Sobre a fé

março 4, 2019

Acabei de ler Dynamics of Faith, de Paul Tillich. Nele, o autor discorre sobre o que é fé, quais seus tipos e sua dinâmica.

Paul Tillich explica que nosso relacionamento com o sagrado, quando não embasado realmente em Deus, pode gerar uma fé idólatra, com consequências demoníacas e destrutivas. Segundo ele, quando alguém embasa sua fé em uma fonte de idolatria, qualquer falha pode fazer com que a pessoa perca o centro sobre o qual embasou toda a sua vida. Isso acontece quando colocamos como centro da nossa fé, uma figura de autoridade, uma nação, um livro, um conjunto de doutrinas. Muitos definem a fé como crença sem evidência, mas nada está mais longe da verdadeira fé do que isso. A fé entendida como crença sem evidência, entra em conflito com a razão, pois muitas vezes a razão vai contra as interpretações literais que o fiel faz sobre mitos e símbolos da sua religião. Acontece com o cristianismo, quando a história da criação contida no livro de Gênesis é levada ao pé da letra. O conflito com a razão é inevitável.

Já a fé verdadeira, coloca Deus em seu centro, e a partir dEle, constrói todo o resto. A fé verdadeira não se opõe à razão, pois estão em dimensões diferentes, e o conflito entre ambas não existe. A fé verdadeira usa mitos, símbolos, rituais e sacramentos como forma de expressão de uma realidade transcendente, e não interpreta símbolos e mitos como se fossem verdades literais.

A fé idólatra é destrutiva, entra em conflito com a razão e com a ciência. A fé quando entendida como crença sem evidência, não admite a dúvida. A fé idólatra gera fanatismo, e o fanático não consegue amar o que vai contra a sua crença. A fé como um conjunto de doutrinas aceitas e defendidas apaixonadamente, não consegue produzir atos de amor. Os mais terríveis crimes contra o amor foram cometidos em nome de doutrinas defendidas fanaticamente. A fé idólatra é necessariamente fanática. A fonte da idolatria é também a fonte da intolerância.

A fé verdadeira é criativa e não tenta ocupar o espaço da razão nem o da ciência. A dúvida é um elemento da sua estrutura, assim como a coragem e o risco. A verdadeira fé é um ato pessoal, individual. Implica no amor, como desejo de reunir os que estão separados dela. Seus rituais e sacramentos não são supersticiosos, mas apenas meios de expressão e de relacionamento com o Ser supremo.

Quando os rituais e sacramentos são distorcidos e vistos como realidades mágicas pela fé idólatra, isso afasta as pessoas, e elas passam a adotar sistemas morais sem religião. Se um mito é interpretado literalmente pela fé idólatra, a filosofia, a razão e a ciência o rejeitam como absurdo. Quando histórias sagradas deixam de ser vistas como mitos, o mito se transforma em filosofia da religião, e finalmente, em filosofia sem religião.

A expressão do amor gerado pela verdadeira fé, é a ação. O elo de ligação entre a fé e a ação é o amor. O tipo de fé determina o tipo de amor e o tipo de ação. A idolatria é incapaz de gerar ação baseada no amor, pois o idólatra não consegue amar o próximo como ama a si mesmo e como ama as doutrinas da sua religião.

Muitas igrejas protestantes, ao tentar eliminar a superstição do culto, destruíram também o ritual e eliminaram a experiência do sagrado, deixando espaço apenas para a fé idólatra, sem amor e sem ação. Nota-se muito disso no Brasil, onde a pessoa se diz crente mas não há nenhum sinal disso na sua vida. Não há indício de preocupação com o próximo nem de transformação de caráter. O crente médio é um repetidor de chavões e de comportamentos impostos por um líder que se diz pastor, mas não é.  O pastor se torna um condicionador de comportamento em vez de ser alguém que instiga o fiel a buscar ser parecido com Cristo.

