A apologética ambígua

dezembro 28, 2014

por capelão Mike

Eu confesso. Não tenho apologética.

Não há como defender Deus. Não há como provar que o Seu caminho é o correto. Para isso, seria necessário que eu entendesse Deus, para que possa fundamentar as alegações de verdade que a minha fé me chama a abraçar.

Posso explicar muito bem no que creio. Posso demonstrar até certo grau que minha fé é razoável, e não um delírio de um lunático. Mas não posso provar nada. Não posso discutir um enigma. Não posso fazer campanha para Jesus, sobre uma plataforma de certeza.

Veja, toda a “evidência” é ambígua. É capaz de ser interpretada de diversas formas. O que convence uma pessoa a crer, pode levar outra a ter sérias dúvidas.

Até mesmo o acontecimento que é o alicerce da nossa fé – a ressurreição de Jesus – não foi o que podemos chamar de um evento público. Foi descoberto de forma inesperada por algumas pessoas comuns, no amanhecer enevoado de uma manhã de Páscoa. Todas as aparições de Jesus foram reservadas, a pessoas que se tornaram suas testemunhas. É na palavra destas pessoas que temos que confiar. Estou convencido de que elas eram confiáveis e não tinham motivos para inventar uma história tão fantástica, mas consigo entender que pessoas podem ter dúvidas a respeito disso.

Acho que é por isso que tantos cristãos sentem necessidade de apresentar uma Bíblia inerrante, uma revelação totalmente confiável, feita diretamente da boca de Deus, que demonstra em termos incontestáveis que é VERDADE™. Então, tudo que temos que fazer é abrir o livro e – lá está! – uma base segura  e certa para as nossas crenças. Entretanto, por mais confortáveis que isso possa fazer os crentes se sentirem, apenas cria outra proposição que os cristãos precisam defender. Provar a divina perfeição da Bíblia é um esforço hercúleo, e como séculos de disputas sobre a natureza, significado e interpretação da escritura, mostram, a evidência é obscura.

Então, realmente não tenho uma apologética. Na melhor das hipóteses, ela é ambígua.

Outro dia eu estava pensando sobre os pastores na história de Lucas sobre o nascimento de Cristo. Certamente eles tinham um senso de certeza. Certamente o que eles experimentaram foi tão inquestionável e transformador, que viveram o resto das suas vidas na certeza da fé. Com certeza o próprio Deus tinha provado a eles. Eles viram os anjos. Ouviram o evangelho ser anunciado, diretamente do céu. Eles viram o bebê Jesus em carne e osso!

Porém, às vezes adoraria saber o que aconteceu depois. O Evangelho nos diz que os pastores voltaram ao trabalho naquela mesma noite. Não temos mais notícias deles. Como será que foi para os pastores uma semana depois? Um mês depois? Dez ou vinte anos depois? Não sei se eles estavam por perto quando Jesus andou ao longo da Judeia proclamando o Reino. Gosto de pensar que a fé deles foi confirmada e fortalecida ao longo dos anos, talvez por meio de encontros pessoais com Jesus no seu ministério.

Por outro lado, é possível que eles não tenham mais ouvido falar de Jesus novamente, talvez pelo resto das suas vidas. Se foi assim, o que aquele longo silêncio teria comunicado a eles? Baseados na mensagem do anjo, eles podem ter aguardado, em algum momento ao longo da estrada, que o Filho de Davi chegasse ao trono em Jerusalém, trazendo a paz duradoura e alívio com relação aos seus inimigos. Um cumprimento inquestionável da promessa de Deus. Mas mesmo que eles tenham feito parte da multidão e seguido Jesus ao longo da Judeia e Galileia, eles podem nunca ter percebido. Como eles poderiam ter relacionado aquele grande anúncio de nascimento, com a realidade anos depois – um rabino itinerante que não tinha onde reclinar a cabeça? E então, a cruz? Algum rei. Algum trono.

Tudo isso é pura especulação, é claro, mas penso em uma conclusão: em minha opinião, os cristãos (e me incluo nisso), parecem convencidos quando falam sobre Jesus e sobre a fé. Como se tivéssemos um senso de certeza que nos faz sentir felizes ao longo da vida. Como se o que acreditamos e as razões pelas quais acreditamos fossem tão claras, tão transparentes, tão inquestionáveis, que não podemos imaginar que os outros sejam incapazes de ver isso.

