A Lava Jato e nós

março 5, 2016

Vergonha do pronunciamento da Presidenta Dilma Rousseff ontem, 04 de março de 2016, motivado pela condução coercitiva do EX-PRESIDENTE Luis Inácio Lula da Silva, a qual depois descobrimos não ter sido tão coercitiva assim. Todos temos visto o quanto ele tem fugido da obrigação de nos dar respostas. Não sou da área jurídica para opinar sobre ter sido a opção certa ou não. Mas ao contrário do que foi dito pelos militantes do PT e pelo próprio Sr Lula, não houve nenhuma operação midiática. O Juiz Moro proibiu filmagens, e foram usados veículos descaracterizados, tudo visando não expor o ex-presidente. A operação midiática veio depois, com os militantes do PT, inclusive ameaçando instaurar a violência nas ruas.

Ameaçar pegar em armas só porque o ex-presidente foi levado para prestar depoimento? Chamar o ex-presidente de “preso político” sendo que nem preso ele foi? Falam em “conspiração das elites contra o ex-metalúrgico”, mas na investigação da Lava Jato, estão envolvidas empreiteiras de grande porte, como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Marcelo Odebrecht, presidente da primeira, está preso. O banqueiro André Esteves, também ficou preso, acusado de tentar obstruir as investigações. Os dois estão entre as pessoas mais ricas do Brasil. Por favor, isso insulta a nossa inteligência. Quem ameaça instaurar a violência no país, na tentativa de impedir que o ex-presidente se explique, mostra bem a que veio: o poder a qualquer custo. A opinião da população, que é contra a roubalheira, fica em segundo plano. Houve vazamentos sobre a quebra do sigilo do ex-presidente, investigado na operação Lava Jato, para piorar.

E a presidenta Dilma, em vez de cuidar do governo, está preocupada com o ex-presidente, em sair na defesa dele, coisa que tem feito repetidamente. Ele tem muitos advogados para defendê-lo. Bastou esta operação da Lava Jato para todos os problemas do país, sumirem do discurso do governo. O Brasil está em crise, desemprego e inflação em alta. Se o ex-presidente Lula deve explicações à justiça, que se explique, como qualquer cidadão. Não acreditamos que seja papel da presidenta, como chefe de Estado e governo, defender o ex-presidente, pois para isso ele tem condições de pagar advogados. O papel da presidenta, é defender o país e a população, é para isso que o povo paga o seu salário. Eles parecem não entender, ou fingem não entender, que a população brasileira, não gosta desta roubalheira. A população de bem, que pega no batente todo dia, enfrenta transporte lotado, caos na saúde, educação sem qualidade, não pode mesmo ficar satisfeita, ao passar por isso. Não parece justo a população trabalhar cinco meses do ano só para pagar impostos ao governo, enquanto os governantes, em vez de governar, perdem o sono  pensando de onde virá a próxima delação premiada, e o que a Polícia Federal ainda pode descobrir sobre eles. Os líderes máximos da nação, que deviam dar exemplo de improbidade, temem acordar com a Polícia Federal nas suas portas. O MP, a Polícia Federal, a Receita Federal, estão fazendo seu papel. Deixem o Juiz Sérgio Moro trabalhar. Presidenta, governe o país para nós, não para o ex-presidente Lula ou outros envolvidos, alguns inclusive já condenados por corrupção.

