus por jejuar, por fazer uma porção de coisas, de obras e tals. Como os fariseus, que achavam que por seguir todas as obras da lei, tinham direito à consideração por parte de Deus.

Não, não é hipocrisia você desejar saber a verdade. Acho muito louvável a sua atitude, penso que todos deviam atingir esse nível de reflexão sobre as coisas nas quais acreditam. É muito normal, durante essa reflexão, passar por momentos de crise na fé. E em seguida, passar para um estágio de fé mais coerente, mais profunda, madura, menos infantil. Onde você crê porque você mesmo escolheu isso. A fé é assim, dinâmica, e quanto mais você questiona, mais vai depurando as coisas, e tendo fé apenas no que importa de verdade.

Mas quando se trata de Deus, você tem que saber equilibrar a razão com outras formas de percepção. Usar só a razão nos torna frios e sistematizadores de Deus, usar só a emoção nos torna infantis.

Você quer o quê? Que Deus se materialize na sua frente e diga: “Estou aqui, acredita em mim agora?” Só que se Deus fizesse isso, nós não teríamos liberdade de escolher. E mesmo assim, haveria pessoas para as quais essa “aparição” não seria suficiente. Haveria pessoas que encontrariam outras “explicações” para a “aparição divina”, e continuariam do mesmo jeito. Você conseguiria amar um Deus autoritário como esse, que apareceu na sua frente e não te deixa livre para duvidar? Talvez se você tentasse procurar por um Deus que se move nesse mundo por meio de pessoas, e se revela também por meio da criação, você consiga relaxar e deixar essa revelação dEle chegar até você. Ele diz: busque e achareis, bata e a porta será aberta. Porém, você tem que ter olhos para enxergar a resposta, que muitas vezes pode vir de formas inesperadas, fora do padrão “religioso” que você espera, que você aprendeu na sua igreja.

Duvidar não é pecado, e muitas vezes é bastante saudável. A fé não é acreditar em tudo, sem questionar. Você consegue fazer isso? Eu não. Acreditar em tudo é ser crédulo, e não ter fé. Melhor uma dúvida sincera do que bater no peito pra dizer que acredita, sem acreditar de verdade.

Acreditar em tudo que está escrito na bíblia, não é ter fé. Eu pelo menos não chamo isso de fé, porque a grande maioria dos que dizem que acreditam em tudo que está na bíblia, nunca pararam pra pensar na maior parte das coisas que estão ali. Simplesmente agem como crianças, que acreditam no que os pais falaram. E muitas vezes têm medo de duvidar, acham que Deus vai se irar se eles tiverem dúvidas, mesmo que as dúvidas sejam legítimas e sinceras.

A fé implica, na minha opinião em você ter escolhido acreditar, ter pensado sobre as razões pelas quais você acredita no que acredita. Deus não se importa com nossas dúvidas. Ele prefere nossa fé cheia de dúvidas à crença cega e a crença baseada no medo. Onde existe medo, não existe amor, onde não existe dúvida, não nasce a fé.

Fé é muito parecida com confiança.

Você confiaria numa pessoa que você não conhece, ou só conhece por ouvir falar? Tem pessoas que confiariam, eu não. Posso começar dando um certo grau de crédito a ela, pela confiança que tenho em outras pessoas que eu já conheço, que me disseram que ela é confiável. Mas só vou passar a confiar nela, por minha própria escolha, depois de saber exatamente quem ela é, depois de andar com ela, de me relacionar com ela e chegar à conclusão de que ela merece mesmo confiança. Isso é natural.

Se Deus é uma pessoa, o processo de desenvolver confiança é o mesmo que você teria com qualquer pessoa. Só que a pessoa dEle, uma vez que você tenha aprendido a confiar, dificilmente deixa de confiar, a menos que tenha confiado da forma errada (achando que Deus tem que atender todos os seus pedidos, fazer todas as suas vontades, e te deixar sempre bem, sem sofrimento, sem dor, sem doenças, protegido, abençoado, mimado, com um bom emprego, feliz, rico etc). Ele é Deus, não é seu mordomo, seu serviçal, seu empregado.

Isso que eu chamaria de fé, você saber em quem está confiando, e continuar confiando apesar de tudo. Continuar confiando apesar de muitas vezes não entender o que Ele está fazendo. Porque você escolheu confiar. Você escolheu ter uma única certeza: a de que Ele merece a sua confiança.

Só que chegar nesse ponto, não é fácil, é um processo de aprendizagem, e um processo que vai continuar a sua vida toda. Quando você era criança, também teve que aprender a confiar nos seus pais. Você também duvidou quando seu pai disse que não ia deixar você cair, quando te pegou pela mão pra você aprender a andar. E o seu pai não ficou triste com isso, ficou? Ele sabia que você estava aprendendo a confiar nele e em você mesmo, nas suas pernas ainda frágeis de criança. Não é fácil e tem altos e baixos. Vejo por aí muitas igrejas que incentivam as pessoas a não crescer, e tratar Deus como se fossem crianças mimadas (e insuportáveis) que fazem seus pais de empregados, quase seus escravos. Ou que ensinam supostos “truques” que fazem Deus funcionar a nosso favor (algumas distribuem e até vendem objetos alegando esse tipo de coisa – leve isso para a sua casa, e as bençãos de Deus estarão sobre a sua vida!) Deus não é nosso empregado, Ele não tem obrigação nenhuma  de fazer nossas vontades. Muita gente perde a fé quando surge algum problema sério, por causa disso.  Nesse caso elas não tinham fé nEle, e sim, acreditavam num ídolo, tratavam Deus como alguém que guarda um trevo de quatro folhas, achando que daria sorte.  Se não funciona, jogam Deus fora e tentam outras coisas. Esteja preparado para se desiludir, se é esse tipo de coisa que espera de Deus.

(Essa conversa, que teve origem em alguma comunidade do Orkut – e eu nem tenho mais perfil no Orkut faz algum tempo – estava nos rascunhos do blog, é de dois anos atrás. Tirei da gaveta, assoprei a poeira e resolvi publicar.)