Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nEle

junho 20, 2012

por Liesel Hoffmann

Não sou brasileira, mas sou quase. Meus pais Alfons e Helga saíram de Hamburgo em abril de 1990, quando meu irmão Wolfgang e eu éramos crianças de 10 e 3 anos, respectivamente, e se instalaram em Salvador, Bahia. Desde Hamburgo meus pais eram luteranos, e mantiveram a religião na Bahia, apesar da forte presença católica e das religiões afro-brasilienses. Cresci ouvindo falar em Deus como um controlador do universo, a quem os seres humanos devem obediência e medo. Sempre ouvia falar na igreja que Deus é quem permite ou proíbe que as coisas aconteçam em nossa vida. Me lembro de uma vez num sermão o reverendo comparar Deus a um controlador de voo, responsável por manter os aviões no ar. Nesse dia me lembro de ter falado ao meu pai: mas os aviões caem…
Crescemos e fomos para o bairro da Moóca, em São Paulo, sempre com a visão de Deus como o controlador do Universo. Eu, por ter ido para o Brasil bem nova não tive muitos problemas com o idioma, ao contrário de meu irmão que, assim como meus pais, não entendiam o uso dos artigos e pronomes com substantivos masculinos e femininos, o que os levava a falar coisas com “meu casa”, “meu mãe”, “minha pai”, “a namorado de meu irmã”, “meu cunhada” e coisas assim, o que sempre era motivo de piada entre os amigos brasileiros.
Em 2004, meu irmão resolveu fazer faculdade. Aos 24 anos achou que poderia seguir carreira em São Paulo mesmo, já que meus pais não pensavam em voltar para a Alemanha e ele também não tinha o menor interesse em voltar. Se sentia muito bem no Brasil. Nós no sentíamos bem. Iniciou, em fevereiro, o curso de Publicidade e Propaganda no Presbiteriano Mackenzie, uma das melhores faculdades de São Paulo. Havia acabado de adquirir um carro. Tinha uma belíssima namorada brasileira, que era modelo na época. Ele estava muito feliz com a vida. Falava que era um “quase brasileira”, e fazia os amigos rirem com isso. Meu irmão e eu nos dávamos muito bem. Ele era meu melhor amigo e eu era a melhor amiga dele, a ponto de confidenciarmos um com o outro coisas que nem nossos pais sabiam. Ele me ensinou a dirigir e eu o ensinava a falar português. Nós nos amávamos muito. Eu o tinha como um herói, e ele me via como uma boneca de porcelana, com ele mesmo dizia.
No dia 27 de maio de 2004, ao sair da faculdade, meu irmão foi abordado por três homens que o mandaram entregar o carro. Sem esboçar qualquer reação meu irmão lhes entregou a chave e se afastou. Ao entrar no carro, um dos homens acertou meu irmão com um tiro que foi fatal: na mesma hora ele caiu morto em frente a faculdade. Naquele dia eu perdia uma das pessoas mais importantes da minha vida: Wolfgang Rudolph Jung Hoffmann, o Wolf, meu irmão a quem eu tanto amava, que morreu aos 24 anos. A família entrou em crise: meus pais se desesperaram, meus tios pensaram em fazer justiça com as próprias mãos. Mais ainda: minha crença em Deus se esvaziou por completo. Eu, uma adolescente de 17 anos totalmente descrente de Deus. Me lembro de ter dito: que Deus controlador é esse que permite um rapaz tão cheio de vida como meu irmão morrer de uma forma tão injusta? Ninguém me respondia. Na catedral luterana o reverendo dizia apenas: “deus quis assim”. Quis assim como? Ele fica feliz com a desgraça da família dos outros? Onde fica o tal amor que a Bíblia tanto fala?

Para encurtar a história, nos mudamos para o interior de SP em 2004 mesmo e em 2005 voltei para São Paulo, para morar sozinha e iniciar minha vida com meus próprios braços. Em dezembro de 2009 minha família resolveu voltar para Hamburgo, Alemanha. O Brasil, essa terra abençoada de gente alegre, era doloroso demais para minha mãe, que lamenta por ter passado uma tragédia tão grande num país tão bonito. E eu que não tinha nada a perder voltei também, mas agora para Berlin, onde vivo hoje.Desde que meu irmão se foi perdi totalmente a fé em Deus. Fiquei depressiva. Precisei de acompanhamento psiquiátrico. Tive crises emocionais. Tinha momentos terríveis em que precisava ser socorrida por estar em uma crise nervosa. Me lembro de um dia, já em Berlin, durante uma crise emocional onde eu gritava de desespero eu dizer: dá pra sair da minha vida, Deus? Você já me trouxe prejuízos demais. E assim vivi. Não queria correr o risco de crer num Deus que eu pensava proteger os que amo e ter de conviver com novas tragédias.

