A sedução da ortodoxia

janeiro 29, 2011

por Paulo Brabo

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado como crença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.

A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.

A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão da gnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

A sedução da ortodoxia – Paulo Brabo – A bacia das almas


Eu me recuso…

janeiro 27, 2011

“Em nome de Cristo, eu me recuso a ser anti-gay. Me recuso a ser anti-feminista. Me recuso a ser contra o controle artificial de natalidade. Me recuso a ser contra a democracia. Me recuso a ser contra o humanismo secular. Me recuso a ser anti-ciência. Me recuso a ser contra a vida. Em nome de Cristo, eu deixo o Cristianismo para ser apenas cristã. Amém.”

Anne Rice


The Right to Heresy: Castellio against Calvin – Stefan Zweig

janeiro 26, 2011

Trechos da Introdução

“Uma mosca atacando um elefante.” Esta é a interpolação, do manuscrito do próprio Sebastian Castellio, de sua polêmica contra Calvino. A princípio, essa expressão nos repele um pouco, e estamos inclinados a considerar que é uma das expressões hiperbólicas às quais os humanistas são propensos. Mas as palavras de Castellio  não eram nem hiperbólicas nem irônicas. Pelo contrário, este lutador valente apenas pretendeu expressar claramente ao seu amigo Amerbach a sua própria profunda e angustiante convicção de que estava enfrentando um antagonista colossal, quando publicamente acusou Calvino de ter se deixado instigar pelo dogmatismo fanático levando um homem à morte e assim, colocou abaixo a liberdade de consciência que caracterizou a Reforma.

Quando Castellio entrou nesse torneio perigoso, usando sua pena como um cavaleiro usaria uma lança, estava ciente de que um ataque puramente espiritual contra uma ditadura montada sobre armas materiais não seria efetiva, e que estava, então, lutando por uma causa perdida. Como poderia um homem desarmado e sozinho, esperar vencer Calvino, que tinha em sua retaguarda milhares e dezenas de milhares, e estava equipado com todos os poderes do Estado? Um mestre na arte da organização, Calvino foi capaz de transformar uma cidade inteira, um Estado inteiro, cujos burgueses tinham sido até então homens livres, em uma máquina rígida e obediente; foi capaz de extirpar a independência, e impor um embargo sobre a a liberdade de pensamento em favor da sua própria e exclusiva doutrina. Os poderes do Estado estavam sob seu controle supremo; as várias autoridades eram como cera em suas mãos, o Conselho da Cidade e o Consistório, universidade e  tribunal, finanças e moralidade, pregadores e escolas, diligências e prisões, as palavras escritas e faladas e até as palavras sussurradas secretamente. Sua doutrina se tornou lei, e qualquer um que se atrevesse a questionar era logo ensinado – por argumentos que encerravam a discussão, pelos argumentos da tirania espiritual, pela prisão, exílio ou morrer queimado na estaca – que em Genebra apenas uma verdade era válida, a verdade de que Calvino era o profeta.[…]

[…]Quem era seu adversário, Sebastian Castellio, o idealista solitário que, em nome da liberdade de pensamento, renunciou à fidelidade à Calvino assim como a qualquer outra tirania espiritual? Avaliando-se o material disponível a respeito desses dois homens, não é exagero comparar um deles a uma mosca e o outro, a um elefante. Castellio não era nada, não era ninguém, quando se tratava da sua influência pública; era ainda, um estudioso financeiramente pobre, que trabalhava duro para sustentar esposa e filhos com traduções e ensino particular; um refugiado numa terra estrangeira, onde não tinha estado civil nem residência, duplamente um emigrado; e, como sempre acontece em dias onde o mundo se fez louco por causa do fanatismo, o humanista era impotente e isolado em meio a zelotes rivais.[…]

