The first Paul – Marcus J. Borg & John D. Crossan

abril 29, 2011

Descrição: Paulo perde apenas para Jesus como pessoa mais importante no nascimento do cristianismo, e continua a ser uma figura controversa, mesmo entre os cristãos. Como é possível que as cartas de Paulo sejam usadas tanto para inspirar graça radical e endorsar sistemas opressivos – apologia à escravidão, submissão das mulheres, condenação do comportamento homossexual? Borg e Crossam usam o que há de melhor nas pesquisas bíblicas e históricas para explicar as razões pelas quais Paulo tem essa reputação ambígua e nos revelam o que os acadêmicos já sabem há décadas: que as últimas cartas de Paulo foram criadas pela igreja primitiva para diluir a mensagem igualitária de Paulo e transformá-lo em uma figura mais “aceitável”. Eles argumentam que existem “três Paulos” no Novo Testamento: o “Paulo radical” (autor das sete cartas que são consideradas genuínas), o “Paulo conservador” (o das três epístolas cuja autoria ainda é motivo de disputas), e o “Paulo reacionário” (o das três epístolas que são consideradas como não sendo de autoria dele). Examinando de perto essa progressão nas cartas de Paulo – das autênticas às falsas – os autores mostram como o apóstolo foi lentamente, mas com firmeza, “desradicalizado” para se adequar às normas sociais romanas, no que diz respeito à escravidão, patriarcado, e patronato. Na verdade, Paulo era um apóstolo apaixonado de Jesus, cujas visões da vida “em Cristo” – uma das suas frases favoritas – é marcadamente fiel à mensagem do próprio Jesus.

The first Paul: reclaiming the radical vision behind the church’s conservative icon – Marcus J. Borg & John D. Crossan


Como é difícil pensar fora da caixa

abril 27, 2011

por Ricardo Gondim

Os mais idosos ganham certos direitos com a idade. Não precisam esperar em filas, têm desconto nas bilheterias dos teatros e, no Brasil, não pagam passagem de ônibus. Envelhecer tem outras vantagens menos óbvias. Os mais experientes ganham o privilégio, por exemplo, de se zangarem. Permitimos que reclamem dos barulhos inconvenientes, de casa mal arrumada e de outros detalhes que chateiam.

Estou longe de tornar-me um velho, mas já reivindico pelo menos um privilégio: quero o direito de me aborrecer com pessoas preguiçosas para pensar. Descobri também um horror: o universo dos indolentes mentais é muito maior do que jamais imaginei. Dou exemplo. Um aluno de teologia visitou meu site e mandou a seguinte mensagem:

“Ricardo, meu professor advertiu-me que você vem escrevendo muitas heresias e que eu devo fugir de sua influência perniciosa. O que você tem a me dizer? É verdade”?

Confesso que meu sangue cearense, “cabra da peste”, ferveu. Tive vontade de jogar qualquer escrúpulo às favas, vestir o uniforme de idoso, e responder ao noviço: “Senhor bobão, você acabou de acessar um site com centenas de textos que escrevi nos últimos quatro ou cinco anos. Por que não se dar ao trabalho de ler e tirar, por você mesmo, algumas conclusões?”.

Imaginei que feriria a sensível piedade do jovem. Apaguei a mensagem, contei até dez e não respondi nada. Mas fiquei remoendo, com vontade de escrever uma única frase: “Realmente, não parece justo que haja tanto empecilho para a liberdade e que seja tão fácil aceitar cabrestos”.

Pensar não é difícil. Pode ser perigoso, mas não é complicado; pode ser trabalhoso, mas não é proibido.

Prefiro correr o risco de me expor às ameaças de um grupo que me rotula como herege peçonhento a ser encabrestado por um mestre obtuso e preconceituoso. É muito mais digno ter opinião própria do que regurgitar preconceitos mal digeridos por alguém.

A religião tenta preservar-se. Para isso, cria “guantánamos”. Os “Galileus”, que ousam afirmar suas constatações, são odiados por sacerdotes até que se retratem.

Quando alguém se arrisca e pisa fora do quadrado, é caçado, como João Huss que não se conformou com as viseiras farisaicas que lhe foram dadas. Alguns, como Martin Luther King, que não se curvou ao status quo, precisam sumir.

