Minha religião não permite…

novembro 21, 2011

[…]Uma das muitas coisas singulares a respeito de Jesus de Nazaré é que ele evitou por completo tanto as armadilhas teologantes dos letrados e eruditos quanto a religiosidade rasa, de proibição e recompensa, das massas.

Jesus não ignorava, naturalmente, que as duas abordagens tem muita coisa em comum. Em grande parte, a lista de proibições adotada pelos crentes é composta ou esboçada pelos religiosos letrados que residem acima deles na pirâmide socioeconômica. “Se não são os sofisticados o bastante para entender as minúcias da teologia em que se fundamentam,” raciocinam os líderes religiosos com relação ao seu rebanho, “que pelo menos não caiam naquelas transgressões mais severas. Façamos uma lista”.

Postando-se muito acima dessas mesquinharias, Jesus recusava-se, por um lado, a gastar um instante que fosse do seu tempo expondo ou discutindo teologia. Era contando histórias que ele desfiava indicações sobre a natureza e os desafios do Reino. Era no calor sem sofisticação de estradas, de refeições, de curas e de abraços – no calor da vida real – que ele mostrava como o Reino se deveria viver.

Por outro lado, ele recusava-se de modo consistente a fornecer ao seu público o conforto almejado das listas de proibições. Jesus não só negava-se a falar da vida abundante em termos de obediência a interdições, como repelia com exuberância as tentativas que as pessoas por vezes faziam de, às custas dele, reduzir a ética a uma resposta “sim ou não” para um problema complexo.

Naquela época não tinha qualquer penetração cultural a noção que todos conhecemos hoje, de que as motivações mais mesquinhas para se agir de determinada forma são o medo da punição e o desejo da recompensa. Jesus, no entanto, agia e ensinava como se fosse coisa muito evidente que uma ética de conduta regida por proibições é limitada e infantilizante. Muito mais ambicioso, o rabi de Nazaré sonhava com um mundo de autonomia individual e de decisões responsáveis: “por que vocês não decidem por si mesmos o que é certo?” (Lucas 12:57).

Ao mesmo tempo, Jesus desafiava constantemente a noção – pelo menos tão enraizada nos seus dias quanto nos nossos – de que simplesmente abster-se de descumprir os mandamentos era coisa capaz de garantir alguma recompensa ou de habilitar o adorador a exigi-la de Deus. Não contente em negar o conforto das listas de regras e proibições, o Filho do Homem insistia que na perspectiva divina nenhuma obediência tem recompensa ou a merece.

Na verdade, Jesus sugeriu mais de uma vez que a sensação de superioridade moral que acompanha uma vida de obediência estrita aos mandamentos é, em si mesma, a única recompensa que um religioso/carola deve esperar receber pela sua conduta.[…]

Trechos de O acalentado conforto da proibição – Paulo Brabo – A bacia das almas

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Deus, unplugged

outubro 21, 2011

por Peter Rollins, traduzido por Paulo Brabo

Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um “Deus ex machina”.

A expressão, que significa “deus proveniente de uma máquina”, refere-se originalmente a uma técnica usada na Grécia antiga, pela qual uma pessoa era descida ao palco através de um mecanismo, a fim de representar a entrada em cena de um ser sobrenatural. O processo, no entanto, ganhou uma má reputação quando muitos dramaturgos de segunda categoria começaram a usar esse artifício de modo indolente e arbitrário. Quando queriam matar um personagem, criar um novo desafio para o protagonista ou resolver um conflito do enredo, essas caras simplesmente arriavam um deus história adentro. Desse modo, o ser sobrenatural não era parte orgânica da história, mas uma presença intrusiva empregada unicamente para fazer o enredo avançar ou resolver alguma questão.

A expressão deus ex machina passou a significar a introdução de um elemento que não faz parte da lógica interna do desdobramento de uma história, mas que é na verdade um artifício deselegante despejado na narrativa só para desempenhar um papel específico.