[…]Castellio, entretanto, ganhou seu lugar de fama imperecível por ser um humanista que apareceu e cumpriu seu destino. Heroicamente, abraçou a causa dos seus companheiros perseguidos, e assim jogou fora sua vida. Sem se tornar fanático, embora todo o tempo perseguido por fanáticos, imperturbável como Tolstoy, levantando como uma bandeira a sua convicção de que nenhum homem deveria ser subjugado à força a ter esta ou aquela opinião sobre a natureza do universo, ele declarou que nenhum poder terreno tinha direito de exercer autoridade sobre a consciência dos homens. E porque proferiu essas opiniões, não em nome de um partido mas como expressão espontânea do espírito imperecível de humanidade, seus pensamentos, como muitas de suas palavras, não podem ser esquecidas. Pensamentos universalmente humanos e atemporais, quando fixados por um artista, guardam para sempre a forma do seu primeiro molde, e uma confissão que tende a promover a unidade mundial superará a desunião, e as expressões agressivas e doutrinárias.  A coragem singular desse personagem esquecido deveria servir de exemplo para as próximas gerações, sobretudo na esfera moral. Quando, a despeito dos teólogos, Castellio descreveu Servetus, vítima de Calvino, como um inocente que foi assassinado; quando, em resposta aos sofismas de Calvino, ele fez trovejar seu enunciado imperecível, “queimar um homem vivo não defende nenhuma doutrina, apenas mata um homem”; quando seu Manifesto em nome da Tolerância (muito antes de Locke, Hume e Voltaire, e de forma mais esplêndida que eles), proclamou de uma vez por todas o direito à liberdade de pensamento – ele sabia que estava dando sua vida pelas suas convicções. Não suponha o leitor que o protesto de Castellio contra o assassinato judicial de Miguel Servetus está no mesmo nível dos muito mais celebrados protestos de Voltaire no caso de Jean Calas ou o de Zola no caso Dreyfus.  Estas comparações diminuem a grandeza moral do que Castellio fez. Voltaire, quando tomou as dores de Calas, estava vivendo em uma época humanista, e como escritor famoso, contava com a proteção de reis e príncipes. De forma similar, Zola tinha em sua retaguarda um exército invisível, a admiração da Europa e do mundo. Voltaire e Zola estavam sem dúvidas arriscando a reputação e o conforto, mas nenhum deles colocou em risco sua vida. E foi isso que Castellio fez,  sabendo que na sua luta pela humanidade, iria concentrar sobre a sua cabeça todas as atrocidades do século cruel no qual viveu.

Sebastian Castellio pagou o preço todo pelo seu heroísmo, um preço que esvaziou suas energias.  Este advogado da não violência, que escolheu não usar arma alguma além das espirituais, foi estrangulado pela força bruta. De novo e de novo como podemos ver aqui, há pouca esperança de sucesso para alguém que não tem sob seu comando nenhum outro poder além da retidão moral, e que, estando sozinho, entrava uma batalha contra uma organização compacta. Assim como quando uma doutrina toma o controle do aparato do Estado e dos instrumentos de pressão com os quais o Estado pode contar, sem hesitação vai instaurar um reino de terror. As palavras de alguém que desafia a sua onipotência são sufocadas, e usualmente o pescoço do palestrante ou escritor dissidente acaba torcido também. Calvino nunca pretendeu responder seriamente a Castellio, preferindo reduzir seu crítico ao silêncio. Os escritos de Castellio foram censurados, colocados sob proibição, e destruídos onde eram encontrados. Pelo exercício da influência política, as adjacências foram induzidas a negar sua liberdade de expressão dentro de suas fronteiras. Então, assim que seu poder de protesto ou crítica estava destruído, quando sequer podia reportar as medidas que estavam sendo tomadas contra ele, os “satélites” de Calvino o atacaram de forma caluniosa. Não havia uma luta entre dois adversários equipados com as mesmas armas, mas a chacina cruel de um homem desarmado por uma horda de bárbaros. Calvin dominava os meios impressos, os púlpitos, as cátedras e os sínodos. Os passos de Castellio foram perseguidos; bisbilhoteiros prestavam atenção em tudo que dizia; suas cartas eram interceptadas. Poderíamos nos espantar por uma organização com tantas mãos pudesse facilmente levar a melhor sobre um humanista sozinho; que nada além da morte prematura de Castellio o salvaria do exílio ou de ser queimado na estaca? O dogmático triunfante e seus sucessores não hesitaram em se vingar sobre o cadáver do adversário.  Suspeitas e invectivas, disseminadas depois da sua morte, destruíram-no como a cal, e cinzas foram espalhadas sobre o seu nome. A memória desse solitário que havia não só resistido à ditadura de Calvino, mas investido contra os princípios básicos da ditadura sobre as coisas espirituais, foi, como os fanáticos esperavam, apagada da mente dos homens para sempre.[…]