Tive um despertar espiritual enquanto estava na escola secundária, e foi causado por relacionamentos que desenvolvi com um grupo de jovens cristãos, na escola e na igreja. O que eu gostava neles, é que eram reais. Eu notava suas imperfeições e podia encontrar furos em seus argumentos. Mas não podia deixar de perceber a alegria deles, e a convicção que tinham de que a vida valia a pena apesar dos problemas e dúvidas. Havia algo que os mantinha em movimento para abraçar o divino da vida, da fé, esperança e do amor. Eles eram péssimos quando tentavam explicar isso, mas estava lá. No fim das contas, percebi que não podia resistir à canção que a vida deles cantava para mim.

Então é a isso que quero voltar. Algum dia muito tempo atrás, numa noite escura, ouvi anjos cantando. Vi a face do salvador. E era real.

Minha experiência com certeza não foi tão espetacular como o que os pastores testemunharam. Entretanto, foi suficiente para prender minha atenção e me fazer mudar de direção, de uma forma que suponho pareceria tanta loucura quanto largar seu trabalho, no meio da noite, para procurar uns estranhos e seu bebê recém nascido, baseado numa visão divina.

Entretanto, como estes pastores, tive que retornar à vida, à velha vida comum, a vida de todos os dias.

Ao longo dos anos, tive razões pra duvidar, inúmeras vezes, de que aquela experiência foi real. Queria saber se aquelas promessas que recebi eram verdadeiras, ou se não passava de fantasia adolescente gerada por hormônios, novidades e dinâmicas de grupo. Pode parecer muito ambíguo às vezes.

Se os pastores viram Jesus novamente ou não, posso testificar que desde minha epifania, algumas vezes ao longo do caminho, eu o encontrei. Uma coisa é certa: ele nunca é como espero. Ele constantemente me deixa confuso e me faz coçar a cabeça. Quanto mais tento definir o que ele é e o que está fazendo em minha vida, mais confuso eu fico. E quando vou falar, fico rodeando, procurando palavras que o expliquem, para expressar o que significa para mim, tocar os presentes com os quais ele graciosamente tem preenchido a minha vida.

Ele é real, e isso é o melhor que posso fazer.

E é isso que você tem. Minha apologética ambígua.

Talvez você estivesse esperando ler alguma coisa hoje, que explicasse tudo a você, aliviasse suas dúvidas, respondesse suas perguntas, fizesse tudo virar certezas.

Desculpe. Sou apenas um pastor aqui.

A maioria das noites é bem quieta.

Link: A sheperd’s ambiguous apologetic


Eu odeio teologia…

junho 22, 2012

por Michael Spencer

[…]Odeio teologia quando ela é sem humildade. Teologia e humildade. Ambas devem caminhar juntas sem maiores dificuldades. Digo, não se trata de ciência aplicada aos foguetes. É infinitamente maior do que isso. Em seu leito de morte, Tomás de Aquino disse: “Não posso fazer mais nada. Tais segredos têm me revelado, que tudo que escrevi, parece agora ser de pouco valor.”  Sabemos ser esta a atitude apropriada perante nossas teologias, mas não é a nossa posição normal.

A ideia de saber a verdade sobre Deus, é o tipo mais perigoso e sedutor de conhecimento que podemos afirmar. Quanto mais aprendemos, mais humildes devemos ser.  Seguindo as teorias correntes do conhecimento, se Deus é infinito e incompreensível, então quanto mais sabemos, menos sabemos. Ou seja, quando a ignorância é substituída pelo conhecimento, este conhecimento abre novos e amplos espaços para o desconhecido, e isso nos torna humildes.

Tome como exemplo o astrônomo moderno. Ele parece conhecer mais sobre o universo do que seus antecessores da antiguidade, que pensavam que as estrelas eram pontos de luz, criados por deuses ou anjos. Será que esse maior conhecimento faz esse astrônomo se sentir mais experiente, ou faz com que fique mais estupefato, com admiração e assombro perante o que sabemos, e com tudo que ainda falta saber?

Então, como é que nós perdemos esse assombro na teologia moderna? Arrogância, não humildade, marca as discussões teológicas e os debates entre crentes. Você poderia pensar que alguns poucos anos de leitura e estudo abriram a mente do Eterno, e ela foi toda catalogada em fichas como as da biblioteca local.  A postura de um teólogo bíblico deve ser a adoração e o assombro constantes, não a de levianamente afirmar tudo o que sabe como certo.

