Eu odeio teologia…

junho 22, 2012

por Michael Spencer

[…]Odeio teologia quando ela é sem humildade. Teologia e humildade. Ambas devem caminhar juntas sem maiores dificuldades. Digo, não se trata de ciência aplicada aos foguetes. É infinitamente maior do que isso. Em seu leito de morte, Tomás de Aquino disse: “Não posso fazer mais nada. Tais segredos têm me revelado, que tudo que escrevi, parece agora ser de pouco valor.”  Sabemos ser esta a atitude apropriada perante nossas teologias, mas não é a nossa posição normal.

A ideia de saber a verdade sobre Deus, é o tipo mais perigoso e sedutor de conhecimento que podemos afirmar. Quanto mais aprendemos, mais humildes devemos ser.  Seguindo as teorias correntes do conhecimento, se Deus é infinito e incompreensível, então quanto mais sabemos, menos sabemos. Ou seja, quando a ignorância é substituída pelo conhecimento, este conhecimento abre novos e amplos espaços para o desconhecido, e isso nos torna humildes.

Tome como exemplo o astrônomo moderno. Ele parece conhecer mais sobre o universo do que seus antecessores da antiguidade, que pensavam que as estrelas eram pontos de luz, criados por deuses ou anjos. Será que esse maior conhecimento faz esse astrônomo se sentir mais experiente, ou faz com que fique mais estupefato, com admiração e assombro perante o que sabemos, e com tudo que ainda falta saber?

Então, como é que nós perdemos esse assombro na teologia moderna? Arrogância, não humildade, marca as discussões teológicas e os debates entre crentes. Você poderia pensar que alguns poucos anos de leitura e estudo abriram a mente do Eterno, e ela foi toda catalogada em fichas como as da biblioteca local.  A postura de um teólogo bíblico deve ser a adoração e o assombro constantes, não a de levianamente afirmar tudo o que sabe como certo.

Lembra a história do repórter que perguntou a Karl Barth qual tinha sido a maior verdade teológica que ele já tinha ouvido? A resposta do velho e sábio professor, foi: “Jesus me ama, isso eu sei, porque a bíblia me diz isso.”

Grande resposta.

Odeio teologia quando substitui a vida real. Aqueles que estão preocupados achando que estou caminhando rumo a algum tipo de ceticismo pós-moderno, precisam lembrar uma coisa a meu respeito, a única coisa que me autoriza a dizer “odeio teologia” com alguma medida de autenticidade.

Fiquei mais de quatro anos num seminário, e vivi para contar a história. Se você não andou todas essas milhas usando meus sapatos, sente e ouça.[…]

[…] Fiz parte da assistência da igreja quando estava no seminário, numa igreja que ficava próxima ao campus. Como qualquer igreja, tínhamos uma porção de coisas simples a fazer para ser igreja. Cuidar das crianças. Preparar a ceia. Participar de reuniões de oração. Evangelizar. Orar. Ministrar. Fazer parte de comitês. Pintar paredes.

O problema é que dificilmente podíamos fazer essas coisas, porque nossa igreja estava lotada de estudantes de seminário. Teólogos. Você não podia orar. Tinha que teologar sobre a oração. Não podia organizar um jantar na igreja. Tinha que teologar sobre os pobres, sobre economia e justiça. Você não podia ajustar o ar condicionado, sem passar por um debate teológico. Os teólogos deixavam a igreja paralisada (não queira saber no que pode se transformar uma simples escola dominical ou grupo de jovens, numa tirania de teólogos como essa).

Como se podia esperar, os teólogos pareciam evitar esses pequenos serviços que o resto de nós faz, simplesmente porque precisam ser feitos. Encarnação é uma grande ideia, contanto que você a pratique em vez de debater sobre ela.[…]

[…]Deixe-me ser bem claro. Deus deve ficar muito mais animado com uma pessoa que deseja fugir do pecado e amá-Lo, do que fica com o fato de alguém ser especialista em teologia histórica e sistemática. Quando chegamos ao ponto de imaginar que estamos prestando um serviço a Deus, desencorajando a devoção pessoal, apenas porque não se encaixa em algum padrão teológico, estamos na verdade agindo mal.

