O bom e velho Chesterton

setembro 17, 2017

Do livro “Ortodoxia“, de G. K. Chesterton, escrito em 1908.

[…]O cristianismo era atacado de todos os lados e por todas as razões contraditórias. Mal um racionalista acabara de demonstrar que ele pendia demais para o oriente, outro demonstrava com igual clareza que ele pendia demais para o ocidente. Mal a minha indignação se arrefecia diante de sua configuração quadrada angular e agressiva, minha atenção era novamente chamada para observar e condenar sua irritante natureza redonda e sensual.[…]

[…]Não parecia tanto que o cristianismo era suficientemente perverso a ponto de incluir qualquer vício, mas sim que qualquer pau era bom para bater nele. Como seria essa coisa assombrosa que as pessoas queriam tanto contradizer, a ponto de fazê-lo sem importar-se em contradizer a si mesmas?[…]

[…] Subestimam o cristianismo os que dizem que ele descobriu a misericórdia; qualquer um poderia descobrir a misericórdia. De fato todo mundo o fez. Mas descobrir o plano para ser misericordioso e também severo – isso foi antecipar uma estranha necessidade da natureza humana. Pois ninguém quer ser perdoado por um pecado grande como se fosse um pecado pequeno.

Qualquer um poderia dizer que não deveríamos ser totalmente infelizes, nem totalmente felizes. Mas descobrir até que ponto alguém pode ser totalmente infeliz sem eliminar a possibilidade de ser totalmente feliz – isso foi uma descoberta na psicologia. Qualquer um poderia dizer: “Nem pavonear-se, nem rastejar”, e seria um limite. Mas dizer: “aqui você pode pavonear-se e ali pode rastejar” – isso foi uma emancipação.[…]

[…] O que o pastor cristão conduzia não era um rebanho de ovelhas, mas sim uma manada de touros e tigres, de terríveis ideais e vorazes doutrinas, cada uma delas forte o suficiente para transformar-se numa falsa religião e devastar o mundo.[…]

[…] Essa é a emocionante aventura da ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante quanto a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética.[…]

[…] É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo – isso teria sido de fato simples.

É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda; e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.


A sedução da ortodoxia

janeiro 29, 2011

por Paulo Brabo

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado como crença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.

A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.

A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão da gnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

A sedução da ortodoxia – Paulo Brabo – A bacia das almas


Está tudo OK em ser apenas cristão

abril 23, 2010

por Chaplain Mike

Espero que isso lhe pareça uma boa notícia. Talvez isso possa ajudar você a parar de se bater desnecessariamente. Espero que ajude a todos nós nessa finalidade.

O que eu tenho a dizer é…

Está OK!

Está OK ser apenas um cristão.

Está tudo OK em ser apenas uma pessoa  que conhece e é grato pelo amor de Deus e por nos ter dado o Seu filho.

Está tudo OK ser apenas uma pessoa da cruz, que sabe que Jesus morreu por nossos pecados, foi sepultado, e ressuscitou para a salvação do mundo.

Realmente, está tudo OK.

Está tudo OK em ser alguém que cuida em amar a Deus e amar o próximo.

Está tudo OK pensar que o Credo dos Apóstolos é uma afirmação de fé abrangente o suficiente para você, e que você está disposto a ter comunhão com outras pessoas que pensam o mesmo.

Você não precisa ser um tipo determinado de cristão. Adjetivos como “reformado” ou “conservador” ou “emergente” ou “missional” ou qualquer tipo de rótulo denominacional ou teológico, são desnecessários.

Está tudo OK em apenas amar Jesus e ser grato a ele pelo que fez.

Você não precisa ir a uma igreja “cool” com nomes tais como “Revolutio”, ou “The Rock” ou “Journey” ou “The River”. Sua Primeira Presbiteriana ou Primeira Batista ou  Primeira Metodista também servem. Está tudo OK se você está na Basílica de São Pedro e seu pastor espalha incenso na igreja, ou se você está na igreja de São Basílio, onde ícones intrigantes convidam você a meditar a respeito deles.

Está tudo OK se você não ouve música cristã, não compra em lojas cristãs, não veste camisetas cristãs, não vai a congressos cristãos, não se torna um professor cristão ou não manda seus filhos para escolas cristãs, não patrocina empresas cristãs, não participa em causas cristãs, não lê livros cristãos ou identifica a si mesmo com organizações cristãs. Você pode ser cristão sem fazer nenhuma dessas coisas, e está tudo OK.

Está tudo OK se você não tem uma imensa biblioteca de livros teológicos ou comentários bíblicos. Está tudo OK se você sofre para ler a Bíblia, porque nunca consegue passar de Gênesis 5 – não gosta daquela lista imensa de nomes engraçados.

Está tudo OK se você não tem ideia do que significa “se engajar na cultura” ou “impactar o mundo”. Você pode não entender o que seja “justiça social”. Se você nunca esteve num grupo pequeno e nunca fez uma viagem missionária, nunca teve seus dons espirituais inventariados, nunca twittou ao pastor durante uma mensagem nem nunca viu um sermão em PowerPoint, está tudo OK.

Não acho que importa se você confundir John Piper com Piper Laurie, N.T. Wrigth com  os irmãos Wrigth, YEC com NAACP, ou Willow Crek com Nickel Creek.

Você está certo em ficar de fora das guerras culturais. Guerras culturais? Você está muito ocupado visitando seu vizinho que está no hospital, fazendo comida para a família, cuidando daqueles crianças sem pai, escrevendo um bilhete a um amigo que está desanimado, fazendo café para a congregação no domingo de manhã, trabalhando como voluntário numa escola, ou cortando o gramado.

