No mundo dos argumentos…

novembro 26, 2011

Dia desses apareceu um sujeito por aqui, daqueles que ainda está naquela fase pueril, de uso dos verbos “refutar” e “argumentar”, e que pensa que pode provar algo a respeito de Deus, com esse tipo de coisa. Sabe aqueles caras chegados numa masturbação no campo da lógica, mas que se esquece que “argumento” e “prova” são coisas diferentes? Encher páginas e páginas de embromação a respeito de Deus, eu também consigo. Quem conhece minha capacidade de escrever “teses” e ser prolixa, sabe disso. Só que na medida em que se vai avançando no relacionamento com Ele, você simplesmente vai percebendo que essas coisas não passam disso, embromação, um tipo de masturbação intelectual.

Disse ao nosso amigo que vive no mundo dos argumentos, que fosse tentar convencer um ateu convicto, pra ver se conseguia. E que se todos aqueles argumentos, que ele julga tão importantes e definitivos, não convencem os ateus, qual  a finalidade deles? Suportar a falta de fé de quem os despeja em cima dos outros? É uma das únicas possibilidades que consigo imaginar.

Fiquei com dó dele. Pela perda de tempo, em vir aqui brandir seus “argumentos” disso e daquilo, seu blábláblá, sem nem sequer ter prestado atenção ao fato de que estava falando com uma mulher, e não com um homem. Se referia a mim como “cara” e com substantivos masculinos. Ele não estava conversando comigo, estava despejando “argumentos”, como quem tem um acesso de vômito. Tem como levar a sério uma criatura dessas? Uma criatura que idolatra William Lane Craig, e que pensa que o sr Craig é um gênio? Um gênio da enrolação, só se for esse tipo de genialidade a dele. Não é o tipo de genialidade que gera admiração em mim, lamento.

Em outros tempos, na época em que eu também achava que “refutar” era importante, esse coitado teria sido simplesmente esmagado. Sem dó. Mas acontece que ao longo dessa caminhada contínua com Deus, esse tal verbo “refutar”, e o mundo paralelo dos “argumentos”, ficaram para segundo plano. Não perco tempo discutindo com fanáticos, tão cegos a ponto de sequer prestar atenção no nome da pessoa com a qual estão falando. Despejar sandices é mais importante pra eles. Tentam, talvez, vencer as pessoas pelo cansaço de ler/ouvir tanta verborragia inútil. Mas veio ao lugar errado, porque se tem uma coisa que eu não tenho mais (se é que tive algum dia), é paciência pra conversa fiada, embromation de crente que se julga inteligente. Talvez se sinta intelectualmente inferior, por não poder provar absolutamente nada do que afirma.

Na real, ele parecia desesperado, como se fazer com que eu concordasse com ele, tivesse alguma importância. “Estou aqui para te refutar”.

Que medo! Perdi o sono depois dessa… :P

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A verdade…

novembro 24, 2011

“Verdade, em assuntos de religião, simplesmente é a opinião que sobreviveu.”

Oscar Wilde


Minha religião não permite…

novembro 21, 2011

[…]Uma das muitas coisas singulares a respeito de Jesus de Nazaré é que ele evitou por completo tanto as armadilhas teologantes dos letrados e eruditos quanto a religiosidade rasa, de proibição e recompensa, das massas.

Jesus não ignorava, naturalmente, que as duas abordagens tem muita coisa em comum. Em grande parte, a lista de proibições adotada pelos crentes é composta ou esboçada pelos religiosos letrados que residem acima deles na pirâmide socioeconômica. “Se não são os sofisticados o bastante para entender as minúcias da teologia em que se fundamentam,” raciocinam os líderes religiosos com relação ao seu rebanho, “que pelo menos não caiam naquelas transgressões mais severas. Façamos uma lista”.

Postando-se muito acima dessas mesquinharias, Jesus recusava-se, por um lado, a gastar um instante que fosse do seu tempo expondo ou discutindo teologia. Era contando histórias que ele desfiava indicações sobre a natureza e os desafios do Reino. Era no calor sem sofisticação de estradas, de refeições, de curas e de abraços – no calor da vida real – que ele mostrava como o Reino se deveria viver.

