O fracasso da cruz

julho 6, 2011

por Roger Ferreira

Como eu ia dizendo, a ética ou moral divinas não têm o seu ponto alto no Sinai, mas no Gólgota; não na força da Lei, mas na fraqueza da Cruz. E isso nos perturba deveras, nos confunde.

Hoje, já estamos cansados de saber que Jesus ressuscitou e que subiu ao céus. Estamos até mesmo convictos de que ele, um dia, voltará triunfante em glória. Mas não é essa majestade que nos seduz, que nos conquista: Deus nos cativa pelo fracasso da cruz.

Somos como aquele torcedor que ao ligar a televisão, já no meio do jogo, sem ter simpatia por um ou outro time, de repente, se vê torcendo para o mais fraco. Torcemos por Cristo por causa das chibatadas que levou, por causa da coroa de espinhos, por causa dos cravos em suas mãos e pés. Pelas suas chagas somos sarados.

Essa lucidez é porém abalada quando nos encontramos em crise e estamos vulneráveis à tentação. O Diabo parece nos incitar para que mostremos nosso poder, ou desafiar a que demonstremos o poder de Deus, esquecemos-nos assim, rapidamente, da sedutora fraqueza.

Note a pequena, porém gritante diferença: não negamos o poder, ou a possibilidade de ação e intervenção divinas; o que não se deve é fazer disso um show, uma necessidade. Deus não é um show maker, Deus é um íntimo amante.

As ruas de Nazaré e as poeiras dos caminhos da Galileia assistiram por trinta anos um menino transformar-se em homem, numa forma pacata num viver singelo. Um dia o extraordinário despontou e começou a sacudir aquelas pedras e aqueles rios e lagos. Milagres foram feitos, pessoas foram curadas, comida foi multiplicada, mortos ressuscitaram, demônios foram expulsos, água virou vinho.

Todo palco foi preparado para um ato. Todo poder sobrenatural dos céus foi convocado e exercido durante três anos na preparação de uma cena, a cena do fracasso: Ali no Gólgota homens e ladrões encaram Jesus crucificado e lhe propuseram um sarcástico desafio, “você salvou a tantos, então salve-se a si mesmo”. Todo seu potencial havia se esgotado. Ele se esbarrara em seus próprios limites – se for possível… afaste de mim – não era possível, nem mesmo para o “todo poderoso” Jesus de Nazaré. Ele não podia salvar-se a si mesmo.

Jesus deixou patente que o que lhe prendia àquela cruz era uma força maior que todo poder que Ele já havia demonstrado – e Ele havia mostrado poder de sobra. O fracasso da Cruz é o símbolo de alguém que amou desesperadamente. A ressurreição tem seu peso, mas não seria nada se viesse antes da morte, contornando o calvário. A ascensão ao céus deixaram os homens boquiabertos, mas nada que se compare a loucura ou escândalo da cruz. A segunda volta de Cristo alarga nossos horizontes, mas não chega nem perto da perspectiva insana oferecida pela Cruz.

A fé de um Cristo fracassado, de um Deus nu e morto pendurado no madeiro é o que verdadeiramente impulsiona nossos espíritos a se lançarem sepultura a fora, a deixarem as cadeias do inferno que mordazmente nos acorrenta.

A moral da Cruz, antes de fazer separação entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, ela vem, muito mais, resgatar o verdadeiro e único valor de uma alma, de um ser humano, o real valor de toda e qualquer pessoa, o meu e o seu valor.

Enquanto o Sinai trovejava medo o Gólgota irradiava graça. A morte do Sinai gerava medo e causava pânico, a morte da cruz gera amor e quietude. A ética do Sinai é a ética da força e da condenação, a ética da cruz é a da fraqueza e do perdão. A impotência da Cruz supera a prepotência do Sinai.

O amor lança fora o medo – como todos nós já há muito deveríamos saber.