[…] A História não tem tempo de ser justa. É seu trabalho, como cronista imparcial, gravar os sucessos, mas ela raramente avalia seu valor moral. Mantém os olhos fixados nos vitoriosos, e deixa os vencidos nas sombras. Sem cuidado algum, esses “soldados desconhecidos” são jogados na vala comum do esquecimento. Nulla crux, nulla corona- nem cruz, nem grinalda – para recordar seus sacrifícios inúteis. Na verdade, porém, nenhum esforço feito pelos puros de coração deve ser considerado fútil ou estigmatizado como estéreis; nem qualquer dispêndio de energia moral se dissipa no espaço vazio sem deixar repercussões. Apesar de derrotados, os que viveram antes do seu tempo encontraram significado em um ideal atemporal; uma ideia que é trazida à vida no mundo real, apenas pelo esforço daqueles que a conceberam, onde ninguém pode testemunhar a concepção, e estavam prontos para avançar ao longo da estrada que levava à morte sombria. Consideradas espiritualmente, as palavras “vitória” e “derrota” adquirem novos significados. Por isso nunca devemos deixar de lembrar um mundo que só tem olhos para monumentos e conquistadores, que os verdadeiros heróis da raça humana não são aqueles que constroem seus reinos transitórios em cima de uma hecatombe de cadáveres, mas aqueles que, não tendo poder para resistir, sucumbem à força superior – como Castellio foi sufocado por Calvino, em sua batalha pela liberdade de espírito e pelo estabelecimento do reino final da humanidade na Terra.

The right to heresy: Castellio against Calvin – Stefan Zweig

“Buscar e dizer a verdade, tal como se pensa, não pode nunca ser um delito. A ninguém se deve obrigar a crer. A consciência é livre.”

Ao refletir acerca do que seria definitivamente um herege, não posso senão concluir que chamamos de hereges aqueles que não concordam com a nossa opinião.”

“Oh, Cristo, Criador e Rei do mundo! Vês essas coisas? Terias tu te convertido em outro diferente do que eras? Quando vieste à Terra, não havia ninguém mais agradável, ninguém mais bondoso do que Tu, ninguém que houvesse suportado as ofensas da forma mais indulgente. Insultado, cuspido, zombado, coroado com espinhos, crucificado entre ladrões, em meio ao mais profundo desespero, rogaste por aqueles que Te infligiram todos aqueles agravos e injúrias. É verdade que mudaste? Eu Te rogo, pelo nome sagrado do Teu Pai: ordenaste Tu realmente que aqueles que não seguem todos os Teus preceitos e mandamentos tal como postula em Teus ensinamentos, fossem afogados, torturados com tenazes até as entranhas, tendo sal polvilhado em suas feridas, mutilados com espadas, queimados e torturados até a morte, tão lentamente quanto for possível, e com todo tipo de suplícios? Oh Cristo, realmente aprovas estas coisas? São realmente Teus servos estes que agem como carniceiros, que desta forma desossam e esquartejam as pessoas? E quando usam o Teu nome como testemunha, estás Tu realmente envolvido nessas matanças atrozes, como se tivesses fome de carne humana? Se Tu, Cristo, ordenaste realmente estas coisas, o que Te diferenciaria de Satã? Oh, terrível irreverência, crer que Tu poderia fazer essas coisas, as mesmas que Satã faz. Oh, audácia infame dos homens: atribuir a Cristo o que só pode ser vontade e invenção do demônio.”

Sebastian Castellio

“Não é cristão usar armas contra aqueles que foram expulsos da igreja, e negar a eles os direitos comuns a toda a humanidade.” frase de Calvino, quando o perseguido era ele, e a igreja que o perseguia, a católica romana, e não a dele. Uma pena que ele tenha esquecido tão rápido as próprias palavras, não é? Conseguiu piorar o mundo  um pouco mais, porque esqueceu o que ele mesmo tinha dito antes.

O tipo de coisa que acontece quando cristãos esquecem, ou nem sabem de que Espírito são.


Eu tive um sonho…

janeiro 26, 2011

Era uma festa. A festa do “cristianismo”.

Ao entrar no salão onde acontecia a festa, já deu logo para perceber que as pessoas presentes não eram todas conhecidas umas das outras, muito menos amigas umas das outras. Havia várias panelinhas. Dava para notar que havia diversos graus de separação entre as pessoas na festa. Classes sociais, diferenças doutrinárias, teológicas, e supostos níveis de “santidade”, e autoridade, separavam as pessoas ali dentro. Algumas panelinhas estavam até mesmo rivalizando com outras, esquecendo de que estavam numa festa, onde deviam apenas celebrar. Dava para ouvir pessoas discutindo e falando alto, algumas chegavam até a trocar socos e tapas, enquanto outras davam gargalhadas, lá no fundão do salão.

Havia a panelinha daqueles que gostavam de parecer piedosos diante dos outros enquanto por dentro estão cheios de podridão, e eles estavam junto dos que gostavam de ser incensados como ídolos. Estavam, claro, no lugar mais privilegiado do salão, de onde podiam ser vistos e admirados por todos. Os ídolos davam autógrafos e tiravam fotos junto com fãs que passavam pela mesa, enquanto os piedosos oravam em voz alta e batiam no peito, para que todos os ouvissem.

