Procura-se

setembro 26, 2011

Procuram-se teólogos, doutores de bíblia, apologistas, vendedores de milagres e pregadores de prosperidade.

Local de trabalho: UTIs dos hospitais, e leitos de pacientes terminais.

Para explicar para a mãe de uma criança de três anos, porque uma criança inocente está morrendo com um tumor cerebral , e ouvir os gemidos dela, antes de elaborar suas teorias idiotas sobre Deus e o sofrimento, que nitidamente demonstram que seus autores não sabem nada a respeito.

Para explicar para uma mulher que tem tumores crescendo feito cogumelos na coluna vertebral, o que ela fez para merecer que Deus a castigasse dessa forma, já que ela pensa estar sendo castigada. Ela quer saber porque Deus está fazendo ela sofrer tanto, a ponto de não poder nem escovar os dentes, de tanta dor.

Para consolar o aidético que está morrendo lentamente, de inanição e infecções no leito da UTI, e parece uma pilha de ossos saída de um campo de concentração, e fazer ele entender que Deus o ama e se importa de verdade com a vida dele. Não é com conversa fiada de crente, nem discursos furados sobre vida vitoriosa e milagres fajutos, que ele vai se convencer disso, garanto.

Algum dos “doutores” chegados à masturbação teológica, apologia da fé, e à dissecação de grego e hebraico (quando o bom português já seria suficiente), ou algum desses escrevinhadores de grossos volumes de teologia sistemática (que seriam bem mais úteis para a humanidade se fossem usados para acender fogueiras, e aquecer moradores de rua), que pensam saber tudo sobre Deus, se habilita? Algum vendedor de milagres disposto a vender sua mercadoria na UTI oncológica? Algum pregador de prosperidade, a fim de discursar sobre vitória financeira para quem está à beira da morte, e não vai levar absolutamente nada junto?

Mas vou avisando: se for para fazer as pessoas se sentirem mais miseráveis, ou culpadas pelo próprio sofrimento, ou vender vagas no paraíso a peso de ouro, favor permanecer nos seus gabinetes, porque disso essas pessoas não precisam, ok?

P.S: Nesse meio tempo, entre um plantão e outro, o paciente soropositivo faleceu na UTI.

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Finding Darwin’s God – Kenneth R. Miller

setembro 8, 2011

[…]No início deste capítulo, deixei claro que a crença religiosa não requer que sejam detectadas falhas ou inadequações na evolução. Esta pode não parecer uma ideia radical, mas está longe de ser uma ideia comum. Mais de uma vez, quando religiosos descobriram que sou biólogo, e acharam necessário dizer alguma coisa sobre a grande sombra do Darwinismo, eles escolhem o que obviamente esperam ser uma linha diplomática: “Bem, você provavelmente sabe melhor do que ninguém, que a evolução é apenas uma teoria. Certo?”

A evolução não é apenas uma teoria. Atualmente, usamos o termo “evolução” de duas formas diferentes, e não parece ser má ideia se palavras distintas fossem usadas para estes dois significados – história e mecanismo – para usá-las de forma correta.

O primeiro significado da evolução é a história, uma história natural e viva, onde as raízes do presente se encontram no passado.[…] Significa que o passado foi caracterizado por processos no qual as espécies atuais podem ser rastreadas em ancestrais similares, porém claramente diferentes. E significa que quanto mais nos movemos para trás no tempo, com mais pedaços e peças deste registro histórico, encontramos uma diversidade de formas de vida muito diferentes das que vemos e conhecemos hoje.  Isto é, uma descrição acurada sobre o que sabemos sobre o passado da vida no planeta.

Com relação a isso, a evolução é um fato tanto quanto qualquer outro que conhecemos em ciência. É um fato que os seres humanos não apareceram de repente nesse planeta, como criações sem ancestrais, e é um fato que os sinais desta ancestralidade são claros para a nossa espécie e para centenas de outras espécies e grupos de espécies. É verdade que o registro histórico é incompleto. sujeito a interpretações e aberto à revisões, especialmente à luz de novas descobertas. Não podemos saber ao certo o rumo que as descobertas vão tomar, e não podemos ter certeza se alguns destes sinais possuem erros ou mal entendidos que um dia  serão corrigidos. Sobre o assunto de saber se esses sinais existem ou não, podemos ser definitivos. Eles existem, e ponto. Evolução é um fato.