Tudo que queremos é que o ex-presidente e todos os envolvidos, expliquem-se, que o Sr Lula pare de enrolar, com tem feito sempre em seus pronunciamentos. Entrevista coletiva onde ninguém pode fazer perguntas, é farsa, e não entrevista coletiva, sr Lula. Não caímos mais nessa do Sr Lula se colocando como vítima, oprimido. Quem é oprimido não tem à disposição uma banca de advogados caríssimos, coisa que ele tem. Oprimido não sai de depoimento na Polícia Federal, numa BMW. Se o ex-presidente fez coisas boas no governo, não fez mais do que a obrigação. Foi eleito e pago, muito bem pago aliás, para isso. Não foi nenhum favor. O fato de ter feito coisas boas, não dá a ao ex-presidente, o direito de se considerar acima da lei, intocável, ou ser alvo de “vigílias”, como se fosse algum tipo de divindade. Coisa mais ridícula essa conversa de fazer vigília em defesa de um investigado por corrupção. Vigília para quê? Pensam em impedir a prisão do seu ídolo, caso seja considerado culpado? Vão enfrentar a Polícia Federal? Não devemos nenhum tipo de adoração ao ex-presidente Lula, ele não é um deus, muito menos santo, e ao que tudo indica, também não é inocente nesta história toda. Se fosse, estaria tranquilamente prestando todos os esclarecimentos, tanto à justiça quanto ao povo, do qual ele tanto gosta de falar quando precisa posar como perseguido. Não nos parece atitude de inocente, a incitação dos militantes à violência.

Enquanto presidente, Lula era funcionário público, pago com os nossos impostos, e deve sim satisfações. O que queremos saber, e ele não responde, é o que levou as empreiteiras envolvidas na corrupção da Petrobras, a dar tantos presentes e regalias para ele. Estamos falando de milhões de reais. Por que as empreiteiras envolvidas em corrupção, pagam despesas particulares dele? Como explica este relacionamento eivado de promiscuidade, envolvendo o ex-presidente e os filhos dele, com empreiteiras? Empreiteiras estas, citadas no maior escândalo de corrupção da história do Brasil. O que queremos saber, é quem vai pagar pelo prejuízo da Petrobras, tanto no que diz respeito à imagem da empresa, quanto aos prejuízos financeiros. Quem vai pagar pelo prejuízo à imagem do país? O que queremos saber, é quando o dinheiro desviado pela corrupção anos e anos a fio, será devolvido. O Brasil poderia ser um país de primeiro mundo, não fosse a corrupção que suga nossos recursos e impede nosso desenvolvimento, sem falar na má administração do dinheiro que não é desviado. Todos poderíamos ter uma vida realmente melhor, se o governo tivesse mais respeito pelo contribuinte, que sustenta tudo isso. Se o ex-presidente Lula foi favorecido por empresas envolvidas em corrupção, deve ser investigado e punido, e isso é apenas questão de justiça. Ele e todos os demais envolvidos, da mesma forma. A continuidade do projeto de poder de um partido, não é nem nunca será, mais importante que o progresso, o futuro do país. Não temos nada a ver com o projeto de poder de partidos políticos, sejam quais forem, de esquerda ou direita. Nós amamos o Brasil, e não um partido. O país precisa de gestão profissional, e não de corrupção. Administração pública responsável, e não a bandalheira que temos visto todos os dias nos jornais. Tratam verbas públicas como se elas não tivessem dono, e como se não fosse preciso prestar contas do que é feito com elas. Basta de corrupção, basta de políticos que trabalham para seus projetos partidários e não para o Brasil. Queremos governo para o Brasil e para os brasileiros, e não um governo que precisa ir a público a todo momento, para se defender em escândalos de corrupção de repercussão internacional, e depende de pedaladas fiscais para ficar bonito na estatística. Enquanto isso, o mosquito da dengue, a inflação e o desemprego, tomam conta do país. Não precisamos de políticos que perdem o sono, com medo de acordar com a Polícia Federal nas suas portas.  Não precisamos de um governo que se pronuncia prontamente quando é para defender seus “companheiros” investigados por corrupção e lavagem de dinheiro, mas não faz o mesmo quando é para se pronunciar sobre os problemas do país.

Já vimos na história, várias ocasiões onde os cidadãos silenciaram diante do ilícito, e este silêncio, custou muito caro. É o que vem acontecendo no Brasil.

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Sapatos sujos

fevereiro 23, 2016

Em seu livro de ensaios “E se Obama fosse africano?”, Mia Couto incluiu um texto sobre os desafios que os africanos e/ou moçambicanos têm à frente para alcançar o futuro que desejam. Ele citou algumas coisas materiais, como hospitais, escolas, investidores, projetos. Porém, na opinião dele, o mais importante é uma nova atitude. “Sem mudarmos de atitude”, afirma ele, “não conquistaremos uma condição melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não seremos construtores de futuro.”

