A sedução da ortodoxia

janeiro 29, 2011

por Paulo Brabo

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado como crença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.

A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.

A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão da gnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

A sedução da ortodoxia – Paulo Brabo – A bacia das almas


Eu me recuso…

janeiro 27, 2011

“Em nome de Cristo, eu me recuso a ser anti-gay. Me recuso a ser anti-feminista. Me recuso a ser contra o controle artificial de natalidade. Me recuso a ser contra a democracia. Me recuso a ser contra o humanismo secular. Me recuso a ser anti-ciência. Me recuso a ser contra a vida. Em nome de Cristo, eu deixo o Cristianismo para ser apenas cristã. Amém.”

Anne Rice


The Right to Heresy: Castellio against Calvin – Stefan Zweig

janeiro 26, 2011

Trechos da Introdução

“Uma mosca atacando um elefante.” Esta é a interpolação, do manuscrito do próprio Sebastian Castellio, de sua polêmica contra Calvino. A princípio, essa expressão nos repele um pouco, e estamos inclinados a considerar que é uma das expressões hiperbólicas às quais os humanistas são propensos. Mas as palavras de Castellio  não eram nem hiperbólicas nem irônicas. Pelo contrário, este lutador valente apenas pretendeu expressar claramente ao seu amigo Amerbach a sua própria profunda e angustiante convicção de que estava enfrentando um antagonista colossal, quando publicamente acusou Calvino de ter se deixado instigar pelo dogmatismo fanático levando um homem à morte e assim, colocou abaixo a liberdade de consciência que caracterizou a Reforma.

Quando Castellio entrou nesse torneio perigoso, usando sua pena como um cavaleiro usaria uma lança, estava ciente de que um ataque puramente espiritual contra uma ditadura montada sobre armas materiais não seria efetiva, e que estava, então, lutando por uma causa perdida. Como poderia um homem desarmado e sozinho, esperar vencer Calvino, que tinha em sua retaguarda milhares e dezenas de milhares, e estava equipado com todos os poderes do Estado? Um mestre na arte da organização, Calvino foi capaz de transformar uma cidade inteira, um Estado inteiro, cujos burgueses tinham sido até então homens livres, em uma máquina rígida e obediente; foi capaz de extirpar a independência, e impor um embargo sobre a a liberdade de pensamento em favor da sua própria e exclusiva doutrina. Os poderes do Estado estavam sob seu controle supremo; as várias autoridades eram como cera em suas mãos, o Conselho da Cidade e o Consistório, universidade e  tribunal, finanças e moralidade, pregadores e escolas, diligências e prisões, as palavras escritas e faladas e até as palavras sussurradas secretamente. Sua doutrina se tornou lei, e qualquer um que se atrevesse a questionar era logo ensinado – por argumentos que encerravam a discussão, pelos argumentos da tirania espiritual, pela prisão, exílio ou morrer queimado na estaca – que em Genebra apenas uma verdade era válida, a verdade de que Calvino era o profeta.[…]

[…]Quem era seu adversário, Sebastian Castellio, o idealista solitário que, em nome da liberdade de pensamento, renunciou à fidelidade à Calvino assim como a qualquer outra tirania espiritual? Avaliando-se o material disponível a respeito desses dois homens, não é exagero comparar um deles a uma mosca e o outro, a um elefante. Castellio não era nada, não era ninguém, quando se tratava da sua influência pública; era ainda, um estudioso financeiramente pobre, que trabalhava duro para sustentar esposa e filhos com traduções e ensino particular; um refugiado numa terra estrangeira, onde não tinha estado civil nem residência, duplamente um emigrado; e, como sempre acontece em dias onde o mundo se fez louco por causa do fanatismo, o humanista era impotente e isolado em meio a zelotes rivais.[…]