E no que diz respeito ao segundo significado da evolução, como teoria? A grande contribuição de Darwin, como tenho enfatizado, não foi o reconhecimento da evolução como processo histórico. Ao contrário, foi sua descrição de um mecanismo que poderia dirigir as mudanças evolutivas. A teoria evolutiva é um conjunto de explicações que procura esclarecer como esta mudança aconteceu  A teoria evolutiva leva em conta as contribuições relativas das mutações, variações e da seleção natural, e tenta entender como as ações interligadas de hereditariedade, sexo, probabilidade, ambiente e competição direcionam os detalhes da descendência com modificações.

A teoria evolutiva é um campo vigoroso e contencioso, como deve ser a boa ciência. Encontros científicos sobre este assunto são recheados de argumentações e discordâncias, e isso é uma coisa boa. O conflito intelectual, mesmo num nível pessoal, é bom para a ciência porque motiva os cientistas a testar suas ideias e as dos seus oponentes sob o escrutínio do experimento e da observação. A este respeito, o detalhado mecanismo pelo qual as mudanças ocorrem, é a teoria, mas teoria nesse contexto não significa que seja apenas um palpite sem fundamento. A teoria evolutiva não é um palpite sobre a natureza da vida, assim como a teoria atômica não é um palpite sobre a natureza da matéria, ou a teoria dos germes, pura especulação sobre a natureza das doenças. A teoria evolutiva é um conjunto bem definido, consistente e produtivo de explicações sobre como as mudanças evolutivas ocorrem.

A evolução é tanto fato quanto teoria. É um fato que as mudanças evolutivas acontecem. E a evolução é também uma teoria que procura explicar o mecanismo detalhado por trás destas mudanças.

Seria legal fingir, como muitos dos meus colegas cientistas fazem, que o estudo da evolução pode ser conduzido sem ter qualquer efeito na religião. De certa forma, invejam outros campos científicos – como a química orgânica ou a oceanografia – que podem prosseguir a toda velocidade, sem nunca terem que serem jogados na arena religiosa.[…]

[…]Existe alguma possibilidade de que os “geólogos do dilúvio” sejam cientistas genuínos e sinceros? É possível que sejam pioneiros solitários trabalhando numa grande e nobre tradição, lutando por respeitabilidade e, em última análise, para provar suas ideias?  Não penso que seja assim; e digo que não se trata de um julgamento de caráter, mas uma avaliação do comportamento científico deles. Se eles realmente acreditam na validade das suas interpretações da história fóssil, deviam estar loucos para explorar uma grande oportunidade científica: os coprólitos.

Coprólitos são fezes fossilizadas. Ao longo dos anos, os paleontologistas têm encontrado milhares destes fósseis, incluindo um notavelmente descrito num artigo da revista Nature, em 1984, com o título “A Kingsized Theropod Coprolite.” O tamanho e localização do objeto, indicam que foi produzido por um dinossauro carnívoro, provavelmente um Tiranossauro. O coprólito está recheado com grandes fragmentos de ossos parcialmente digeridos. Outros coprólitos estão também disponíveis, se nossos colegas preferirem, de mamíferos ancestrais, pleiossauros (répteis nadadores), e até de insetos. Para os criacionistas de Terra Jovem, estes fósseis apresentam uma oportunidade única para validarem suas ideias. Tudo que teriam que fazer, seria explorá-los e encontrar evidências de um único organismo contemporâneo. Grãos de pólen microscópicos de plantas modernas, seriam suficientes, no caso de dinossauros herbívoros. Se pudessem encontrar um pedaço de osso de atum, no estômago desses pleiossauros, sacudiriam o mundo da geologia, demonstrando que criaturas da antiguidade e do mundo contemporâneo coexistiram lado a lado antes do dilúvio, como eles sempre disseram. Os criacionistas de Terra Jovem não fazem este esforço. Eles se mantêm cuidadosamente longe de qualquer tipo de contato com evidências genuínas, como o fato de que o sistema digestivo dos pleiossauros estava cheio de amonitas, moluscos extintos, que viveram na mesma era geológica.[…]

[…]Então, como vimos, o designer (inteligente) produziu um organismo após outro, em lugares e sequências que poderiam ser posteriormente, erradamente interpretadas como a evolução, por uma de suas criaturas (pobre Charles Darwin! =P). E apenas para ajudar na composição deste mal-entendido, ele (o designer) se certificou de que os primeiros membros que desenhou, se parecessem com barbatanas modificadas, e que os primeiros maxilares que projetou, se parecessem com arcos branquiais modificados. Ele ainda se deu ao trabalho de garantir que os primeiros tetrápodes tivessem caudas como as dos peixes, e que as primeiras aves tivessem dentes, como os répteis. Tão pensador esse designer, que depois de ter desenhado mamíferos para viver exclusivamente em terra, redesenhou alguns poucos, como as baleias e os golfinhos, para viver na água – mas não antes de ter desenhado criaturas que viviam de forma dividida: tanto na terra quanto na água.  Trabalhando desta forma mágica, este designer escolheu criar formas exatamente intermediárias entre mamíferos terrestres e mamíferos aquáticos.

