Despertar, ou viver chapado?

junho 13, 2017

Terminei de ler um suposto guia para a “espiritualidade sem religião”, escrito por Sam Harris. Só o fato de o autor ser ateísta, já me deu pistas do que podia esperar do livro. E ele não decepcionou. Negativamente falando, é claro.

A primeira pergunta que fiz é: por que diabos um ateu precisaria de um guia sobre espiritualidade? Fui ateísta a maior parte da minha vida, e na época simplesmente encarava o que chamavam de “vida espiritual” como mentira pura e simples; ou no máximo, uma ilusão confortável. Não ficava por aí rastejando atrás de “gurus” no Nepal e no Tibete, enquanto usava drogas alucinógenas, em busca de transcendência, como Sam Harris relata ter feito quando tinha 20 e poucos anos. Eu com 20 e poucos anos, estava cursando uma graduação, e não quase morrendo afogada, depois de cair na água sob efeito de drogas alucinógenas, num país oriental distante. Sam Harris cita Aldous Huxley, mas nem chega perto dele no que diz respeito a discorrer sobre espiritualidade. Seu principal erro foi ter desconsiderado as experiências da espiritualidade ocidental como merecedoras de crédito ou de serem levadas a sério, coisa que Aldous Huxley não fez. Sam Harris fala quase com deslumbramento dos seus ex-gurus indianos, nepaleses ou tibetanos e de suas experiências com drogas alucinógenas. É isso que ele chama de espiritualidade? Se minha espiritualidade for baseada na fé em um ser superior, ela é tratada como inválida pelo autor, mas ele mesmo considera valiosa a experiência espiritual provocada por alucinógenos. Afinal, quem precisa ter fé quando tem LSD e Ecstasy, não é mesmo? Quem precisa amar de verdade, quando uma droga oferece falso afeto? O problema é quando você descobre que existe algo chamado “vida espiritual” estando bem acordado e consciente, e não sob efeito de alucinógenos. Foi dessa forma que eu descobri. Esse é o tipo de experiência impossível de esquecer. É real, e não uma ilusão, ou alucinação que passa quando a droga deixa de circular no seu sistema.

Já faz muitos anos que usei substâncias psicodélicas, e minha abstinência  nasceu de um respeito saudável pelos riscos que elas trazem. Contudo, aos vinte e poucos anos houve um período em que considerei a psilocibina e o LSD ferramentas indispensáveis, e passei algumas das horas mais importantes da minha vida sob a influência destas substâncias. Sem elas eu talvez nunca descobrisse que existe na mente uma paisagem interior que vale a pena explorar.

Não há como deixar de lado o papel da sorte. Se você tiver sorte, e se usar a droga certa, saberá o que é ser iluminado (ou chegará suficientemente perto disso para se convencer de que a iluminação é possível). Se tiver azar, saberá o que é ser insano clinicamente.[…]

Se você tiver sorte com o LSD ou o Ecstasy, segundo Sam Harris, se sentirá iluminado. Se tiver azar, poderá ficar louco, ou ter uma parada cardíaca e morrer, por exemplo. Entrar em coma também é uma possibilidade. É como brincar de roleta russa. Nem vou comentar sobre o uso de palavras como “sorte” e “azar” no texto de um “cético”. Nosso autor relata uma sensação de intenso amor por um amigo, enquanto fazia uso de Ecstasy, uma droga que por sinal, é ilícita. É ilícita não porque alguma bancada evangélica por aí pretende impedir nosso prazer, e sim, porque oferece muito mais riscos do que benefícios, tanto em curto quanto a longo prazo. Esta falsa sensação de afeto, é um dos efeitos colaterais da droga. O autor sabe disso. É uma sensação FALSA de afeto. Ela passa quando cessa o efeito da substância. Bem diferente do amor que vem do alto. Bem diferente do amor genuíno que uma pessoa é capaz de vivenciar, sem estar usando nenhum tipo de droga. Tentar juntar este falso afeto, quimicamente induzido por um alucinógeno, com o amor genuíno do qual o ser humano é capaz, como se ambos fossem a mesma coisa, é pura desonestidade intelectual. Que pena para você, Sam Harris, ter passado as horas que considera as mais importantes na sua vida, chapado.

[…]Portanto, o que quer que se possa ver ou sentir depois de ingerir LSD, provavelmente poderia ser visto ou sentido por alguém, em algum lugar, sem a droga.

Então por quê cargas d’água eu usaria uma droga que pode me fazer parar numa ala psiquiátrica, ou talvez, no cemitério?

