Por que será que você confessa Jesus…

fevereiro 25, 2011

…mas continua sem Deus?

por Caio Fábio

[…]Porém, se alguém se diz cristão, chama a Jesus de Senhor e Salvador, porém, apesar disso, e em contradição com isto, vive sem amor, compaixão e verdade a começar de si mesmo, justiça bondosa, bondade justa, e o desejo de fazer a misericórdia triunfar sobre o juízo —, então, tal pessoa, mesmo conhecendo as histórias e os ensinos do Evangelho intelectualmente e como uma bela informação, não provará a Presença, pois, o “indo…” acerca do qual Jesus falou quando mandou “fazer discípulos” e contar com Sua presença até o fim dos séculos, não é um movimento geográfico, mas, antes disso, interior, e que põe o individuo, bem antes do que no chão de alguma “missão”, no chão do coração, no qual a viagem verdadeira é feita.

Ora, neste ambiente onde a missão de ser se inicia, o que vale não é saber a história de Jesus, mas viver a história conforme o espírito de Jesus.

O que temos hoje no chamado mundo cristão é um monte de gente carente, doente, sem a experiência de Deus, sem paz, deformadas pelas ambições de falsa espiritualidade, existindo apenas no mundo das performances e das superficialidades, enquanto vivem cheias de inveja; confessando-se santas, enquanto são taradas; dizendo-se povo de Deus, mas sem conhecer o caminho da pacificação interior; cheias de juízo, e que é do tamanho de sua falta de consciência de justificação na Graça, mediante a fé.

Ora, tais pessoas, como não conhecem a Deus, vivem buscando preencher esse vazio com cultos e mais cultos, com cargos eclesiásticos, com atividades missionárias, com corais, com mil obrigações expiatórias; e entregam-se ao comando espiritual de fabricantes de ídolos cristãos, que são as poções mágicas oferecidas em troca de contribuições em dinheiro, escondendo algo que se disfarça sob a nomenclatura de evangélico, e que é a coisa mais falsa que se poderia criar na Terra em nome de Jesus.

Esta, todavia, também é a razão das pessoas crentes serem tão infelizes, pois, trocaram Jesus pela “igreja”, deixaram o Evangelho, e se entregaram a “doutrinas e mandamentos de homens”.

Para tais pessoas, mesmo que confessem o nome de Jesus, não há paz para o coração. Sim, porque conhecem um nome, mas jamais provaram a Pessoa; e conhecem doutrinas, mas não estão tomadas pelo espírito da Palavra, que é o que se torna vida em nós.

Quando o coração discerne o Evangelho e seu significado hoje, então, quando lê nos evangelhos a promessa que diz “eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”, já não a lê como algo distante; e, nem tampouco diferente do significado dessas mesmas palavras para os primeiros discípulos.

Para quem conhece a Deus em espírito e em verdade, conforme Jesus, este Estou Convosco é verdade. E é verdade todos os dias, todas as horas, em todos os caminhos, e até mesmo nos enganos.[…]

Leia o texto completo no link abaixo:

Por que será que você confessa Jesus mas continua sem Deus? – Caio Fábio


Pessoas…

fevereiro 24, 2011

Se você procurar mais estar em paz com Deus e consigo mesmo, em vez de dar valor excessivo para o que os outros vão pensar, ou como vão interpretar o que você faz ou diz, vai estar livre de uma legião de demônios: as pessoas e as suas opiniões.

Cada um entende as coisas como pode ou como quiser entender: tem gente que, estando diante de uma pilha de ouro, enxerga merda;  e outros, que vendo merda, conseguem achar ouro no meio.

E será inútil gastar energia tentando fazer alguém que só vê merda em tudo, e que faz isso por vontade própria, enxergar diferente. Assim como só ouve quem tem ouvidos para ouvir, só enxerga quem tem olhos para ver.


The Inquisition: a history – Michael C. Thomsett

fevereiro 21, 2011

Introdução: Uma história de 400 anos – em quatro etapas (trechos)

Qualquer tentativa de escrever uma história, envolve uma série de julgamentos e decisões. A maior decisão é determinar o tom e ênfase apropriados. Como pode uma história ser compilada sem qualquer preconceito? Não pode, especialmente quando lida com um tópico tão controverso como a Inquisição. Não há dúvida, em absoluto, de que a Igreja e seus representantes chegaram a extremos  no tratamento dos suspeitos sob a Inquisição, algumas vezes com grande prazer e sadismo. Mas isso não condena toda a instituição da Igreja.