Numa outra mesa, estavam aqueles que propunham empunhar espadas para defender Deus. O “exército” pronto a lutar na “guerra santa gospel” e pronto a matar e morrer em nome de Deus ou da “igreja” ou da “doutrina” ou da “teologia”. Nem me aproximei deles, porque as caras feias deles inibiam qualquer um de se aproximar.

Havia também a mesa onde estavam assentados os doutores da Lei, escribas e teólogos profissionais. Discutindo se Adão tinha umbigo, qual seria o sexo dos anjos, e se era lícito curar no sábado. Estavam tão mais interessados em debater em vez de celebrar, que a comida esfriava no prato e o vinho ficava quente nas taças.

Mais adiante, estava a mesa dos vendedores de milagres, prosperidade e unções. Era cômico ver todos juntos naquela mesa, um tentando impressionar o outro. Alguns deles lembravam os antigos alquimistas, de tantas bravatas a respeito de prosperidade. A diferença é que não atribuíam a própria riqueza e saúde a qualquer pó transmutador de metais em ouro, ou à descoberta da pedra filosofal, e sim, à última campanha de prosperidade que fizeram na “igreja”. O engraçado, é que apesar de serem vendedores de prosperidade para os outros, nunca tinham dinheiro suficiente pra eles mesmos, e estavam sempre pedindo mais contribuições.

Na panelinha sacerdotal estavam papas, bispos, apóstolos (os modernos), e disputavam pra ver qual deles estava acima na hierarquia ,ou qual deles tinha mais poder político. Tinha gente de mitra na cabeça e anel no dedo, e tinha um até que dizia ser patriarca. Autoridades da” igreja”, e ninguém podia se aproximar deles, afinal, havia um cordão de seguranças os protegendo. Só dava para falar com eles se apresentasse credenciais.

No meio daquela confusão de pessoas, mesas e panelinhas, encontrei uma mesa que, tão logo alguém se aventurava a chegar até o fundão da sala, atraído pela alegria que dela irradiava, aparecia mais lugar, para que o recém-chegado se assentasse, se quisesse. Da mesma forma o vinho e a comida se multiplicavam, para que todos que chegassem, tivessem sua porção.

Ali estava Jesus. Estava, como era seu hábito, comendo sem lavar as mãos e saboreando cada prato sem medo de ser chamado de comilão ou beberrão, para horror de fariseus, sacerdotes, escribas e levitas, todos ao mesmo tempo. Na mesa onde Jesus estava, estavam também cobradores de impostos, samaritanos, leprosos, pescadores, centuriões, cegos que agora enxergavam, surdos que ouviam, mudos que falavam, prostitutas, uma mulher adúltera que havia escapado do apedrejamento, e até um sentenciado à morte. Todos alegres, porque estavam perdidos e foram encontrados. Estavam doentes e foram curados. Eram excluídos e foram convidados. Naquela mesa não havia debates, nem ninguém se gabava de seus feitos, das suas muitas letras, ou da sua prosperidade. Eles não tinham nada do que se gabar, nem nada para oferecer. E sim, haviam sido alvos da graça de Deus. E sabiam disso. E por isso, comemoravam intensamente, totalmente alegres, sem nenhuma vontade de vencer debates, bancar os donos da verdade religiosa, se considerar intérpretes e oráculos de Deus, ou fazer guerra em nome de Deus. Queriam só aproveitar a festa que Jesus havia preparado para eles, e receber a todos que se assentassem, com a mesma alegria, com o mesmo abraço com o qual eles mesmos foram recebidos por Jesus. Sem fazer perguntas a respeito de linhas teológicas, doutrinas, prosperidade, classe social, ou “qual é  a sua igreja” ou “quem é seu pastor” para, a partir da resposta, fazer juízos de valor, e hierarquizar a pessoa acima ou abaixo de si mesmos. Quem foi alvo da compaixão de Deus, não sabe fazer outra coisa além de acolher os outros que Deus, o Bom Samaritano, vai juntando pelo caminho. Só pode deixar de ter essa atitude acolhedora, se se tornar “bom” o suficiente para se esquecer da compaixão que ele mesmo recebeu. Ou porque nunca teve essa atitude, sempre se achou “bom” o suficiente e melhor do que os outros (acontece muito com crentes de berço – que não passaram pela experiência de, apesar de se acharem ou serem vistos pela religião totalmente indignos e incompetentes, descobrir que havia lugar na mesa de Deus pra eles – ninguém pode dar a outros o que não recebeu para si mesmo antes).