Lembra a história do repórter que perguntou a Karl Barth qual tinha sido a maior verdade teológica que ele já tinha ouvido? A resposta do velho e sábio professor, foi: “Jesus me ama, isso eu sei, porque a bíblia me diz isso.”

Grande resposta.

Odeio teologia quando substitui a vida real. Aqueles que estão preocupados achando que estou caminhando rumo a algum tipo de ceticismo pós-moderno, precisam lembrar uma coisa a meu respeito, a única coisa que me autoriza a dizer “odeio teologia” com alguma medida de autenticidade.

Fiquei mais de quatro anos num seminário, e vivi para contar a história. Se você não andou todas essas milhas usando meus sapatos, sente e ouça.[…]

[…] Fiz parte da assistência da igreja quando estava no seminário, numa igreja que ficava próxima ao campus. Como qualquer igreja, tínhamos uma porção de coisas simples a fazer para ser igreja. Cuidar das crianças. Preparar a ceia. Participar de reuniões de oração. Evangelizar. Orar. Ministrar. Fazer parte de comitês. Pintar paredes.

O problema é que dificilmente podíamos fazer essas coisas, porque nossa igreja estava lotada de estudantes de seminário. Teólogos. Você não podia orar. Tinha que teologar sobre a oração. Não podia organizar um jantar na igreja. Tinha que teologar sobre os pobres, sobre economia e justiça. Você não podia ajustar o ar condicionado, sem passar por um debate teológico. Os teólogos deixavam a igreja paralisada (não queira saber no que pode se transformar uma simples escola dominical ou grupo de jovens, numa tirania de teólogos como essa).

Como se podia esperar, os teólogos pareciam evitar esses pequenos serviços que o resto de nós faz, simplesmente porque precisam ser feitos. Encarnação é uma grande ideia, contanto que você a pratique em vez de debater sobre ela.[…]

[…]Deixe-me ser bem claro. Deus deve ficar muito mais animado com uma pessoa que deseja fugir do pecado e amá-Lo, do que fica com o fato de alguém ser especialista em teologia histórica e sistemática. Quando chegamos ao ponto de imaginar que estamos prestando um serviço a Deus, desencorajando a devoção pessoal, apenas porque não se encaixa em algum padrão teológico, estamos na verdade agindo mal.

Veja, os teólogos são tentados a viver uma vida geralmente livre de coisas tais como: arrependimento pessoal, devoção, oração, adoração privada e expressões do amor de Deus. Boa teologia cobre uma multidão de pecados (ironic mode on). Quem tem tempo para esses desperdícios de energia mental, quando pode ler mais algum capítulo de exploração dogmática dos mandamentos, escritos por algum teólogo? Essa necessidade de debater é muito maior do que o desejo de orar, não é? O que fazer: ler mais algum livro, ou ter um tempo de devoção pessoal? Qual é a escolha mais fácil?[…]

[…]Não tenho tempo para perder com qualquer teólogo que não consegue enxergar a beleza de um coração que apaixonadamente tenta seguir Jesus, porque está muito ocupado lendo livros de teologia.

Odeio teologia quando age como se fosse ela mesma revelação, e não um esforço humano e falível. Meu amigo Jim Nicholson tem os créditos por isso. Para aqueles de nós que acreditam na doutrina reformada da depravação total, parece que mais de um desses teólogos, praticam teologia como se estivessem excluídos de algo com que o resto de nós temos que conviver o tempo todo: a influência do pecado em todas as áreas da vida humana, incluindo os exercícios intelectuais que são necessários para se fazer teologia. Parece estranho dizer isso, mas parece que muitos protestantes estão prontos a defender suas teologias como corretas, na base de que Deus precisa que alguém preserve a igreja dos erros. Sério que vocês pensam isso? Os herdeiros de Lutero realmente pensam assim, sobre esse exercício totalmente humano e feito por seres humanos falhos, chamado teologia?  Infelizmente, sim, e com consequências que vão desde a leve irritação à devastação total.