Agora, depois de viver e estar totalmente estabilizada aqui, começo a ver Deus de uma outra forma. Li o livro de um teólogo chamado Jurgen Moltmann e venho lendo algumas coisas sobre Deus escritas  por alguns líderes religiosos brasileiros. Um deles é o reverendo Ricardo Gondim, da Igreja Betesda em São Paulo. Estou descobrindo uma outra forma de ver Deus: ele não tem nada a ver com os acontecimentos humanos. Deus não controla nada, mas ama os seres humanos e lhes apoia nos momentos difíceis. Há alguns dias atrás, depois de ouvir um dos sermões do rev. Gondim pela internet cheguei à conclusão: Deus não teve nada a ver com a morte do Wolf, pois ele não permitiu nada, mas foi ele quem me ajudou a aguentar viva quando eu tentei tirar minha vida 15 dias após a morte dele. Comecei a chorar na hora. Pedi perdão a Deus por te-lo culpado pelas desgraças da minha vida. Espero que ele me perdoe por isso!

Ainda tenho várias dúvidas sobre Deus. E até hoje não me recuperei do trauma da morte do Wolf, mas aos poucos as coisas estão se encaixando. Mas independente de uma coisa e outra agora estou me sentindo melhor comigo mesma. Hoje faz exatamente 8 anos que meu irmão se foi, e é o primeiro ano que passo o dia inteiro sem qualquer crise depressiva. Ainda relembro a cena que vi quando cheguei em frente à faculdade, mas lido melhor com isso. Entendo que todos estamos sujeitos à tragédia.Espero que esse texto seja mais um passo rumo à cicatrização dessa ferida tão dolorosa.

Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nEle – Liesel Hoffmann

Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nEle – Liesel Hoffmann -no blog do Nelson Costa Jr


The Right to Heresy: Castellio against Calvin – Stefan Zweig

janeiro 26, 2011

Trechos da Introdução

“Uma mosca atacando um elefante.” Esta é a interpolação, do manuscrito do próprio Sebastian Castellio, de sua polêmica contra Calvino. A princípio, essa expressão nos repele um pouco, e estamos inclinados a considerar que é uma das expressões hiperbólicas às quais os humanistas são propensos. Mas as palavras de Castellio  não eram nem hiperbólicas nem irônicas. Pelo contrário, este lutador valente apenas pretendeu expressar claramente ao seu amigo Amerbach a sua própria profunda e angustiante convicção de que estava enfrentando um antagonista colossal, quando publicamente acusou Calvino de ter se deixado instigar pelo dogmatismo fanático levando um homem à morte e assim, colocou abaixo a liberdade de consciência que caracterizou a Reforma.

Quando Castellio entrou nesse torneio perigoso, usando sua pena como um cavaleiro usaria uma lança, estava ciente de que um ataque puramente espiritual contra uma ditadura montada sobre armas materiais não seria efetiva, e que estava, então, lutando por uma causa perdida. Como poderia um homem desarmado e sozinho, esperar vencer Calvino, que tinha em sua retaguarda milhares e dezenas de milhares, e estava equipado com todos os poderes do Estado? Um mestre na arte da organização, Calvino foi capaz de transformar uma cidade inteira, um Estado inteiro, cujos burgueses tinham sido até então homens livres, em uma máquina rígida e obediente; foi capaz de extirpar a independência, e impor um embargo sobre a a liberdade de pensamento em favor da sua própria e exclusiva doutrina. Os poderes do Estado estavam sob seu controle supremo; as várias autoridades eram como cera em suas mãos, o Conselho da Cidade e o Consistório, universidade e  tribunal, finanças e moralidade, pregadores e escolas, diligências e prisões, as palavras escritas e faladas e até as palavras sussurradas secretamente. Sua doutrina se tornou lei, e qualquer um que se atrevesse a questionar era logo ensinado – por argumentos que encerravam a discussão, pelos argumentos da tirania espiritual, pela prisão, exílio ou morrer queimado na estaca – que em Genebra apenas uma verdade era válida, a verdade de que Calvino era o profeta.[…]

[…]Quem era seu adversário, Sebastian Castellio, o idealista solitário que, em nome da liberdade de pensamento, renunciou à fidelidade à Calvino assim como a qualquer outra tirania espiritual? Avaliando-se o material disponível a respeito desses dois homens, não é exagero comparar um deles a uma mosca e o outro, a um elefante. Castellio não era nada, não era ninguém, quando se tratava da sua influência pública; era ainda, um estudioso financeiramente pobre, que trabalhava duro para sustentar esposa e filhos com traduções e ensino particular; um refugiado numa terra estrangeira, onde não tinha estado civil nem residência, duplamente um emigrado; e, como sempre acontece em dias onde o mundo se fez louco por causa do fanatismo, o humanista era impotente e isolado em meio a zelotes rivais.[…]