Oh, de qualquer forma, está tudo OK se você diz “Eu não sei” quando lhe perguntam sobre os assuntos quentes do dia. Está tudo OK se você não tem opinião formada sobre casamento gay, pesquisa com células tronco ou aquecimento global.

E também está tudo OK se você é uma toupeira em teologia. Se você não é capaz de dar uma explicação precisa sobre a doutrina da justificação pela fé ou não consegue distinguir entre ensinamentos Católicos Romanos, Luteranos e Reformados a respeito da santificação, também está tudo OK. Se você pensa que “arrebatamento” foi o que aconteceu com você no dia do seu casamento, e não tem a menor ideia do seu significado teológico, está também tudo OK.

Está tudo OK em dizer “Eu não sei”. Isso não fará de você menos cristão.

Batizado quando criança? OK. Mergulhado nas águas quando adolescente? OK.

Recebe a comunhão com amor, porque encontrou Jesus naquele lugar, mas não tem ideia de como explicar isso? Na minha opinião, está tudo OK.

Porque você confia em Jesus.

Você sabe, de coração, que está quebrado e precisa de conserto.

É evidente para você que Ele é o único capaz de perdoar seu passado, animar seu presente e garantir seu futuro.

E como resposta, você encontrou formas simples de adorar ao Único que significa tudo para você, com outros que se sentem do mesmo jeito.

É o que você sabe, e quem você é.

Você é apenas um cristão.

E está tudo OK.

De qualquer forma, se você conhece outros como você, fique à vontade para ler esse texto a eles, porque suponho que talvez eles não tenham ideia do que seja “blogosfera cristã”, e provavelmente nunca vão encontrar essas minhas palavras.

It’s OK… to just be a Christian – Chaplain Mike


Ortodoxia – Gilbert K. Chesterton

dezembro 16, 2008

Ortodoxia
G. K. Chesterton
Mundo Cristão, 2008

Poucos no Brasil conhecem Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor cristão inglês. Celebremos, portanto, a publicação em português de sua obra-prima Ortodoxia (Orthodoxy: The Romance of Faith), de 1908. Um século de atraso não é demais para os padrões brasileiros. Ainda que tardio, o lançamento é oportuno, quando, por um lado, tantos tratados ateus estão chegando às livrarias e, por outro, o fundamentalismo religioso nos enche de horror.

Chesterton caminhou do racionalismo (origem tanto do liberalismo quanto do fundamentalismo teológicos) à compreensão da “ortodoxia”, fazendo o caminho inverso de tantos, da fé em Cristo para a fé na ciência e na razão. Ele não é um irracionalista pleno de misticismo barato. Usa a inteligência, mas seu pensamento é propositadamente assistemático. Seus livros de apologética cristã são todos provocadores e surpreendentes. Ele defende a fé de forma inovadora, empolgante, sem ser maçante, como é comum em apologética. Chesterton não é repetitivo nem professoral. Com ele enxergamos novas formas de apreciar o cristianismo e de entender seu valor singular.

Conhecido entre os amigos como “G.K.”, era uma figura peculiar. Chamado de “o príncipe do paradoxo”, era afável, bem humorado e distraído. Era alto e gordo como poucas vezes se vê. Opunha-se às políticas imperialistas britânicas (The Napoleon of Notting Hill). Escreveu sobre Robert Browning e Charles Dickens, e se tornou famoso como crítico literário. Foi brilhante ao discorrer sobre Tomás de Aquino (Saint Thomas Aquinas: The Dumb Ox) e Francisco de Assis. Escreveu peças de teatro, poemas e os romances de ficção policial que o deixaram famoso (bem como seu detetive-teólogo, o padre Brown). É preciso citar o enigmático suspense O Homem que Foi Quinta-Feira.

Ateu aos 12 anos e agnóstico aos 16, retornou para a Igreja Anglicana após o feliz casamento com Frances Blogg, em 1901. Após esta sua primeira conversão, o escritor e jornalista Robert Blatchford publicou uma série de textos condenando o cristianismo e o teísmo em geral. Chesterton respondeu com seu primeiro livro de sucesso, Heréticos (Heretics, 1903) que traz a primeira apresentação de sua compreensão peculiar da fé cristã, que seria expressa mais explícita e completamente cinco anos depois no livro Ortodoxia, na verdade, uma coletânea de ensaios mais ou menos independentes uns dos outros, no estilo fascinante deste literato que, na época da publicação, tinha apenas 34 anos de idade. Aos 48 anos, Chesterton converteu-se ao catolicismo romano (1922). Muitos autores anglicanos influentes, como John Henry Newman e Thomas Howard, fizeram o mesmo. Foi então que escreveu sua obra apologética mais madura, The Everlasting Man (1925), na qual também explica suas razões.

No capítulo “O Maníaco”, Chesterton rejeita o predestinacionismo como uma forma de religiosidade doentia. O que “o príncipe do paradoxo” entende por uma “perigosa ortodoxia” e pela “emocionante aventura da ortodoxia” é algo bem diferente do neognosticismo e neofarisaísmo que encontramos hoje no mundo evangélico brasileiro e norte-americano. A “ortodoxia” de Chesterton é anti-sectária, de tendências irênicas. Ele é anti-racionalista e, portanto, avesso às teologias sistemáticas fundadas na inferência dedutiva. É humanista em seu combate ao tecnicismo e a todas as formas de desumanização promovidas pelo avanço da civilização tecnológica. A Ortodoxia de Chesterton é, segundo ele mesmo afirma, “uma emocionante aventura” que inclui a adoção da “ética dos elfos” e a militância na “revolução eterna”. A esta altura já deve ter ficado claro para o leitor que ela não vai agradar os guardiões da sã doutrina.

Ricardo Quadros Gouvêa é ministro presbiteriano e professor de teologia e de filosofia.

Fonte: http://www.ultimato.com.br