Todos somos hereges!

setembro 18, 2012

por José Barbosa Júnior

[…]O problema, quando se trata da questão do argumento “bíblico”, é que ele, simplesmente, não existe. Ou, se existe, existe imperfeito, refém de nossas interpretações e de nossas pré-leituras da própria Bíblia. Sim, por mais que nunca a tenhamos lido, quando a lemos pela “primeira vez”, antes disso já nos foi incutida uma ideia preconcebida, que acaba por delimitar nossa interpretação. Um exemplo: o “pecado original”. O texto nunca usa esse termo, e muito menos fala de “pecado” na narrativa de Gênesis, mas nós já vamos para o texto com a ideia pré-moldada: uma árvore frondosa, uma serpente enroscada nos galhos trazendo à boca uma enorme maça, linda, vermelha, e uma mulher, quase sempre loira (apesar da narrativa acontecer nas bandas do Oriente Médio), com cabelos longos e esvoaçantes que logo depois entrega a fruta, já com uma mordida, ao seu marido, de músculos bem definidos e cabelos curtos. Ele também come e, por causa disso, entra no mundo o “pecado original”. Onde estão estas coisas no texto? No texto, não estão, mas já estavam na cabeça de quem foi “ler” o texto.

Infelizmente, para decepção de muitos, lamento dizer que não existe essa coisa do “a Bíblia diz…” Deveríamos ser mais honestos e afirmar: “O que interpreto da Bíblia, neste aspecto, pode ser…”

Os que defendem a “literalidade” da interpretação bíblica são de duas espécies: os ingênuos e os mal-intencionados.

Os ingênuos são aqueles que sempre foram ensinados assim. “Irmão, a Bíblia diz que é pecado…”, “O pastor disse que a Bíblia, no original, quer dizer isso…”. Para estes, o que está “escrito”, escrito está… e deve ser seguido ao pé da letra, mesmo que isso não faça o menor sentido. Mas aqui já enfrentamos um pequeno problema: não se segue TUDO o que está escrito. O que deve ser seguido ao pé da letra é apenas aquilo que me interessa.

Acabamos por cair no segundo grupo: os mal-intencionados: gente que sabe que “não é bem assim”, mas tem que dizer que “é assim”, porque é isso que lhes confere autoridade, poder e, muitas vezes, o emprego.

Ora, qualquer estudioso minimamente honesto, sabe que não há isso que chamamos de “interpretação literal”, porque isso é simplesmente impossível.
O que há na verdade são ESCOLHAS daquilo que deva ser “ensinado” literalmente. Leia-se aqui: eu escolho aquilo que me dá poder! Aquilo que me faz estar certo e os outros errados. Neste ponto, somos todos hereges, já que a palavra “heresia” vem do grego hairesis, que significa “escolher”…e  tem exatamente essa intenção: herege é aquele que escolhe (para seu proveito) o que lhe interessa de um texto.

Essa leitura literal da Bíblia é uma falácia. Ela não existe. E quando existe, como já falei, existe milimetricamente escolhida para favorecer o “meu” ponto de vista.

Os que defendem a leitura literal da Bíblia criam armadilhas das quais eles mesmos não conseguem escapar. Não conseguem, mas tentam… e sobra pra “soberania” (no caso dos históricos) ou pro “mistério” (no caso dos pentecostais, neo, etc…). É mais ou menos o “bota na conta do Papa”, frase pitoresca do filme “Tropa de Elite”.

Porque se formos totalmente literais, estamos em maus lençóis, nós e o Deus a quem dizemos servir… um Deus que mandou matar muita gente, que manda os homens todos de uma nação despedirem suas mulheres e filhos, e os lançarem  ao deserto; um Deus que manda matar a família toda de um cara porque ele escondeu “despojos de guerra”; um Jesus que fica bravo porque a figueira não tem fruto (fora da estação de frutos) e manda-a secar; enfim, um Jesus que diz que, caso teu olho ou mão te façam escandalizar, é melhor arrancá-los (Ah! Não…. esse é um dos versículos que nem os literalistas gostam que seja literal)…

Então você sugere que a Bíblia contenha erros históricos e de interpretação? Exatamente! O conceito de inerrância é o que sustenta o edifício da literalidade… aliás são retroalimentadores.