O que fica, sobre esta tentativa de enveredar pela carreira de guru espiritual, feita por Sam Harris, é: o ateísmo segue incapaz de responder aos anseios e dúvidas mais profundos da humanidade. As camadas de verniz espiritual que o autor tenta colocar sobre sua proposta filosófica para um mundo onde alma, fé e Deus não existem, não são capazes de esconder isso. Como guru, Sam Harris é um cético razoável. Não se fazem mais ateus como antigamente.

A droga que Sam Harris usou, não abre portas da percepção, e sim, arromba essas portas. Viola as fechaduras, como um ladrão. Uma porta arrombada nunca mais funciona normalmente. Como Deus não é ladrão, nem brinca de roleta russa com ninguém, talvez a gente só consiga ver uma frestinha de luz. Continue a bater, em vez de colocar dinamite na porta pra forçar a passagem, correndo o risco de explodir junto com ela. Fica a dica. ; P

Hoje vemos em parte, um dia veremos face a face.


Ímpio

outubro 5, 2016

livro-o-impioAcabei de ler um livro que fazia muito tempo estava parado aqui. Trata-se de “Ímpio, o evangelho de um ateu”, de Fábio Marton.

Minha primeira observação é saber porque um ateu dá nome de “evangelho” a um livro. Evangelho significa “boas novas”, e o livro do Fábio Marton, está longe de ser parecido com uma boa nova. É apenas mais um livro de um ateu, um ex-crente, criticando os crentes e as igrejas das quais fez parte ao longo da vida, e tentando ganhar dinheiro com a história. A diferença deste para outros que já li, é que o Fábio satiriza mas ao mesmo tempo demonstra certo afeto por aquelas pessoas todas que aparecem no livro.

No texto, o autor critica os crentes e detalha a sua vida desde criança no meio evangélico, começando numa igreja em Osasco e depois vindo morar em Curitiba, nos piores bairros possíveis. E uma vida repleta de dramas e tragédias pessoais. Era nerd, solitário, obeso e sofria bullying na escola, e a oração dele mais frequente, segundo ele mesmo, era pedindo a Deus uma namorada e um amigo. Sua mãe morre num acidente de carro; o irmão fica paraplégico nesse mesmo acidente; o pai, pula de fracasso em fracasso, de um relacionamento para outro e de igreja em igreja. Fábio passa a morar de favor com parentes depois da morte da mãe, numa cidade que também não era a sua, e da qual ele nitidamente não gostava.

O autor foi transformado num pequeno fanático religioso, tipo Nietzsche, que como ele também havia sido uma espécie de pregador-mirim. Virava alvo na escola por ser crente, nerd e obeso. O grau de fanatismo dele era tão grande, que chegou a entrar numa “disputa” mental com uma macumbeira quando tinha sete anos. Acreditou ter ganho um dente de ouro de Jesus. Acreditou ter sido escolhido por Deus para uma revelação: o mundo ia acabar numa certa noite. Obviamente a noite passou e o mundo continuou onde estava. Mais adiante no livro, ele conta como pediu a Deus para ressuscitar sua mãe quanto esta morreu. Para mim parece óbvio que isso ia acabar em grande decepção, como de fato acabou. Afinal, Deus tem culpa da visão deturpada que o autor tinha a respeito de quem ou como Ele é ou devia ser? Que culpa Ele tem de não ser aquela lâmpada mágica pronta a resolver todos os problemas, desde que seja bem esfregada com muita oração,  como é pintado em muitas igrejas? O próprio autor disse em uma entrevista a respeito do livro, que quando era crente, acreditava que as coisas deviam cair prontas do céu. Expectativas erradas, baseadas em péssima teologia e abusos por parte de igrejas totalmente sem noção, geraram o Fábio Marton e o seu livro.


Carta a um ex-pastor

junho 19, 2012

Prezado Josimar,

Tomei conhecimento da sua história de ex-pastor, pela Internet. Apesar de não nos conhecermos, seu relato me chamou a atenção. E acompanhando os comentários que estão sendo feitos a respeito, resolvi escrever. Mas não se preocupe, porque minha intenção não é a de participar da sessão de apedrejamento dos crentes contra a sua pessoa.