A religião de certezas não tolera uma espiritualidade que aceite quaisquer incertezas. O fariseu precisa de sistemas herméticos para que sua opinião permaneça. Na base da certeza religiosa está a escassez de diálogo. Merecem castigo os que se abrirem à  verdade que não consta nos autos de fé. Diante do dogmatismo, quem se atreve a pedir explicações ganha o exílio.

A elite eclesiástica rotula de apóstata quem tenta olhar por cima das cercas dadas. Ela acha danoso ver se há vida fora do seu pequeno catecismo. Ao religioso não interessa defender o livre pensar. Melhor criar um ambiente de ojeriza aos “rebeldes” para que se duvide o que eles afirmam antes de mesmo de ser dito.

Lamentavalmente, o problema não vem só do censor. Nem todos gostam da liberdade, alguns preferem a canga, o jugo do espírito de manada; cabisbaixos, obedecem, odeiam, rejeitam, sem questionar.

Há momentos em que as prerrogativas do velho me dão vontade de gritar: “Pense, amigo. Por favor, pense!”. Outras vezes fico piedoso e quero, de joelhos, implorar: “Meu irmão, leia; busque adquirir a maior riqueza que alguém pode possuir: o bom senso”.

Acho que já tenho idade de confessar nervosismo com gente que se deixou massificar pelo ambiente religioso. Aprendi na internet o hashtag #faleiepronto; então, vai lá o meu: “Não suporto mais conversar com pessoas que se contentam em repetir jargões e não têm coragem de assumir todas as consequências do que acabaram de dizer“.

Mesmo que fique cada dia mais complicado ler mensagens iguais às que recebi do jovem seminarista, estou decidido: vou continuar. Repartirei ideias, percepções e sentimentos que me são caros. Meu único desejo é contribuir com nossa humanização.

E que Deus me ajude!

Soli Deo Gloria

Como é difícil pensar fora da caixa – Ricardo Gondim

Eu tenho bem menos idade que o Gondim, e também me sinto assim, muitas vezes. E como ele mesmo costuma dizer, embora não com essas mesmas palavras, “opinião por opinião, prefiro a minha própria, construída e vivida por mim pessoalmente”. Pelo menos é minha, pensada por mim, matutada, experimentada, e não simplesmente algo que foi engolido sem nem ser analisado, só porque alguém apelou à própria suposta autoridade, para tentar me impor as suas opiniões. Pode ser que eu pense, e depois de muito pensar, acabe chegando à mesma conclusão de outros antes de mim (ou discordando completamente deles), mas não tem problema; o que interessa é não deixar de usar a massa cinzenta, só porque alguém acha que você não tem esse direito.


Desviado?

abril 25, 2011

Uma pena constatar, que ainda persiste o pensamento equivocado em alguns religiosos, de que não estar ligado a nenhuma instituição religiosa, é sinônimo de estar afastado de Deus, ou “desviado”, palavra que os tais defensores das instituições usam para se referir, de forma pejorativa, a todos que não andam conforme suas cartilhas e não assinam embaixo dos seus estatutos. Como se a instituição fosse intermediária entre homens e Deus, e como se só quem tem cargos e títulos reconhecidos ou fornecidos pela instituição, fosse reconhecido diante dEle. Quando muitas vezes, as instituições impedem que pessoas se relacionem verdadeiramente com Deus, porque já possuem outros “deuses” ou “ídolos” que ocupam o Seu lugar, na forma de pastores, bispos, apóstolos, profetas e etc, que muitas vezes exigem adoração e devoção irrestritas, por parte das pessoas. Exigem para eles a honra que só é devida a Deus. Pastores/bispos/apóstolos que agem como “donos” de igrejas, autoritários, e alguns que, apesar do título de “pastor”, não cuidam de ovelha nenhuma, porque vivem viajando ou viram políticos.

Um dia, quem sabe, estes religiosos, que defendem a instituição como se fosse ela a “igreja”, como se a “igreja” fosse o prédio e a organização, com CNPJ e cargos remunerados, e não pessoas que compartilham a mesma fé, estejam elas onde estiverem, entendam que esse tipo de argumento pejorativo, não vai levar nenhum suposto “desviado” de volta para debaixo dos seus telhados. Nem todo “desviado” se sente afastado de Deus como esses religiosos dizem que todos estão, por não estarem se juntando debaixo de um telhado eclesiástico, então porque voltariam? O fato de se reunirem em casas ou outros lugares que não seja o telhado eclesiástico, que eles, os religiosos, acham melhor do que qualquer outro telhado (porque é o telhado deles, claro), não implica que estejam vivendo “graça barata” ou “evangelho light”. Muitas vezes é exatamente o contrário. Consideram esses que recusam seus telhados eclesiásticos, o “pior” tipo de “desviado”. Será mesmo que são todos “desviados” e do “pior” tipo? Será? Tenho sérias dúvidas a respeito disso.