Deus nos livre de nos tornarmos idólatras, ou adeptos de uma filosofia sem religião, distante do sagrado e vazia. Deus nos livre de preferir o condicionamento a regras de comportamento e chavões, em vez de deixar o Espírito dEle nos moldar.


Mais ortodoxia

janeiro 1, 2018

Nesses dez anos desde que passei a me considerar cristã, gastei um bom tempo flertando como todo tipo de teologia considerada “não ortodoxa”. Não sei dizer se fiz isso por vontade de investigar a fundo a religião onde estava ingressando, ou por mera dificuldade em aceitar a fé como ela vem sendo explicada desde o princípio. Talvez fosse um pouco das duas coisas.

Não pretendo aqui entrar no mérito das teologias e doutrinas diferentes que vi por aí. Mas é possível ter uma ideia lendo coisas antigas aqui do blog. Posso apenas afirmar que depois de tanta viagem, encontrei, como Chesterton, o bom e velho cristianismo de 2000 anos. Os modismos passam, as teologias mudam, os teólogos morrem e com eles boa parte das suas ideias, desaparecem. Muitas delas sequer deixam vestígios. Muitos dos que eram recentemente bastante ativos, deixaram de ser relevantes e incensados, e foram rapidamente esquecidos. A boa e velha nova do evangelho é a que permanece.

Hoje prefiro me aprofundar na história do cristianismo e deixar de lado esse tipo de debate sobre Deus ser onisciente ou não, saber o futuro ou não e coisas do tipo. Na história do cristianismo acabamos percebendo não haver mesmo nada novo sob o sol. Tudo já foi debatido antes. Deixei de lado também muitos dos teólogos pós-modernos, pois em algum momento percebi serem mais filósofos do que teólogos. Em outro momento, percebi também que muitos deles não são pensadores da religião, e sim pessoas contaminadas por ideologias alheias ao cristianismo. Tentam a todo custo fazer com que a teologia se conforme à ideologia, quando devia ser o contrário. Deus está acima da guerra ideológica, e por isso não os levo mais a sério de forma alguma. Bons tempos onde os teólogos sabiam ser Deus o início e o fim de todas as coisas e partiam deste princípio. Muitos deles consideram a si mesmos como o início e o fim de tudo.  São loucos, e não teólogos.

Hoje prefiro o mistério e não saber todas as respostas. Prefiro o bom e velho credo dos apóstolos e o Pai Nosso. Porque é o que fica quando todos os modismos passam. O cristianismo continua, já morreu e ressuscitou muitas vezes e continuará fazendo isso, pois o morrer e o ressuscitar fazem parte dele desde o início.

Todos nós desejamos o progresso, mas se você está na estrada errada, progresso significa fazer o retorno e voltar para a estrada certa; nesse caso, o homem que volta atrás primeiro, é o mais progressista. C. S. Lewis.


Plenitude da fanfarronice

janeiro 26, 2016

Um auto intitulado “apóstolo”, egresso de duas “igrejas da prosperidade”, que abriu em seguida sua própria franquia de “igreja”. Daí para atrair muitos, aparecer na Internet, e chamar a atenção, foi um pulinho. História que já vimos várias vezes. Mais do mesmo tipo de igreja judaizante, onde se vende óleo milagroso engarrafado, e se fazem campanhas com nome de muralha de Jericó, batalha de Josué, quebra de maldição, com decoração dourada pra todo lado, e outras coisas do tipo. Até aí, nada de novo. É a mesma receita de outras neopentecostais já há muito tempo no “mercado”. Sim, mercado.

O fanfarrão em questão, usa por cima da roupa, um simulacro de pano de saco. Muitos o chamam de Fred Flintstone por conta da roupa inusitada, a fantasia que usa nos cultos da igreja. Fora da igreja, nada de humildade, vale andar de Porsche e BMW e ostentar roupas de marca. Além de fanfarrão, é ator, e gosta de encenar duelos com pais de santo, amaldiçoar pessoas em vídeos, e mais recentemente, estava usando uma coroa que o deixava parecido com um personagem do carnaval. Púlpito ou picadeiro, eis a questão.