Jesus só se sentava à mesa com os ditos “religiosos” e “líderes religiosos” da sua época, os “donos” da religião, para provocá-los, desentocá-los, desconstruir suas certezas e verdades, desmascarar sua hipocrisia e suas mentiras, tirá-los de suas posições de suposta superioridade. Isso enquanto não passavam de sepulcros caiados, víboras e guias cegos. No resto do tempo, Jesus preferia estar com aqueles que os tais religiosos e líderes, excluíam da sua própria mesa, e não só isso, se achavam no direito de impedir que tais pessoas tivessem acesso a Deus, ou regular esse acesso. Ele queria salvar os que estão perdidos e incluir os que estão excluídos.


A fé é o futuro. A religião é o passado

janeiro 24, 2011

por H. Richard Niebuhr, citado por Nelson Costa Jr

[…]É necessário distinguir religião, canga e instrumento de dominação, de Evangelho – mensagem de libertação dos cativos; distinguir entre fé, resposta positiva ao ato de  libertação, e cultura – meio através do qual ela se deve expressar. É necessário superar definitivamente conceitos absurdos como o de uma ‘fé religiosa’, pois fé e religião são inconciliáveis. Uma só pode subsistir com o sufocamento da outra. A fé é a semente fértil. A religião é a semente esterilizada que pode servir para comer ou para o comércio. A fé é o futuro. A religião é o apego ao passado, à segurança, ao status quo, muitas vezes feita em nome do futuro, e quase sempre feita em benefício dos comerciantes. A fé é o desapego dos que aguardam a madrugada e não perdem tempo olhando para trás. A fé é a loucura, a audácia. A religião é a prudência, o instinto de conservação. A grande traição da Igreja como instituição consiste  em que, ao invés de constituir-se portadora e testemunha  do Evangelho, ela se apresentou como “defensora” do Evangelho. Isto na prática se refletiu num esforço de  domesticar o Evangelho, a serviço de determinada cultura e dos seus interesses arraigados. Como resultado, ao invés de seguir o caminho da fé, a Igreja se colocou na defesa dos privilégios que lhe garantiam a segurança, na santificação do status quo, e a religião resultante dessa traição tornou-se a principal sustentação da ideologia das classes dominantes, da luta pela santificação dos objetos.[…]

Leia o restante do texto aqui: A fé é o futuro. A religião é o passado – Nelson Costa Jr


Confissões de um ex-dependente de igreja

janeiro 22, 2011

por Paulo Brabo

Outro dia um pastor observou que eu deveria confessar ao leitor impenitente da Bacia, que não tem como concluir isso lendo apenas o que escrevo, que não vou à igreja faz mais de dez anos. Ele dava a entender que essa confissão provocaria uma queda sensível na minha popularidade; percebi imediatamente que ele estava certo, e que mais cedo ou mais tarde teria, para podar os galhos da celebridade (porque a fama é uma espécie de compreensão), deixar de contornar indefinidamente o assunto.

Quanto mais penso na questão, no entanto, mais chego à conclusão que o que tenho de confessar é o contrário, e ao resto do mundo, não aos amigos que convivem com desenvoltura entre termos como gazofilácio, genuflexão, glossolalia e graça irresistível. Devo explicações à gente comum que vê o domingo, incrivelmente, como dia de descanso – dia de ir à praia, de andar de bicicleta no parque, de abraçar os amigos ao redor de um churrasco, de correr atrás de uma bola ou de encontrar a paz diante de uma lata de cerveja e uma tela radiante.

Preciso confessar que durante trinta anos fui consumidor de igreja. Durante trinta anos fui dependente de igreja e trafiquei na sua produção.

Devo confessar o mais grave, que durante esses anos abracei a crença (em nenhum momento abalizada pela Escritura ou pelo bom senso) que identificava a qualidade da minha fé com minha participação nas atividades – ao mesmo tempo inofensivas, bem-intencionadas e auto-centradas – de determinada agremiação. Em retrospecto continuo crendo em mais ou menos tudo que cria naquela época, porém essa crença confortante e peculiar (espiritualidade = participação na igreja institucional) fui obrigado contra a vontade, contra minha inclinação e contra a força do hábito, a abandonar.

Preciso deixar claro que não guardo daqueles anos qualquer rancor; de fato não trago deles nenhuma recordação que não esteja envolta em mantos de nostalgia e carinho. Ao contrário de alguns, não sinto de forma alguma ter sido abusado pela igreja institucional; sinto, ao invés disso, como se tivesse sido eu a abusar dela. Minha impressão clara não é ter sido prejudicado pela igreja, mas de tê-la usado de forma contínua e consistente para satisfazer meus próprios apetites – apetites por segurança, atenção, glória, entretenimento, aceitação.

Se hoje encaro aqueles dias como uma forma de dependência é porque acabei aceitando o fato de que a igreja como é experimentada – o conjunto de coisas, lugares, atividades e expectativas para as quais reservamos o nome genérico de igreja – representam um sistema de consumo como qualquer outro. As pessoas consomem igreja não apenas da forma que um dependente consome cocaína, mas da forma que adolescentes consomem telefones celulares e celebridades consomem atenção – isto é, com candura, com avidez, mas muitas vezes para o seu próprio prejuízo.