[…]Castellio, entretanto, ganhou seu lugar de fama imperecível por ser um humanista que apareceu e cumpriu seu destino. Heroicamente, abraçou a causa dos seus companheiros perseguidos, e assim jogou fora sua vida. Sem se tornar fanático, embora todo o tempo perseguido por fanáticos, imperturbável como Tolstoy, levantando como uma bandeira a sua convicção de que nenhum homem deveria ser subjugado à força a ter esta ou aquela opinião sobre a natureza do universo, ele declarou que nenhum poder terreno tinha direito de exercer autoridade sobre a consciência dos homens. E porque proferiu essas opiniões, não em nome de um partido mas como expressão espontânea do espírito imperecível de humanidade, seus pensamentos, como muitas de suas palavras, não podem ser esquecidas. Pensamentos universalmente humanos e atemporais, quando fixados por um artista, guardam para sempre a forma do seu primeiro molde, e uma confissão que tende a promover a unidade mundial superará a desunião, e as expressões agressivas e doutrinárias.  A coragem singular desse personagem esquecido deveria servir de exemplo para as próximas gerações, sobretudo na esfera moral. Quando, a despeito dos teólogos, Castellio descreveu Servetus, vítima de Calvino, como um inocente que foi assassinado; quando, em resposta aos sofismas de Calvino, ele fez trovejar seu enunciado imperecível, “queimar um homem vivo não defende nenhuma doutrina, apenas mata um homem”; quando seu Manifesto em nome da Tolerância (muito antes de Locke, Hume e Voltaire, e de forma mais esplêndida que eles), proclamou de uma vez por todas o direito à liberdade de pensamento – ele sabia que estava dando sua vida pelas suas convicções. Não suponha o leitor que o protesto de Castellio contra o assassinato judicial de Miguel Servetus está no mesmo nível dos muito mais celebrados protestos de Voltaire no caso de Jean Calas ou o de Zola no caso Dreyfus.  Estas comparações diminuem a grandeza moral do que Castellio fez. Voltaire, quando tomou as dores de Calas, estava vivendo em uma época humanista, e como escritor famoso, contava com a proteção de reis e príncipes. De forma similar, Zola tinha em sua retaguarda um exército invisível, a admiração da Europa e do mundo. Voltaire e Zola estavam sem dúvidas arriscando a reputação e o conforto, mas nenhum deles colocou em risco sua vida. E foi isso que Castellio fez,  sabendo que na sua luta pela humanidade, iria concentrar sobre a sua cabeça todas as atrocidades do século cruel no qual viveu.

Sebastian Castellio pagou o preço todo pelo seu heroísmo, um preço que esvaziou suas energias.  Este advogado da não violência, que escolheu não usar arma alguma além das espirituais, foi estrangulado pela força bruta. De novo e de novo como podemos ver aqui, há pouca esperança de sucesso para alguém que não tem sob seu comando nenhum outro poder além da retidão moral, e que, estando sozinho, entrava uma batalha contra uma organização compacta. Assim como quando uma doutrina toma o controle do aparato do Estado e dos instrumentos de pressão com os quais o Estado pode contar, sem hesitação vai instaurar um reino de terror. As palavras de alguém que desafia a sua onipotência são sufocadas, e usualmente o pescoço do palestrante ou escritor dissidente acaba torcido também. Calvino nunca pretendeu responder seriamente a Castellio, preferindo reduzir seu crítico ao silêncio. Os escritos de Castellio foram censurados, colocados sob proibição, e destruídos onde eram encontrados. Pelo exercício da influência política, as adjacências foram induzidas a negar sua liberdade de expressão dentro de suas fronteiras. Então, assim que seu poder de protesto ou crítica estava destruído, quando sequer podia reportar as medidas que estavam sendo tomadas contra ele, os “satélites” de Calvino o atacaram de forma caluniosa. Não havia uma luta entre dois adversários equipados com as mesmas armas, mas a chacina cruel de um homem desarmado por uma horda de bárbaros. Calvin dominava os meios impressos, os púlpitos, as cátedras e os sínodos. Os passos de Castellio foram perseguidos; bisbilhoteiros prestavam atenção em tudo que dizia; suas cartas eram interceptadas. Poderíamos nos espantar por uma organização com tantas mãos pudesse facilmente levar a melhor sobre um humanista sozinho; que nada além da morte prematura de Castellio o salvaria do exílio ou de ser queimado na estaca? O dogmático triunfante e seus sucessores não hesitaram em se vingar sobre o cadáver do adversário.  Suspeitas e invectivas, disseminadas depois da sua morte, destruíram-no como a cal, e cinzas foram espalhadas sobre o seu nome. A memória desse solitário que havia não só resistido à ditadura de Calvino, mas investido contra os princípios básicos da ditadura sobre as coisas espirituais, foi, como os fanáticos esperavam, apagada da mente dos homens para sempre.[…]