O fracasso da cruz – A teologia livre


Desculpas esfarrapadas

junho 28, 2011

Os crentes/evangélicos/cristãos/afins, arrumam cada desculpa esfarrapada, para ver se conseguem fugir, ou se isentar ou criar exceções inexistentes, para o mandamento de amar as outras pessoas, como amam a si mesmos, que só rindo mesmo.

Ame a Deus acima de todas as coisas, e ame ao próximo como a ti mesmo. Não tem entrelinhas, nem vírgulas, nem senões, nem parênteses, nem poréns, nem adendos, nem entretantos, nem talvez, nem quase, nem se, nem quando, nem onde.

Difícil? Eu sei. Mas isso também não é desculpa.


Critérios do amor

junho 17, 2011

por Paulo Brabo

Este é um mundo de retribuição, em que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Quem são nossos favoritos? Os notáveis, os talentosos, os destacados, os fluentes, os bonitos, os ricos, os famosos, os sábios, os espirituais, os afinados, os inteligentes, os que lembram-se do nosso nome. Quanto mais admiráveis nos parecerem as qualidades de alguém, mais naturalmente — mais inevitavelmente — essa pessoa parecerá merecedora do nosso amor.

Nossa tendência mais natural é amarmos as pessoas pelo que são capazes de fazer, seja essa capacidade efetiva ou potencial. Nisso consiste o que chamo de Lei Crua do Amor: não amamos as pessoas, amamos as suas competências.

Com raras exceções, a Lei Crua do Amor rege todos os nossos relacionamentos e afeições. Sei muito bem aqueles que me sinto tentado a amar: os virtuosos, os compassivos, os articulados, os bonitos, os fluentes, os criativos, os destemidos, os galantes, os que sabem dançar, os indomáveis, os modestos, os heróis que não conhecem o seu próprio valor. São essas as competências que estão no topo da minha lista, mas cada pessoa estabelece o seu próprio critério de seleção. O que temos todos em comum é a tendência de amar aqueles que demonstram ter as competências que admiramos.[…]

[…]Aqueles que não têm alguma competência para oferecer — os feios, os desajeitados, os que não sabem cantar, os que não sabem falar, os que não sabem escrever, os que não sabem jogar bola, os que não sabem agradar — intuem, por sua vez, que nunca serão amados de forma unânime e intensa como os notáveis. Não têm competências em grau ou quantidade suficientes para merecerem o nosso amor, e sabem disso.

Jesus viveu, naturalmente, para denunciar a Lei Crua do Amor. Ele convidava, de forma singela, a que adotássemos um novo e notável critério, que é, incrivelmente, a ausência de qualquer critério.

A mensagem de Jesus deixa claro, em primeiro lugar, que na perspectiva de Deus, na perspectiva do universo, as competências que tanto celebramos e redundantemente admiramos equivalem a precisamente nada — talvez menos. Se Deus fosse premiar a competência não premiaria ninguém. É por isso, por não julgar as pessoas pelas competências que têm para oferecer, que Deus faz chover sobre justos e injustos. É com base no rigoroso critério do critério algum que ele derrama do seu sol sobre heróis e marginais.[…]

[…]O Filho do Homem desafia-nos a sermos nisso singulares (santos) como Deus é, disparando amor arbitrariamente, como metralhadoras, abandonando definitivamente os critérios usuais de competência. Essa regra divina é a Lei Distributiva do Amor, que pode ser expressa desta forma: ninguém merece, por isso todos podem ter.[…]

Os critérios do amor – Paulo Brabo – A bacia das almas

Você que se acha tão melhor do que o resto do mundo por ser crente, ou pela sua ortodoxia, ou seja lá o que for, faça um favor a si mesmo, e leia essas duas frases até elas entrarem na sua cabeça:

Se Deus fosse premiar a competência, não premiaria ninguém.

Ninguém merece, por isso todos podem ter.