Apesar de séculos de abuso contra descrentes suspeitos, hereges, bruxas e eventualmente judeus e muçulmanos, para não mencionar cientistas e artistas, ainda resta a instituição da Igreja Católica Romana, que tem uma história com muitas variações e cores. Junto com muitos papas e inquisidores cruéis, há missionários e santos inspirados, cujas vidas foram devotadas à causa do Cristianismo e da salvação das almas. Este trabalho continua até hoje, e com seu sempre presente paradoxo, também a instituição da Inquisição, agora com um nome mais gentil, e com autoridade fortemente supervisionada, mas ainda em existência até hoje.

O desafio em escrever uma história dessa instituição complexa, com seus bons e maus feitos em conjunto, com uma série de papas inspirados e outros muito maus e corruptos, é tentar relatar os fatos como são. Todo mundo tem preconceitos, e nenhum historiador pode esperar que os seus preconceitos não venham à tona. Na tentativa de relatar com honestidade informações factuais sobre eventos e pensamentos no contexto da época, é possível evitar somente os extremos do preconceito. No caso da Inquisição, há dois extremos desse tipo que devem ser evitados.

O primeiro extremo é aquele dos fiéis sem questionamentos, que se tornam os apologistas da Igreja e até mesmo dos atos dos inquisidores, nas antigas câmaras de tortura em toda a Europa.  Os apologistas tendem a argumentar que os abusos não eram generalizados como muitos acreditam, ou que a tortura raramente resultava em morte para o acusado, ou que outros tipos de punição que se aplicavam na mesma época eram piores que os usados pela Inquisição. Os apologistas baseiam tais argumentos numa crença de que a igreja tem sempre existido para fazer a obra de Deus, e que colocar a Inquisição sob uma visão negativa é contrário a esse propósito. Para esse tipo de crente, pode ser muito difícil aceitar que a instituição da igreja foi por vezes, durante seus 2000 anos de história, dirigida por muitos maus jogadores.

No extremo oposto, está o indivíduo que é completamente anti-igreja e especificamente anti-católico. A tendência para esse tipo de indivíduo é encontrar os piores exemplos dos extremos, e expor somente os piores atores na história da Inquisição, colocando a igreja inteira sob a mesma égide de maldade e abuso. O efeito de ambos é obscurecer a história e aumentar a dificuldade de documentação. Por essa razão, contar a história envolve um ato de equilíbrio, um esforço para permanecer em algum lugar entre esses extremos, procurar por fatos que não só contem a história honestamente, mas também forneçam explicações a respeito dos bastidores, que possam lançar luz não só no que aconteceu, mas também porque aconteceu.[…]

[…]Como foi que a Igreja evoluiu de representante da filosofia pacífica de Cristo nesse tipo de poder autoritário global? Como forma de responder às heresias, a progressão da igreja, da não violência a queimar pessoas em estacas, pode ser traçada no tempo, quando a igreja alinhou a si mesma com o poder do Império Romano, para se tornar a Igreja Católica Romana. O ponto de vista de que a heresia e outros crimes contra Deus ou a igreja mereciam pena de morte, surgiu em torno do final do quarto século. Antes, a excomunhão era considerada uma punição adequada para crimes não temporais. Optato de Milevi foi o primeiro a citar exemplos do Antigo Testamento para justificar uma sentença de morte.[…]

 

[…]A “guerra justa” dos cristãos, baseada parcialmente em ensinamentos judaicos, agora fundida com o poder de Roma, e uma nova ideia de uma “Roma Santa” – abençoada pelo Cristianismo – uniu as crenças da Igreja com as políticas do Estado a respeito da pena capital. Descrentes e hereges eram vistos com o mesmo desprezo daqueles que cometeram crimes contra o Estado; a Igreja e o Estado tornaram-se uma coisa só e a mesma coisa, institucionalizada e permanente. Apesar do pensamento anterior e racional de Agostinho contra punições físicas, a Igreja desenvolveu um novo princípio, baseado nas políticas do Estado Romano, declarando a missão de uma guerra santa  (bellum sacrum) e de uma guerra justa (bellum justum). Deste ponto em diante, a guerra mesma tornou-se uma forma aceitável de fé cristã. Então, a Inquisição foi o fruto da união de Igreja e Estado, numa entidade única do Sacro Império Romano. Dado o poder inerente a essa união, é fácil entender como a Inquisição cresceu e se expandiu.[…]

The Inquisition: a history – Michael C. Thomsett

Apesar de o livro tratar da parte católica da Inquisição, vale lembrar que houve também as versões protestantes, que não foram menos cruéis.  O que explica a Inquisição, é a soberba humana de se achar no direito de punir o que considera “crimes contra Deus”, como se algum ser humano tivesse direito ou autoridade para “tomar as dores” do próprio Deus, e sair castigando, torturando e matando outras pessoas por causa disso. Em grande parte dos casos, não houve crime algum, muito menos contra Deus. Muita gente inocente foi torturada e morta, e muitos usaram a Inquisição como meio de se livrar de desafetos e inimigos. Outros, foram torturados e mortos apenas por pensarem diferente, por ousarem pensar por si mesmos, e expressarem livremente sua discordância com relação aos “dogmas” da instituição.