[…] A História não tem tempo de ser justa. É seu trabalho, como cronista imparcial, gravar os sucessos, mas ela raramente avalia seu valor moral. Mantém os olhos fixados nos vitoriosos, e deixa os vencidos nas sombras. Sem cuidado algum, esses “soldados desconhecidos” são jogados na vala comum do esquecimento. Nulla crux, nulla corona- nem cruz, nem grinalda – para recordar seus sacrifícios inúteis. Na verdade, porém, nenhum esforço feito pelos puros de coração deve ser considerado fútil ou estigmatizado como estéreis; nem qualquer dispêndio de energia moral se dissipa no espaço vazio sem deixar repercussões. Apesar de derrotados, os que viveram antes do seu tempo encontraram significado em um ideal atemporal; uma ideia que é trazida à vida no mundo real, apenas pelo esforço daqueles que a conceberam, onde ninguém pode testemunhar a concepção, e estavam prontos para avançar ao longo da estrada que levava à morte sombria. Consideradas espiritualmente, as palavras “vitória” e “derrota” adquirem novos significados. Por isso nunca devemos deixar de lembrar um mundo que só tem olhos para monumentos e conquistadores, que os verdadeiros heróis da raça humana não são aqueles que constroem seus reinos transitórios em cima de uma hecatombe de cadáveres, mas aqueles que, não tendo poder para resistir, sucumbem à força superior – como Castellio foi sufocado por Calvino, em sua batalha pela liberdade de espírito e pelo estabelecimento do reino final da humanidade na Terra.

The right to heresy: Castellio against Calvin – Stefan Zweig

“Buscar e dizer a verdade, tal como se pensa, não pode nunca ser um delito. A ninguém se deve obrigar a crer. A consciência é livre.”

Ao refletir acerca do que seria definitivamente um herege, não posso senão concluir que chamamos de hereges aqueles que não concordam com a nossa opinião.”

“Oh, Cristo, Criador e Rei do mundo! Vês essas coisas? Terias tu te convertido em outro diferente do que eras? Quando vieste à Terra, não havia ninguém mais agradável, ninguém mais bondoso do que Tu, ninguém que houvesse suportado as ofensas da forma mais indulgente. Insultado, cuspido, zombado, coroado com espinhos, crucificado entre ladrões, em meio ao mais profundo desespero, rogaste por aqueles que Te infligiram todos aqueles agravos e injúrias. É verdade que mudaste? Eu Te rogo, pelo nome sagrado do Teu Pai: ordenaste Tu realmente que aqueles que não seguem todos os Teus preceitos e mandamentos tal como postula em Teus ensinamentos, fossem afogados, torturados com tenazes até as entranhas, tendo sal polvilhado em suas feridas, mutilados com espadas, queimados e torturados até a morte, tão lentamente quanto for possível, e com todo tipo de suplícios? Oh Cristo, realmente aprovas estas coisas? São realmente Teus servos estes que agem como carniceiros, que desta forma desossam e esquartejam as pessoas? E quando usam o Teu nome como testemunha, estás Tu realmente envolvido nessas matanças atrozes, como se tivesses fome de carne humana? Se Tu, Cristo, ordenaste realmente estas coisas, o que Te diferenciaria de Satã? Oh, terrível irreverência, crer que Tu poderia fazer essas coisas, as mesmas que Satã faz. Oh, audácia infame dos homens: atribuir a Cristo o que só pode ser vontade e invenção do demônio.”

Sebastian Castellio

“Não é cristão usar armas contra aqueles que foram expulsos da igreja, e negar a eles os direitos comuns a toda a humanidade.” frase de Calvino, quando o perseguido era ele, e a igreja que o perseguia, a católica romana, e não a dele. Uma pena que ele tenha esquecido tão rápido as próprias palavras, não é? Conseguiu piorar o mundo  um pouco mais, porque esqueceu o que ele mesmo tinha dito antes.