Igreja é uma só, e dela fazem parte todos os discípulos de Jesus, não interessa sob qual telhado se reúnem, ou se não se reúnem sob nenhum telhado. Como poderia ser diferente? Se só existe uma cabeça, que é Jesus, só pode haver um corpo, certo?

E se há religiosos que defendem a instituição, tendo por motivação, ainda que oculta, o fato de que são sustentados por essa instituição, estão falando em causa própria, e não porque se preocupam com a vida espiritual dos supostos “desviados”, a qual eles, com certeza, não conhecem. Do contrário, não usariam esse tipo de argumento. Vivem de conferências, seminários, congressos e o escambau (algumas instituições já têm até agências de viagem próprias, para levar pessoas aos seus próprios eventos, congressos, seminários e conferências), onde falam apenas uns para os outros, enquanto pessoas continuam morrendo do lado de fora dos seus anfiteatros, hotéis de luxo e salões de eventos. E ainda se julgam no direito de rotular alguém de “desviado”. Líderes religiosos, que, por exemplo, organizam e incentivam os crentes a participar de eventos caríssimos em Israel, nem que seja preciso se endividar com o cartão de crédito ou cheques pré-datados, deviam olhar para si mesmos antes de dizer que os outros é que são desviados. Qual a finalidade de se fazer em Israel, um evento onde tanto preletores quanto a plateia, são brasileiros? Eu prefiro muito mais o evangelho simples, a essa “indústria gospel” que apesar de movimentar milhões de reais, não sacia as necessidades espirituais das pessoas (nem as necessidades dos materialmente necessitados), e que agora envolve também “turismo gospel”, e isso inclusive entre os mais fundamentalistas.

Argumentação fraca, sem conexão com a realidade, apelativa e lamentável.

Para não me repetir muito, vai outra postagem minha onde falo do mesmo assunto:

Carta aos igrejados


Os crentes e o domingo de páscoa…

abril 24, 2011

Hoje, domingo de páscoa, muitos crentes não estão celebrando coisa alguma, porque sabem que Jesus morreu numa quarta-feira e não numa sexta-feira, e que a páscoa no domingo, é criação da igreja católica e etc. Mas suponha que você faça aniversário no meio da semana  e, por causa do trabalho, ou porque se comemorar no meio da semana, alguns dos seus amigos não poderão estar presentes, é mais conveniente comemorar só no final de semana. Vai fazer alguma diferença se a data da comemoração não é exatamente a do seu aniversário? Você sabe que não é, mas comemora do mesmo jeito, porque não é a data que está sendo celebrada, e sim, o acontecimento, o evento, a pessoa. O literalismo e a rigidez em que a religião se transformou para essas pessoas, impede-as de ver as coisas desta forma. A celebração da memória de Jesus só vale se for exatamente no dia, do contrário, não celebram nada, e ficam olhando com cara feia para os que o fazem.

Eu, por exemplo, não como carne vermelha na sexta-feira antes da páscoa (que os católicos chamam de sexta-feira santa), mas não porque acho que faça alguma diferença comer ou não comer carne vermelha (e acho até ridículo alguns ateus que fazem churrasco de carne vermelha nesse dia, e se gabam disso, como forma de provocação; comportamento infantil da parte deles). E sim, porque como muitas outras pessoas fazem o mesmo, a variedade de peixes no mercado aumenta, e nada como desfrutar de um saboroso prato a base de peixes (e preparar peixes é especialidade minha, então junta a fome com a vontade de comer – e sempre se aproveita para comprar mais, congelar e fazer em outros dias)… :P

A mesma coisa com relação ao sábado, que algumas pessoas acham que deve ser guardado exatamente da forma como é feita pelos judeus. Mas a religião foi feita para o homem, e não o homem para a religião; então não importa se o dia que você escolhe para descansar é sábado ou domingo ou qualquer outro dia da semana, o que importa é que você tenha esse dia de descanso, porque o corpo humano precisa disso. Você pode até considerar determinadas horas do seu dia como pequenos “sábados”, onde você não faz mais nada além de descansar; onde desliga o celular, o computador, a televisão, e se entrega ao descanso tão necessário ao seu corpo e sua mente, e só. E claro que se você não quiser, não precisa ter um dia só de descanso, e mesmo tendo, não precisa transformar isso em lei, e ficar escravo dessa lei. Jesus veio para libertar de todos os tipos de escravidão, inclusive esse tipo de escravidão a esquemas e dias e horas e comidas. Problema crônico dos crentes: saber fazer uso da liberdade, da consciência e da liberdade de consciência, sem precisar que outros lhes ditem as regras que devem obedecer.