O que é verdade não precisa ser defendido por meio de força e violência. Se dizer cristão e, ao mesmo tempo, favorável a guerras “santas”, tortura e pena de morte, quer dizer que tem alguma coisa errada com esse cristão. Simples assim.


Deus, pássaros, árvores e gaiolas…

fevereiro 20, 2011

“Só os pássaros de gaiola é que querem poleiro. Para os livres qualquer galho serve. Deus inventou as árvores e os homens as gaiolas. A quem queres honrar?” Manuel Adriano Rodrigues

Palavras Perdidas (760) – A ovelha perdida


Cristãos e psicologia…

fevereiro 20, 2011

Fico triste quando vejo cristãos criticando a Psicologia, ao mesmo tempo em que, no meio cristão, é extremamente difícil, quase impossível, encontrar alguém que, como psicólogos e terapeutas fazem rotineiramente e com profissionalismo, ouça pessoas sem julgar, sem condenar e sem passar a tratar a pessoa de forma diferente depois de ter feito papel de “confidente”. E sem transformar o que foi dito na forma de confidência, em assunto de jornal, fofoca ou discussão de porta de igreja e lista de e-mails, envolvendo outras pessoas, que aquela pessoa que confiou em você, não procuraria. Um terapeuta ou psicólogo, como bom profissional, jamais expõe seus pacientes dessa forma desrespeitosa.

Tem alguns que fazem cursos fajutos de aconselhamento, e com isso se consideram “os” psicólogos, com direito a fazer diagnósticos e rotular os outros. E outros, que simplesmente usam os “podres” que ouviram, para exercer poder sobre as pessoas.

Se você deseja realmente ser ouvido, sem ser julgado, sem ser condenado, sem ser visto com outros olhos depois de ter precisado de alguém para compartilhar suas dores; mas nem sempre tem dinheiro para pagar por um terapeuta, os ouvidos de Deus estão sempre à disposição. Nesse Terapeuta, que não vê como o ser humano, você pode confiar sem reservas. E pode falar o que quiser, porque nada que você diga irá ofendê-Lo ou fazer com que o amor dEle por você diminua. E nada que você diga pra Ele, será transformado em fofoca, nem Ele vai trair sua confiança. Ele, ao invés disso, vai ficar feliz, por você ter confiado mais nEle do que em pessoas falhas.

E se precisa realmente de ajuda profissional, não tenha vergonha, nem dê ouvidos a pessoas ignorantes, que condenam  quem recorre à terapia ou ajuda psicológica. São ignorantes, nada além disso.

Não pode ser coincidência, que boa parte das pessoas que procuram ajuda de terapeutas e psicólogos, e boa parte das que precisam de internamento psiquiátrico, são evangélicos que a igreja tornou doentes.


Ame a pessoa que você vê

fevereiro 18, 2011

[…]É uma inversão triste, geralmente comum demais, falar e falar sobre como o objeto do amor deveria ser antes que possa ser amado. A tarefa não é encontrar um objeto amável, mas considerar o objeto diante de si amável – seja dado ou escolhido – e ser capaz de continuar considerando esse objeto amável, não importa o quanto essa pessoa mude. Amar é amar a pessoa que se vê. Como o apóstolo João nos lembra: “Aquele que não ama seu irmão, a quem ele vê, não pode amar a Deus, a quem ele não vê.” (1 Joao 4:20)

Considere como Cristo olhou para Pedro, uma vez que ele negou Jesus. Foi um olhar repelente, um olhar de rejeição? Não. Foi um olhar tal como o que uma mãe dá a sua criança quando a criança está em perigo devido à sua própria imprudência. Como ela não pode se aproximar e tomar a criança de perto do perigo, ela a desarma com um olhar reprovador mas salvador. Entao Pedro estava em perigo? Ah, nós não entendemos quão sério é para alguém trair seu amigo. Mas na paixão da raiva ou do ferimento o amigo ferido não consegue ver que o traidor é quem está em perigo. Ainda assim o Salvador viu claramente que era Pedro que estava em perigo, não ele, e que era Pedro que precisava se salvar. O Salvador do mundo não cometeu o erro de considerar sua causa como perdida porque Pedro não correu para salvá-lo. Em vez disso, ele viu Pedro como perdido caso ele não corresse para salvá-lo.