Como muitos já disseram antes, a teologia é potencialmente perigosa, justamente porque uma vez que tenhamos considerado ter chegado na “verdade”, passamos a ter certeza de que Deus está do nosso lado.[…]

[…]Talvez o melhor exemplo disso é nossa reformada e amada T.U.L.I.P. Deus está comprometido com a T.UL.I.P.? Ou é apenas esforço teológico humano? São nossas abreviações, nossos pensamentos e palavras?[…] Claro, eu creio que até certo ponto, essa abreviação, TULIP, apresenta um resumo do que muita gente boa acredita que a escritura diz, mas o fato é que tenho que tomar uma decisão consciente, e tratar essa abreviatura como é. Não é revelação. É teologia, e é o produto de mentes pecadoras e pensamentos imperfeitos. Como pensamento humano, é tão divino quanto o cardápio do MacDonalds.[…]

[…](Engraçado como os cristãos tendem a transformar seus heróis em algum tipo de super-homem, enquanto a bíblia coloca todos os seus heróis no mesmo nível de qualquer um de nós.)

Tome como exemplo a teologia do hedonismo cristão de John Piper. Impactou minha vida de uma forma poderosa. Foi como um salva-vidas para mim, e sou muito grato a esse homem. Mas ele é apenas um companheiro de jornada, e sua teologia é caída e falha, e não há autoridade – NENHUMA – na versão do Cristianismo elaborada por Piper do que há na versão feita por qualquer outra pessoa.

Vale lembrar que o problema raramente é com os teólogos. É com os seus fãs, e sou tão culpado nesse ponto, quanto qualquer um. Odeio teologia que cria celebridades com autoridade. É uma coisa boa que tenhamos teólogos, assim como também é bom lembrar que eles são apenas pessoas como nós. Não queime os livros deles. Queime os pôsteres e as camisetas autografadas por eles, isso sim.

Odeio teologia que precisa caçar todos os erros à vista. No verão, temos moscas aqui no sudoeste do Kentucky. Não gosto delas, e então dou aulas com um jornal enrolado na mão. Quando uma mosca se aproxima de mim, eu tento acertá-la. Eu não percebo, porque odeio as moscas, mas meus alunos notam com frequência que me distraio caçando moscas a cada terceira palavra, ou atravesso a sala atrás de alguma mosca que não consegui acertar.

Esta analogia descreve o pensamento de alguns teólogos. Eles estão certos, erros são intoleráveis, e eles saem à caça dos erros. Como na minha sala de aula, o evento principal parece ser caçar as moscas, e nada mais importa além disso.

Quando encontrei pela primeira vez um desses Calvinistas encarnados, ele era como um caçador de moscas. Não importa sobre o que eu pregava, no dia seguinte, ele vinha me explicar como eu tinha violado os pilares do Calvinismo. “Você percebeu que chamou as pessoas a fazerem escolhas? Você não pode fazer isso!”[…]

Sinto muito por você se precisa ensinar, orar, pregar ou fazer qualquer coisa na tentativa de comunicar o evangelho, tendo esses caçadores de moscas em sua volta. Você vai acabar perdendo a maior parte do seu tempo, sendo caçado por eles, e vai voltar para casa irritado. Sim, você voltará para a sua casa, lerá a bíblia e mudará sua mente (ou não), e caçador teológico de moscas, se achará encorajado a continuar caçando moscas, uma de cada vez.[…]

[…]E se o erro for insignificante? Uma vez que você esteja convencido de que a verdade está na SUA teologia, os menores erros, e os erros comumente aceitáveis, serão para você como entradas do inferno, e você não vai pensar duas vezes e gritar FOGO! para as almas em risco iminente de danação. No campo da saúde mental, chamam isso de transtorno obsessivo-compulsivo. É tratável, desde que o paciente admita seu problema e se submeta ao tratamento.[…]

[…]De novo, odeio dizer isso, mas existe um tipo de doença mental onde o paciente tem um “complexo messiânico”. Eu preciso salvar o mundo! Argumentar com todos! Afastar todos os erros antes que seja muito tarde! Qualquer sermão, qualquer demonstração de devoção pessoal, qualquer discussão sobre religião pessoal, se torna um campo de batalha para essas pessoas. Elas não enxergam isso, e estão convencidas de que o seu “ministério” é se tornar uma espécie de “caneta vermelha” de Deus, escrutinando tudo que os outros dizem sobre teologia. Se há repercussões ao seu fanatismo, quem é a vítima, e quem é o perseguidor dos liberais heréticos, ou ambos?