Veja, os teólogos são tentados a viver uma vida geralmente livre de coisas tais como: arrependimento pessoal, devoção, oração, adoração privada e expressões do amor de Deus. Boa teologia cobre uma multidão de pecados (ironic mode on). Quem tem tempo para esses desperdícios de energia mental, quando pode ler mais algum capítulo de exploração dogmática dos mandamentos, escritos por algum teólogo? Essa necessidade de debater é muito maior do que o desejo de orar, não é? O que fazer: ler mais algum livro, ou ter um tempo de devoção pessoal? Qual é a escolha mais fácil?[…]

[…]Não tenho tempo para perder com qualquer teólogo que não consegue enxergar a beleza de um coração que apaixonadamente tenta seguir Jesus, porque está muito ocupado lendo livros de teologia.

Odeio teologia quando age como se fosse ela mesma revelação, e não um esforço humano e falível. Meu amigo Jim Nicholson tem os créditos por isso. Para aqueles de nós que acreditam na doutrina reformada da depravação total, parece que mais de um desses teólogos, praticam teologia como se estivessem excluídos de algo com que o resto de nós temos que conviver o tempo todo: a influência do pecado em todas as áreas da vida humana, incluindo os exercícios intelectuais que são necessários para se fazer teologia. Parece estranho dizer isso, mas parece que muitos protestantes estão prontos a defender suas teologias como corretas, na base de que Deus precisa que alguém preserve a igreja dos erros. Sério que vocês pensam isso? Os herdeiros de Lutero realmente pensam assim, sobre esse exercício totalmente humano e feito por seres humanos falhos, chamado teologia?  Infelizmente, sim, e com consequências que vão desde a leve irritação à devastação total.

Como muitos já disseram antes, a teologia é potencialmente perigosa, justamente porque uma vez que tenhamos considerado ter chegado na “verdade”, passamos a ter certeza de que Deus está do nosso lado.[…]

[…]Talvez o melhor exemplo disso é nossa reformada e amada T.U.L.I.P. Deus está comprometido com a T.UL.I.P.? Ou é apenas esforço teológico humano? São nossas abreviações, nossos pensamentos e palavras?[…] Claro, eu creio que até certo ponto, essa abreviação, TULIP, apresenta um resumo do que muita gente boa acredita que a escritura diz, mas o fato é que tenho que tomar uma decisão consciente, e tratar essa abreviatura como é. Não é revelação. É teologia, e é o produto de mentes pecadoras e pensamentos imperfeitos. Como pensamento humano, é tão divino quanto o cardápio do MacDonalds.[…]

[…](Engraçado como os cristãos tendem a transformar seus heróis em algum tipo de super-homem, enquanto a bíblia coloca todos os seus heróis no mesmo nível de qualquer um de nós.)

Tome como exemplo a teologia do hedonismo cristão de John Piper. Impactou minha vida de uma forma poderosa. Foi como um salva-vidas para mim, e sou muito grato a esse homem. Mas ele é apenas um companheiro de jornada, e sua teologia é caída e falha, e não há autoridade – NENHUMA – na versão do Cristianismo elaborada por Piper do que há na versão feita por qualquer outra pessoa.

Vale lembrar que o problema raramente é com os teólogos. É com os seus fãs, e sou tão culpado nesse ponto, quanto qualquer um. Odeio teologia que cria celebridades com autoridade. É uma coisa boa que tenhamos teólogos, assim como também é bom lembrar que eles são apenas pessoas como nós. Não queime os livros deles. Queime os pôsteres e as camisetas autografadas por eles, isso sim.