O amor de Cristo por Pedro era tão ilimitado que, ao amar Pedro, ele realizou o objetivo de amar a pessoa que se vê. Ele não disse: “Pedro, primeiro você precisa mudar e se tornar outro homem antes que eu possa te amar novamente.” Não, ele disse simplesmente o oposto: “Pedro, você é Pedro, e eu te amo; amor, e mais nada, vai te ajudar a se tornar uma pessoa diferente.” Cristo não terminou sua amizade com Pedro, e então a renovou quando Pedro se tornou um homem diferente. Não, ele preservou a amizade e dessa forma ajudou Pedro a se tornar um outro homem. Você pensa que Pedro seria ganho de volta, um dia, sem um amor tão fiel como esse?

Nós, gente tola, pensamos com freqüência que, quando uma pessoa mudou para pior, nós estamos livres de ter que amá-la. Que confusão de linguagem: estar livre de amar! Como se fosse uma questão de compulsão, um fardo do qual alguém quisesse se livrar! Se é assim que você vê a pessoa, então você realmente não a vê; você só vê indignidade, imperfeição, e admite assim que, quando você a ama, você não viu realmente a pessoa mas viu somente sua excelência e perfeições. O amor verdadeiro é uma questão de amar exatamente a pessoa que se vê. A ênfase não é em amar as perfeições, mas em amar a pessoa que se vê, não importa quais perfeições ou imperfeições aquela pessoa possa possuir.

Aquele que ama as perfeições que ele vê na pessoa não vê a pessoa, e portanto não ama verdadeiramente, pois tal pessoa cessa de amar assim que a perfeição cessa. Mas mesmo quando a mudança mais angustiante acontece, a pessoa não deixa de existir por causa disso. O amor não salta para o céu, pois ele vem do céu e junto com o céu. Ele desce e com isso realiza o objetivo de amar a mesma pessoa através de todas as suas mudanças, boas ou más, porque ele vê a mesma pessoa em todas essas mudanças. O amor humano sempre está voando em busca da perfeição do amado. O amor cristão, porém, ama a despeito das imperfeições e fraquezas. Em cada mudança o amor continua com ele, amando a pessoa que ele vê.[…]

S. A. Kierkegaard

Ame a pessoa que você vê – Kierkegaard diz! – Claus Meinhof Graf von Stauffenberg


On Soren Kierkegaard: Dialogue, Polemics, Lost Intimacy, and Time – Edward F. Mooney

fevereiro 16, 2011

Prefácio

Kierkegaard é exigente como escritor e como pensador, tanto quanto Platão ou Sócrates: sempre provocador, sempre inquietante, original, apaixonado pela argumentação e ao mesmo tempo pela imaginação, e loucamente indescritível. Esta dúzia de capítulos que tenho reunidos neste livro, são um registro da luta com seus temas centrais – paixão, ironia, subjetividade, ética, oração, repetição,  Augenblick (Øieblikket), poesia, auto-articulação, palavras, responsabilidade, coração inquieto, amor correspondido e não correspondido. Simultaneamente, são um registro da forma de lidar quando encontramos exemplificações evocativas, de pensamento e valor nas vidas de pessoas específicas de grande merecimento, estas exemplificações de mérito, destes personagens singulares, que parecem estar respondendo um chamado para ser o que são. E como é que estes personagens poderosos podem chamar um leitor, chamar Kierkegaard, nos chamar, para um outro ser melhor? Meus capítulos iniciais giram em torno de Sócrates, primeiro exemplo de Kierkegaard, uma figura que encarna e revela uma forma de ser ao mesmo tempo poética, ética e religiosa, de uma forma que Kierkegaard considerou inescapável atender ao seu chamado.

Isto dito, meus esforços com esses textos de Kierkegaard trabalham num espaço onde teologia e filosofia, literatura e ética, poesia e escritura, arte e sacramento se misturam, proporcionando atrações mútuas e inter-animações. Não precisam ser exclusivos um em relação ao outro, estar em atrito ou desconfiança mútua. Espero que esta mistura frutífera leve a novas possibilidades em filosofia e teologia.

Espero dar uma noção da abrangência e teor das obras de Kierkegaard, driblando o desafio de uma exaustiva (ou esgotante) viagem através de todo o seu trabalho, ou por todos os seus temas principais. E claro, há muitos Kierkegaard que podem ser encontrados na sua vasta produção, e há abordagens mais rigorosas e outras mais  descuidadas. Tento libertar o espírito de Kierkegaard, lançar luz sobre um Kierkegaard que nos leva bem além das simples teorias filosóficas, teológicas ou éticas, para um diálogo existencial reflexivo e polêmico, com os enigmas da nossa existência individual – como ele mesmo define seus empreendimentos internos, sofrimentos e lutas com coisas obscuras e estranhas, e não menos importante, consigo mesmo.

Ed Mooney
Syracuse, NY
Janeiro 1, 2007

On Soren Kierkegaard: Dialogue, Polemics, Lost Intimacy, and Time – Edward F. Mooney – Ashgate