Quanto mais conhecimento se adquire, mais consciência se tem do que está fazendo ou deixando de fazer. Não importa se Jesus morreu na quarta ou na sexta-feira, o que importa é ter consciência do que está sendo celebrado. Não importa se a data coincide com uma festa pagã, se na sua consciência, você sabe muito bem o que está celebrando. E isso se aplica a todas as outras coisas. É simples, os homens é que complicam.

E às vezes acho que é até uma contradição, quando um crente não celebra a páscoa porque é católica, mas faz uma festa de arromba para comemorar o aniversário de Calvino ou Lutero, ou a reforma protestante. Na celebração da páscoa pelo menos, o foco da celebração é Jesus. Quem é mais importante?


What would Jesus deconstruct? – John D. Caputo

abril 24, 2011

Ainda não tinha lido nenhum livro deste autor, e literalmente, este foi lido “de uma sentada”. Nele, John Caputo desfaz a ideia errônea de que “desconstruir” a igreja e o cristianismo, é sinônimo de “destruir”; para ele, desconstruir tem muito mais a ver com reconfigurar, recordar a memória de Jesus, realinhar. O que Jesus faria ou diria caso chegasse agora e visse o que temos feito e dito em seu nome por aqui? Jesus seria mais parecido com os religiosos, ou com aqueles que fazem com que os religiosos mudem para o outro lado da rua quando cruzam seu caminho? A fé é fé de verdade, não quando se tem certeza do resultado, e sim, quando se está diante do impossível, da noite escura da alma. Esperança verdadeira não é quando acreditamos que há alguma possibilidade de um desfecho favorável, e sim, quando tudo parece já perdido. O amor é amor de verdade não quando amamos nossos amigos ou tudo que é amável e fácil de amar, e sim, quando amamos o que é exatamente o oposto, pessoas que não merecem, inimigos, os que não nos amam nem nos retribuem o amor. Estamos realmente no caminho da fé, esperança e amor, quando o caminho está bloqueado; estamos realmente no caminho, quando o caminho parece impossível. É exatamente o “impossível” que torna possível a caminhada. O verdadeiro perdão só é possível quando se perdoa o que seria imperdoável. Diferente do que os religiosos fizeram do perdão, como algo que só pode ser oferecido diante de cumprimento de exigências. Perdão é graça, é gratuito, é um presente imerecido, mas os religiosos agem como banqueiros do perdão, exigindo que antes de ser perdoada, a pessoa se enquadre nas suas exigências. O verdadeiro perdão não é um negócio, é incondicional, algo que é visto como loucura ou impossível.

O Deus do perdão e da compaixão se transforma num holofote diante dos hipócritas que, sob uma capa de religiosidade, oprimem as pessoas mais indefesas da sociedade. Para Jesus, o amor a Deus e ao próximo era coisa séria, por isso suas manifestações de ira são quase todas contra esse tipo de hipocrisia religiosa, bem como a hipocrisia dos ricos e poderosos diante dos pobres e oprimidos. O mesmo tipo de hipocrisia que impulsiona os que são contra o aborto, mas ao mesmo tempo, são favoráveis à pena de morte e à guerra, e não se importam com a fome que assola um bilhão de habitantes do planeta, e ceifa milhares de vidas todos os anos. A hipocrisia dos que são contra os métodos contraceptivos e o planejamento familiar, mas não ajudam depois as famílias que não dispõem de recursos, a sustentar e dar dignidade aos filhos.

A ortodoxia se torna idolatria, quando significa abraçar a “opinião mais correta” a respeito de Deus – o “fundamentalismo” é o mais extremo exemplo desse tipo de idolatria. A ortodoxia não é idolatria quando significa abraçar a fé de forma correta, ou seja, amando e servindo. A teologia se transforma em idolatria, quando implica em nós falando a respeito de Deus, em vez de ouvir o que Deus tem a dizer para nós. A fé se torna idolatria quando se enche de certezas em vez de estar diluída nas águas da dúvida.