Todo sistema de consumo confere alguma legitimação, isto é fornece ao consumidor pequenas seguranças e pequenas premiações que fazem com que ele se sinta bem, sinta-se uma pessoa melhor (ou em condições privilegiadas) por estar desfrutando de um produto ou serviço de que – e isto é importante na lógica interna da coisa – não são todos que desfrutam.

As igrejas institucionais, por mais bem-intencionadas que sejam (e, creia-me, há muito mais gente bem-intencionada envolvida na criação e na sustentação delas do que seria de se supor) funcionam precisamente dessa maneira. Não é a toa que tanto a palavra quanto o conceito propaganda nasceram, historicamente falando, nos salões eclesiásticos. Se hoje há shopping centers e roupas de marca é porque a igreja inventou o conceito de propaganda e de consumo de massa. Foi a igreja a primeira a vender a idéia de que vestir determinada camisa e ser visto em determinada companhia demonstram eficazmente o seu valor como pessoa; foi a primeira a promover a noção simples (mas cujo tremendo poder as corporações acabaram descobrindo) de que o que você consome mostra que tipo de pessoa você é.

As pessoas que consomem igreja não têm em geral qualquer consciência de que estão se dobrando a um sistema de consumo, mas as evidências estão ali para quem quiser ver. A igreja não é um lugar a que se vai ou um grupo de pessoas que se abraça, mas uma marca que se veste, um produto que se consome continuamente. Tudo de bom que costumamos dizer sobre a igreja reflete, secretamente, essa nossa obsessão com o consumo – “o louvor foi uma benção”, “o sermão foi profundo”, “o coro cantou com perfeição”, “a palavra atingiu os corações”, “Deus falou comigo”. Em outra palavras, tudo que temos a dizer sobre a experiência da igreja são slogans. Na qualidade de consumidores, o que fazemos é retroalimentar nossa dependência, promovendo continuamente nosso produto na esperança de angariar mais consumidores e portanto mais legitimação.

O curioso, o verdadeiramente paradoxal, é que nada nesse sistema circular de consumo (ou em qualquer outro) tem qualquer relação com espiritualidade, com fé ou com a herança de Jesus. Ao contrário, sabemos ao certo que Jesus e os apóstolos bateram-se até a morte no esforço de demolir a tendência muito humana de encarcerar (isto é, satisfazer) os anseios emocionais e espirituais das pessoas em sistemas de consumo e legitimação (isto é, sistemas de controle).

O russo Leo Tolstoi acreditava que, diante da suprema singeleza do ensino de Jesus, levantar (e em seu nome!) uma máquina implacável e arbitrária como a igreja equivalia a restaurar o inferno depois que Jesus tornou o inferno obsoleto. De minha parte, vejo a igreja institucional como um refúgio construído por mãos humanas para nos proteger das terríveis liberdades e responsalidades dadas por Deus a cada mortal e que Jesus desempenhou de modo tão espetacular. Por outro lado, talvez esse refúgio seja ele mesmo o inferno.

No fim das contas você não encontrará na igreja nada que não seja inteiramente atraente e desejável, e aqui está grande parte do problema. Vá a um templo evangélico no domingo de manhã e o que vai encontrar é gente amável, respeitável, ordeira, de banho tomado, sorridente, perfumada e usando suas melhores roupas – e é preciso reconhecer que há um público para esse tipo irresistível de companhia. O bom-mocismo reinante é tamanho, na verdade, que não resta praticamente coisa alguma do escândalo inicial do evangelho. Enquanto descansamos nesse abraço comum a verdadeira igreja, onde estiver (e talvez exista apenas no futuro), estará por certo mais próxima do dono do bar, da vendedora de jogo do bicho, do travesti exausto da esquina, do divorciado com seu laptop, dos velhinhos que babam em desamparo e das crianças que alguém deixou para trás. Certamente não usará gravata e não terá orçamento anual nem endereço fixo.