Todos nós erramos. Todos nós acreditamos em erros. Propagamos erros. Toleramos erros. Todas as nossas teologias possuem erros. Só Jesus é a Palavra Final sem erros, e ele não virá dentro de um livro de teologia sistemática.[…]

[…]Odeio teologia que ignora a nossa humanidade.[…]

[…]Minha humanidade importa. Odeio teologia quando desconsidera nossa humanidade e nos reduz a transportadores de ideias. Alunos, numa sala de aula, estão sempre em risco de errar. Os mais tolos são aterrorizados pelos mais espertos, e menosprezados pelos professores. Odeio teologia quando faz os que se acham mais espertos, bons leitores ou donos de elevados quocientes de inteligência, se considerarem os verdadeiros cristãos, e enxergarem o resto de nós, como penicos para seus argumentos e citações sem fim. Onde está a beleza e dignidade da humanidade em tudo isso?[…]

[…]Os teólogos precisam meditar sobre o inexplicável hábito de Deus, de atravessar rios conosco, pecadores. Vestiu Adão e Eva. Deu uma pausa a Caim. Saiu com Abrahão, Moisés, Noé, Davi e Elias. Nenhum deles era um grande teólogo. Todos eles pareciam mesquinhos e estavam frequentemente errados. Eram pecadores notórios. Os teólogos estão enfiados no templo, azeitando a máquina da religião, que só eles entendem. Enquanto os preferidos de Deus, estão derrubando filisteus, escrevendo poesias e namorando. Esse é um Deus que posso apreciar.

A teologia pode se tornar um clube que se propõe a derrubar os filhos de Deus. Se você conhece Deus, tende a agir como o Deus que você conhece. O bom pastor. O médico gentil. O que ressuscitou Lázaro. Aquele que transformou água em vinho.  Jesus não se parecia com um dos Fariseus em termos de teologia ou personalidade. Ficou zangado quando os fariseus não acharam certo curar um homem no Sábado. O que ele diria a respeito das nossas ratoeiras teológicas, que montamos para separar crentes de descrentes no que diz respeito às nossas matérias “confessionais”?  Quando tudo se resume a uma guerra entre os teólogos e o resto do mundo, crueldade e barbarismo são aceitáveis. Afinal de contas, Deus –  e nada mais – é importante. Certo?

Essas pessoas que importam para Deus – pessoas falhas e ignorantes – parecem perdidas para muitos teólogos. Eles se sentam diante de seus livros, e debatem sobre quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete, enquanto alguém com uma teologia inaceitável para eles, tenta viver de acordo com o Sermão da Montanha e morre amando pessoas em nome de Jesus.[…]

[…]Repito. Odeio teologia que é desumana. Teologia que diz que Deus não ama as pessoas, e me dá permissão para fazer distinção entre os eleitos e os não eleitos entre as pessoas com as quais me relaciono. Não diga que isso não é um perigo. É um perigo sim, e a história cristã comprova isso o tempo todo.[…]

I hate theology – Michael Spencer – The Internet Monk


Procura-se

setembro 26, 2011

Procuram-se teólogos, doutores de bíblia, apologistas, vendedores de milagres e pregadores de prosperidade.

Local de trabalho: UTIs dos hospitais, e leitos de pacientes terminais.

Para explicar para a mãe de uma criança de três anos, porque uma criança inocente está morrendo com um tumor cerebral , e ouvir os gemidos dela, antes de elaborar suas teorias idiotas sobre Deus e o sofrimento, que nitidamente demonstram que seus autores não sabem nada a respeito.

Para explicar para uma mulher que tem tumores crescendo feito cogumelos na coluna vertebral, o que ela fez para merecer que Deus a castigasse dessa forma, já que ela pensa estar sendo castigada. Ela quer saber porque Deus está fazendo ela sofrer tanto, a ponto de não poder nem escovar os dentes, de tanta dor.

Para consolar o aidético que está morrendo lentamente, de inanição e infecções no leito da UTI, e parece uma pilha de ossos saída de um campo de concentração, e fazer ele entender que Deus o ama e se importa de verdade com a vida dele. Não é com conversa fiada de crente, nem discursos furados sobre vida vitoriosa e milagres fajutos, que ele vai se convencer disso, garanto.

Algum dos “doutores” chegados à masturbação teológica, apologia da fé, e à dissecação de grego e hebraico (quando o bom português já seria suficiente), ou algum desses escrevinhadores de grossos volumes de teologia sistemática (que seriam bem mais úteis para a humanidade se fossem usados para acender fogueiras, e aquecer moradores de rua), que pensam saber tudo sobre Deus, se habilita? Algum vendedor de milagres disposto a vender sua mercadoria na UTI oncológica? Algum pregador de prosperidade, a fim de discursar sobre vitória financeira para quem está à beira da morte, e não vai levar absolutamente nada junto?