A Bíblia não arroga ser um livro histórico, nem mesmo um livro doutrinário… ela é um livro da fé. E da fé de um povo! E acompanha o desenvolver da fé desse povo… de seu “descobrir” Deus, ou daquilo que pensa ser Deus… e cuja revelação se dá, para um outro povo (já que o povo “original” não reconhece essa revelação) em plenitude, numa pessoa: Jesus, o Deus encarnado.

Ora, se Jesus é a encarnação do Deus que desde o princípio se revela… ou Deus mudou muito ou há algo de errado naquilo que se entende de Deus até então. E dizer que Deus mudou causa furor nos “literalistas”, ainda que, literalmente o texto diga que Deus “se arrependeu”. Neste caso ocorre uma coisa engraçada, que só reforça a heresia de cada um. Os fundamentalistas, impedidos que são de acreditar num Deus que mude de ideia, tem que dar um jeito nos textos que afirmam isso (as ginásticas para fazer um texto encaixar numa teologia sistemática são muito engraçadas). Tiram da cartola, então, o conceito de antropopatia, que seria atribuir a Deus sentimentos humanos quando não conseguimos explicar o que realmente acontece com a divindade. Qual o problema? É que a antropopatia só vale nos textos em que Deus se arrepende. Nos outros textos, todos os sentimentos são “literais”. Interessante, não?

Não existe leitura “pura” da Bíblia. Toda leitura bíblica já é, em si, uma interpretação. E se é uma interpretação, não pode mais ser “literal”. O sentido já foi deturpado há muito. Como saber, então, o sentido verdadeiro do texto? Fácil, pergunte ao seu autor (se bem que o texto geralmente é polissêmico e não pertence mais ao seu autor depois de escrito). Mas, como perguntar ao autor, se este já não existe mais há milênios? Quem poderá resolver o problema? É aí que os literalistas são mais esquizofrênicos. Criam a “iluminação” do Espírito para que haja a VERDADEIRA interpretação do texto. Claro, porque para defender isso também têm que colocar o Espírito Santo como verdadeiro autor das Escrituras. Logo, se Ele é o autor, Ele nos responderá.

Muito boa resposta!

Mas… qual “Espírito Santo” estará com a razão?

O da Igreja Católica, que também inspira o magistério na “interpretação”?

O dos protestantes históricos, para os quais o Espírito não dá mais línguas, mas que é uma babel de interpretações?

O dos pentecostais, cuja pluralidade de línguas nos faz imaginar que cada língua é uma estranha interpretação?

O dos neopentecostais, que produz pastores em série, com a mesma voz e o mesmo discurso, mas com interpretações cada vez mais loucas?

O de outras confissões religiosas (ou você acha que o vento só sopra debaixo do nosso nariz)?

Resolvi caminhar com a interpretação plena em Jesus… e o que se parece com Ele, eu procuro seguir… o que não se parece, descarto, como sendo algo fruto de uma época e de um contexto, mas não tendo mais o que dizer hoje.[…]

Todos somos hereges! – José Barbosa Júnior – Crer e pensar

Sou herege, e você? Seja um pouco mais herege, e leia o texto todo, está no link acima.


Mau tempo

julho 3, 2011

Faz cinco dias que chove sem parar aqui na minha cidade. E depois que tudo estiver absolutamente encharcado, vai gear e as temperaturas mínimas vão cair até abaixo de zero. Nem queira saber a “delícia” que é, geada com umidade do ar em 100%. Se fôssemos pensar como o povo lá do antigo testamento pensava e interpretava os eventos, isso ia ser interpretado como: Deus está bravo, irado, furioso, e quer nos destruir; primeiro nos afogando, fazendo a chuva que devia cair em um mês, cair em poucos dias, toda de uma vez. Depois, se não bastasse toda essa chuva, manda depois um frio congelante, de forma absolutamente sádica, com uma massa de ar polar. Se pensássemos como eles, a essa altura, estaríamos fazendo holocaustos de animais inocentes, para supostamente “aplacar” a ira divina. Ou quem sabe organizando procissões, romarias, macumba gospel.