Seria legal, fingir que esta descrição não é nada mais do que uma polêmica irreverente, um puxão desagradável de orelha na oposição. Mas não é. É uma boa descrição, de um pouquinho do que qualquer defensor do design inteligente deve acreditar, no sentido de enquadrar suas crenças, com os fatos da história geológica. E isso é apenas o começo.[…]

Finding Darwin’s God: a scientist’s search for common ground between God and Evolution – Kenneth R. Miller

Recomendado!


A history of the end of the world – Jonathan Kirsch

setembro 4, 2011

“O livro do Apocalipse tem servido como um “arsenal” na maior parte dos conflitos sociais, culturais e políticos na história ocidental. Mais de uma vez, o livro do Apocalipse provocou alguns homens e mulheres muito religiosos e perigosos, a entrar em ação para provocar seus apocalipses particulares. Acima de tudo, o cálculo moral do Apocalipse – a demonização dos próprios inimigos, a santificação da vingança, e a noção de que a história terminará em catástrofe – pode ser detectada em muitas das piores atrocidades e excessos em cada geração, incluindo a nossa. Por todas essas razões, a maior parte de nós ignora o livro do Apocalipse, e isso para nosso próprio empobrecimento, ou mais certamente, nosso próprio risco.”

O autor misterioso do livro da Revelação (ou Apocalipse, como o último livro do novo testamento é mais conhecido), nunca deve ter considerado que o seu sermão a respeito do fim dos tempos, iria durar mais do que a sua própria vida. De fato, ele previu que a destruição do planeta seria testemunhada pelos seus contemporâneos. Mas o livro do Apocalipse não só sobreviveu ao seu criador; sua vívida e violenta fantasia de vingança tem exercido um papel significante na história da civilização ocidental.

Desde que o Apocalipse foi pregado pela primeira vez como palavra revelada de Jesus Cristo, tem assombrado e inspirado ouvintes e leitores da mesma forma. A marca da besta, o anticristo, 666, a prostituta da Babilônia, Armagedon, e os quatro cavaleiros do Apocalipse são apenas algumas das suas imagens, frases e códigos que fizeram seu caminho na fábrica da nossa cultura.  As questões levantadas atingem em cheio o coração do medo humano da morte e a obsessão com a vida depois da morte. Iremos nós, individualmente ou coletivamente, viver eternamente em glória, ou arder eternamente no inferno? Como aqueles que melhor manipularam esta visão sombria aprenderam, de que lado vamos cair é uma questão de vida ou morte. Usado como arma nas guerras culturais entre Estados, religiões e cidadãos, o livro do Apocalipse tem alterado de forma significante o rumo da história.

Kirsch, que é chamado pelo Washington Post um “refinado contador de histórias, com um toque de renderização de antigas lendas deixando-as atraentes e relevantes para audiências modernas”, nos proporciona uma história chocante e de grande envergadura, deste livro escandaloso, que quase foi cortado do Novo Testamento. Da queda do Império Romano à  Peste Negra, da Inquisição à Reforma Protestante, do Novo Mundo à Direita Religiosa, esta crônica do uso e do abuso do livro do Apocalipse conta o desenrolar da história e as esperanças, medos, sonhos e pesadelos de toda a humanidade.

A history of the end of the world – Jonathan Kirsch

Um livro bem interessante, sobre quantas vezes ao longo da história ocidental, a data do fim dos tempos foi marcada. Inclusive, com a história da influência que exerceu na política de alguns presidentes norte-americanos, Ronald Reagan, George Bush (pai) e George Bush (filho); o surgimento do sionismo; o impedimento do avanço de qualquer diálogo que venha a gerar paz entre muçulmanos e judeus, porque a paz entre eles, supostamente, impediria a volta de Jesus; e tantas outras bizarrices e loucuras que o ser humano foi capaz de inventar e executar, inspirado por um livro que Lutero pensava que não devia fazer parte do Novo Testamento, o livro do Apocalipse.