Portanto nada tenho contra aquilo que a igreja diz, que é em muitos sentidos bom e justo, mas não tenho como continuar endossando aquilo que a igreja dá a entender – sua mensagem subliminar, por assim dizer, mas que fala muitas vezes mais alto do que qualquer outra voz. Com o discurso eclesiástico oficial eu poderia conviver indefinidamente (como de fato já fiz), mas seu meio é na verdade sua mensagem, e frequentar uma igreja é dar a entender:

1. Que aquela facção da igreja é de algum modo mais notável, e portanto mais legítima, do que todas as outras;
2. Que o modo genuíno de se exercer o cristianismo é estar presente nas reuniões regulares e demais atividades de determinada agremiação, ou seja, que a devoção é uma espécie de prêmio de assiduidade;
3. Que o conteúdo da crença é mais importante do que o desafio da fé;
4. Que o caminho do afastamento do mundo, segundo o exemplo de João Batista, é mais digno de imitação do que o caminho do envolvimento com o mundo, segundo a vida de Jesus;
5. Que o modo de vida baseado na busca circular pela legitimação é mais respeitável do que o das pessoas que conseguem viver sem recorrer a esses refrigérios;
6. Que o modo adequado de honrar a herança de Jesus é dançar em celebração ao redor do seu nome, ignorando em grande parte o que ele fez e diz.

Está confirmada, portanto, a ambivalência da minha posição em relação à igreja institucional. Por um lado, sinto falta dos seus confortos; por esse mesmo lado, respeito a inegável riqueza de sua herança cultural, que não gostaria de ver de modo algum apagada. Por outro lado, ressinto-me de que o nome singular de Jesus permaneça associado a um monstro burocrático no que tem de mais inofensivo e opressor no que tem de mais perverso, quando sua vida foi a de um matador de dragões dessa precisa natureza. Dito de outra forma, não tenho como condenar a permanência de alguma manifestação da igreja, mas não tenho como justificá-lo se você faz parte de uma.

Em janeiro de 1996 Walter Isaacson perguntou a Bill Gates a sua posição sobre espiritualidade e religião. Sua resposta entrará para os anais da infâmia – e não a dele. “Só em termos de alocação de recursos, a religião já não é coisa muito eficiente. Há muita coisa que eu poderia estar fazendo domingo de manhã”. Em resumo, o que dois mil anos de cristianismo institucional ensinaram ao homem mais antenado da terra é que religião é o que os cristãos fazem no domingo de manhã.

Só não ouse criticar o cara por sua visão rasa de espiritualidade. Fomos nós que demos essa impressão a ele, e só a nós cabe encontrar maneiras de provar que ele está errado.

Invente uma.

Confissões de um ex-dependente de igreja – Paulo Brabo – Bacia das Almas


O que é hipocrisia?

janeiro 21, 2011

por Caio Fábio

Hipocrisia! Esse parece ter sido o mal que mais provocou a ira de Jesus. Ele lidava bem com as incoerências humanas; fazia-se acompanhar dos que sabiam quem não eram; gostava da amizade deles; e ajudava-os com paciência a crescerem para ser quem ainda poderiam ser, caso descansassem na Graça de Deus. De fato, Jesus ensinou que o maior progresso vem do descanso, da confiança, e da paz que encontra amparo na misericórdia de Deus. Esses são os doentes que precisam de médico!

A impaciência de Jesus se projetava sobre os doentes que diziam não precisar de médico por uma única razão: eles não queriam ser curados, e viviam da fuga de oferecerem sua “doença” como padrão de saúde para os demais homens. Daí eles, quando conseguiam transformar alguém em seus discípulos, de acordo com Jesus, fazerem dessa pessoa um filho do inferno em dose dupla. O problema básico do hipócrita é que ele não quer cura, e, muito menos, admitir que é doente. Então, ele abre um hospital para os doentes que eles elegeram como seus discípulos. E, esse coitados discípulos, pelo convívio com esses médicos-de-si-mesmos, acabam adoecendo a ponto de passarem a precisar ser internados num hospício. E a culpa passa a ser deles! A hipocrisia é como infecção hospitalar que “pega” alguém que foi fazer um exame de sangue, e sai do hospital carregando Aids.

No meio cristão eu ouço pessoas sinceras que me dizem: Parei de falar Jesus por causa de minhas incoerências; eu não sou hipócrita! Eu ouço e digo a eles duas coisas. 1. Você deve falar de Jesus em razão de suas incoerências. Se você não tiver incoerências, não fale de Jesus, fale de você. 2. Você não é hipócrita por se saber incoerente. Você é hipócrita quando esconde as suas incoerências; e, então, oferece a si mesmo como referência de saúde para todos; e pior ainda: quando encontra alguém que é exatamente como você—e todos são igualmente iguais—, mas trata essa pessoa com o ódio que você sente acerca de si mesmo; ou quando trata a tal pessoa como se aquilo que estivesse acontecendo com ela fosse algo impossível de acontecer a qualquer ser humano caído. E todos caíram, e todos carecem da Graça de Deus!