Para Bonhoeffer, a igreja encara Deus como um deus ex machina. Deus é só uma ideia toscamente despejada no nosso mundo a fim de cumprir uma tarefa. Ele é inserido no mundo em nossos próprios termos a fim de resolver um problema, em vez de expressar uma realidade vivida. O resultado disso é um Deus que simplesmente justifica nossas crenças e nos ajuda a dormir tranquilos. Deus é trazido em cena apenas quando enfrentamos um problema que não se presta a ser resolvido por outros meios. Na visão de Bonhoeffer, esse Deus desempenha o mesmo papel medíocre dos seres sobrenaturais nas peças gregas de terceira categoria.

O resultado é uma fé que só existe nas margens da nossa vida, uma fé que só tem algo a oferecer quando nos sentimos deprimidos, assustados ou diante da morte. Mas e aquela pessoa que gosta de viver e abraça a vida? O Deus que é uma muleta psicológica não parece ter-lhe algo a oferecer. A única opção que resta ao apologista que é confrontado com alguém que de fato aprecia a vida é tentar demonstrar que essa pessoa se recusa a enfrentar a realidade e está na verdade clamando por Deus pela via de sua negação. Se não conseguir convencer essa pessoa feliz de que ela é na realidade infeliz, fica sem outra opção não rejeitá-la como alguém aferrado à rebelião, ao engano e à desobediência.

Embora Bonhoeffer acreditasse que o Deus da religião já havia chegado ao fim de sua carreira no nosso mundo, a realidade parece discordar. Algumas das maiores organizações do mundo são religiosas, e parece não haver um fim para a fila de gente disposta e encher os pratos de coleta daqueles que afirmam ter a solução. Há todo um exército de indivíduos que apoia entusiasticamente os seus ministérios, compra os seus livros e senta-se nos seus bancos. Levar as pessoas a crer em alguma forma de deus ex machina é fácil como levar crianças a acreditar em Papai Noel.

Em contraste, convidar gente a abrir-se para experimentar a dúvida e o desconhecido é muito mais complicado: o Deus da religião nos provê com tamanha estabilidade que a experiência de perdê-lo envolve nada menos do que a aterrorizante experiência de ser abandonado. Tal jornada escuridão adentro pode ser tão pouco natural e tão assustadora que evitamos a todo custo esse caminho estreito, usando até mesmo de violência contra quem nos encoraja a fazê-lo.

Aquele que se compromete com a tarefa de ajudar gente a realmente adentrar o domínio da dúvida, do desconhecido e da ambiguidade precisa ser dez, vinte ou cem vezes melhor do que os que vendem certeza. Se quer convidar pessoas a entrar nesse mundo sombrio e incerto, tem de estar preparado para caminhar ele mesmo por um caminho difícil e por vezes perigoso, pois no processo acaba trazendo à superfície toda uma multidão de ansiedades que gastamos muito tempo e muitos recursos reprimindo.

É compreensível que determinados pastores encham estádios com gente que anseia por solidificar desejos já estabelecidos, reconvertendo gente à aquilo a que já se converteram tantas vezes antes. Levar as pessoas a acreditar é fácil precisamente porque é tão natural em nós. Qualquer pessoa persuasiva pode fazê-lo, e ainda ganhar algum dinheiro no processo. Mas para de fato puxar da tomada o Deus da religião, com toda a ansiedade e angústia que o processo envolve, requer-se coragem.

Pode-se na verdade dizer que requer-se Deus.

Deus, unplugged – A Bacia das Almas


O diabo que se apaixonou por Deus

agosto 30, 2011

por Paulo Brabo

Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.

Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.

– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.

Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.

– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.

– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.

– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.

– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.[…]

Seja curioso, leia o resto:

O diabo que se apaixonou por Deus – Paulo Brabo


Deus não tem ninguém na sua lista

julho 14, 2011

por Paulo Brabo

[…]Em resumo, para Ellens a graça ou é radical (isto é, absolutamente resoluta e invariável) ou é na verdade graça nenhuma. Ela só tem poder curativo se for de fato radical, incondicional e universal: privar a graça de seu caráter incondicional seria privá-la de todo seu poder. Dito de outra forma, a graça só é realmente capaz de curar se não fizer diferença para Deus se você vai ser curado ou não. Essa fragilidade é o único mecanismo da coisa toda, e dela depende toda a sua eficácia.