Primeiro, gostaria de dizer a você, que eu fiz o caminho inverso ao seu. Conheço todos esses filósofos aos quais você se refere na sua carta com tanto deslumbramento. Conheço Nietzsche em profundidade, li todos os livros dele, tenho todos, e gosto de reler. E mesmo assim, faz cinco anos que deixei de me considerar ateísta. Sou cristã, e não deixei de aceitar os fatos científicos como fatos, por causa disso. E considero Richard Dawkins excelente quando o assunto é biologia e evolução, mas um verdadeiro desastre quando resolve falar em religião ou Deus. Nisso, ele é muito fraco, raso mesmo, e parcial. Assim como boa parte dos crentes, quando se mete a falar de evolução, se tornam ridículos, por pura falta de conhecimento de causa.

O que me chamou mais a atenção no seu caso, é que aparentemente você passou de pastor de uma denominação evangélica que é conhecida pelo fundamentalismo, ao outro extremo, tendo agora, até um cargo na Liga Humanista Secular. Não julgo sua decisão de ter deixado a IPB, mas na minha opinião, parece que você deixou a religião, mas a religião não saiu de dentro de você. E na minha opinião, o seu estado atual, é mais complicado do que o anterior. Não por ter abandonado a fé que você mesmo disse ter professado com tanta devoção e sinceridade; e sim, porque diz ter abandonado, mas continua com o mesmo pensamento religioso, mas agora dirigido ao outro extremo. Tome cuidado para não se deixar fanatizar, agora, pelo extremo oposto.

Eu conheço ateus fanáticos, que tratam o ateísmo como religião, pregam a respeito do ateísmo, querem converter pessoas ao ateísmo, exatamente como os religiosos que tanto criticam. Não são todos, mas eles existem, e são tão agressivos quanto qualquer fanático. São religiosos, sem Deus, mas religiosos como qualquer outro. Têm alma fundamentalista do mesmo jeito, com a diferença de não serem teístas, só. E ficaria triste em ver você, ferido pela religiosidade e o fundamentalismo evangélico, entrando agora por esse caminho, que não é de liberdade verdadeira. Parece ser um movimento em direção à liberdade, mas não é. Porque da posição onde você está agora, é possível, se seguir adiante com suas reflexões, encontrar uma posição mais equilibrada, longe dos extremos tanto de um lado quanto do outro, sem se deixar levar por paixões, pelo desgosto, decepção ou pelo deslumbramento, coisas que obscurecem o senso crítico. E encontrar uma forma de viver a fé, mais equilibrada. Falo por experiência própria.

Não se deixe levar tão rapidamente assim, a esse outro extremo, que é tão ruim quanto o extremo do qual você saiu.

Grande abraço,

Andrea

Pastor presbiteriano perde a fé, deixa o ministério e é perseguido no Paraná


A dura vida dos ateus num Brasil cada vez mais evangélico

novembro 15, 2011

trechos do texto de Eliane Brum, na revista Época

[…]Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico – Eliane Brum – Revista Época


Há mais alegria no céu…

março 9, 2011

[…] E de fato, não é contraditório ao espírito do evangelho supor que há mais alegria no céu por um ateu que coloca o amor em prática do que por noventa e nove cristãos que dançam e cantam ritualmente ao redor dele.

Paulo Brabo

O gentil martírio dos desconversos – Paulo Brabo


Agradeço a Deus pelos neo-ateus

julho 27, 2010

trechos de um sermão de Michael Dowd

O Deus que Richard Dawkins diz ser uma ilusão, é uma ilusão! Esta forma de pensar a respeito de Deus, reflete uma visão de mundo da Idade do Bronze, ultrapassada, na qual temos acreditado cegamente por gerações, simplesmente porque alguém disse ou porque nossas tradições nos ensinam isso. Os literalistas bíblicos estão dirigindo pessoas pensantes para fora da igreja.[…]

[…]Felizmente, essa ideia de Deus é tão real quanto a do Papai Noel. Não importa o que está escrito, Deus não é um terrorista sobrenatural.[…]

[…]Quando nós cristãos interpretamos a escritura literalmente, estamos depreciando a bíblia e desonrando Deus. Nossa melhor orientação moral vem do que Deus está revelando hoje, por meio de evidências, não de tradições ou autoridade ou velhas histórias míticas.[…]

[…]Deus ainda está falando, e o fato é que a língua nativa dEle – não é o hebraico, ou grego ou o inglês da versão King James. Valorizar o que foi revelado milênios atrás, para pessoas que pensavam que a Terra era plana, mais do que o que tem sido revelado por Deus hoje, para pessoas que sabem que não é, é uma receita para o desastre.