O hipócrita, portanto, é descrito de modo perfeito em Mateus 23. Leia: Então falou Jesus às multidões e aos seus discípulos, dizendo: Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Mestre. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais aos homens o reino dos céus; pois nem vós entrais, nem aos que entrariam permitis entrar. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque devorais as casas das viúvas e sob pretexto fazeis longas orações; por isso recebereis maior condenação. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho do inferno do que vós. Ai de vós, guias cegos! que dizeis: Quem jurar pelo ouro do santuário, esse fica obrigado ao que jurou. Insensatos e cegos! Pois qual é o maior; o ouro, ou o santuário que santifica o ouro? E: Quem jurar pelo altar, isso nada é; mas quem jurar pela oferta que está sobre o altar, esse fica obrigado ao que jurou. Cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar que santifica a oferta? Portanto, quem jurar pelo altar jura por ele e por tudo quanto sobre ele está; e quem jurar pelo santuário jura por ele e por aquele que nele habita; e quem jurar pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que nele está assentado. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei; a saber: a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas. Guias cegos! que coais um mosquito, e engolis um camelo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de rapina e de intemperança. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices no derramar o sangue dos profetas. Assim, vós testemunhais contra vós mesmos que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?

Veja que todas as ênfases de Jesus resumem-se a apenas algumas coisas:

1. Tentar parecer ser o que se não é.

2. Impor a aparência exterior como paradigma para os demais.

3. Viver da arrogância de clonar o ser do outro conforme a nossa própria e falsa aparência.

4. Privilegiar as performances visíveis aos olhos, detendo a verdade que existe no ser.

5. Usar o poder da religião, ou da moral, ou da ética, ou das etiquetas, como instrumento de poder e opressão sobre os que procuram ajuda.

6. Oferecer-se como representante de Deus entre os homens.

7. Criar um sistema de aferimento espiritual baseado na reverência concedida a si mesmo.

8. Afirmar-se com guia do próximo, sendo que o coração sabe que para dentro não se enxerga nada além de podridão.

9. Manipular o saber religioso e fazer dele uma adaptação que justifique as conveniências da própria doença; enquanto se masturba ante a submissão do próximo diante dele.

10. Transformar a própria arrogância em missão; daí o percorrerem os mares a fim de piorar os seres humanos, ensinando-os a praticarem as obras que um pagão não realiza: pregar a verdade de Deus como opressão e controle.

Todo hipócrita é inseguro. O que habita a hipocrisia é a insegurança que se transformou em maldade. O ser inseguro pode se transformar num ser mal, se a sua insegurança se deixar possuir pela ânsia de poder sobre o próximo. Todo hipócrita é invejoso. Todo hipócrita é cínico. Todo hipócrita não se enxerga. Todo hipócrita não tem outro mundo se não o exterior. Assim, dei uma entradinha rápida aqui e escrevi isso meio no tranco. Fiz isto apenas porque acabei de conversar com uma pessoa gente boa de Deus, mas que vive hoje a angústia de confundir sua dor de auto-descoberta, de incoerências, e de doenças pessoais, com hipocrisia. Hipócritas não procuram aconselhamento. Hipócritas não confessam pecados.

Hipócritas só chamam de pecado aquilo que pode ser verificável pelos olhos da carne. Daí o hipócrita sofrer seu próprio erro como castigo. Ele é um inseguro que ao invés de confessar sua insegurança, e suas próprias incoerências, transforma-as em instrumento de dominação sobre o próximo. Então, vira diabo. O hipócrita é o cara que quer todo mundo tão raso, tão exteriorizado, e tão doentemente sadio quanto miseravelmente doente ele é. O hipócrita não é quem peca e se sabe pecador. O hipócrita é aquele que acaba se convencendo acerca da mentira de que ele próprio não peca. O Hipócrita se sente ofendido pela Graça de Deus. Não sei porque escrevi isto aqui, e agora. Mas Deus sabe. E para os pastores que começaram a se enxergar, fica aqui uma palavra de irmão: Ao invés de se calar ante suas própria incoerências, afirme o amor de Deus baseado nelas próprias. E não ponha sobre os homens os pesos que você mesmo sabe que ninguém consegue carregar. Anuncie a Palavra para você mesmo, e, como decorrência, para quem quiser ouvir. Mas deixe uma coisa bem clara: a Palavra é, sobretudo, para você; por isto é que você a prega. Quanto ao mais, Jesus no ensinou o caminho da cura para hipocrisia. Leia: Vós, porém, não queirais ser chamados de Mestre; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem queirais ser chamados guias; porque um só é o vosso Guia, que é o Cristo. Mas o maior dentre vós há de ser vosso servo. Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado. Esta é a Palavra que cura a hipocrisia. Nela está a nossa libertação. Um beijo para todos.

Nele, que não tem máscaras, Caio

Hipocrisia, o que é? Caio Fábio