O tipo de coisa que acontece quando cristãos esquecem, ou nem sabem de que Espírito são.


Eu tive um sonho…

janeiro 26, 2011

Era uma festa. A festa do “cristianismo”.

Ao entrar no salão onde acontecia a festa, já deu logo para perceber que as pessoas presentes não eram todas conhecidas umas das outras, muito menos amigas umas das outras. Havia várias panelinhas. Dava para notar que havia diversos graus de separação entre as pessoas na festa. Classes sociais, diferenças doutrinárias, teológicas, e supostos níveis de “santidade”, e autoridade, separavam as pessoas ali dentro. Algumas panelinhas estavam até mesmo rivalizando com outras, esquecendo de que estavam numa festa, onde deviam apenas celebrar. Dava para ouvir pessoas discutindo e falando alto, algumas chegavam até a trocar socos e tapas, enquanto outras davam gargalhadas, lá no fundão do salão.

Havia a panelinha daqueles que gostavam de parecer piedosos diante dos outros enquanto por dentro estão cheios de podridão, e eles estavam junto dos que gostavam de ser incensados como ídolos. Estavam, claro, no lugar mais privilegiado do salão, de onde podiam ser vistos e admirados por todos. Os ídolos davam autógrafos e tiravam fotos junto com fãs que passavam pela mesa, enquanto os piedosos oravam em voz alta e batiam no peito, para que todos os ouvissem.

Numa outra mesa, estavam aqueles que propunham empunhar espadas para defender Deus. O “exército” pronto a lutar na “guerra santa gospel” e pronto a matar e morrer em nome de Deus ou da “igreja” ou da “doutrina” ou da “teologia”. Nem me aproximei deles, porque as caras feias deles inibiam qualquer um de se aproximar.

Havia também a mesa onde estavam assentados os doutores da Lei, escribas e teólogos profissionais. Discutindo se Adão tinha umbigo, qual seria o sexo dos anjos, e se era lícito curar no sábado. Estavam tão mais interessados em debater em vez de celebrar, que a comida esfriava no prato e o vinho ficava quente nas taças.

Mais adiante, estava a mesa dos vendedores de milagres, prosperidade e unções. Era cômico ver todos juntos naquela mesa, um tentando impressionar o outro. Alguns deles lembravam os antigos alquimistas, de tantas bravatas a respeito de prosperidade. A diferença é que não atribuíam a própria riqueza e saúde a qualquer pó transmutador de metais em ouro, ou à descoberta da pedra filosofal, e sim, à última campanha de prosperidade que fizeram na “igreja”. O engraçado, é que apesar de serem vendedores de prosperidade para os outros, nunca tinham dinheiro suficiente pra eles mesmos, e estavam sempre pedindo mais contribuições.

Na panelinha sacerdotal estavam papas, bispos, apóstolos (os modernos), e disputavam pra ver qual deles estava acima na hierarquia ,ou qual deles tinha mais poder político. Tinha gente de mitra na cabeça e anel no dedo, e tinha um até que dizia ser patriarca. Autoridades da” igreja”, e ninguém podia se aproximar deles, afinal, havia um cordão de seguranças os protegendo. Só dava para falar com eles se apresentasse credenciais.

No meio daquela confusão de pessoas, mesas e panelinhas, encontrei uma mesa que, tão logo alguém se aventurava a chegar até o fundão da sala, atraído pela alegria que dela irradiava, aparecia mais lugar, para que o recém-chegado se assentasse, se quisesse. Da mesma forma o vinho e a comida se multiplicavam, para que todos que chegassem, tivessem sua porção.