Bestselling Author Launches Radical New Sermon Series in Oklahoma

O fato é que na época em que a bíblia foi escrita, as pessoas viam o mundo desta forma como descrita na bíblia. É um erro julgá-las nos baseando para isso, nos nossos conhecimentos atuais. Eu pelo menos, não esperaria que Deus inspirasse homens da Idade do Bronze, a escrever um tratado de física quântica. É óbvio, evidente, que as pessoas que escreveram, tinham conhecimento limitado tanto do mundo que as rodeava, quanto de Deus. Afinal, apesar de Deus ser o mesmo, as pessoas não eram as mesmas, o mundo não era o mesmo, e qualquer tentativa de explicá-Lo, é apenas isso, tentativa, limitada pela nossa humanidade, nossos preconceitos, nosso conhecimento, seja na Idade do Bronze, seja no século XXI. Assim como, ao mesmo tempo em que colocaram no texto bíblico a cosmovisão da época e da região, também incluíram números e nomes que possuem eles mesmos os seus significados. Os autores da bíblia juntaram à descrição da cosmologia da época, significados espirituais e simbólicos. É um erro contar o tempo levando em conta os números citados na bíblia, como por exemplo, o número de gerações até Jesus ou etc, porque aquele número de gerações não pretende ser uma contagem temporal exata, tem significado simbólico.

E já basta dessa conversinha ridícula, de dizer que a ciência ou os cientistas querem tirar Deus ou a religião da vida das pessoas. O que a ciência e os cientistas querem (de novo), é que a ciência seja neutra, e não obrigada a adotar algum tipo de explicação metafísica ou sobrenatural. Mesmo porque, como já falei aqui, haveria várias versões de ciência, misturando religiões, ideologias e o escambau; e não uma só versão neutra, como deve ser.

Ter Deus presente na sua vida, ou participar de uma religião qualquer, é uma escolha pessoal, e a ciência não diz nada a respeito disso. Os cientistas estão totalmente corretos quando se manifestam de alguma forma, se religiões e religiosos, tentam incluir metafísica e filosofia no meio de explicações científicas e querem, à força, tornar obrigatório que esse conjunto seja visto como ciência, e ensinado em escolas como ciência, substituindo a verdadeira ciência, quando não é ciência nem pode substituí-la.

É muito simples de entender as razões da revolta de alguns cientistas contra a religião. Até eu, sou contra essa religião que tenta impor cosmologias ultrapassadas, ou gera terroristas, ou que deixa as pessoas piores do que já são, mais intolerantes, em vez de trazer avanço pessoal e levá-las a viver em paz com todos, mesmo aqueles que não concordam com o que acreditam. Religiosos sabem disso muito bem, embora muitas vezes a história que contam, seja bem diferente.


Quando a “defesa da fé” se transforma em obsessão e vaidade…

julho 24, 2010

Já falei na postagem anterior, que estou lendo Jürgen Moltmann. Pois bem. Num de seus artigos, ele relata como os dois irmãos, Alyosha e Ivan, personagens do livro “Os irmãos Karamazov” de Dostoievski, representavam o conflito que o próprio Dostoievski vivia, entre simplesmente se submeter como o crente Alyosha, ou se rebelar contra Deus, como o cético Ivan. Nesse texto, Moltmann argumenta que a teologia cristã não é feita só por aqueles que professam ter alguma crença. Segundo ele, teólogos são todos aqueles que creem e pensam sobre suas crenças. Para ele, ateus como Ivan, que lançam protestos e argumentos contra Deus, também estão fazendo teologia. Abaixo seguem trechos do texto de Moltmann:

Ateístas que têm alguma coisa contra Deus e contra a fé em Deus, geralmente sabem muito bem quem e o que eles estão rejeitando, e têm suas razões. O livro de Nietzsche, O Anticristo, tem muito a ensinar-nos sobre o verdadeiro cristianismo; e as críticas modernas à religião, como as feitas por Feuerbach, Marx e Freud, são ainda teológicas em sua anti-teologia.Além disso, existe o ateísmo de protesto, que luta com Deus como Jó fez, e que por causa do sofrimento das criaturas que clamam ao céu, negam que haja um Deus justo que governa o mundo em amor.  Este tipo de ateísmo é profundamente teológico, pois a questão da teodiceia – “Se existe um Deus bom, porque existe tanto mal?” – é também a questão fundamental de toda teologia cristã que leve a sério as palavras que Jesus dirigiu a Deus, quando estava morrendo na cruz:

“Meu Deus, por que me abandonaste?” Dostoievski apresenta de forma esplêndida essas duas faces da teologia, o lado daquele que crê e o lado do que duvida, em dois dos irmãos Karamazov, Alyosha e Ivan.  Um se submete, o outro se rebela. A história que Ivan conta para ilustrar o porquê da sua rebelião contra Deus é horrível. Um fazendeiro russo atiça seus cães contra um menino. Eles o matam, fazendo-o em pedaços diante dos olhos da mãe do menino. “Que tipo de harmonia é essa onde existem infernos como esse?”, acusa Ivan, e continua, “Existe alguém no mundo inteiro que possa perdoar algo assim, e que tem permissão para perdoar?