Mas vou avisando: se for para fazer as pessoas se sentirem mais miseráveis, ou culpadas pelo próprio sofrimento, ou vender vagas no paraíso a peso de ouro, favor permanecer nos seus gabinetes, porque disso essas pessoas não precisam, ok?

P.S: Nesse meio tempo, entre um plantão e outro, o paciente soropositivo faleceu na UTI.


Radical grace: how belief in a benevolent God benefits our health – J. Harold Ellens

junho 28, 2011

Depois que o Paulo Brabo postou na Bacia das Almas (que eu obviamente tomei a liberdade de replicar parcialmente aqui), um texto de J. Harold Ellens (A saúde divina e a saúde humana) que faz parte deste livro, lá fui eu, cheia de curiosidade, ler o resto. Coloco mais uns trechos abaixo.

[…]É maldade que uma bactéria ou vírus penetre numa folha de capim, que é depois ingerida por uma vaca, cujo leite fica contaminado e mata um bebê, e talvez a própria vaca? É trágico, mas não maldade. Do ponto de vista da bactéria, é uma façanha considerável. Do ponto de vista da vaca e do bebê, é doloroso e difícil. A disputa entre duas formas ou ordens de vida toma lugar, e um vive às expensas do outro, justamente como nós humanos, vivemos às expensas da vida das plantas, e de ordens inferiores de animais, todos os dias. É um tipo infeliz de imperialismo humano, chamar estes processos de maus. Que concede uma prioridade moral, ou prerrogativas a isso que chamamos de espécies superiores, e uma exploração inerente das formas consideradas inferiores.

Os processos que aparecem nesta ilustração, da bactéria e da vaca, não são maus. Trata-se apenas da ordem natural das coisas criadas neste mundo. A morte do bebê é trágica e terrivelmente dolorosa aos pais, mas não é um evento maléfico, apenas um evento trágico. Não é a consequência de alguma força má atuando neste mundo. A doença não é do mal, mas apenas o corolário doloroso, do concurso de formas de vida, ou da disfunção de células e organismos com problemas, num mundo dominado por seres humanos que, arrogantemente, pensam que temos que ser excluídos desse tipo de inconveniências e desconfortos. Então, nós chamamos nossos sofrimentos e inconveniências particulares de maléficos, mesmo quando outros organismos criados por Deus, estão envolvidos no processo.[…]

[…]A única exceção ou alternativa a este impasse e esta patologia psicoreligiosa que a história nos apresenta, é o conceito de graça divina, que tem sua aparição exclusivamente no judaísmo. Aqui, e em nenhum outro lugar na história da religião, na visão da fé de Abraão, há a noção de que Deus transcende arbitrariamente a imperfeição do universo e da nossa humanidade; de que Deus, incondicionalmente, nos aceita como somos, onde estamos; e que este Deus nos assegura de que temos valor, apesar de nós mesmos.  Esta certeza é dada por Deus, para deixar claro para nós, que vamos sair da vida vivos e bem, não importa como. Esta é a visão que a fé cristã herdou e encontra sintetizada em Jesus de Nazaré, como Cristo de Deus.

Esta é a razão, apesar da noção popular prevalente do contrário, de haver dois, e apenas dois, tipos de religião na história da humanidade: aquele que parte do pressuposto de que Deus é por nós, e aquele que parte do princípio de que Deus está contra nós, ou é no mínimo, uma ameaça perigosa contra nós. Religiões que assumem que Deus é uma ameaça, criam estratégias elaboradas de ética e rituais de adoração, designados para prover técnicas de auto-justificação. Estão cercadas pela escravidão psicológica, de loucos becos sem saída. Aquelas religiões que assumem que Deus é por nós, expressam a si mesmas em celebrações autênticas de graça e gratidão. São religiões saudáveis, que proporcionam a liberdade da vida como uma busca aberta e criativa, onde cada exploração arriscada – exploração teológica, experimentação moral ou espiritual –  é totalmente segura, pois a graça é maior do que qualquer dos nossos pecados.