O toque de uma graça radical – aquilo que Ellens chama de “uma perspectiva graciosa e incondicional de apreço positivo” – é a única solução concebível para nossos entraves, traumas, neuroses e inadequações. Essa graça implacável é o único bálsamo com o potencial de nos aplacar em regime definitivo as doenças do espírito, sendo portanto a única chance que temos de encontrar o bem-estar e de o vermos aplicado neste mundo.

Esse é o poder subversivo do perdão universal dos pecados, apregoado por João Batista e endossado por Jesus. Somente a boa nova (somente essa boa nova) é capaz de agir eficazmente na anulação do poder diabólico da culpa, raiz daquela “ansiedade destrutiva que produz em nós toda enfermidade e todo o pecado”. Quem torna-se livre da culpa torna-se livre, e ponto final.

Isso porque “uma perspectiva graciosa e incondicional de apreço positivo” implica numa aceitação radical ao ponto da mais atordoante descaracterização. A singularidade do Deus de Jesus está em que ele não vai amar você menos se você o rejeitar; não vai amá-lo menos se você o matar. Não vai deixar de aceitá-lo em caso algum. O apreço positivo que ele nutre pelo ser humano é a expressão mais destilada e invariável da pessoa e do caráter dele; o céu e o inferno não teriam como alterá-la um milímetro em qualquer direção, muito menos algo que você puder fazer. “Nada poderá nos separar do amor de Deus”, e nada é muita coisa.

Em termos teológicos, essa visão de um Deus de amor invariável cuja matriz e coroa é Jesus já foi articulada (e questionada) muitas vezes ao longo dos séculos. A tarefa que Ellens tomou sobre si foi a de estabelecer além da dúvida o caráter e o valor terapêutico dessa graça ampla, invariável e arbitrária. Porque se Deus nos ama independentemente da nossa cura, só então a cura torna-se possível – mas, pasme-se, ela então torna-se possível. Se Deus pode nos aceitar como somos, só então nos tornamos livres para mudar. Isso não quer dizer que Deus exige que mudemos; pelo contrário, o cerne e o único poder da coisa toda está em que a aceitação e o apreço divinos pelo ser humano (e o nosso uns pelos outros) devem resistir galhardamente à rejeição, ao desprezo, ao esquecimento, à distração.[…]

[…]É um Deus que não se rebaixa ao proselitismo, isto é, um Deus que não quer converter ninguém para além da sacada de que nenhuma conversão é necessária (e que portanto toda mudança é possível). É um Deus sem outro critério que não o amor, que abraça o filho pródigo e espera o mesmo do filho comportado; que dá a mesma recompensa ao cara que suou o dia todo e ao folgado que só apareceu para trabalhar na hora de ir embora. Um Deus que não tem ninguém na sua lista.[…]

Leia o restante aqui: O Deus que não tem ninguém na sua lista – Paulo Brabo


Radical grace: how belief in a benevolent God benefits our health – J. Harold Ellens

junho 28, 2011

Depois que o Paulo Brabo postou na Bacia das Almas (que eu obviamente tomei a liberdade de replicar parcialmente aqui), um texto de J. Harold Ellens (A saúde divina e a saúde humana) que faz parte deste livro, lá fui eu, cheia de curiosidade, ler o resto. Coloco mais uns trechos abaixo.

[…]É maldade que uma bactéria ou vírus penetre numa folha de capim, que é depois ingerida por uma vaca, cujo leite fica contaminado e mata um bebê, e talvez a própria vaca? É trágico, mas não maldade. Do ponto de vista da bactéria, é uma façanha considerável. Do ponto de vista da vaca e do bebê, é doloroso e difícil. A disputa entre duas formas ou ordens de vida toma lugar, e um vive às expensas do outro, justamente como nós humanos, vivemos às expensas da vida das plantas, e de ordens inferiores de animais, todos os dias. É um tipo infeliz de imperialismo humano, chamar estes processos de maus. Que concede uma prioridade moral, ou prerrogativas a isso que chamamos de espécies superiores, e uma exploração inerente das formas consideradas inferiores.