Desconstruir o cristianismo não significa atacar o cristianismo. É uma crítica aos ídolos aos quais o cristianismo está vulnerável: o literalismo, o autoritarismo, o sexismo, o racismo, o militarismo, o imperialismo, o amor irrestrito ao capitalismo, coisas essas que são tóxicas ao Reino de Deus.

“Mas o que é então, o Reino de Deus? Onde pode ser encontrado? O reino de Deus é encontrado toda vez que uma ofensa é perdoada, toda vez que um estrangeiro é bem recebido, toda vez que um inimigo é abraçado, toda vez que os últimos se tornam os primeiros, toda vez que a lei é feita para servir como instrumento contra a injustiça, toda vez que a lei e os profetas são superados pelo amor.” John D. Caputo

What would Jesus deconstruct? The good news of Post-modernism for the church – John D. Caputo


Deus e a religião segundo H. G. Wells

abril 22, 2011

A maioria das pessoas conhece H. G. Wells como escritor de ficção científica, de livros como Guerra dos Mundos (que inspirou o filme de mesmo nome), A Máquina do Tempo, entre outros. Mas são poucos os que conhecem o lado religioso desse autor britânico. Abaixo, transcrevo trechos de um livro dele, onde fala a respeito de seus pontos de vista sobre Deus e a religião.

[…]Um dos mais universais e naturais dos equívocos a respeito de Deus, é considerá-Lo como algum tipo de mágico, a serviço dos desejos humanos. Não é fácil para nós entender o significado completo de dar nossas almas a Deus. Missionários e professores de qualquer credo, estão todos aptos a anunciar Deus pelo que Ele pode oferecer; sã0 ávidos pelo triunfo pobre da aquiescência; e assim acontece que muitas pessoas que são levadas a acreditar que são religiosas, estão, na realidade, retendo suas próprias almas e tentando usar Deus para os seus próprios propósitos pessoais. Deus nada mais é para elas, do que um Fetiche magnificente. Elas não o desejam de verdade, mas sim, ouviram falar que Ele é poderoso; suas almas imaturas pensam em fazer uso dEle.  Chamam pelo Seu nome, fazem certas coisas que supostamente exercem influência diante dEle, tais como dizer orações e repetir grandes elogios a Ele, ou lendo cegamente, de maneira diligente, aquela estranha miscelânea de literatura judaica e cristã, a Bíblia, e outras mortificações mentais semelhantes, ou fazendo do Sábado um dia aborrecido e desconfortável. Em resposta a essas propiciações fetichistas, supõe-se que Deus é obrigado a interferir no curso normal das coisas, em nosso favor. Ele se torna um gênio celestial. Ele remedia situações desfavoráveis, cura enfermidades mesquinhas, proporciona milagres na medicina, dinheiro ou outras coisas parecidas, evita falências, arranja transações vantajosas, e faz mil e um serviços para essa sua panelinha de fiéis. […]

[…]O encontro com Deus é o início do ato de servir. Não é um escape da vida e da ação; é a liberação da vida e da ação da prisão do self  mortal. […]

[…]O ódio natural dos homens não regenerados, contra tudo que é diferente deles mesmos, contra pessoas estranhas ou alegres, contra costumes ou coisas que não lhe são familiares, ou que eles não entendem, fez com que se encarnasse neles esta concepção de uma Deidade maligna e partidária, perpetuamente transtornada pelas pequenas coisas que as pessoas fazem, e planejando assassinatos e vinganças. Agora, esse Deus está afogando todos os habitantes do mundo, ou incendiando Sodoma e Gomorra; ou incita seu povo israelita aos mais terríveis progroms.[…]

[…]Eu, o autor, era contra esse Deus que assim é apresentado. Ele e o seu inferno eram os pesadelos da minha infância; eu odiava Deus, acreditava nEle, mas que outra coisa podia fazer além de ter ódio dEle? Pensava nEle como um monstro, perpetuamente esperando para condenar e para “me levar à morte”; suas chamas eram como um incêndio em uma sala de grelhados. Estava sobre mim e minhas fraquezas e esquecimentos, assim como o céu e o mar estariam para uma criança se afogando no meio do oceano. Quanto eu tinha apenas 13 anos, pela graça do Deus verdadeiro, expulsei essa mentira da minha mente, e por muitos anos, até que cheguei a ver que o próprio Deus é que estava fazendo isso por mim, o nome de Deus não significou  nada para mim, pois havia uma trava em meu coração, onde estava esse terrível demônio. […]