Ele escreveu como africano e pensando em seu próprio povo, mas acredito que o texto serve para o Brasil, também. Para passar pela porta da modernidade, seria necessário descalçar alguns sapatos sujos, deixando-os do lado de fora. Que sapatos?

Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas.

…Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas, ao mesmo tempo, continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: somos peritos na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos:… que o político abusou do poder porque, coitado, na tal África profunda, essas práticas são antropologicamente legítimas….

Troquemos no texto acima, África, por Brasil. Corrupção institucionalizada.

Segundo sapato: A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.

…Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos acontece (de bom ou de mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino…

Terceiro sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.

…Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demônios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa…

Estratégia dos políticos brasileiros quando são pegos com a boca na botija de dinheiro público, ou flagrados com propina na cueca, ou possuindo bens adquiridos com recursos de lavagem de dinheiro, ou contas no exterior não declaradas e movimentações financeiras muito suspeitas. Dizem que é perseguição política. Intriga da oposição. Preconceito. E continuam com as propagandas mentirosas. Os petistas em propaganda veiculada pela televisão, têm coragem de mandar o povo trabalhar mais. Como se o governo já não ficasse com cinco meses de trabalho dos brasileiros, na forma de impostos. O que temos em contrapartida por uma carga tributária entre as maiores do mundo? Notícias sobre desvios e corrupção todos os dias. E o PMDB, oportunista, aparece como salvador da pátria. Ambos pensam que somos burros. O PMDB esteve ao lado do governo do PT o tempo todo, e agora quer se desgrudar? Deviam ter aproveitado a propaganda, para explicar o apartamento, o sítio, a antena, as propinas, o rombo da Petrobras, o rombo dos fundos de pensão. Ninguém engole mais essa piada de que o ex-presidente Lula  é vítima de perseguição. Ele é, sim, suspeito de cometer crimes e tem que ser investigado como qualquer um. Vai ver eles acham mesmo que somos burros.

Não seria lindo se eles usassem o tempo da propaganda na TV, para confessar? Admitir que não honraram os votos recebidos, que agiram mal, que prejudicaram o país deliberadamente ? Que são culpados? No dia em que isso acontecer, aí sim o Brasil poderá ter jeito.

Quarto sapato: A ideia de que mudar as palavras, muda a realidade.

“A Petrobras está de pé.” (Presidenta Dilma Rousseff) Aham, senta lá!

“Não poso de santo. Nunca fui candidato a santo.”, que recentemente mudou para “Não tem uma viva alma mais honesta do que eu.” (ex-presidente Lula, agora candidato a santo, afinal as palavras mudam, não é?)

“Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz.” (Lênin). Este princípio é um dos que mais vem sendo aplicado por aqui.

Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e  o culto das aparências.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Tênis falsificado, bolsa falsificada, ou pior, o  “funk ostentação” (que fez aumentar o aliciamento de meninos por traficantes de drogas em 3200%, em Florianópolis, por exemplo). Igreja que vende prosperidade e sucesso financeiro, para não dizer que não falei das flores.

Sexto sapato: A passividade perante a injustiça.

Nem precisa explicar isso.

Sétimo sapato: A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.

Se as capacidades de uma nação estiverem viradas para o enriquecimento rápido de uma pequena elite, então de pouco valerá haver mais quadros técnicos.

Que semelhança com a realidade do Brasil, onde estar no governo, é visto como oportunidade para enriquecer, e não como oportunidade para colaborar com o desenvolvimento e construir o futuro. Não importa se é de esquerda ou de direita. O partido que se dizia dos trabalhadores por exemplo, hoje tem milionários nas suas fileiras. Mas pergunte a eles agora, se querem socializar o capital que amealharam. Só não vale socializar o patrimônio daquele jeitinho brasileiro, colocando tudo em nome de laranjas, e dizer que não é seu, ok?