Os processos que aparecem nesta ilustração, da bactéria e da vaca, não são maus. Trata-se apenas da ordem natural das coisas criadas neste mundo. A morte do bebê é trágica e terrivelmente dolorosa aos pais, mas não é um evento maléfico, apenas um evento trágico. Não é a consequência de alguma força má atuando neste mundo. A doença não é do mal, mas apenas o corolário doloroso, do concurso de formas de vida, ou da disfunção de células e organismos com problemas, num mundo dominado por seres humanos que, arrogantemente, pensam que temos que ser excluídos desse tipo de inconveniências e desconfortos. Então, nós chamamos nossos sofrimentos e inconveniências particulares de maléficos, mesmo quando outros organismos criados por Deus, estão envolvidos no processo.[…]

[…]A única exceção ou alternativa a este impasse e esta patologia psicoreligiosa que a história nos apresenta, é o conceito de graça divina, que tem sua aparição exclusivamente no judaísmo. Aqui, e em nenhum outro lugar na história da religião, na visão da fé de Abraão, há a noção de que Deus transcende arbitrariamente a imperfeição do universo e da nossa humanidade; de que Deus, incondicionalmente, nos aceita como somos, onde estamos; e que este Deus nos assegura de que temos valor, apesar de nós mesmos.  Esta certeza é dada por Deus, para deixar claro para nós, que vamos sair da vida vivos e bem, não importa como. Esta é a visão que a fé cristã herdou e encontra sintetizada em Jesus de Nazaré, como Cristo de Deus.

Esta é a razão, apesar da noção popular prevalente do contrário, de haver dois, e apenas dois, tipos de religião na história da humanidade: aquele que parte do pressuposto de que Deus é por nós, e aquele que parte do princípio de que Deus está contra nós, ou é no mínimo, uma ameaça perigosa contra nós. Religiões que assumem que Deus é uma ameaça, criam estratégias elaboradas de ética e rituais de adoração, designados para prover técnicas de auto-justificação. Estão cercadas pela escravidão psicológica, de loucos becos sem saída. Aquelas religiões que assumem que Deus é por nós, expressam a si mesmas em celebrações autênticas de graça e gratidão. São religiões saudáveis, que proporcionam a liberdade da vida como uma busca aberta e criativa, onde cada exploração arriscada – exploração teológica, experimentação moral ou espiritual –  é totalmente segura, pois a graça é maior do que qualquer dos nossos pecados.

Apenas as formas judaico-cristãs de fé são formadas e informadas por uma teologia assim, com um Deus que é Deus de graça radical, incondicional e universal. A graça de Deus é radical no sentido de que não podemos nos esconder dela, nem nos defender contra ela, ou nos afastar dela por causa de nossos pecados. É incondicional no sentido de que é um presente arbitrário de Deus, por causa do valor que temos para Ele, e não por causa da nossa bondade. É universal na medida em que ninguém pode cair da graça de Deus, ou escapar do Seu abraço.  Nenhuma outra religião atingiu esta perspectiva. Infelizmente, muito da história, tanto do judaísmo quanto do cristianismo, tem sido um sério afastamento desta herança única, e uma regressão à preocupação pagã com legalismos dirigidos pela angústia, e a heresia destrutivamente má da ortodoxia. Isso demonstra o grau com o qual nosso terror humano comum, é um produtor e modelador endêmico  da nossa religião e espiritualidade.[…]

[…]A graça é tão inacreditável, que nos deixa um tanto quanto desconfortáveis, por não termos nenhum poder de barganha, e de não estarmos no controle, porque estamos à mercê de Deus e de sua graça e misericórdia. Se não podemos, ou não nos lançamos nos braços de Deus, na certeza de que sabemos que a única justiça para seres como nós, é a misericórdia, então sempre a graça será um indutor de angústia, e a religião e a espiritualidade fracassam, pela deterioração numa psicopatologia da hesitação e dúvidas.  Estes, por sua vez, nos levam a criar rituais de adoração rígidos, e ortodoxias teológicas estupidificantes, planejados para manipular um Deus ameaçador…[…] (ou para manipular pessoas, colocando um Deus ameaçador contra elas – acrescentaria eu, humildemente).