[…]Castellio, entretanto, ganhou seu lugar de fama imperecível por ser um humanista que apareceu e cumpriu seu destino. Heroicamente, abraçou a causa dos seus companheiros perseguidos, e assim jogou fora sua vida. Sem se tornar fanático, embora todo o tempo perseguido por fanáticos, imperturbável como Tolstoy, levantando como uma bandeira a sua convicção de que nenhum homem deveria ser subjugado à força a ter esta ou aquela opinião sobre a natureza do universo, ele declarou que nenhum poder terreno tinha direito de exercer autoridade sobre a consciência dos homens. E porque proferiu essas opiniões, não em nome de um partido mas como expressão espontânea do espírito imperecível de humanidade, seus pensamentos, como muitas de suas palavras, não podem ser esquecidas. Pensamentos universalmente humanos e atemporais, quando fixados por um artista, guardam para sempre a forma do seu primeiro molde, e uma confissão que tende a promover a unidade mundial superará a desunião, e as expressões agressivas e doutrinárias.  A coragem singular desse personagem esquecido deveria servir de exemplo para as próximas gerações, sobretudo na esfera moral. Quando, a despeito dos teólogos, Castellio descreveu Servetus, vítima de Calvino, como um inocente que foi assassinado; quando, em resposta aos sofismas de Calvino, ele fez trovejar seu enunciado imperecível, “queimar um homem vivo não defende nenhuma doutrina, apenas mata um homem”; quando seu Manifesto em nome da Tolerância (muito antes de Locke, Hume e Voltaire, e de forma mais esplêndida que eles), proclamou de uma vez por todas o direito à liberdade de pensamento – ele sabia que estava dando sua vida pelas suas convicções. Não suponha o leitor que o protesto de Castellio contra o assassinato judicial de Miguel Servetus está no mesmo nível dos muito mais celebrados protestos de Voltaire no caso de Jean Calas ou o de Zola no caso Dreyfus.  Estas comparações diminuem a grandeza moral do que Castellio fez. Voltaire, quando tomou as dores de Calas, estava vivendo em uma época humanista, e como escritor famoso, contava com a proteção de reis e príncipes. De forma similar, Zola tinha em sua retaguarda um exército invisível, a admiração da Europa e do mundo. Voltaire e Zola estavam sem dúvidas arriscando a reputação e o conforto, mas nenhum deles colocou em risco sua vida. E foi isso que Castellio fez,  sabendo que na sua luta pela humanidade, iria concentrar sobre a sua cabeça todas as atrocidades do século cruel no qual viveu.

Sebastian Castellio pagou o preço todo pelo seu heroísmo, um preço que esvaziou suas energias.  Este advogado da não violência, que escolheu não usar arma alguma além das espirituais, foi estrangulado pela força bruta. De novo e de novo como podemos ver aqui, há pouca esperança de sucesso para alguém que não tem sob seu comando nenhum outro poder além da retidão moral, e que, estando sozinho, entrava uma batalha contra uma organização compacta. Assim como quando uma doutrina toma o controle do aparato do Estado e dos instrumentos de pressão com os quais o Estado pode contar, sem hesitação vai instaurar um reino de terror. As palavras de alguém que desafia a sua onipotência são sufocadas, e usualmente o pescoço do palestrante ou escritor dissidente acaba torcido também. Calvino nunca pretendeu responder seriamente a Castellio, preferindo reduzir seu crítico ao silêncio. Os escritos de Castellio foram censurados, colocados sob proibição, e destruídos onde eram encontrados. Pelo exercício da influência política, as adjacências foram induzidas a negar sua liberdade de expressão dentro de suas fronteiras. Então, assim que seu poder de protesto ou crítica estava destruído, quando sequer podia reportar as medidas que estavam sendo tomadas contra ele, os “satélites” de Calvino o atacaram de forma caluniosa. Não havia uma luta entre dois adversários equipados com as mesmas armas, mas a chacina cruel de um homem desarmado por uma horda de bárbaros. Calvin dominava os meios impressos, os púlpitos, as cátedras e os sínodos. Os passos de Castellio foram perseguidos; bisbilhoteiros prestavam atenção em tudo que dizia; suas cartas eram interceptadas. Poderíamos nos espantar por uma organização com tantas mãos pudesse facilmente levar a melhor sobre um humanista sozinho; que nada além da morte prematura de Castellio o salvaria do exílio ou de ser queimado na estaca? O dogmático triunfante e seus sucessores não hesitaram em se vingar sobre o cadáver do adversário.  Suspeitas e invectivas, disseminadas depois da sua morte, destruíram-no como a cal, e cinzas foram espalhadas sobre o seu nome. A memória desse solitário que havia não só resistido à ditadura de Calvino, mas investido contra os princípios básicos da ditadura sobre as coisas espirituais, foi, como os fanáticos esperavam, apagada da mente dos homens para sempre.[…]