Moltmann argumenta que as dúvidas, quando aparecem, não devem ser sufocadas, e sim, admitidas. Que o Ivan que habita dentro de cada cristão, deve se expressar, para que possa ser superado. As dúvidas, reclamações, protestos, precisam ser expressos pela pessoa que os tem, porque isso se faz necessário para o crescimento na fé. E que a teologia só é verdadeira, quando leva em conta os questionamentos, indagações, protestos, dúvidas e etc dos “teólogos ateus”. Um teólogo cristão, de acordo com Moltmann, não deve apenas conhecer os devotos e religiosos. Ele deve conhecer os ateus, agnósticos, céticos também, pois está correlacionado com eles. Então, ele precisa saber o que a “bancada ateísta” da teologia está perguntando, quais são as suas acusações contra Deus,  questionamentos e dúvidas. Muitas vezes, as dúvidas e indagações dos ateus, são as mesmas dele, embora nem sempre saiba expressá-las de forma tão clara e incisiva como os ateístas costumam fazer. O próximo passo dele, seria tentar colocar mais um tijolo na construção da teologia, de forma a tentar responder aos questionamentos ateístas. Ou fazer ainda mais perguntas.

O problema de quando se tenta colocar mais tijolos nessa construção humana que é a teologia, é que corre-se o risco de que alguém, que antes era bem intencionado, acabe se transformando num obcecado por debater com ateístas. Ou num espertalhão, que faz de supostas obras de “apologia”, meios de ganhar a vida.

Há muitos cristãos por aí, que debatem com ateus por pura vaidade, sem nenhum outro propósito além de disputar o troféu de “mais inteligente”. Ficam obcecados com isso, gastam várias horas do seu dia batendo boca com ateus pela Internet. Algumas vezes, para alcançar seus objetivos, usam de golpes baixos, ofensas pessoais, ridicularização, tentativas de desqualificar seu oponente. O interesse deles, não é  saber o que o ateísta pensa, para tentar oferecer respostas satisfatórias (como o teólogo que quer fazer boa teologia, segundo Moltmann, teria que fazer), e sim, ser aclamado pelos seus iguais como “grande debatedor”, mesmo que tudo que ele saiba fazer num debate, é ataque pessoal e tentativa de desqualificação. Ou seja, não sabe o que é debater, e transforma o que devia ser troca de ideias, numa guerra verbal que não vai chegar em lugar nenhum.

Quanto ao outro tipo, o espertalhão, esse já quer é ficar bem longe dos ateístas. Prefere expor seus supostos “conhecimentos científicos” apenas diante de plateias de crentes, para os quais tenta, na sequência, vender seus livros apologéticos, apostilas, DVDs e outros materiais do gênero. Dificilmente ele vai querer ser sabatinado por uma plateia de ateístas. Não passa de alguém com uma imensa capacidade de “enrolatória” (trocadilho com “oratória”), um praticante de “embromation”. A parte triste, é que muitos dos que ouvem as palestras, ou leem os livros e artigos desses espertalhões, acabam fazendo a imensa bobagem de tentar debater com ateus, repetindo ingenuamente o que o tal “apologista” disse. E o resultado disso, é que são humilhados e ridicularizados pelos ateístas. Coisa que nunca acontece com o espertalhão, porque ele mesmo dificilmente se expõe diante de ateus.

A tentativa de construir teologia, ou defender a fé, pode transformar teólogos e apologistas em monstros obcecados e vaidosos… Por isso, é bom sondar os próprios propósitos, e os próprios métodos. Mesmo que a intenção seja boa, os fins não justificam os meios. Distorcer, mentir, ser desonesto, ofender, fazer ataques pessoais, não são bons métodos. Disputar com ateus para tentar descobrir quem é mais inteligente, ou desejar ser incensado pelos crentes como “grande debatedor”, não são bons propósitos.

Link para o texto de Jürgen Moltmann que citei na postagem:

Godless Theology – Jürgen Moltmann