[…]Pastorear é cuidar desse pessoal ansioso, necessitado, inadequado, cheio de culpa, confuso e inquieto, que todos nós, humanos, somos. Todos nós estamos famintos e sedentos de justiça, conscientemente ou não, cada um do seu próprio jeito. Ser uma pessoa pastoral é tratar compassivamente os seres humanos, nos seus próprios mundos pessoais, para procurar soluções para o vazio que cada um sente na sua própria alma: a sensação de segurança que chega com a entrada na comunhão com nosso Deus paternal e com a comunidade dos Seus filhos. Pastorear é ajudar outros seres humanos a perceber que a amizade pode ser a resposta para essa fome de significado, segurança e destino que dirige todos nós.[…]Pastorear é comunicar o significado da afirmação de Deus a respeito de cada um de nós, quando nos diz: “Serei Deus para você e para os seus filhos, para sempre!” (Gênesis 12 e 17). Esta afirmação não depende de qualificações, requisitos, não tem condições limitantes. Pastorear é comunicar que a graça e, desse modo, as boas novas para os pobres, incluem aqueles que são vítimas de si mesmos ou do seu mundo; liberdade para aqueles que estão aprisionados, e a oportunidade de conhecer a aceitação, por parte de Deus, de cada um de nós, pessoas necessitadas. Pastorear é comunicar relacionalidade curativa a uma humanidade ansiosa e angustiada. O mesmo é verdade para um psicoterapeuta responsável.[…]

Radical Grace: how belief in a benevolent God benefits our health – J. Harold Ellens – Barnes & Noble

Não importa quantos erros você pensa ter cometido, o amor dEle não é condicionado ao desempenho, Ele ama sempre do mesmo jeito. Não importa quão longe você pense ter ido, Ele vai te receber da forma como aquele pai recebeu o seu filho pródigo, com festa. E Deus não vai exigir que você seja perfeito, porque a misericórdia dEle, se renova todos os dias. Deus sabe que somos humanos e falhos, e jamais lançará fora alguém que O busca e põe sua confiança nEle.


Critérios do amor

junho 17, 2011

por Paulo Brabo

Este é um mundo de retribuição, em que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Quem são nossos favoritos? Os notáveis, os talentosos, os destacados, os fluentes, os bonitos, os ricos, os famosos, os sábios, os espirituais, os afinados, os inteligentes, os que lembram-se do nosso nome. Quanto mais admiráveis nos parecerem as qualidades de alguém, mais naturalmente — mais inevitavelmente — essa pessoa parecerá merecedora do nosso amor.

Nossa tendência mais natural é amarmos as pessoas pelo que são capazes de fazer, seja essa capacidade efetiva ou potencial. Nisso consiste o que chamo de Lei Crua do Amor: não amamos as pessoas, amamos as suas competências.

Com raras exceções, a Lei Crua do Amor rege todos os nossos relacionamentos e afeições. Sei muito bem aqueles que me sinto tentado a amar: os virtuosos, os compassivos, os articulados, os bonitos, os fluentes, os criativos, os destemidos, os galantes, os que sabem dançar, os indomáveis, os modestos, os heróis que não conhecem o seu próprio valor. São essas as competências que estão no topo da minha lista, mas cada pessoa estabelece o seu próprio critério de seleção. O que temos todos em comum é a tendência de amar aqueles que demonstram ter as competências que admiramos.[…]

[…]Aqueles que não têm alguma competência para oferecer — os feios, os desajeitados, os que não sabem cantar, os que não sabem falar, os que não sabem escrever, os que não sabem jogar bola, os que não sabem agradar — intuem, por sua vez, que nunca serão amados de forma unânime e intensa como os notáveis. Não têm competências em grau ou quantidade suficientes para merecerem o nosso amor, e sabem disso.