O ex-presidente Lula palestrou em Moçambique, terra do Mia Couto, tempos atrás. A palestra, dizem que custou 815 mil reais, pagos à vista, por uma empreiteira brasileira. Os moçambicanos poderiam ter passado sem essa. Eles têm Mia Couto como conterrâneo, afinal. A palestra foi sobre combate à desigualdade social. Lula disse que é necessário distribuir a riqueza (a riqueza dele também, espero). Lembro, de novo, que ele ganhou 815 mil para palestrar sobre desigualdade social. Que contradição!

Menos políticos. Mais poetas. Um poeta africano é muito melhor para falar sobre desigualdade social, do que qualquer político brasileiro. E sai mais barato também.

A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassinato espetacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder a crença no futuro.


Sobre os protestos

junho 23, 2013

Protestar é um direito, em muitos casos um dever. As pessoas precisam deixar claro quando sentem que seus direitos foram violados, que foram prejudicadas ou estão sendo desrespeitadas por quem devia representá-las (no caso, os políticos em todos os níveis, os encarregados de administrar verbas e patrimônio público e etc). Acho que isso demorou muito para acontecer, inclusive. No caso do dinheiro que está sendo desperdiçado para a realização da copa do mundo, creio que as pessoas deviam ter se manifestado anos atrás, quando começou a conversa de fazer copa do mundo no Brasil, e não só agora, que muitos milhões de reais já foram desembolsados. Uma pergunta que deveriam fazer ao governo: Onde está a prestação de contas com relação aos gastos com a copa do Mundo? Em qualquer empresa, os sócios ou acionistas, ou investidores, exigem saber o que está sendo feito com o dinheiro que investiram na empresa. Então, o governo devia prestar contas de todo esse dinheiro que arrecada em impostos a todos nós, que somos os investidores, os que pagam a conta no final, não acham? Com tanto dinheiro arrecadado, devíamos ter escolas, transporte e saúde públicos em nível de primeiro mundo.  Nós passamos praticamente meio ano trabalhando, para pagar impostos. E a contrapartida, onde está? Em nenhuma empresa privada que se preze, uma diretoria financeira que não faz bom uso do dinheiro, permaneceria no cargo. Seriam todos demitidos e quem sabe, processados e obrigados a ressarcir a empresa para a qual causaram prejuízos. E com os administradores do dinheiro público, o que vemos acontecer? Nada. Quando muito, as roubalheiras com dinheiro público rendem alguns dias de manchetes nos jornais, e a maioria dos envolvidos nem sequer é presa, quanto mais obrigada a reparar os prejuízos. Muitos processos acabam arquivados, e nunca mais se ouve falar deles. Como se diz, tudo acaba em pizza, até o próximo escândalo. E não é de hoje que funciona assim.

Mas é lamentável quando pessoas mal intencionadas, desonestas e no meu entender, tão corruptas e sem caráter quanto certos políticos, que passam a vida envolvidos em maracutaias, usam um movimento legítimo para promover saques, destruir monumentos e obras que foram pagas, com o nosso dinheiro. E quem você acha que vai pagar a conta dos consertos? Eu, você, todos que pagam impostos. Você que vai em protestos, não para expressar sua opinião e seu direito de reclamar do que está errado, e sim, para exercer sua desonestidade e sua própria corrupção, promovendo saques e vandalismo, não é melhor do que os políticos corruptos. Vândalos e promotores de saques, não são em nada melhores moralmente, do que  políticos que desvirtuam licitações, desviam (saqueiam) dinheiro público ou recebem propinas e etc. São farinha do mesmo saco. Talvez uns se sintam representados pelos outros, afinal.

Atacam o patrimônio, talvez, como forma de atingir os causadores da indignação, os quais ficam escondidos dentro dos edifícios públicos, protegidos por soldados armados, grades, portas pesadas, e qualquer coisa, fogem de helicóptero ou veículos blindados. A polícia, usa spray de pimenta e gás lacrimogênio a torto e direito, para acalmar os ânimos. Mas você já viu alguém ficar mais calmo depois de receber um jato de pimenta no rosto, ou ser alvo de uma nuvem de gás lacrimogênio? Eu não, por isso não entendo se o objetivo é dispersar, ou deixar as pessoas mais irritadas ainda.