Apenas as formas judaico-cristãs de fé são formadas e informadas por uma teologia assim, com um Deus que é Deus de graça radical, incondicional e universal. A graça de Deus é radical no sentido de que não podemos nos esconder dela, nem nos defender contra ela, ou nos afastar dela por causa de nossos pecados. É incondicional no sentido de que é um presente arbitrário de Deus, por causa do valor que temos para Ele, e não por causa da nossa bondade. É universal na medida em que ninguém pode cair da graça de Deus, ou escapar do Seu abraço.  Nenhuma outra religião atingiu esta perspectiva. Infelizmente, muito da história, tanto do judaísmo quanto do cristianismo, tem sido um sério afastamento desta herança única, e uma regressão à preocupação pagã com legalismos dirigidos pela angústia, e a heresia destrutivamente má da ortodoxia. Isso demonstra o grau com o qual nosso terror humano comum, é um produtor e modelador endêmico  da nossa religião e espiritualidade.[…]

[…]A graça é tão inacreditável, que nos deixa um tanto quanto desconfortáveis, por não termos nenhum poder de barganha, e de não estarmos no controle, porque estamos à mercê de Deus e de sua graça e misericórdia. Se não podemos, ou não nos lançamos nos braços de Deus, na certeza de que sabemos que a única justiça para seres como nós, é a misericórdia, então sempre a graça será um indutor de angústia, e a religião e a espiritualidade fracassam, pela deterioração numa psicopatologia da hesitação e dúvidas.  Estes, por sua vez, nos levam a criar rituais de adoração rígidos, e ortodoxias teológicas estupidificantes, planejados para manipular um Deus ameaçador…[…] (ou para manipular pessoas, colocando um Deus ameaçador contra elas – acrescentaria eu, humildemente).

[…]Pastorear é cuidar desse pessoal ansioso, necessitado, inadequado, cheio de culpa, confuso e inquieto, que todos nós, humanos, somos. Todos nós estamos famintos e sedentos de justiça, conscientemente ou não, cada um do seu próprio jeito. Ser uma pessoa pastoral é tratar compassivamente os seres humanos, nos seus próprios mundos pessoais, para procurar soluções para o vazio que cada um sente na sua própria alma: a sensação de segurança que chega com a entrada na comunhão com nosso Deus paternal e com a comunidade dos Seus filhos. Pastorear é ajudar outros seres humanos a perceber que a amizade pode ser a resposta para essa fome de significado, segurança e destino que dirige todos nós.[…]Pastorear é comunicar o significado da afirmação de Deus a respeito de cada um de nós, quando nos diz: “Serei Deus para você e para os seus filhos, para sempre!” (Gênesis 12 e 17). Esta afirmação não depende de qualificações, requisitos, não tem condições limitantes. Pastorear é comunicar que a graça e, desse modo, as boas novas para os pobres, incluem aqueles que são vítimas de si mesmos ou do seu mundo; liberdade para aqueles que estão aprisionados, e a oportunidade de conhecer a aceitação, por parte de Deus, de cada um de nós, pessoas necessitadas. Pastorear é comunicar relacionalidade curativa a uma humanidade ansiosa e angustiada. O mesmo é verdade para um psicoterapeuta responsável.[…]

Radical Grace: how belief in a benevolent God benefits our health – J. Harold Ellens – Barnes & Noble

Não importa quantos erros você pensa ter cometido, o amor dEle não é condicionado ao desempenho, Ele ama sempre do mesmo jeito. Não importa quão longe você pense ter ido, Ele vai te receber da forma como aquele pai recebeu o seu filho pródigo, com festa. E Deus não vai exigir que você seja perfeito, porque a misericórdia dEle, se renova todos os dias. Deus sabe que somos humanos e falhos, e jamais lançará fora alguém que O busca e põe sua confiança nEle.


Teologia da esperança – Jürgen Moltmann

junho 26, 2011

A ocasião pedia, por isso, fui reler este livro de Moltmann, apenas para colocar alguns trechos dele, e deixar que cada um, interprete como quiser, tanto o que ele escreveu quanto o que andaram dizendo a respeito dele por aí. E leia o livro todo, se achar que vale a pena. E por favor, você não precisa concordar com nada.

[…]Sem o conhecimento da fé, fundado em Cristo, a esperança se converte em utopia, que se perde no vazio. Porém, sem a esperança, a fé decai, se transforma em pusilanimidade, e por fim, em fé morta. Mediante a fé o homem encontra o caminho da verdadeira vida, mas só a esperança o mantêm neste caminho. Assim, a fé em Cristo transforma a esperança em confiança e a esperança, dilata a fé em Cristo, e a introduz na vida.