[…]A história do Cristianismo, com suas incrustações e sufocação em dogmas e costumes, suas terríveis perseguições contra os infiéis, sua dessecação e decadência com relação ao amor, a invasão de vestimentas e rituais e todos os hábitos e vícios dos Fariseus, os quais Jesus detestava e denunciava, é cheio de alertas sobre os perigos de uma igreja. Organizações são coisas excelentes para as necessidades materiais dos homens, para desenhar cidades,  fazer controle de tráfego, coleta de ovos, entrega de correspondência, a distribuição de pão, a notificação do sarampo, para a higiene e a economia e outras coisas semelhantes.  Quanto melhor essas coisas são organizadas, mais livre e melhor equipada deixamos a mente humana para propósitos nobres, para aquelas aventuras e experimentos em direção aos propósitos de Deus, que são a realidade da vida. Mas todas as organizações devem ser vigiadas, porque tudo que é organizado, pode ser “capturado” e usurpado.  O arrependimento, além disso, é o começo e a essência da vida religiosa, e organizações (agindo por meio de suas secretarias e oficiais) nunca se arrependem. Deus trata somente com o indivíduo e com entregas individuais. Não toma conhecimento de comitês.

Aqueles que estão mais vivos para a realidade da vida religiosa, são os mais desconfiados da tendência à congregação. Reunir-se, é adquirir um benefício à custa de uma perda maior, reforçar o sentido de fraternidade pela exclusão da maioria da humanidade. […]


The lost history of Christianity – John Philip Jenkins

abril 19, 2011

Trechos do Capítulo 1 – The End of Global Christianity

As religiões morrem. Ao longo do curso da história, algumas religiões desapareceram completamente, enquanto outras são reduzidas, de religiões mundiais a um punhado de aderentes. O maniqueísmo, uma religião que chegou a ter aderentes da França até a China, não existe mais de nenhuma forma organizada ou funcional; a mesma coisa com as religiões que dominavam o México e a América Central, meio milênio atrás. Em alguns casos, certas religiões podem sobreviver em algumas partes do mundo mas se tornam extintas em territórios que antes eram dominados por elas. Durante mil anos, a Índia era majoritariamente Budista, uma religião que agora tem status insignificante no país. A Pérsia já foi do Zoroastrismo; a maior parte da Espanha,já foi muçulmana. Não é difícil encontrar países ou até mesmo continentes, que foram o “berço” e terra de origem de uma religião particular, e onde esta religião está agora extinta, e tais desastres não se restringem a crenças “primitivas”. Os sistemas que pensamos ser de grandes religiões mundiais são tão vulneráveis à destruição como foram as religiões dos Astecas ou Maias e seus deuses particulares. O Cristianismo, também, foi em muitas ocasiões, destruído em regiões onde um dia, floresceu. Na maioria dos casos, a eliminação foi tão completa que obliterou qualquer memória de que os cristãos  já estiveram lá, então hoje qualquer presença cristã nesses lugares é vista como um tipo de espécie invasiva vinda do ocidente. No entanto, tal comentário acerca da destruição das igrejas vai contra a história do Cristianismo como ela aparece na consciência popular.

Geralmente, essa história é apresentada como uma lenda de constante expansão, do Oriente Médio até a Europa e finalmente no mundo todo. O Cristianismo parece ter se estendido de forma livre e inexorável, por isso raramente pensamos em grandes reveses ou contratempos. Quando ouvimos sobre desastres e perseguições, são geralmente mencionados como o prelúdio para grandes avanços posteriores, uma oportunidade para a resistência heroica à opressão. Os protestantes sabem como a sua fé sobreviveu a todas as perseguições e abate das guerras religiosas; os católicos lembram como as piores atrocidades inflingidas por regimes protestantes ou ateus não puderam silenciar sua crença. Observadores modernos testemunham a sobrevivência das igrejas sob o Comunismo, e o triunfo final simbolizado pelo papa João Paulo II. Como ensina o hino, a verdade permanecerá, apesar da masmorra, do fogo e da espada.