[…] A História não tem tempo de ser justa. É seu trabalho, como cronista imparcial, gravar os sucessos, mas ela raramente avalia seu valor moral. Mantém os olhos fixados nos vitoriosos, e deixa os vencidos nas sombras. Sem cuidado algum, esses “soldados desconhecidos” são jogados na vala comum do esquecimento. Nulla crux, nulla corona- nem cruz, nem grinalda – para recordar seus sacrifícios inúteis. Na verdade, porém, nenhum esforço feito pelos puros de coração deve ser considerado fútil ou estigmatizado como estéreis; nem qualquer dispêndio de energia moral se dissipa no espaço vazio sem deixar repercussões. Apesar de derrotados, os que viveram antes do seu tempo encontraram significado em um ideal atemporal; uma ideia que é trazida à vida no mundo real, apenas pelo esforço daqueles que a conceberam, onde ninguém pode testemunhar a concepção, e estavam prontos para avançar ao longo da estrada que levava à morte sombria. Consideradas espiritualmente, as palavras “vitória” e “derrota” adquirem novos significados. Por isso nunca devemos deixar de lembrar um mundo que só tem olhos para monumentos e conquistadores, que os verdadeiros heróis da raça humana não são aqueles que constroem seus reinos transitórios em cima de uma hecatombe de cadáveres, mas aqueles que, não tendo poder para resistir, sucumbem à força superior – como Castellio foi sufocado por Calvino, em sua batalha pela liberdade de espírito e pelo estabelecimento do reino final da humanidade na Terra.

The right to heresy: Castellio against Calvin – Stefan Zweig

“Buscar e dizer a verdade, tal como se pensa, não pode nunca ser um delito. A ninguém se deve obrigar a crer. A consciência é livre.”

Ao refletir acerca do que seria definitivamente um herege, não posso senão concluir que chamamos de hereges aqueles que não concordam com a nossa opinião.”

“Oh, Cristo, Criador e Rei do mundo! Vês essas coisas? Terias tu te convertido em outro diferente do que eras? Quando vieste à Terra, não havia ninguém mais agradável, ninguém mais bondoso do que Tu, ninguém que houvesse suportado as ofensas da forma mais indulgente. Insultado, cuspido, zombado, coroado com espinhos, crucificado entre ladrões, em meio ao mais profundo desespero, rogaste por aqueles que Te infligiram todos aqueles agravos e injúrias. É verdade que mudaste? Eu Te rogo, pelo nome sagrado do Teu Pai: ordenaste Tu realmente que aqueles que não seguem todos os Teus preceitos e mandamentos tal como postula em Teus ensinamentos, fossem afogados, torturados com tenazes até as entranhas, tendo sal polvilhado em suas feridas, mutilados com espadas, queimados e torturados até a morte, tão lentamente quanto for possível, e com todo tipo de suplícios? Oh Cristo, realmente aprovas estas coisas? São realmente Teus servos estes que agem como carniceiros, que desta forma desossam e esquartejam as pessoas? E quando usam o Teu nome como testemunha, estás Tu realmente envolvido nessas matanças atrozes, como se tivesses fome de carne humana? Se Tu, Cristo, ordenaste realmente estas coisas, o que Te diferenciaria de Satã? Oh, terrível irreverência, crer que Tu poderia fazer essas coisas, as mesmas que Satã faz. Oh, audácia infame dos homens: atribuir a Cristo o que só pode ser vontade e invenção do demônio.”

Sebastian Castellio

“Não é cristão usar armas contra aqueles que foram expulsos da igreja, e negar a eles os direitos comuns a toda a humanidade.” frase de Calvino, quando o perseguido era ele, e a igreja que o perseguia, a católica romana, e não a dele. Uma pena que ele tenha esquecido tão rápido as próprias palavras, não é? Conseguiu piorar o mundo  um pouco mais, porque esqueceu o que ele mesmo tinha dito antes.

O tipo de coisa que acontece quando cristãos esquecem, ou nem sabem de que Espírito são.


Jesus and the Nonviolent Revolution – André Trocmé

junho 28, 2010

Prefácio do Autor

Não existe paz fácil. A explosão populacional na Terra, torna cada dia mais difícil uma solução pacífica para os problemas da fome, segurança nacional e justiça social. Simultaneamente, a ameaça da destruição nuclear continua a colocar em perigo o futuro da humanidade.

Enquanto isso, alarga-se o fosso existente entre a mentalidade dos nossos contemporâneos, moldada por uma civilização tecnológica onde podemos controlar a natureza, e a religião tradicional, concebida durante uma época rural, onde os seres humanos viviam à mercê da natureza.  Embora a tecnologia esteja ameaçando mais do que nunca a existência humana, o pensamento cristão – assustado com as responsabilidades que deve assumir – se recusa a ver no Evangelho, qualquer coisa que não seja uma mensagem de salvação individual. Poderia dizer até, que o Cristianismo considera suspeitas quaisquer ações no sentido da salvação física da raça humana. Rejeita qualquer esforço prático de autêntica obediência cristã como presunçosa e farisaica – e numa época em que há muitos necessitados disso. Essa inversão dos ensinamentos de Jesus Cristo deve ser corrigida, para que a igreja não desqualifique a si mesma, como instrumento capaz de mostrar o caminho, para uma humanidade à beira do suicídio coletivo.