Jesus viveu, naturalmente, para denunciar a Lei Crua do Amor. Ele convidava, de forma singela, a que adotássemos um novo e notável critério, que é, incrivelmente, a ausência de qualquer critério.

A mensagem de Jesus deixa claro, em primeiro lugar, que na perspectiva de Deus, na perspectiva do universo, as competências que tanto celebramos e redundantemente admiramos equivalem a precisamente nada — talvez menos. Se Deus fosse premiar a competência não premiaria ninguém. É por isso, por não julgar as pessoas pelas competências que têm para oferecer, que Deus faz chover sobre justos e injustos. É com base no rigoroso critério do critério algum que ele derrama do seu sol sobre heróis e marginais.[…]

[…]O Filho do Homem desafia-nos a sermos nisso singulares (santos) como Deus é, disparando amor arbitrariamente, como metralhadoras, abandonando definitivamente os critérios usuais de competência. Essa regra divina é a Lei Distributiva do Amor, que pode ser expressa desta forma: ninguém merece, por isso todos podem ter.[…]

Os critérios do amor – Paulo Brabo – A bacia das almas

Você que se acha tão melhor do que o resto do mundo por ser crente, ou pela sua ortodoxia, ou seja lá o que for, faça um favor a si mesmo, e leia essas duas frases até elas entrarem na sua cabeça:

Se Deus fosse premiar a competência, não premiaria ninguém.

Ninguém merece, por isso todos podem ter.


A saúde divina e a saúde humana

junho 2, 2011

por Paulo Brabo

[…]Deuses doentes geram gente doentia. Ou, para colocar de modo ligeiramente diverso, Deuses doentes fazem com que as pessoas fiquem doentes. Do mesmo modo que filhos e discípulos tomam como modelo seus pais e mentores, indivíduos e comunidades humanas criam a si mesmas na imagem de seus Deuses. Deuses doentes provem modelos doentios que produzem gente doentia e comunidades doentias. Para se garantir bem-estar pessoal e comunitário, é necessário que Deus esteja bem – ou pelo menos o inverso é verdadeiro. Quem tem um Deus doente não tem como alcançar o bem-estar, seja individual ou comunitário.[…]

[…]Falei de nós como inocentes; você talvez discorde. Reconheço que o único mal que existe no nosso mundo é o mal que fazemos uns aos outros. Porém quando alego inocência quero chamar a atenção para o fato de que nós humanos não pedimos para nascer. Não pedimos para ser limitados. Não pedimos para ser falhos. Não pedimos para existirmos em modo de desenvolvimento e permanecermos portanto inerentemente e inevitavelmente incompletos, em fase de crescimento e de mudança, avançando por tentativa e erro, experimentando e alcançando por vezes becos sem saída morais, relacionais, psicológicos e espirituais. Não pedimos para sermos largados no oceano do espaço-tempo com uma base de dados inadequada, capacidade imatura de juízo e emoções que são com frequência movidas pela nossa ansiedade a respeito de tudo isso. Não pedimos para sermos incumbidos da tarefa divina de decifrar e encontrar significado neste mundo, ao mesmo tempo em que somos compelidos a operar com recursos meramente humanos.

O pior é que as metáforas religiosas que nos foram oferecidas no relato dominante a respeito da natureza e do comportamento de Deus produzem arquétipos inconscientes nos seres humanos, arquétipos que são inconscientemente traduzidos em comportamentos justificados por essas metáforas. Se Deus resolve todos os seus problemas decisivos pelo recurso rápido da violência decisiva, como se pode esperar que nós, seres humanos, ajamos de modo significativamente diferente? Deuses doentes geram gente doentia. Se Deus nos convence da sua noção psicótica de que está envolvido num conflito cósmico cujo o campo de batalha é a história humana e o coração humano, é naturalmente inevitável que iremos desejar, de modo inconsciente ou consciente, ajudá-lo nessa empreitada; estar do lado dele na guerra; empenharmo-nos na causa de Deus contra o infiel, enfrentar os bandidos e exterminar nossos inimigos, da mesma forma que aparentemente Deus faz com os dele.