Por outro lado, ele recusava-se de modo consistente a fornecer ao seu público o conforto almejado das listas de proibições. Jesus não só negava-se a falar da vida abundante em termos de obediência a interdições, como repelia com exuberância as tentativas que as pessoas por vezes faziam de, às custas dele, reduzir a ética a uma resposta “sim ou não” para um problema complexo.

Naquela época não tinha qualquer penetração cultural a noção que todos conhecemos hoje, de que as motivações mais mesquinhas para se agir de determinada forma são o medo da punição e o desejo da recompensa. Jesus, no entanto, agia e ensinava como se fosse coisa muito evidente que uma ética de conduta regida por proibições é limitada e infantilizante. Muito mais ambicioso, o rabi de Nazaré sonhava com um mundo de autonomia individual e de decisões responsáveis: “por que vocês não decidem por si mesmos o que é certo?” (Lucas 12:57).

Ao mesmo tempo, Jesus desafiava constantemente a noção – pelo menos tão enraizada nos seus dias quanto nos nossos – de que simplesmente abster-se de descumprir os mandamentos era coisa capaz de garantir alguma recompensa ou de habilitar o adorador a exigi-la de Deus. Não contente em negar o conforto das listas de regras e proibições, o Filho do Homem insistia que na perspectiva divina nenhuma obediência tem recompensa ou a merece.

Na verdade, Jesus sugeriu mais de uma vez que a sensação de superioridade moral que acompanha uma vida de obediência estrita aos mandamentos é, em si mesma, a única recompensa que um religioso/carola deve esperar receber pela sua conduta.[…]

Trechos de O acalentado conforto da proibição – Paulo Brabo – A bacia das almas


Vida e jogo

novembro 20, 2011

Na época em que computadores não eram uma coisa tão comum assim, e a instalação do Windows vinha em disquetes (deve ter muito adolescente por aí que nem sabe o que é um disquete), um dos primeiros jogos de computador mais elaborados que chegou aqui em casa, foi o bem conhecido Doom II. Lembro que era divertido usar a serra elétrica como arma, e jogar, com as caixas de som no último volume. Fazer monstros, zumbis e demônios explodirem e coisas do tipo. Era legal também, jogar usando uma “senha” que fazia com que o herói do jogo (você), jamais morresse, nem se ferisse com coisa alguma. Lembro do código que garantia a “imortalidade” no jogo, até hoje.

Mas por mais legal que esse joguinho fosse, todos por aqui acabaram se cansando dele.  Vieram outros, como o Hexen e o Hexen II, que eram no mesmo estilo. Tenho até hoje o CD do Hexen II, guardado em algum lugar por aqui.

E não, não vou falar aquela idiotice de que jogos violentos como esses, deixam as pessoas violentas, e outras bobagens do tipo.

A reflexão aqui, é sobre como muitas vezes as pessoas levam a vida como se fosse um joguinho. Mas infelizmente, ela não é. No jogo, como por exemplo no Doom II, que eu já falei, você pode morrer, e geralmente tem outras vidas pra tentar de novo. No jogo, quando você cansa da brincadeira, pode simplesmente sair e desligar o computador, e continuar outra hora. Você mata e morre sem sentir o que uma pessoa real, na mesma situação, sentiria, porque ainda não inventaram um jogo tão realista assim. Só que confundir a vida com um jogo, pode ser perigoso. Na vida, se você morre, já era. As mortes são reais, não são de brincadeira. Não existe “código” que faça você ser imortal, e nunca passar pela morte. Você não pode deixar a vida de lado, e voltar quando estiver descansado. Não existe pausa. Não existem também “códigos” com os quais você tome posse das chaves que abrem todas as portas, e de todos os mapas, que indiquem cada obstáculo no seu caminho, e você possa se preparar para cada um deles, e sair de todos, ileso.

A vida é um pouquinho beeem mais complicada. Você que decide se vai fazer disso, um mero jogo. E nesse jogo, ao contrário dos joguinhos de computador, pessoas se ferem de verdade. Você inclusive. Fica a dica.


A dura vida dos ateus num Brasil cada vez mais evangélico

novembro 15, 2011

trechos do texto de Eliane Brum, na revista Época

[…]Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico – Eliane Brum – Revista Época