Degola e queima de animais inocentes, servia como “calmante” de Deus, segundo o povo do antigo testamento. Cheiro de gordura e carne de animais sacrificados queimada, pra eles, tinha efeito anestésico sobre a ira divina. Na Idade Média, a igreja atribuiu a peste negra, à ira divina. E ajudou a espalhar ainda mais o problema, porque as pessoas se apinhavam nas igrejas pra rezar, e facilitavam a transmissão. Entre os evangélicos, não se sacrificam mais animais, o sacrifício é na forma financeira. Em vez de imolar animais, imolam-se carteiras, talões de cheques, cartões de crédito.

Se você tem como padrão, para saber como Deus é, o que ficou demonstrado a respeito de Deus, em Jesus, então é preciso admitir: os israelitas estavam equivocados em muito do que pensavam a respeito dEle. E o antigo testamento está cheio de relatos onde o que predomina, é o nacionalismo doentio e superstições primitivas.

Mas é interessante notar, que na mesma bíblia onde os sacrifícios e holocaustos são descritos de forma tão detalhada, está a frase: Misericórdia quero, e não holocaustos. Na mesma bíblia onde vitórias são interpretadas como sinal do favor de Deus, e derrotas como castigo, está a frase: Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.

As pessoas por aqui, ficam mau humoradas e carrancudas, quando chove assim, sem trégua, e o sol fica vários dias sem dar as caras. Até meus cachorros ficam estressados. Fazer água pingar de forma constante sobre as pessoas, já foi usado como método de tortura, e pelo jeito, funciona. Mas não é  essa a intenção da chuva, ela cai porque tem que cair em algum lugar, e pronto. :P


Jefté era um bom camarada?

junho 27, 2011

No livro de Juízes 11:29-40, temos a história do voto de Jefté:

Então o Espírito do SENHOR veio sobre Jefté, e atravessou ele por Gileade e Manassés, passando por Mizpá de Gileade, e de Mizpá de Gileade passou até aos filhos de Amom. E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto. Assim Jefté passou aos filhos de Amom, a combater contra eles; e o SENHOR os deu na sua mão. E os feriu com grande mortandade, desde Aroer até chegar a Minite, vinte cidades, e até Abel-Queramim; assim foram subjugados os filhos de Amom diante dos filhos de Israel. Vindo, pois, Jefté a Mizpá, à sua casa, eis que a sua filha lhe saiu ao encontro com adufes e com danças; e era ela a única filha; não tinha ele outro filho nem filha. E aconteceu que, quando a viu, rasgou as suas vestes, e disse: Ah! filha minha, muito me abateste, e estás entre os que me turbam! Porque eu abri a minha boca ao SENHOR, e não tornarei atrás. E ela lhe disse: Meu pai, tu deste a palavra ao SENHOR, faze de mim conforme o que prometeste; pois o SENHOR te vingou dos teus inimigos, os filhos de Amom. Disse mais a seu pai: Conceda-me isto: Deixa-me por dois meses que vá, e desça pelos montes, e chore a minha virgindade, eu e as minhas companheiras. E disse ele: Vai. E deixou-a ir por dois meses; então foi ela com as suas companheiras, e chorou a sua virgindade pelos montes. E sucedeu que, ao fim de dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o seu voto que tinha feito; e ela não conheceu homem; e daí veio o costume de Israel, que as filhas de Israel iam de ano em ano lamentar, por quatro dias, a filha de Jefté, o gileadita.

Não vou falar o que penso a respeito deste sujeito chamado Jefté, ok? Nem a respeito dessa ideia que ele fazia de Deus. E sobre ser tão orgulhoso, a ponto de não voltar atrás nesse voto absurdo, quando viu que ia ter que matar a própria filha. Foi bocudo, e em vez de se arrepender de ter colocado a vida dos outros em jogo, como se fossem objetos de aposta ou barganha com Deus, entregou a própria e única filha em holocausto. Tem quem ache bonita a história, dele ter realmente mantido esse voto estúpido que fez, e entregue em holocausto o primeiro que saiu de sua casa, mesmo tendo sido sua filha única. Eu considero quem, lendo essa história hoje, século XXI, acha a história bonita e Jefté, um exemplo de homem cumpridor da sua palavra, um doente.