Não sou nem professore de história nem professor de teologia, e o que se segue, são apenas arranhões na superfície de áreas normalmente reservadas para especialistas. Deixem-me dizer, entretanto, que por ter flertado com as teologias e filosofias do desespero, eu agora rejeito o seu veneno. O pensamento existencial pode saciar com suas análises lúcidas, que definem os problemas, mas falha no que diz respeito a proporcionar uma obediência corajosa, capaz de resolver os problemas. Tal abordagem não é nada mais do que uma desculpa esfarrapada para evadir-se da responsabilidade nesse mundo e é característico de um período de decadência moral e religiosa. De fato, a tendência dos cristãos de intelectualizar questões éticas está em proporção direta com a medida com a qual se tornam parte do poder estabelecido.

Todos nós, cristãos e não cristãos igualmente, somos responsáveis pela fome, injustiça, egoísmo, exploração e pelas guerras que têm devastado nossa época. Os cristãos possuem ainda mais responsabilidade: sabendo que Deus pode mudar as pessoas e as situações, o discípulo de Jesus pode ajudar a trazer um futuro baseado em Deus para a humanidade.

Os cristãos professam que em determinado lugar e tempo, Deus interveio na história, tornando todos os acontecimentos posteriores do planeta, de importância divina. Por causa do nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, nós sabemos que toda vida, e toda morte, são assuntos de Deus.

Se cada pessoa estiver investida com esse tipo de valor, quão grande seria o valor da soma da história humana! Mesmo acreditando ou não que Jesus é filho de Deus, Jesus é o evento central da história, porque de fato a sua existência mudou a humanidade. Precisamos então entender quem era este Jesus, no sentido de compreender plenamente o valor da humanidade e da nossa missão perante a mesma.

Trabalhos recentes reabriram o debate a respeito de quem Jesus foi. Todos concordam que quando os autores do Novo Testamento pretenderam mostrar Jesus para as pessoas da sua geração, eles fizeram uso de certas crenças então correntes na região. Obviamente, Jesus e seus discípulos falaram a linguagem dos seus contemporâneos. Isso não deve nos alarmar. Nós não precisamos, por exemplo, discutir sobre o valor das coisas que aquelas pessoas do primeiro século disseram sobre o universo, simplesmente porque nosso conhecimento a respeito do universo, se expandiu desde aquela época. Por trás do vocabulário que era usado na época de Jesus, ainda podemos descobrir o Cristo que permanece.

O evangelho deve ser lido não apenas com fé, mas também com inteligência. Isso não significa que temos que dar forma ao zelo de desmistificar de alguns intérpretes, cujos esforços em “limpar” o evangelho, têm apenas transformado o evangelho num deserto.

Se o Novo Testamento tem que ser desmistificado em tudo, isso deve ser feito com a assistência do Antigo Testamento, e não de nossos mitos modernos. Quanto mais alguém observa o monoteísmo estrito do Deus de Israel, mais visível o pensamento de Jesus se torna. O Deus de Jesus é o Deus de Israel. A fé cristã dissolve em pura mitologia, quando não se inclina ao judaísmo. É verdade que os escritores do Novo Testamento se basearam em fontes fora do Antigo Testamento, para explicar Jesus aos seus contemporâneos judeus e gregos. Mas não podemos nos esquecer que sua fonte principal de referência era sempre o Antigo Testamento.

Por outro lado, o Antigo Testamento tem necessidade doNovo. Jesus levanta o fato esmagador da queda original e elimina a restrição do dogma do povo eleito. Humaniza o ritual e as leis de Moisés. Realiza o que os profetas do Antigo Testamento apenas anunciaram. Assim, não se perde nada por cristianizar o judaísmo, porque Jesus Cristo já o fez.

O Jesus da história atualmente transcende tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos. Ele é o ponto de encontro entre dois edifícios teológicos, o judeu e o cristão. Ele cumpriu o primeiro e gerou o segundo. Ele sozinho explica o que veio antes e o que virá depois dele. Ninguém coloca uma lâmpada embaixo de um cesto, mas a usa para iluminar a escuridão. A luz aparece quando deixamos Jesus, ele mesmo, interpretar o Judaísmo e o Cristianismo para nós.

A vida e ensinamentos de Jesus são como uma ponte, conectando duas épocas históricas – uma ponte definida pelas parábolas e aforismos por meio dos quais ele falou. Devemos tentar entender o seu significado mais profundo. Sua profundidade é mais impressionante do que qualquer doutrina rigorosamente constante, pois sua profundidade brota da presença em Jesus do Deus vivo, que revela a Si mesmo como o Pai amoroso de todas as pessoas. A presença de Deus se manifesta por si mesma; não se prova.