Qualquer pessoa que seja familiar com a história do Cristianismo, leu sobre a plantação, origem e desenvolvimento das igrejas, mas quantas delas conhecem relatos do declínio ou extinção de comunidades ou instituições cristãs?  A maioria dos cristãos considerariam esse conceito muito inquietante. Entretanto, esse tipo de eventos certamente aconteceu, e mais do que pode-se imaginar. Durante a Idade Média, deserções em massa e perseguições através da Ásia e do Oriente Médio, desenraizou o que então eram as mais numerosas comunidades cristãs do mundo, igrejas que possuíam uma conexão linear e cultural vibrante com os primeiros cristãos da Síria e Palestina. O Japão do século XVII eliminou completamente uma presença cristã, que fez o Cristianismo global ficar muito perto de se tornar uma força real no país, possivelmente até, conseguir uma conversão nacional. Repetidamente ao longo da sua história, a árvore da igreja tem sido podada e cortada, algumas vezes, com selvageria.

Estes episódios de remoção ou destruição em massa marcaram profundamente o caráter da fé cristã. Nos tempos atuais, estamos acostumados a pensar no Cristianismo como tradicionalmente embasado na Europa e na América do Norte, e só gradualmente aprendemos o conceito estranho da disseminação da religião a um estágio global envolvendo a África, Ásia e América Latina.  Tão enraizado está o Cristianismo na herança ocidental que parece revolucionário contemplar esse tipo de globalização, com todos os seus impactos potenciais na teologia, arte e liturgia. Uma religião que é geralmente relacionada com a Europa, de alguma maneira tem que se adaptar a esse mundo exterior, ajustando muitos pressupostos desenhados pela cultura europeia.  Alguns chegam a perguntar se este cristianismo global ou mundial, poderia permanecer totalmente autêntico, pois as normas europeias parecem representar um tipo de padrão áureo para o cristianismo.

Mas tais questões são irônicas quando visualizamos quão não natural é a ênfase Euro-americana, quando vista diante do contexto mais amplo da história cristã. A forma específica de Cristianismo com a qual estamos familiarizados é uma parte radical do que ao longo de um milênio foi a norma histórica: outro cristianismo global, mais antigo, já existiu. Na maior parte da sua história, o Cristianismo foi uma religião tricontinental, com representações poderosas na Europa, África e Ásia, e isso era verdade no século XIV.  O Cristianismo se tornou predominantemente europeu, não porque este continente tivesse alguma afinidade pela fé cristã, mas por essa razão: a Europa foi o continente onde o Cristianismo não foi destruído. Essa questão poderia ter se desenvolvido de forma bem diferente.

Na descrição da queda das igrejas não europeias, não estou oferecendo um lamento por uma hegemonia cristã mundial que nunca ocorreu, e muito menos pelo fracasso em resistir à religiões rivais, tais como o Islã. Devemos, sim, lamentar a destruição de uma cultura outrora florescente, assim como podemos lamentar o fim da Espanha muçulmana, da Índia budista, ou o mundo judaico da Europa Oriental. Com a possível exceção de algumas poucas religiões sangrentas ou violentas, a destruição de qualquer tradição religiosa significante, é uma perda irreparável para a experiência e cultura humanas. Além disso, a experiência cristã oferece lições que podem ser aplicadas, de forma geral, ao destino de outras religiões que sofreram perseguição ou eliminação.  Se uma crença tão vigorosa e difundida como foi o Cristianismo do Oriente Médio ou da Ásia, pôde cair em total esquecimento, nenhuma religião está livre de passar pelo mesmo. E os meios pelos quais essa queda surpreendente ocorreu, pode ser de grande interesse para qualquer um interessado em contemplar o futuro de qualquer crença ou denominação.

Acima de tudo, redescobrir esses mundos perdidos do cristianismo da África e Ásia, levanta sérias questões sobre a natureza da memória histórica. Como podemos ter esquecido uma história tão vasta? Em termos da história do Cristianismo, o qual geralmente associamos tão prontamente com o ocidente, muito do que pensamos que sabemos é impreciso, em termos de lugares e épocas nos quais as coisas aconteceram, e como as mudanças religiosas ocorreram. Além disso, muitos aspectos do Cristianismo que concebemos serem modernos, eram na verdade a regra do passado distante: a globalização, o encontro com outras religiões, e os dilemas de viver sob regimes hostis. Como podem os nossos mapas mentais sobre o passado, estarem tão radicalmente distorcidos?

The lost history of Christianity: The thousand-year golden age of the Church in the Middle-East, Africa and Asia – and how it died – John Philip Jenkins