Somos construídos pelo amor

maio 27, 2011

por Lisa Dye

“Deus, amando o que ainda não está pronto, e colocando fé em nós, nos gera continuamente, porque o amor dEle é que nos gera.” Carlo Carretto

Se somos construídos pelo amor, então nós todos, na mente infinita de Deus, nos completamos porque Deus amou o mundo. Por que então, nos sentimos estragados, incompletos, vazios e inacabados? Por que lutamos para conseguir perceber o amor de Deus e também para conseguir demonstrar esse amor a outros? Não são os cristãos os que se supõe que têm essa questão já resolvida – estar certos desse amor – para ter esse vazio em forma de Deus em nós, preenchido, saciado, transbordando e satisfeito, e ser canais de amor para outras pessoas?

Como uma jovem crescendo em meio ao alcoolismo, divórcio e depressão, lancei-me na vida buscando me completar em relacionamentos, aprendizados, trabalho e até num relacionamento recém-nascido com Cristo.  Naquele momento, Jesus estava em uma categoria agradável, como todas as outras coisas. Foi desta maneira que lidei com uma vida familiar infeliz – mantendo as coisas separadas. Tinha caixas numa prateleira para tudo, incluindo meu relacionamento com Deus. Em cada caixa, estavam minhas ideias sobre como proceder – trabalhar duro e guardar dinheiro, estudar muito e ir à faculdade, não deixar as coisas balançarem em casa e esperar por uma noite sóbria e feliz, lendo minha bíblia e tentando ser perfeita.

Isso mudou em 1985, quando caí de cama, pronta para morrer, por causa da depressão. Tinha falhado em fazer o melhor para jamais falhar. Internamente, ouvia Deus sussurrar que me amava. Aquela revelação foi fundamental. Já tinha lido isso na bíblia e ouvido isso ser dito no púlpito. Nã0 era nenhuma informação nova, mas de alguma forma, estava sendo percebida de uma nova forma.  Esse conhecimento me tocou numa parte de mim que nunca havia sido tocada antes, e foi um presente de Deus. Daquele dia em diante, deixei de procurar em qualquer outro lugar, que não fosse Cristo, me completar. Sabia que ele me conhecia e que estava comigo. E ainda sei.[…]

[…]O ponto principal é que Deus é misterioso e soberano. Ele não segue nossas fórmulas para nada, incluindo o seu amor. Ele não segue nossas agendas, quando desejamos ter conhecimento completo a respeito dEle. Não segue nossas expectativas a respeito de como deveria se revelar ou se expressar. Não respeita os medidores que criamos para tentar medir o quanto amados ou completos nos sentimos. Nós simplesmente somos amados por Ele, e é tudo. Podemos crer nisso ou não.

Frustrada algumas vezes com minha própria descrença, descubro que Deus continua inabalável e paciente comigo, porque estou continuamente sendo gerada. Minha alma ainda está no processo de transformação.[…]

Penso que Carlo Carretto captou bem. Se Deus é feito de amor, é disso que somos feitos também, então todos nós, nem que seja apenas na mente infinita e eterna de Deus, estamos completos, porque Deus é amor e ama o mundo. Ele não é limitado pelo tempo e espaço como nós somos. Está em todos os lugares e em todos os tempos – no passado quando fomos concebidos, no tempo e espaço em que vivemos e lutamos enquanto Ele continua a nos completar e nos aperfeiçoar – e na eternidade futura, onde estaremos totalmente completos. Sua percepção estende e engloba nosso ser finito e nosso futuro eterno, com conhecimento completo e executado em nós. O que seremos… pra Ele nós já somos.