Esta é a bandeira debaixo da qual foram pelejadas as batalhas do Israel antigo contra os cananitas, e quem sabe também as batalhas do Israel dos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual as campanhas cristãs das cruzadas foram pelejadas, e quem sabe também as cruzadas dos cristãos fundamentalistas nos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual o Islã conquistou o mundo mediterrâneo nos séculos VII e VIII, e não deve haver dúvida quanto às ambições do al Qaeda nos nossos dias. Um Deus doente gera gente doentia. Como chegaremos a alcançar o bem-estar se Deus está doente? Não chegaremos a alcançá-lo, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Houve, naturalmente, outro informe a respeito da saúde mental de Deus, embora tenha sido grandemente desacreditado ao longo da história, com frequência ao ponto de uma desdenhosa incredulidade. Trata-se da alegação de que o relato dominante, que tem estado desde sempre em circulação em todo lugar, não tem na verdade nada a ver com Deus, sendo ao invés disso a doentia projeção de uma série de imaginações humanas muito desautorizadas, autoria de gente inteiramente aterrorizada diante daquilo que é desconhecido e imprevisível na vida: uma projeção de seus próprios terrores sobre a imagem mental idealizada do que achavam fosse Deus. Esse segundo informe sobre a saúde mental de Deus encontra grande dificuldade em competir com o relato dominante, muito embora toda a evidência permaneça, em todo lugar, confirmando a versão alternativa. Essa tem encontrado resistência porque parece humanamente inacreditável: porque alega que Deus é um Deus de graça incondicional para toda a humanidade.[…]

[…]Isso é possível para nós todos e para toda a humanidade; é possível para você e para mim, para o George Bush, para o al Qaeda, para os democratas – até para os franceses. É claro que os 15% da humanidade que sofrem de uma severa psicose limítrofe herdada não podem ser abraçados por essa perspectiva, exceto sob medicação adequada. O desenvolvimento de uma estratégia psico-espiritual, acompanhada de um programa psico-social concomitante que reflita uma profunda perspectiva graciosa de apreço positivo e incondicional mútuo, contra o pano de fundo da convicção de que essa postura de graça incondicional é a verdadeira história a respeito de Deus, tem chance de moldar nossos pressupostos sobre teoria da personalidade e antropologia de modo a formar um novo modelo global de relacionalidade construtiva. Isso é essencial para o bem-estar humano e sem ele prosseguiremos na trajetória descendente de processos que acentuem cada vez mais a cartada da violência. Isso deve estar fundamentado num modelo psico-espiritual saudável. Os fundamentalistas islâmicos fizeram-nos finalmente um grande favor, a saber, acenaram diante de nós com um sinal claro de que o que molda o significado humano é a questão de se Deus está doente ou saudável.[…]

[…]Não atingiremos o bem-estar humano até que tenhamos criado uma cultura mundial de bem-estar. Não conseguiremos isso até que Deus esteja bem. Uma cultura mundial de bem-estar implica um mundo de metáforas psico-espirituais que produzam arquétipos inconscientes salutares. Para conseguirmos isso devemos destruir o doentio Deus monstro que reina inconscientemente no coração de todos nós. Os programas de reformulação psicológica e moral valem o trabalho que dão. Freud e Jung ofereceram-nos ajuda valiosa. Porém é o Deus monstro que deve ser exorcizado e morto, se quisermos avançar rumo ao mundo de bem-estar que somos capazes de imaginar, em vez do mundo letal que tendemos continuamente a criar.

J. Harold Ellens

A saúde divina e a saúde humana – Paulo Brabo – Bacia das Almas

Que tesouro você foi garimpar, hein, Paulo Brabo? Não tenha preguiça, clique no link acima e leia o texto todo. Aqui só coloquei alguns pedaços.