Odeio teologia que precisa caçar todos os erros à vista. No verão, temos moscas aqui no sudoeste do Kentucky. Não gosto delas, e então dou aulas com um jornal enrolado na mão. Quando uma mosca se aproxima de mim, eu tento acertá-la. Eu não percebo, porque odeio as moscas, mas meus alunos notam com frequência que me distraio caçando moscas a cada terceira palavra, ou atravesso a sala atrás de alguma mosca que não consegui acertar.

Esta analogia descreve o pensamento de alguns teólogos. Eles estão certos, erros são intoleráveis, e eles saem à caça dos erros. Como na minha sala de aula, o evento principal parece ser caçar as moscas, e nada mais importa além disso.

Quando encontrei pela primeira vez um desses Calvinistas encarnados, ele era como um caçador de moscas. Não importa sobre o que eu pregava, no dia seguinte, ele vinha me explicar como eu tinha violado os pilares do Calvinismo. “Você percebeu que chamou as pessoas a fazerem escolhas? Você não pode fazer isso!”[…]

Sinto muito por você se precisa ensinar, orar, pregar ou fazer qualquer coisa na tentativa de comunicar o evangelho, tendo esses caçadores de moscas em sua volta. Você vai acabar perdendo a maior parte do seu tempo, sendo caçado por eles, e vai voltar para casa irritado. Sim, você voltará para a sua casa, lerá a bíblia e mudará sua mente (ou não), e caçador teológico de moscas, se achará encorajado a continuar caçando moscas, uma de cada vez.[…]

[…]E se o erro for insignificante? Uma vez que você esteja convencido de que a verdade está na SUA teologia, os menores erros, e os erros comumente aceitáveis, serão para você como entradas do inferno, e você não vai pensar duas vezes e gritar FOGO! para as almas em risco iminente de danação. No campo da saúde mental, chamam isso de transtorno obsessivo-compulsivo. É tratável, desde que o paciente admita seu problema e se submeta ao tratamento.[…]

[…]De novo, odeio dizer isso, mas existe um tipo de doença mental onde o paciente tem um “complexo messiânico”. Eu preciso salvar o mundo! Argumentar com todos! Afastar todos os erros antes que seja muito tarde! Qualquer sermão, qualquer demonstração de devoção pessoal, qualquer discussão sobre religião pessoal, se torna um campo de batalha para essas pessoas. Elas não enxergam isso, e estão convencidas de que o seu “ministério” é se tornar uma espécie de “caneta vermelha” de Deus, escrutinando tudo que os outros dizem sobre teologia. Se há repercussões ao seu fanatismo, quem é a vítima, e quem é o perseguidor dos liberais heréticos, ou ambos?

Todos nós erramos. Todos nós acreditamos em erros. Propagamos erros. Toleramos erros. Todas as nossas teologias possuem erros. Só Jesus é a Palavra Final sem erros, e ele não virá dentro de um livro de teologia sistemática.[…]

[…]Odeio teologia que ignora a nossa humanidade.[…]

[…]Minha humanidade importa. Odeio teologia quando desconsidera nossa humanidade e nos reduz a transportadores de ideias. Alunos, numa sala de aula, estão sempre em risco de errar. Os mais tolos são aterrorizados pelos mais espertos, e menosprezados pelos professores. Odeio teologia quando faz os que se acham mais espertos, bons leitores ou donos de elevados quocientes de inteligência, se considerarem os verdadeiros cristãos, e enxergarem o resto de nós, como penicos para seus argumentos e citações sem fim. Onde está a beleza e dignidade da humanidade em tudo isso?[…]

[…]Os teólogos precisam meditar sobre o inexplicável hábito de Deus, de atravessar rios conosco, pecadores. Vestiu Adão e Eva. Deu uma pausa a Caim. Saiu com Abrahão, Moisés, Noé, Davi e Elias. Nenhum deles era um grande teólogo. Todos eles pareciam mesquinhos e estavam frequentemente errados. Eram pecadores notórios. Os teólogos estão enfiados no templo, azeitando a máquina da religião, que só eles entendem. Enquanto os preferidos de Deus, estão derrubando filisteus, escrevendo poesias e namorando. Esse é um Deus que posso apreciar.