Acabar com partidos? É como um marido traído colocar fogo no sofá onde a esposa o traiu. Não resolve nada. O problema não são os partidos, são as pessoas. Pessoas sem caráter, desonestas, sem valores, sem vergonha na cara, que geralmente entram na política, por causa de dinheiro e não por conta de ideais, não por vontade de construir um país melhor, e sim para garantir um “pé de meia” e quem sabe, uma aposentadoria bem polpuda. Por isso tem tanto “ex” alguma coisa, que como última opção, se filia a um partido qualquer e sai candidato, sem ter noção nenhuma do que seja Estado, legislação, administração de recursos públicos. Pessoas famosas, mas despreparadas, manipuláveis, e com milhares de eleitores prontos para votar nelas, apenas por serem famosas. Por isso que tem também pastor que vira político, muitos pensando não só no dinheiro, mas também em formas de usar o cargo para beneficiar sua denominação. Levar honestidade e integridade para a política? Isso nem passa pela cabeça desse pessoal. O que podemos esperar de bom, de pessoas que se filiam a partidos e montam chapas eleitorais, com objetivos como esses na cabeça? Há exceções? Há. Mas as exceções muito pouco podem fazer, num meio onde a corrupção parece que se tornou regra.

E onde está a novidade? Não há nada de novo sob o sol. Espero que essa onda de protestos, não acabe como tudo costuma acabar por aqui: o governo toma algumas medidas superficiais para acalmar a população, a população engole, e tudo termina em pizza.

“Um país se faz com homens e livros”, escreveu certa vez, Monteiro Lobato. Nesse caso, aparentemente estamos perdidos. :P


Professores de Ética

abril 10, 2010

por Frei Betto, na Folha de São Paulo

É TAUTOLÓGICO falar em falta de ética no Congresso Nacional. Os escândalos se sucedem, do deputado que está “se lixando” para a opinião pública aos funcionários do Senado que, a exemplo de notórios senadores, ostentam um padrão de vida muito superior a seus vencimentos e à renda declarada.

Felizmente, há exceções. Lástima que a indignação e o protesto de congressistas íntegros tenham pouca ressonância nas ruas. Em geral, noticiam-se a farra de passagens aéreas, os castelos mirabolantes, as mansões paradisíacas. Poucos tomam conhecimento da coerência de congressistas incorruptíveis. A corrupção decorre da falta de caráter. Esta se manifesta, de modo especial, quando a pessoa se vê investida de uma função de poder, do prefeito que se apropria dos recursos da merenda escolar a congressistas que se julgam no direito de pagar, com dinheiro público, o salário de sua empregada doméstica.

Como dar um basta em tanta maracutaia? Difícil. O ser humano padece de duas limitações insuperáveis: defeito de fabricação e prazo de validade. É o que a Bíblia chama de “pecado original”. Sempre haverá homens e mulheres desprovidos de caráter, de princípios éticos, dispostos a não perder a primeira oportunidade de enriquecimento ilícito. A solução é criar, via profunda reforma política, instituições que inibam os corruptos e mecanismos de controle popular. Em suma, tornar a nossa democracia, meramente delegativa, mais representativa e, sobretudo, participativa.

Enquanto isso não acontece, sugiro que convidem, para ministrar um curso de ética no Congresso Nacional, Suas Excelências José Gomes da Costa, Rodrigo Botelho, Francisco Basílio Cavalcanti, Clélia Machado, Sebastião Breta e Fagner Tamborim.

José Gomes da Costa é gari da Prefeitura de São Paulo. Ganha R$ 600 por mês. Vinte e seis vezes menos que um deputado federal. Com esse salário, sustenta a si e três filhos. Dia 18 de maio último, ao varrer a rua, encontrou um cheque no valor de R$ 2.514,95. José precisaria trabalhar quatro meses, sem nenhuma despesa, para acumular essa quantia. Procurou uma agência do banco e devolveu o cheque. Motivo: vergonha na cara.

Gari, Rodrigo Botelho encontrou, em 26 de maio do ano passado, durante campeonato mundial de tênis de mesa, no Rio, mochila com R$ 3 mil em dinheiro. Viu o nome do dono nos documentos, chamou-o pelo microfone e devolveu. Rodrigo é normal, tem caráter.