Crer significa ultrapassar, em uma esperança que se adianta, as barreiras que foram derrubadas pela ressurreição do crucificado. Se refletimos sobre isso, então a fé não pode ter nada a ver com a fuga do mundo, ou com a resignação e os subterfúgios.  Nesta esperança, a alma não se evade deste vale de lágrimas, para um mundo imaginário onde só habitam pessoas bem-aventuradas, nem tampouco se desliga da Terra.[…]

[…]Assim, pois, se a fé, para poder viver, tem que estar ligada à esperança, o pecado da incredulidade se baseia, então, evidentemente, na falta de esperança.  É verdade que se afirma que o pecado consiste, em sua origem, no fato de que o homem quer ser como Deus. Porém isso é apenas uma causa do pecado. A outra face desta arrogância, é a falta de esperança, a resignação, a tristeza. Disso brotam a infelicidade e a frustração, que impregnam todo vivente com os germes de uma doce putrefação. O apocalipse de João menciona, entre os pecadores cujo futuro é a morte eterna, aos “covardes” antes dos incrédulos, dos ímpios, dos assassinos e etc.[…]

[…]Este é o pecado que mais ameaça o crente. Não o mal que faz, mas sim o bem que deixa de fazer; não os seus delitos, e sim, as suas omissões, são as coisas de que pode ser acusado.[…]

[…]Nem a esperança, nem o modo de pensar que correspondem a ela podem aceitar, portanto, a acusação de que são utópicos, pois não se estendem a algo que não tem “nenhum lugar”, e sim até o que “ainda” não tem lugar, porém, chegará a ter.[…]

[…]Onde a fé e a esperança começam a viver orientadas perante estas possibilidades e promessas de Deus, se abre a plenitude integral da vida como vida histórica e, por isso, como vida que devemos amar. Só tendo este Deus no horizonte, se torna possível um amor maior do que o philia, mais do que amor ao existente e ao que é idêntico, um amor ágape, amor ao que ainda não existe, ao desigual, ao indigno, ao fútil, ao perdido, ao passageiro, ao que está morto; um amor que pode tomar sobre si o elemento aniquilador da dor e do estranhamento, porque recebe sua força da esperança de uma “creatio ex nihilo“. Este amor não desvia o olhar do que não é existente, para dizer que não é, posto que ele mesmo se converte no poder mágico que o faz ser. Em sua esperança, o amor mede as possibilidades abertas da história. No amor, a esperança introduz tudo às promessas de Deus.[…]

Resumindo: Algumas igrejas são mais parecidas com filiais do inferno, antros de mentira, corrupção, maldade, fofoca, intriga, idolatria e coisas semelhantes a estas. Se cada uma das bilhões de pessoas que se dizem cristãs no mundo, buscasse a justiça e a paz para todos, como verdadeiros discípulo de Jesus, em vez de se conformar em ser adepto de uma religião, mesmo que fosse num raio de 100 metros em torno de si mesmo, alguém tem dúvida de que este mundo seria um lugar melhor? Não ficaria perfeito (imaginar que um “mundo perfeito” é possível de ser construído por seres humanos imperfeitos como nós, isso sim é utopia), mas ficaria menos pior, muitas dores seriam amenizadas. Não contribuir para gerar mais mal, já seria uma grande coisa.

Por que o espaço ao seu redor não pode ser um “microclima”, onde uma amostra do Reino dEle, de liberdade e amor, justiça e paz, pode ser experimentada, ainda que de forma parcial e imperfeita?

Eu pessoalmente, acho o Moltmann otimista demais em alguns momentos, lembra o ufanismo dos evangélicos. Esse otimismo excessivo que transparece nele em determinadas falas dele, parece exagerado para mim, que não sou tão otimista assim com relação ao ser humano. O ser humano é habitado pelo bem e pelo mal, e é capaz de extremos tanto de maldade quanto de bondade, e muitas vezes age de forma imprevisível, para ambos os lados. Mas nunca estive num campo de concentração, e ele sim. Ele sentiu na pele, o alto preço que inocentes pagam, quando pessoas não fazem o bem que poderiam fazer, e se omitem. Eu fico mais no equilíbrio, entre ser otimista, mas sem tirar os pés do chão, da realidade de que o ser humano é falho e limitado. É imagem de Deus, mas também sabe ser diabólico. E ser crente, não livra ninguém de ter seu lado “diabo” falando mais alto. Não dizem que até o diabo é crente? :P