Num país cheio de escândalos de corrupção, Petrolão, Mensalão, Zelotes, Lava jato, dá para entender porque as pessoas procuram esse tipo de lugar. Simples de entender a atração que este tipo de “pregação” exerce. Busca de soluções fáceis para os problemas comuns da vida: casamento destruído, desemprego, dívidas, problemas de relacionamento, vícios e doenças. Pessoas desesperadas viram alvo dos parasitas da fé. A fórmula de mostrar Deus como fosse a lâmpada mágica que resolve todos os problemas, sem que você precise fazer nada além de entregar seu dinheiro, apenas reflete o que acontece em todos os escalões da política do país, onde tudo se resolve com propina. Tudo é questão de “molhar a mão” certa. Em vez de cantar “segura na mão de Deus”, vão na igreja para tentar molhar a mão dEle. Deve ser por isso que alguns políticos fazem questão de aparecer em igrejas quando é época de eleição. O povo vai de uma igreja de prosperidade para outra, e elas competem entre si pelo mercado de desesperados. Um povo fraco, que corre atrás de qualquer carismático que se diz “apóstolo”, abre um negócio que chama de “igreja” e sobe em púlpito. E quanto mais espalhafatoso o culto, melhor. Não é de estranhar os políticos que temos por aí. Cada nação tem o governo que merece. E cada crente tem o pastor que merece. Simples assim.

“Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos. Isso também não faz sentido.”
Eclesiastes 5:10

Deus e o clarinete

setembro 19, 2015

clarinete_posterSe você já tentou aprender, ou sabe tocar um instrumento musical, entende que cada um deles tem seus truques. Mas já parou para pensar no quanto aprender a tocar um instrumento, e o relacionamento com Deus, possuem semelhanças e diferenças?

Primeiro você escolhe o instrumento com o qual mais se identifica, ou te obrigam a aprender algum deles na escola, por exemplo. No caso de Deus, existem várias “versões” em diferentes religiões (eu particularmente escolhi o cristianismo e creio que foi a melhor escolha). Pode acontecer de você tentar um, e depois não gostar e tentar outro, e também pode acontecer de você acabar se convencendo de que tocar, não é a sua praia. Quanto ao instrumento e a música, desistir é fácil, já que o aprendizado exige disciplina e paciência. No caso do relacionamento com Deus, a coisa já fica mais complicada, principalmente porque, mesmo você desistindo, Deus não desiste de você, e nem você consegue esquecer dEle completamente. Sei disso, porque já tentei. Tem aqueles que desistem e passam a odiar Deus. Mas dizem que amor e ódio são faces de uma mesma moeda. Então, a qualquer momento, a moeda pode virar novamente, com o lado do amor virado a favor dEle. Isso é um perigo. Deve ser o maior medo das pessoas que escolheram odiar Deus. : P

Sobre a minha escolha quanto ao instrumento musical a aprender, não foi difícil. Os de sopro sempre foram os meus preferidos e o som do clarinete, é muito bonito. E com relação ao cristianismo, também não é difícil se identificar com a figura central que norteia a fé dos cristãos, ou seja, Jesus. Como não se interessar pela história de um homem aparentemente maluco, que dizia ser Deus e deixava os religiosos da sua época, furiosos? O difícil aqui não é aceitar a pessoa de Jesus, mas o que ele fez. Difícil é lidar com uma palavrinha pequenina mas que incomoda muita gente, e quem alguns tratam como se fosse doença. A fé.