Francisco Basílio Cavalcante, faxineiro do aeroporto de Brasília, pai de cinco filhos, ganha salário mínimo. No dia 10 de março de 2004, encontrou uma bolsa de couro no banheiro do aeroporto. Dentro, US$ 10 mil. Se fosse juntar o salário que ganhava, sem gastar um só centavo, levaria (à época) mais de sete anos para obter igual soma. Francisco declarou: “Tem que ser assim. O que não é nosso precisa ser devolvido. Não pode trazer felicidade”.

Clélia Machado, 29, é auxiliar de serviços gerais e faz bico como manicure. Sozinha, cria duas filhas, uma de sete anos, outra de nove. Sua renda mensal não chega a R$ 550. Todos os dias ela faz a faxina do banheiro do posto da Polícia Rodoviária Federal em Seberi (RS). A 11 de março de 2008, encontrou, junto à privada, um pé de meia enrolado em papel higiênico. Dentro, US$ 6.715. Clélia entregou os dólares aos policiais. Entrevistada, disse: “Bem que podia ser meu de verdade. Mas já que não me pertencia, devolvi. Era o certo a fazer”.

O gari Sebastião Breta, 43, da Prefeitura de Cariacica (ES), devolveu os R$ 12.366 mil que achou num malote no lixo. O nome do homem que fora roubado estava gravado numa etiqueta. Sebastião ganha salário mínimo. Indagado se pensou em ficar com o dinheiro, disse: “Nunca. Desde a primeira vez que vi, sabia que devia devolver. Quando não consigo pagar as minhas contas, fico doido, pensava o tempo todo como estaria o dono do dinheiro, imaginava que ele também não podia pagar suas contas porque tinha perdido tudo. Eu e minha mulher não conseguiríamos dormir à noite. Acho esquisito pegar o que não é da gente”.

Fagner Tamborim, 17 anos, entregador de jornais na cidade de Pirajuí, a 398 km de São Paulo, ganha R$ 90 por mês. Enquanto pedalava sua bicicleta, encontrou na rua um malote com R$ 6 mil. Devolveu-o ao dono. “Vi que tinha muito dinheiro e cheques. Levei pra minha mãe, que ligou para o banco.”

O melhor do Brasil é o brasileiro, não necessariamente nossos congressistas.

Professores de Ética – Frei Betto – Fora da Zona de Conforto

Troque a palavra “Congresso” pela palavra “Igreja”, e a palavra “político” por “pastor”, “bispo” ou “apóstolo”, e o texto vai servir da mesma forma, para o que temos visto Brasil afora, com pastores que se apropriam do dinheiro doado pelos fiéis, para levar vidas cheias de luxo e ostentação. Estes “pastores”, “bispos”, “apóstolos e afins, também deviam se matricular nesse curso de ética dado pelos garis, pelos faxineiros, pelo entregador de jornais, e aprender com eles: mais vale o pouco que se ganha trabalhando honestamente e com a consciência tranquila, do que o muito obtido pela exploração da fé alheia.


Em busca de um “aiatolá” evangélico

abril 25, 2009

por José Barbosa Júnior

Já escrevi algumas vezes sobre a questão Igreja X Estado. Este é um assunto que, volta e meia entra nas rodas de debates, tendo em vista a sede que a religião tem de alcançar o poder político e a sede que os políticos têm de fazer de Deus seu maior cabo eleitoral.

Esta semana um fato me chamou a atenção e foi publicado em alguns jornais de circulação nacional: o vereador petista José Wildes submeteu ao plenário da Câmara Municipal de Porto Velho–RO um projeto de lei que institui Jesus Cristo como o único salvador daquela cidade.

A matéria foi aprovada em primeira votação, e se aprovada num segundo escrutínio, poderá ser sancionada pelo prefeito uma lei municipal com os seguintes termos:

“Art. 2º – Fica declarado, profeticamente, Jesus Cristo como único senhor e salvador da cidade de Porto Velho.