Eu já fico horrorizada imaginando como eram aqueles sacrifícios de animais feitos em nome de Deus, imagina uma pessoa, uma criança, sendo degolada, sangrada e esquartejada ritualmente, e depois tendo os pedaços do corpo, queimados num altar?

Tem pessoas que alegam que “holocausto” nesse caso, quer dizer outra coisa que não seja mesmo “holocausto”, ou seja “sacrifício queimado”. Querem fazer Jefté parecer mais bonito do que é, dourar a pílula, enquanto a bíblia não faz isso. Jefté era filho bastardo, de uma prostituta, e por isso foi segregado pelos seus irmãos. Foi habitar no meio dos pagãos, onde sacrificar seres humanos, era aceitável e normal, e deve ter aprendido com eles. Foi chamado de volta, porque os que antes o expulsaram, estavam em apuros. Antes de barganhar com Deus, já havia barganhado com as pessoas que o foram buscar de volta, exigindo ser feito chefe deles, caso vencesse. No mesmo capítulo, é possível perceber o sentido tribal pelo qual os hebreus entendiam Deus, já que o próprio Jefté afirma que, assim como Deus deu a Israel as terras que os israelitas conquistaram, Camos, deus dos amonitas, deu aos amonitas suas próprias terras. As disputas de terra entre eles na época, eram vistas também como disputas entre seus deuses. Perder na guerra, sinal de que Deus estava bravo com eles ou não estava com eles. Eles achavam que Deus só estava com eles, quando ganhavam as guerras, coisa que muitos evangélicos acham que é verdade até hoje. Em seguida, Jefté fez aquele voto infeliz, pensando supostamente, em Deus. Ele via Deus, da mesma forma que os pagãos com os quais vivia, entendiam. E muitos o consideram um exemplo de homem que cumpre a palavra, e tentam adicionar coisas que o texto não diz, para limpar a barra dele.

Podia parecer muito bonito ele não voltar atrás na sua palavra, mas se ele fez um voto que acabou contrariando as próprias leis onde holocaustos humanos eram proibidos, e eram inclusive considerados abomináveis, o voto não tinha validade alguma.

Não é irônico pensar que, de acordo com o pensamento evangélico, Deus já sabia quem sairia em primeiro lugar para encontrar Jefté, na volta da guerra? E não interfere em nada? A história não se parece muito mais, com uma demonstração do que pode acontecer com pessoas sem noção, que são dadas a fazer votos e barganhas supostamente com Deus, de forma insensata e, além da insensatez das promessas que fazem, ainda levam a insensatez até o fim?

Aliás, o livro de Juízes em resumo é: hebreus chafurdando na lama, e no sangue. O sinal que identificava, de acordo com os hebreus, alguém que estava tomado pelo Espírito do Senhor, era se encher de ódio e instinto assassino, se colocar como comandante de Israel na guerra, e matar muitos inimigos da forma mais sangrenta possível, inclusive em surtos psicóticos como os de Sansão. Nesse livro, tem até uma versão modificada da história de Sodoma e Gomorra, mas desta vez, envolvendo as tribos de Israel. Os benjaminitas fazendo o papel de vilões, sendo atacados pelas outras tribos, que matam quase todos os homens, e exterminam todas as mulheres, depois ficam com pena dos homens que sobraram, e não podendo voltar atrás no juramento de que não dariam suas filhas em casamento aos benjaminitas, dão um jeitinho digamos, pouco lícito, de conseguir mulheres para eles. Horrível.