Lembro que, no começo, eu perguntava onde ficava o botão liga/desliga, dessa coisa chamada fé. Claro, queria que fosse mais fácil, mais prática e totalmente indolor essa história de cristianismo. E como todo mundo geralmente busca o jeito mais fácil de fazer as coisas, claro que temos algumas “versões” de cristianismo onde tem de tudo, menos Jesus. Assim como tem professores que prometem ensinar a tocar em cinco minutos. Com relação à facilidade, tocar clarinete não tem maiores problemas, precisa treino, disciplina e insistência, mas não é problemático. Precisa treinar muito, estudar muito, e ter disciplina, mas com dedicação é possível. A parte mais complicada no começo, é conseguir soprar sem deixar o ar escapar. Mas não tem crises, nem altos e baixos, ou dúvidas, como acontece com a fé. Ninguém vai julgar você porque gosta de tocar clarinete. A maior parte das pessoas vai achar bem legal. Mas desencane dos cinco minutos, porque você não vai aprender a tocar nesse tempo, ok? Já quando você fala que é cristão, alguns podem tratar você como se a sua fé fosse coisa digna de hospício. Com um instrumento musical, quanto mais você toca, melhor fica. Na vida com Deus, é um paradoxo: quanto mais você sabe, menos você sabe.

Uma parte importante é desmontar e limpar o clarinete sempre, depois de usá-lo. E toda vez que vai tocar, montar de novo. Se você deixa o clarinete montado, ele não cabe no estojo. Então pode cair no chão, quebrar, fica exposto à poeira, e a umidade acumulada pela falta de limpeza, estraga os mecanismos. Se for de madeira, pode rachar. Os clarinetes de madeira são caros, pois são feitos de madeiras nobres e raras, como o ébano. Quem investe neles, não vai ser louco de ter preguiça de limpar. Montar, tocar, desmontar, limpar, guardar, é um ritual obrigatório. Faz parte. Aí temos mais uma semelhança com o relacionamento com Deus, pois este relacionamento se renova todas as manhãs. Não tem como saber o que cada novo dia neste relacionamento nos reserva. Deus não é feito de uma madeira rara, e ao mesmo tempo, nada pode comprá-lo. Ele se deixa encontrar por quem o procura. E quem encontra nunca mais vai querer perder. É como aquela parábola de quem encontrou um tesouro num campo. Tem quem saia por aí vendendo algo que dizem ser Ele, e os preços neste caso, variam muito. Assim como tem muito instrumento falso no mercado, apresentado como se fosse original, de marca famosa, mas a um preço que até santo desconfia. Então, fique atento. Um clarinete de ébano e prata, nunca vai ser barato; assim como Deus não está à venda. A graça dEle é dada, e Ele a distribui de formas, muitas vezes, inusitada. Inesperada. O curioso é que tem pessoas que passam a desconfiar de Deus, quando descobrem que a graça dEle é gratuita. Ficam achando que tem “gato na tuba”. : P

O som do clarinete me encantou. E o mesmo aconteceu com o Pai. Foi como diz a música: Ele gentilmente me atraiu. E eu, sem palavras, me aproximei. : ]