A teologia pode se tornar um clube que se propõe a derrubar os filhos de Deus. Se você conhece Deus, tende a agir como o Deus que você conhece. O bom pastor. O médico gentil. O que ressuscitou Lázaro. Aquele que transformou água em vinho.  Jesus não se parecia com um dos Fariseus em termos de teologia ou personalidade. Ficou zangado quando os fariseus não acharam certo curar um homem no Sábado. O que ele diria a respeito das nossas ratoeiras teológicas, que montamos para separar crentes de descrentes no que diz respeito às nossas matérias “confessionais”?  Quando tudo se resume a uma guerra entre os teólogos e o resto do mundo, crueldade e barbarismo são aceitáveis. Afinal de contas, Deus –  e nada mais – é importante. Certo?

Essas pessoas que importam para Deus – pessoas falhas e ignorantes – parecem perdidas para muitos teólogos. Eles se sentam diante de seus livros, e debatem sobre quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete, enquanto alguém com uma teologia inaceitável para eles, tenta viver de acordo com o Sermão da Montanha e morre amando pessoas em nome de Jesus.[…]

[…]Repito. Odeio teologia que é desumana. Teologia que diz que Deus não ama as pessoas, e me dá permissão para fazer distinção entre os eleitos e os não eleitos entre as pessoas com as quais me relaciono. Não diga que isso não é um perigo. É um perigo sim, e a história cristã comprova isso o tempo todo.[…]

I hate theology – Michael Spencer – The Internet Monk


Apocalipse: um guia para os jovens

julho 11, 2011

por Michael Spencer

Os jovens querem saber sobre o Apocalipse.

Uma das melhores coisas sobre trabalhar com jovens na igreja ou em uma escola cristã, como fiz por 28 anos, é responder perguntas sobre a bíblia. Há, entretanto, uma coisa que aprendi sobre as perguntas dos jovens a respeito da bíblia. A maioria delas são sobre o livro mais difícil, o livro do apocalipse. E essas questões são muito difíceis de responder.

Os mais jovens ficam curiosos a respeito do livro do Apocalipse por muitas razões. Se o leram, estão certamente curiosos a respeito do que foi lido. É um livro cheio de coisas misteriosas que não estão explicadas. O Apocalipse é também assunto de livros e filmes, como aquela série popular “Deixados para trás” e os filmes “The Omega Code”. Pregadores na TV e nas igrejas têm muito a dizer sobre o livro do Apocalipse, e muito do que dizem a respeito dos significados deste livro, parece certo. Naturalmente, os mais jovens ficam curiosos a respeito deste livro, quando ouvem falar que é um livro de previsões do futuro.

O livro do Apocalipse tem uma reputação diferente de qualquer outro livro da bíblia. É raro que eu tenha algum aluno que faça perguntas sobre o livro de Romanos ou o de Atos. Estes livros são considerados chatos, e se um estudante os lê a história e as ideias parecem ser todas de “muito tempo atrás”.  O Apocalipse, por outro lado, parece ser a respeito de um futuro imediato. Parece estar falando sobre “coisas que em breve acontecerão”. Qualquer pessoa normal fica curiosa a respeito do futuro, e o livro do Apocalipse parece atiçar a coceira da curiosidade.

O que nós sabemos sobre o livro do Apocalipse?

Talvez, a parte mais frustrante de tais questões é que, na maioria das vezes, é praticamente impossível explicar tudo que uma pessoa precisa saber sobre o livro do Apocalipse, com umas poucas frases. É um livro muito difícil! De fato, quando o Novo Testamento teve seus livros colocados todos juntos, muitos líderes cristãos sentiam que o livro não deveria estar na bíblia, porque seria muito confuso. Continua um livro confuso, mas certamente permaneceu na bíblia. Simplesmente temos que pagar o preço e estudar mais.