I – Consagra a cidade de Porto Velho a serviço de Deus, para a honra, glória e louvor no poder de Jesus Cristo;

II – A cidade de Porto Velho renuncia toda obra realizada no passado de prostituição, impureza, lascívia, ruínas, homicídios, roubos, corrupção, idolatria, feitiçaria, tráfico de drogas, prostituição infantil e toda maldição de primeira, segunda, terceira e quarta geração da cidade de Porto Velho;

(…)

IV – Declara que a cidade de Porto Velho terá uma geração santa e eleita pertencente ao senhor Jesus Cristo.”

Parece piada, mas não é!!! O caso é sério!!! Seriíssimo!!!

A busca evangélica pelo poder terreal parece agora mostrar sua cara, sem vergonha nenhuma de corromper a verdade das escrituras e, principalmente, afrontar o próprio Senhor Jesus com uma lei em “seu nome”.

Como será que, em nome de Cristo, se comete tal heresia? “O meu reino NÃO É DESTE MUNDO. Se o meu reino fosse DESTE MUNDO, os meus ministros se empenhariam por mim…” Quem disse isso foi o próprio Jesus em João 18.36

Não!!! O reino de Jesus não é deste mundo. Querer forçar um povo a “engolir” goela abaixo o senhorio de Jesus é um absurdo. “Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor.”

Tenho dito (não só eu, mas outros escritores e pregadores) que o povo “evangélico” não vai sossegar enquanto não implantar um “Talibã cristão”, onde católicos, espíritas e pessoas de outra religião sofrerão na pele a dor de não pertencerem à “família de Deus”. Como cristão protestante, tenho vergonha disso!

Minha vontade ao ler uma matéria dessa é a de enfiar a cabeça na terra e fingir que eu não existo. Dá raiva e pena ver um povo tão medíocre e mesquinho na busca do poder.

O Estado laico não pode permitir tal atrocidade à liberdade religiosa de outros credos. Assim como não gostaria de ver a minha liberdade religiosa tolhida de alguma forma pelos poderes constituintes, jamais posso querer ver o quadro inverso, onde quem não pensa como eu deva forçosamente abraçar um credo que seu coração não professa.

Eu gostaria muito de ver o Brasil rendido aos pés do Senhor Jesus, mas não dessa forma infantil, grotesca, com que a maior parte de nossas igrejas hoje quer: pela decretação de leis infundadas, pelo “mover” de atos proféticos que de proféticos não têm nada e não passam de atos “patéticos”.

Se queremos ver o Brasil salvo, comecemos por nós mesmos… a exercermos justiça com o pobre, a respeitar o próximo, a cumprir as leis federais, a denunciarmos a corrupção e não nos calarmos em troca de concessões de rádios e TVs, a mostrar que realmente temos a “mente de Cristo”, amando e respeitando cada um em sua individualidade.

Esse pensamento messiânico político foi o mesmo que levou Jesus à cruz..

Falta ao povo que diz ter a Bíblia como Palavra de Deus entender que somos “peregrinos” e “forasteiros” (1 Pedro 2.11) aqui neste mundo… que “estamos no mundo, mas não somos do mundo” (João 17.16), mas ao mesmo tempo Jesus ora não para que Deus nos tire do mundo, mas que nos livre do mal (João 17.15).

Falta nos libertarmos dessa teologia exdrúxula de maldições hereditárias e mapeamentos espirituais, que nada têm a ver com a veracidade das Escrituras. Não adianta declarar Jesus como salvador de uma cidade e pensar que por um decreto humano os corações serão transformados. Isso é criancice, infantilidade, e mais, traz em si mesmo fortes doses de desequilíbrio psicológico e desconhecimento histórico.

A fusão entre religião e Estado proporcionou algumas das maiores barbáries que este mundo já viu: As cruzadas e o massacre de crianças e dissidentes na “Noite de São Bartolomeu”… as inquisições, tanto católicas quanto protestantes… os terroristas do islã…

Que Deus nos livre de um povo que, em seu nome, faz exatamente aquilo que Ele jamais faria.

NEle, que chama “quem QUISER vir após mim…”

José Barbosa Junior

Fonte: Em busca de um aiatolá evangélico – Crer e Pensar

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