Ali estava Jesus. Estava, como era seu hábito, comendo sem lavar as mãos e saboreando cada prato sem medo de ser chamado de comilão ou beberrão, para horror de fariseus, sacerdotes, escribas e levitas, todos ao mesmo tempo. Na mesa onde Jesus estava, estavam também cobradores de impostos, samaritanos, leprosos, pescadores, centuriões, cegos que agora enxergavam, surdos que ouviam, mudos que falavam, prostitutas, uma mulher adúltera que havia escapado do apedrejamento, e até um sentenciado à morte. Todos alegres, porque estavam perdidos e foram encontrados. Estavam doentes e foram curados. Eram excluídos e foram convidados. Naquela mesa não havia debates, nem ninguém se gabava de seus feitos, das suas muitas letras, ou da sua prosperidade. Eles não tinham nada do que se gabar, nem nada para oferecer. E sim, haviam sido alvos da graça de Deus. E sabiam disso. E por isso, comemoravam intensamente, totalmente alegres, sem nenhuma vontade de vencer debates, bancar os donos da verdade religiosa, se considerar intérpretes e oráculos de Deus, ou fazer guerra em nome de Deus. Queriam só aproveitar a festa que Jesus havia preparado para eles, e receber a todos que se assentassem, com a mesma alegria, com o mesmo abraço com o qual eles mesmos foram recebidos por Jesus. Sem fazer perguntas a respeito de linhas teológicas, doutrinas, prosperidade, classe social, ou “qual é  a sua igreja” ou “quem é seu pastor” para, a partir da resposta, fazer juízos de valor, e hierarquizar a pessoa acima ou abaixo de si mesmos. Quem foi alvo da compaixão de Deus, não sabe fazer outra coisa além de acolher os outros que Deus, o Bom Samaritano, vai juntando pelo caminho. Só pode deixar de ter essa atitude acolhedora, se se tornar “bom” o suficiente para se esquecer da compaixão que ele mesmo recebeu. Ou porque nunca teve essa atitude, sempre se achou “bom” o suficiente e melhor do que os outros (acontece muito com crentes de berço – que não passaram pela experiência de, apesar de se acharem ou serem vistos pela religião totalmente indignos e incompetentes, descobrir que havia lugar na mesa de Deus pra eles – ninguém pode dar a outros o que não recebeu para si mesmo antes).

Jesus só se sentava à mesa com os ditos “religiosos” e “líderes religiosos” da sua época, os “donos” da religião, para provocá-los, desentocá-los, desconstruir suas certezas e verdades, desmascarar sua hipocrisia e suas mentiras, tirá-los de suas posições de suposta superioridade. Isso enquanto não passavam de sepulcros caiados, víboras e guias cegos. No resto do tempo, Jesus preferia estar com aqueles que os tais religiosos e líderes, excluíam da sua própria mesa, e não só isso, se achavam no direito de impedir que tais pessoas tivessem acesso a Deus, ou regular esse acesso. Ele queria salvar os que estão perdidos e incluir os que estão excluídos.


A fé é o futuro. A religião é o passado

janeiro 24, 2011

por H. Richard Niebuhr, citado por Nelson Costa Jr

[…]É necessário distinguir religião, canga e instrumento de dominação, de Evangelho – mensagem de libertação dos cativos; distinguir entre fé, resposta positiva ao ato de  libertação, e cultura – meio através do qual ela se deve expressar. É necessário superar definitivamente conceitos absurdos como o de uma ‘fé religiosa’, pois fé e religião são inconciliáveis. Uma só pode subsistir com o sufocamento da outra. A fé é a semente fértil. A religião é a semente esterilizada que pode servir para comer ou para o comércio. A fé é o futuro. A religião é o apego ao passado, à segurança, ao status quo, muitas vezes feita em nome do futuro, e quase sempre feita em benefício dos comerciantes. A fé é o desapego dos que aguardam a madrugada e não perdem tempo olhando para trás. A fé é a loucura, a audácia. A religião é a prudência, o instinto de conservação. A grande traição da Igreja como instituição consiste  em que, ao invés de constituir-se portadora e testemunha  do Evangelho, ela se apresentou como “defensora” do Evangelho. Isto na prática se refletiu num esforço de  domesticar o Evangelho, a serviço de determinada cultura e dos seus interesses arraigados. Como resultado, ao invés de seguir o caminho da fé, a Igreja se colocou na defesa dos privilégios que lhe garantiam a segurança, na santificação do status quo, e a religião resultante dessa traição tornou-se a principal sustentação da ideologia das classes dominantes, da luta pela santificação dos objetos.[…]

Leia o restante do texto aqui: A fé é o futuro. A religião é o passado – Nelson Costa Jr