Limitei minhas ambições ao modesto objetivo de interrogar Jesus Cristo por ele mesmo. O que descobri? Resumidamente, o retrato de um revolucionário vigoroso, capaz de salvar o mundo sem usar violência. Embora tenha examinado literaturas secundárias, gostaria de ressaltar de novo minha limitada competência exegética e histórica. Minhas muitas outras atividades têm simplesmente me impedido de exercer mais trabalho acadêmico. As teses sobre a proclamação do jubileu bíblico por Jesus, são minhas próprias. Se o caráter um tanto incomum das minhas teses, puder estimular a curiosidade dos especialistas, e provocar mais investigações sobre a ética social e a não-violência de Jesus, terei atingido meu objetivo.

André Trocmé

Jesus and the Nonviolent Revolution – André Trocmé


More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns

maio 18, 2010

Prefácio do autor

As causas da violência são variadas e complexas, assim como a violência motivada pela religião. Violência em nome de ideologias religiosas não é algo novo, mas seu potencial destrutivo tem crescido exponencialmente, ao mesmo tempo em que as tecnologias bélicas se tornam mais eficientes. Centenas de livros sobre o assunto religião e violência têm sido publicados nas décadas recentes, com aumento depois do 11 de setembro. As perspectivas oferecidas por esses trabalhos nos ajudam a entender o papel que textos religiosos, política, economia, uso dos recursos naturais, história, nacionalismo, etnocentrismo, fatores sociais, psicologia humana, e imagens do divino possuem na justificação da violência. Apesar dessas perspectivas serem importantes e úteis em proporcionar argumentos para o diálogo, fazem pouco para aliviar a frustração pessoal que muitos de nós sentem em face desse problema crescente. A maior parte da literatura falha em uma ou duas categorias: nas tentativas de explicar o fenômeno, ou nas tentativas de identificar sinais de alerta antes que a violência aconteça.

A primeira abordagem, teorizar para explicar, é importante, mas pode parecer muito abstrata para falar com pessoas fora da academia. A segunda abordagem é igualmente importante e certamente muito útil para órgãos responsáveis pela segurança pública. Este livro é diferente nisso, enquanto há uma discussão a respeito dos motivos, ocorrendo em toda parte, meu objetivo é oferecer um arcabouço teórico que se aproxime mais da aplicação prática do que os trabalhos atualmente disponíveis. Sou formada em teologia com especialização em psicologia da religião, e meu trabalho é de certa forma, transdisciplinar.  Por transitar entre esses dois mundos, talvez esteja em melhor posição que muitos dos teóricos para explorar os meios pelos quais crenças religiosas e mecanismos psicológicos interagem.

O objetivo principal do livro é lançar luz sobre as interações entre nossas imagens de Deus, nosso ego individual e o self coletivo, e trazer à luz o grau em que cada um de nós compartilha a responsabilidade pela transformação do cenário religioso. Porque a posição que eu assumo nesse trabalho, é a de que cada um de nós tem um grau de responsabilidade pessoal pela violência que é cometida em nome da religião, é importante esclarecer alguns termos básicos.

Mesmo em alguns dos melhores textos sobre o assunto hoje, é comum ver “violência” e “terrorismo” usados como sinônimos, e as distinções raramente são feitas entre categorias de violência. A violência é definida aqui como “exercício de força física para causar injúria, ou causar dano a pessoas ou propriedades; ação ou conduta caracterizada por isso; tratamento ou comportamento que tende a causar injúria corporal ou interferir à força com a liberdade pessoal” (Oxford English Dictionary, 2nd ed.). O terrorismo é definido como “uma violência cujo alvo são as populações civis… comunidades, e instituições do estado com o objetivo de atrair o máximo de atenção pública, visando causar mudanças políticas ou alterações de poder em favor da causa dos seus perpretadores.”  Nesse ponto de vista, nem toda violência é terrorismo, e todo terrorismo é violência.

Desde que nem toda violência religiosa é terrorismo, muitos importantes trabalhos teóricos, por se concentrar em atos terroristas, podem não se encaixar. O terrorismo é um fenômeno complicado afetado por muitas variáveis. Toma diferentes formas e ocorre por meios políticos, nacionais e econômicos. É executado para atingir muitos objetivos diferentes e executado por pessoas religiosas e não religiosas. Importante para definir o terrorismo é o fato de que os grupos terroristas são mais fracos do que seus inimigos percebidos. Também importante é sua prontidão em matar não-combatentes para atingir seus objetivos. É bom notar porque a violência religiosa é muitas vezes perpretada não pelo fraco, mas por aqueles que estão no poder. Os exemplos incluem a Inquisição da Igreja Católica Romana, e a guerra formal declarada por autoridades religiosas como os papas, na história cristã, e Maomé no Islã. A psicologia terrorista pode ter muito em comum com violência de gangues, enquanto a violência religiosa sancionada pelos poderosos podem operar por mecanismos distintos, observados por psicoanálises.