Sobre os profetas…

março 23, 2011

“Os escritos dos profetas estão entre as partes mais mal entendidas da Bíblia hoje, em grande medida porque são comumente lidos fora do contexto. Muitas pessoas atualmente, especialmente os cristãos conservadores, leem os profetas como se eles fossem videntes usando bolas de cristal, prevendo eventos que ainda estão para acontecer em nosso próprio tempo, há mais de dois mil anos de distância da época para a qual os profetas estavam falando. Esta é uma abordagem totalmente egocêntrica da Bíblia. Mas os escritores da Bíblia tinham seus próprios contextos e, como resultado, suas próprias agendas. E esses contextos e agendas não são os mesmos nossos. Os profetas não estavam interessados em nós; eles estavam preocupados consigo mesmos e com o povo de Deus que vivia em sua época. Não surpreende que a maioria das pessoas que lê os profetas desta forma (eles previram o conflito no Oriente Médio! Eles previram Saddam Hussein! Os profetas nos falam sobre o Armageddon!) simplesmente escolhe ler um ou outro versículo ou passagem de forma isolada, e não lê os profetas em sua totalidade. Quando os profetas são lidos do início ao fim, fica claro que escreveram para sua própria época. Eles muitas vezes, de fato, nos contam exatamente quando estavam escrevendo – por exemplo, quem era o rei – então, desta forma, seus leitores podem entender a situação histórica que estavam preocupados em abordar.”

Bart D. Ehrman


Scribal Culture and the Making of the Hebrew Bible – Karel van der Toorn

outubro 17, 2010

trecho da Introdução

Quem escreveu a Bíblia? A questão é quase tão antiga quanto a própria Bíblia. Sábios judeus, citados no Talmud (Baba Bathra 15a), já se perguntavam isso, e a pergunta ainda ecoa nos dias de hoje na mente dos estudiosos e nos títulos dos livros. Desde que a Bíblia recebeu o status de livro sagrado, as pessoas têm se intrigado com sua origem. A Bíblia sobre a qual trata este livro, é a Bíblia Hebraica, adotada pela igreja cristã como Antigo Testamento. Sua origem remonta ao início de Israel. É um paradoxo que os israelitas, baseados como eram numa cultura oral, tenham deixado um livro como sua herança para o mundo. O próprio mundo dos israelitas não possuía livros. A leitura e a escrita eram restritas a uma elite profissional; a maioria da população era analfabeta. Mesmo que essa observação pareça superficial, é necessário fazê-la, desde que os leitores modernos da Bíblia são propensos a projetar sua própria cultura literária no povo bíblico. Embora o Judaísmo seja definido como a “religião do livro”, o livro em questão se origina numa cultura de palavra falada. Se queremos entender como foi feita a Bíblia hebraica, precisamos nos familiarizar com a cultura dos escribas, que a produziu. A cultura de uma elite letrada. Os escribas que produziram a Bíblia eram escritores profissionais filiados ao templo de Jerusalém.

Eles praticavam seu ofício num tempo em que não havia tradição literária nem um público leitor de qualquer espécie. Escribas escreviam para outros escribas. Para o público em geral, os livros da Bíblia eram ícones de um corpo de conhecimento acessível somente por meio da instrução oral apresentada pelos líderes religiosos. O texto da Bíblia hebraica não fazia parte da cultura popular. A Bíblia nasceu e era estudada na oficina de escribas do templo.  Em sua essência fundamental, era um livro do clero. A maioria daqueles que estavam envolvidos na manufatura da Bíblia não deixou nome nem biografia. Não os conhecemos individualmente. Podemos identificar seu ambiente como o da elite dos escribas, e é este ambiente que detém a chave para as origens da Bíblia. Pode ser circunscrita mais precisamente na oficina dos escribas do Segundo Templo, ativa no período entre 500 e 200 a.C. A propagação dos livros que viriam a constituir a Bíblia se originou com a mesma instituição. Os escribas que vamos estudar eram acadêmicos e professores: eles escreveram, editaram, copiaram, fizeram leituras públicas e interpretaram. Se a Bíblia se tornou Palavra de Deus, foi devido à sua apresentação. Tanto a produção como a promoção da Bíblia hebraica foi trabalho dos escribas. A história da origem da Bíblia é a história dos escribas por trás dela.

Scribal culture and the making of the Hebrew Bible – Karel van der Toorn