Por outro lado, nossa percepção é limitada às dimensões que podemos experimentar em carne e sangue. Mesmo com o espírito despertado pela confissão de fé em Cristo e mesmo habitados pelo espírito santo, nosso potencial para discernir espiritualmente é ofuscado por milhares de coisas.   Na mesma medida em que falhamos em perceber o amor, nos percebemos inacabados e demonstramos isso. O nosso comportamento reflete essa percepção de mesquinhez, pequenez e amor incompleto. E caminhamos ombro a ombro com outros  que percebem e exibem em si mesmos essa mesma imperfeição.[…]

[…]Brennan Manning disse, “Jesus é a face humana de Deus”. Deus o enviou para para que fosse sua face humana, suas mãos humanas, braços, pés, corpo. O toque de Jesus é o toque humano de Deus, sua voz, a voz humana dEle. Ele se fez carne e habitou entre nós, mas continuamos a não perceber Deus… e o seu amor.  Certa vez, Jesus estava conversando com seus discípulos, e Filipe pediu, “Senhor, mostre-nos o Pai e isso nos será suficiente.” Jesus respondeu: Você não sabe, Filipe, mesmo depois de eu ter estado tanto tempo entre vocês? Qualquer um que tenha me visto, viu o Pai. Como pode você pedir “Mostre-nos o Pai?” (João 14:8-9)

Isso ocorreu em um tempo em que Deus andou no meio das pessoas. Falou com elas e as tocou, lavou seus pés, pescou junto com elas e fez refeições junto com elas. Levou tempo para elas entenderem que ele era Deus. Depois da sua morte é que entenderam o seu amor. Leva uma vida inteira vivendo com Ele, para conseguirmos perceber completamente o seu amor.[…]

[…]Assim como fixamos o olhar em Cristo, seu amor continua a nos gerar, nos completando, e começamos a perceber em outros, o amor que Deus tem por eles. Como João explicou na passagem acima, começamos a nos tornar parecidos com Jesus, quando andamos com Ele. Nós amamos como Jesus, quando vivemos no seu amor. De uma forma misteriosa, mágica e inconsciente, nos tornamos como a face humana de Deus para aqueles que estão a nossa volta.  Nossas mãos são as suas mãos, nossas palavras as suas palavras, e nosso toque é o toque dEle.

Love makes us – Lisa Dye – Internet Monk

Resumindo: Quem não ama seu próximo, não ama nem conhece Deus.

E o seu próximo, não é aquela pessoa que já é amável aos seus olhos, porque Deus ama você, e você, vamos admitir, não é nada amável aos olhos dEle. Ou você acha que está abafando, e que Deus ama você, porque você é a perfeição em pessoa, a última bolacha do pacote gospel? :P

Deus ama você apesar de você mesmo, porque se Ele fosse levar em conta quem você é de verdade quando ninguém está olhando, os seus pensamentos e intenções duvidosas, mesmo quando parece e diz estar agindo com piedade, Ele não seria louco de fazer a bobagem de amar você.  Então não ache que você está livre de fazer o mesmo pelo próximo.

Quando você não ama o seu próximo, fica demonstrado o que vai no seu interior, mesmo que você se declare bom cristão, e defensor da sã doutrina e da teologia mais ortodoxa. Não é pelo nível de ortodoxia e pela quantidade de diplomas de teologia, que se mede o conhecimento sobre Deus de alguém, e sim, pela capacidade de demonstrar amor ao próximo.


A identidade do cristão…

maio 24, 2011

por Paulo Brabo

[…]Se amar for de fato prover expressões mensuráveis de comportamentos não-condicionados, quem se mostrará pronto a amar? Porque, se for assim, amar não seria você aprovar a conduta de dois caras sentados de mãos dadas no banco da sua igreja, mas seria você respirar fundo e não condená-los por eles estarem ali. Amar não seria você concordar com as posturas do Ricardo Gondim a respeito de qualquer assunto, mas seria concluir que o seu compromisso mútuo com o amor basta para vocês continuarem juntos debaixo de um mesmo teto editorial. Essas seriam expressões genuínas de comportamento não-condicionado. Porque quando não estamos defendendo o amor estamos defendendo meramente a nossa convicção, ou pior, a nossa reputação – e até os pecadores fazem o mesmo. Qualquer homossexual poderia nos ensinar a amar mais e melhor.

O homem entre as marés – Paulo Brabo – Bacia das Almas