Dúvidas

setembro 15, 2012

“Queria lhe dizer que eu fui criado e lecionado desde o berço sobre o evangelho, meu pai é teólogo e diácono, eu já fui uma pessoa muito religiosa, estudei muita a Bíblia, eu conheço a palavra, eu quero acreditar que isso é verdade, mas depois de certo tempo eu parei para pensar um pouco: o que eu estou fazendo? Tem algum sentido nisto?
  A verdade é que o tal Espírito Santo nunca me revelou nada em minha vida, eu pedi, busquei, acreditei, mas nada, e tudo o que vejo nas igrejas são desqualificados elegendo outros desqualificados, as pessoas que estão na igreja pregam sobre um Jesus, de um Salvador que nem elas mesmo sabem da onde veio e não sabem explicar em que acreditam, mas querem te transmitir confiadamente que isso é verdade, e nem elas mesmo sabem em quem estão crendo.
Se está palavra é verdadeira… eu já pedi a Deus que me mostre a realidade, a verdade, e que a verdade seja bem nítida e confiável, aí sim eu irei a frente com isso. Por mais que eu procurei eu nunca tive uma experiência com o tal Jesus, e com o citado Espirito Santo. Eu respeito a vossa crença. O que eu desejo é a verdade, simples palavras não são suficientes, expor uma divindade não é suficiente, se alguém aqui realmente teve uma experiência pessoal com Jesus e crer que isso é real com toda a certeza, parabéns, pois eu nunca tive, o dia em que eu tiver eu vou testemunhar sobre ela, mas em toda a minha vida que eu busquei e não tive o que eu vou testemunhar? Eu acredito na verdade, isso é tudo o q importa, a verdade. É hipocrisia querer acreditar na verdade, encontrar a verdade? Pedir a Deus q me revele a sua verdade? Ao invés de simplesmente aceitar meia tonelada de história contada que não se pode provar. Se eu fosse hipócrita eu estaria aqui falando de Jesus e do Espírito Santo, estaria falando de coisas que eu nunca vivi praticamente embora busquei…
“que você se foda muito na vida, para que possa pedir de coração.” Então para crer é uma questão de apuros, de necessidade? Uma grande verdade é que muitos crêem simplesmente pelo fato de que é mais confortável acreditar que ressuscitaremos, que existe um lugar melhor após a morte, que os bons serão recompensados e os maus castigados, é tão bom poder acreditar nisso, é muito confortável saber disso, nos faz sentir consolados, aliviados, então muitos optam e acreditar ao ter o trabalho de conflitar e buscar a verdade…”

 

Você tem razão em muitas coisas que coloca. Sim, é verdade que muitas pessoas acreditam apenas porque foram ensinadas assim, e nunca pensaram a respeito. É verdade que muita gente só acredita e segue uma religião, porque ela faz com q se sintam melhores, mais confortáveis, superiores aos que não acreditam, escolhidos e etc.

Mas talvez o seu erro esteja exatamente no lance de achar que merece uma “revelação” de Deus por jejuar, por fazer uma porção de coisas, de obras e tals. Como os fariseus, que achavam que por seguir todas as obras da lei, tinham direito à consideração por parte de Deus.

Não, não é hipocrisia você desejar saber a verdade. Acho muito louvável a sua atitude, penso que todos deviam atingir esse nível de reflexão sobre as coisas nas quais acreditam. É muito normal, durante essa reflexão, passar por momentos de crise na fé. E em seguida, passar para um estágio de fé mais coerente, mais profunda, madura, menos infantil. Onde você crê porque você mesmo escolheu isso. A fé é assim, dinâmica, e quanto mais você questiona, mais vai depurando as coisas, e tendo fé apenas no que importa de verdade.

Mas quando se trata de Deus, você tem que saber equilibrar a razão com outras formas de percepção. Usar só a razão nos torna frios e sistematizadores de Deus, usar só a emoção nos torna infantis.

Você quer o quê? Que Deus se materialize na sua frente e diga: “Estou aqui, acredita em mim agora?” Só que se Deus fizesse isso, nós não teríamos liberdade de escolher. E mesmo assim, haveria pessoas para as quais essa “aparição” não seria suficiente. Haveria pessoas que encontrariam outras “explicações” para a “aparição divina”, e continuariam do mesmo jeito. Você conseguiria amar um Deus autoritário como esse, que apareceu na sua frente e não te deixa livre para duvidar? Talvez se você tentasse procurar por um Deus que se move nesse mundo por meio de pessoas, e se revela também por meio da criação, você consiga relaxar e deixar essa revelação dEle chegar até você. Ele diz: busque e achareis, bata e a porta será aberta. Porém, você tem que ter olhos para enxergar a resposta, que muitas vezes pode vir de formas inesperadas, fora do padrão “religioso” que você espera, que você aprendeu na sua igreja.

Duvidar não é pecado, e muitas vezes é bastante saudável. A fé não é acreditar em tudo, sem questionar. Você consegue fazer isso? Eu não. Acreditar em tudo é ser crédulo, e não ter fé. Melhor uma dúvida sincera do que bater no peito pra dizer que acredita, sem acreditar de verdade.