Há centenas de livros escritos sobre o livro do Apocalipse. A maior parte deles estão além da capacidade do jovem estudante mediano, de ler e entender. Parte do que estou escrevendo neste ensaio, é para encorajar esses jovens a querer aprender mais, e de forma perseverante, procurar e ler os livros mais fáceis, que possam ajudá-los a entender o livro do Apocalipse.

A dificuldade em entender o livro do Apocalipse não vem do que sabemos a respeito deste livro. A maioria dos estudiosos concorda na maioria das coisas básicas a respeito dele.

Foi escrito no final do primeiro século depois de Cristo, talvez em torno de 95 dC. O autor, João, e muitos cristãos acreditam que era o apóstolo João, um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus e o autor do evangelho segundo João. Há outros líderes cristãos acreditam que foi escrito por um João do primeiro século, mas o escritor do livro não nos conta muita coisa a respeito de si mesmo. Na verdade, ele deixa claro que é mais um “secretário” do que qualquer outra coisa, escrevendo o que viu e ouviu.

O livro foi escrito para sete igrejas que existiam no que era chamado de Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia. Estas igrejas eram todas diferentes umas das outras em tamanho, mas todas elas precisavam de encorajamento. Os capítulos dois e três do Apocalipse possuem mensagens específicas de Jesus para cada uma destas sete igrejas, e estes capítulos estão entre os mais fáceis de ler e entender.

Destas mensagens, sabemos que as igrejas que leram este livro pela primeira vez, estavam passando por tempos difíceis. Algumas estavam sendo perseguidas e tendo seus membros executados. Havia falsos mestres em outras igrejas. Algumas delas eram ricas e se tornaram frias em seu compromisso com Jesus. Outras eram igrejas pobres e sofredoras, e eram usualmente aconselhadas a permanecer fieis no sofrimento.

O livro do Apocalipse foi escrito durante a época do Império Romano. Os romanos dominavam a maior parte do mundo conhecido no primeiro século, e os imperadores romanos eram muito poderosos. Na verdade, muitos destes imperadores exigiam ser adorados como se fossem deuses. Em muitas cidades que queriam mostrar que eram grandes “fãs” do imperador, templos eram construídos e todo “bom cidadão” romano tinha que fazer uma oferta de incenso e afirmar “César é o Senhor” ou “O imperador é Deus”.

Esta “profissão de fidelidade” ao imperador não era problema para a maior parte das pessoas, mas para os primeiros cristãos, era uma escolha difícil.  Eles acreditavam que Jesus era Senhor e Deus, e seria errado ir a um templo e “adorar” o imperador romano.Muitos cristãos se recusavam a fazer isso, e como resultado, eram vítimas de perseguições de vários tipos. Na época em que o livro do Apocalipse foi escrito, o imperador romano era Domiciano, e ele era muito rigoroso a respeito da adoração nos seus templos. As cidades construíam templos para ele, tinham estátuas enormes para o povo adorar, e eram até mesmo empregados “pastores” para impor a adoração de Domiciano.

Esse tipo de situação é muito difícil para um cristão americano entender. Nós nunca vivemos sob o poder de um imperador ou império. Sempre governamos a nós mesmos e temos liberdade religiosa. Os cristãos algumas vezes são perseguidos ou proibidos de fazer algumas coisas, mas poucos cristãos americanos sabem o que é ser aprisionado ou morto por serem cristãos.

Mas imagine: Como era ser cristão na China comunista? Na ex-União Soviética? Em lugares como o Sudão ou em países islâmicos hostis, como a Arábia Saudita? Nesses lugares, era (e é) comum para milhares de cristãos sofrer e morrer porque não “adoram” os “deuses” destas nações, e sim, Jesus.

Estes cristão que estão sofrendo, provavelmente entendem o livro de Apocalipse muito melhor do que nós, porque eles entendem o que é sofrer, e ter que viver com a escolha de obedecer ou morrer.