Neste trabalho, assumo a posição de que, se estamos interessados nas origens da violência cometida em nome de nossos deuses, precisamos entender a psicologia do ator individual, que é onde a violência começa. Obviamente, indivíduos agem mais destrutivamente em grupos, por isso psicologia social e dinâmica de grupos são importantes, mas não podemos perder de vista o fato de que grupos são feitos de indivíduos. Embora a política, a secularização, condições econômicas, lideranças carismáticas, e muitos outros fatores exerçam influência, o que importa é o que passa nas mentes dos indivíduos. Como veremos, a experiência subjetiva da injustiça ou depravação contam mais que as condições da realidade objetiva.  Fatores externos são necessários, mas claramente não são condições suficientes para a ocorrência da violência religiosa. Perpretadores de violência o fazem porque a forma como percebem suas situações, que, curiosamente, muitas vezes, são objetivamente aquelas do cidadão de classe média que possuem os recursos necessários para mudar seus próprios futuros. Muitas das mais populares teorias sociológicas, políticas e econômicas se baseiam nesse fato.

Encontrei na abordagem psicoanalítica dos arquétipos, desenvolvida por Car G. Jung, a mais promissora. A psicologia de Jung é robusta não só porque é, como veremos, totalmente compatível com os conhecimentos correntes em ciência cognitiva, psicologia e pensamento evolutivo. Está ressurgindo por essas e outras razões. A psicologia dos arquétipos tem se provado ser heuristicamente poderosa. Apesar de haver uma tendência entre muitos psicólogos do século XX para minimizar o trabalho de Jung, a psicologia Jungiana tem tido seguidores entre os analistas para os quais o seu trabalho enriquece outros sistemas e abordagens terapêuticas.  Os clérigos cristãos têm encontrado na psicologia Jungiana e de arquétipos, uma abundante fonte de ideias para melhorar a vida dos seus paroquianos. Muitos leigos inteligentes descobriram na psicologia arquetípica, ferramentas para transformação pessoal. Textos de psicólogos como James Hillman e Thomas Moore, entre outros, tem sido bastante lidos. As teorias de Jung falam com todo um segmento de profissionais e pessoas leigas, talvez mais do que qualquer outro sistema psicoanalítico. Seu trabalho faz sentido com a experiência das pessoas. Então um objetivo desse trabalho, é proporcionar ferramentas conceituais para trabalhar contra a perversão das ideologias religiosas, e fazer uso de conceitos que comprovadamente se comunicam com não especialistas, é a abordagem mais razoável. Tomada como uma lente interpretativa, a psicologia arquetípica pode nos ajudar a construir formas poderosas de tratar o sério problema da violência religiosa.[…]

O prefácio continua, mas para não me estender muito aqui, vou resumir os assuntos dos capítulos do livro, sobre os quais a autora discorre no restante do texto. No primeiro capítulo, ela começa com uma pergunta: a religião pode causar violência? Nesse capítulo, além de uma breve introdução sobre as origens da religião, ela fala sobre como se usa a religião para fugir da responsabilidade pessoal sobre comportamentos e decisões. No segundo capítulo, ela trata de citar grandes eventos de violência religiosa e examina a função exercida pelas escrituras sagradas nesses casos de violência. Cita casos não tão conhecidos como os da história do cristianismo e do islamismo, para demonstrar que violência religiosa nem sempre se baseia em textos sagrados e que portanto, a culpa não seria das escrituras sagradas, e sim do uso que se faz delas. No terceiro capítulo, cujo título em português seria “Buscando as origens da violência religiosa”, a autora se concentra nas teorias sobre o assunto. Com ênfase numa das mais comuns, de que o monoteísmo, por suas características particulares, tem mais potencial de levar pessoas a atos de violência, do que as demais formas de teísmo. No quarto capítulo, as explicações psicológicas mais importantes para os comportamentos religiosos violentos, são examinadas. O quinto capítulo é dedicado à psicologia da religião com ênfase nos princípios de Jung, os quais, segundo a autora, oferecem muitos subsídios para entender a questão com mais profundidade. No sexto capítulo, ela explora premissas filosóficas e teológicas da psicologia arquetípica. Oferece correções sobre falhas comuns no entendimento das teorias de Jung sobre a religião. No último capítulo, ela conclui dizendo que a “imoralidade” dos nossos deuses só pode ser transformada, quando nós mesmos nos tornamos mais morais do que nossos próprios deuses. Uma vez que grupos de pessoas, como os grupos religiosos, são moldados por padrões emocionais acumulados, e pensamentos de pessoas desconhecidas, o problema do grupo é a acumulação de maldades individuais. Como acontece em toda experiência humana coletiva, o mesmo sistema que possui as sementes da violência, contém também as sementes da paz.