Acreditar em tudo que está escrito na bíblia, não é ter fé. Eu pelo menos não chamo isso de fé, porque a grande maioria dos que dizem que acreditam em tudo que está na bíblia, nunca pararam pra pensar na maior parte das coisas que estão ali. Simplesmente agem como crianças, que acreditam no que os pais falaram. E muitas vezes têm medo de duvidar, acham que Deus vai se irar se eles tiverem dúvidas, mesmo que as dúvidas sejam legítimas e sinceras.

A fé implica, na minha opinião em você ter escolhido acreditar, ter pensado sobre as razões pelas quais você acredita no que acredita. Deus não se importa com nossas dúvidas. Ele prefere nossa fé cheia de dúvidas à crença cega e a crença baseada no medo. Onde existe medo, não existe amor, onde não existe dúvida, não nasce a fé.

Fé é muito parecida com confiança.

Você confiaria numa pessoa que você não conhece, ou só conhece por ouvir falar? Tem pessoas que confiariam, eu não. Posso começar dando um certo grau de crédito a ela, pela confiança que tenho em outras pessoas que eu já conheço, que me disseram que ela é confiável. Mas só vou passar a confiar nela, por minha própria escolha, depois de saber exatamente quem ela é, depois de andar com ela, de me relacionar com ela e chegar à conclusão de que ela merece mesmo confiança. Isso é natural.

Se Deus é uma pessoa, o processo de desenvolver confiança é o mesmo que você teria com qualquer pessoa. Só que a pessoa dEle, uma vez que você tenha aprendido a confiar, dificilmente deixa de confiar, a menos que tenha confiado da forma errada (achando que Deus tem que atender todos os seus pedidos, fazer todas as suas vontades, e te deixar sempre bem, sem sofrimento, sem dor, sem doenças, protegido, abençoado, mimado, com um bom emprego, feliz, rico etc). Ele é Deus, não é seu mordomo, seu serviçal, seu empregado.

Isso que eu chamaria de fé, você saber em quem está confiando, e continuar confiando apesar de tudo. Continuar confiando apesar de muitas vezes não entender o que Ele está fazendo. Porque você escolheu confiar. Você escolheu ter uma única certeza: a de que Ele merece a sua confiança.

Só que chegar nesse ponto, não é fácil, é um processo de aprendizagem, e um processo que vai continuar a sua vida toda. Quando você era criança, também teve que aprender a confiar nos seus pais. Você também duvidou quando seu pai disse que não ia deixar você cair, quando te pegou pela mão pra você aprender a andar. E o seu pai não ficou triste com isso, ficou? Ele sabia que você estava aprendendo a confiar nele e em você mesmo, nas suas pernas ainda frágeis de criança. Não é fácil e tem altos e baixos. Vejo por aí muitas igrejas que incentivam as pessoas a não crescer, e tratar Deus como se fossem crianças mimadas (e insuportáveis) que fazem seus pais de empregados, quase seus escravos. Ou que ensinam supostos “truques” que fazem Deus funcionar a nosso favor (algumas distribuem e até vendem objetos alegando esse tipo de coisa – leve isso para a sua casa, e as bençãos de Deus estarão sobre a sua vida!) Deus não é nosso empregado, Ele não tem obrigação nenhuma  de fazer nossas vontades. Muita gente perde a fé quando surge algum problema sério, por causa disso.  Nesse caso elas não tinham fé nEle, e sim, acreditavam num ídolo, tratavam Deus como alguém que guarda um trevo de quatro folhas, achando que daria sorte.  Se não funciona, jogam Deus fora e tentam outras coisas. Esteja preparado para se desiludir, se é esse tipo de coisa que espera de Deus.

(Essa conversa, que teve origem em alguma comunidade do Orkut – e eu nem tenho mais perfil no Orkut faz algum tempo – estava nos rascunhos do blog, é de dois anos atrás. Tirei da gaveta, assoprei a poeira e resolvi publicar.)