Qual semente vai germinar, se é a da violência ou a da paz, é uma escolha dos indivíduos envolvidos nos grupos.

More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns


História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal – Alexandre Herculano

novembro 22, 2009

“Há aí a hipocrisia, que, depois de minar debaixo da terra durante anos, surge, enfim, à luz do sol e, balouçando o turíbulo, incensa todos os que abusam da força, declarando-os salvadores da religião, como se a religião precisasse de ser salva ou coubesse no poder humano destruí-la. Tudo isso tumultua e brada; tudo isso tripudia à porta do pretório e traduz o sussurrar das orgias que vão lá dentro em anúncios de paz e de prosperidade. O vulgacho espera de cima a realização dos seus ódios contra a classe média, a satisfação à sua inveja; os velhos interesses pensam numa indenização impossível; os hipócritas querem aproveitar o ensejo de granjear as multidões para o fanatismo e, com tal intuito, recorrem a um meio, infalível em todos os tempos, para se obter esse fim, o ínculcarem-lhes de preferência o que na superstição há de afirmações mais incríveis. — Os milagres absurdos renascem, multiplicam-se em frente dos recrutamentos: o convento e a casa professa já disputam ao quartel a geração nova. O cercilho e o bigode jogam o futuro sobre o tambor posto em cima da ara. O praguejar soldadesco cruza-se com a antifona do breviário. A água benta aspergida do hissope episcopal, vai diluir no chão o sangue coalhado dos espingardeamentos, e o sacerdote crê ter afogado o clamor daquele sangue que se imbebe na terra, porque entoou hossanas sacrílegos ao triunfar dos algozes, no momento em que as vítimas caíam mártires da sua fé na civilização e na liberdade.”

[…]O fanatismo tem a nobreza de todas as paixões ardentes: ergue os olhos para Deus, que calunia, mas a quem crê servir e honrar: é a tempestade do coração humano que passa grandiosa, como as da natureza, e que deixa após si um sulco de estragos. A hipocrisia, suprema perversão moral, é o charco podre e dormente que impregna a atmosfera de miasmas mortíferos e que salteia o homem no meio de paisagens ridentes: é o réptil que se arrasta por entre as flores e morde a vítima descuidada. A civilização, nos seus progressos, enfraquece gradualmente o fanatismo, até o aniquilar. A hipocrisia vive com todos e com tudo e acomoda-se a qualquer grau de cultura social. Se mão robusta lhe rasga o manto da religiosidade de que se cobriu, rindo impiamente, e aponta aos que passam as suas pústulas asquerosas, brada contra a calúnia, chora e declara-se mártir, reservando no peito para os dias propícios vinganças que ultrapassem a ofensa e que, vindas dela, são sempre implacáveis.

Foi por isso que o Salvador assinalou a hipocrisia com o selo da sua tremenda maldição. Aquele para quem o futuro não tinha mistérios sabia que ela seria em todos os tempos a mais cruel inimiga do cristianismo e da humanidade.”[…]

[…]Se é delatado, às vezes por testemunhas falsas, qualquer desses malaventurados, por cuja redenção Cristo morreu, os inquisidores arrastam-no a um calabouço, onde lhe não é lícito ver céu nem terra e, nem sequer, falar com os seus para que o socorram. Acusam-no testemunhas ocultas, e não lhe revelam nem o lugar nem o tempo em que praticou isso de que o acusam. O que pode é adivinhar e, se atina com o nome de alguma testemunha, tem a vantagem de não servir contra ele o depoimento dessa testemunha. Assim, mais útil seria ao desventurado ser feiticeiro do que cristão. Escolhem-lhe depois um advogado, que, freqüentemente, em vez de o defender, ajuda a levá-lo ao patíbulo. Se confessa ser cristão verdadeiro e nega com constância os cargos que dele dão, condenam-no às chamas e os seus bens são confiscados. Se confessa tais ou tais atos, mas dizendo que os praticou sem má tenção, tratam-no do mesmo modo, sob pretexto de que nega as intenções. Se acerta a confessar ingenuamente aquilo de que é culpado, reduzem-no à última indigência e encerram-no em cárcere perpétuo. Chamam a isto usar com o réu de misericórdia. O que chega a provar irrecusavelmente a sua inocência é, em todo o caso, multado em certa soma, para que se não diga que o tiveram retido sem motivo. Já se não fala em que os presos são constrangidos com todo o gênero de tormentos a confessar quaisquer delitos que se lhes atribuam. Morrem muitos nos cárceres, e ainda os que saem soltos ficam desonrados, eles e os seus, com o ferrete de perpétua infâmia. Em suma, os abusos dos inquisidores sãos tais, que facilmente poderá entender quem quer que tenha a menor idéia da índole do cristianismo, que eles são ministros de Satanás e não de
Cristo.”
[…]

Alexandre Herculano

História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal – Alexandre Herculano (livro online)