O livro do Apocalipse é uma mensagem especial para os cristãos do primeiro século. É uma mensagem que afirma “Jesus é o Senhor!” O imperador Domiciano não é o Senhor! Deus está no controle de tudo que está acontecendo. O futuro será de acordo com os planos de Deus, e preencherá os propósitos dEle. Não importa quão ruins as coisas fiquem ao longo do caminho, os cristãos devem permanecer fieis, estar dispostos a sofrer, e esperar que Deus leve todas as coisas a termo no Seu Reino.

Entender que o livro do Apocalipse é uma mensagem para os cristãos do primeiro século, não significa que não serve para nós hoje. O Apocalipse é uma mensagem para todos os cristãos em todos os tempos. Sua mensagem e sua história pertencem a todas as gerações e a todos os cristãos.

Por que é tão difícil de entender?

Tudo isso não é realmente muito difícil de entender. Qualquer estudante mediano pode facilmente aprender essa informação e passar num teste!  O que não é fácil a respeito do livro do Apocalipse, é a forma pela qual é escrito, especialmente do capítulo três em diante. O livro se torna muito estranho. Vamos falar a respeito da forma com a qual o livro foi escrito, e porque foi escrito desse jeito.

O livro do Apocalipse usa muitos símbolos e imagens para contar sua história. É como assistir um filme muito, muito estranho. Há monstros, anjos, eventos estranhos, personagens misteriosos, muitos números e enigmas. Está tudo realmente acontecendo desse jeito?

Por exemplo, no capítulo 12, há realmente um dragão querendo devorar uma criança? Ele tem de verdade sete cabeças? O bebê é realmente levado para o céu? Será que a mulher teve mesmo que se esconder no deserto por mais de mil dias? O dragão realmente vomitou um rio, e a terra realmente se abriu e o engoliu?

Esta é a forma típica pela qual o Apocalipse fala conosco, e se você diz a si mesmo “Isso não pode ser real. Isso parece ser algum tipo de simbologia ou código”, então você acertou.  Isso não é como um videotape a respeito das notícias do dia. É muito mais parecido com uma pintura, cheia de personagens e cores e números e eventos que possuem significados ocultos, que fazem sentido para algumas pessoas, mas não para outras.

O apocalipse é escrito em algum tipo de “código”, como aqueles das charges políticas. Se você está lendo uma charge política, e vê um elefante pisando um jumento na estrada, você entende que não é isso que está “realmente” acontecendo. O elefante representa o partido republicano, e o jumento, os democratas. Se vemos “Tio Sam”, sabemos que se refere aos Estados Unidos, e um urso, se refere à Rússia.

No Apocalipse, o dragão, a besta, o falso profeta, o cordeiro, a grande prostituta e outros personagens, são fáceis de identificar se você sabe o que eles representam.

Os números funcionam da mesma maneira. Qualquer fã da NASCAR conhece o número “3”. Todo americano sabe o que representa “9-11”. Todo fã da NBA sabe que “23” é o número do Michael Jordan. Da mesma forma, o Apocalipse usa um código numérico para se comunicar com o leitor. O livro do Apocalipse usa também um código de cores com o mesmo objetivo.

Isso é uma resposta?

Seria perfeito se o Apocalipse nos fornecesse as chaves para todos esses códigos! Isso teria deixado as coisas bem mais fáceis. Mas não faz isso, ou pelo menos, não faz do jeito que queremos, com todos os códigos explicados no final de uma forma fácil de entender. Não, os códigos do Apocalipse têm que ser entendidos pelo entendimento de duas coisas.

Primeiro, o Apocalipse tem mais de 400 referências ao Antigo Testamento. Quanto melhor você conhecer o Antigo Testamento, melhor vai entender o Apocalipse. Por exemplo, o livro do Apocalipse fala frequentemente sobre “Babilônia” como um símbolo. Se você conhece o Antigo Testamento, sabe que Babilônia foi um império da antiguidade e um inimigo do povo de Deus, uma cidade onde os israelitas ficaram em cativeiro por 70 anos, e simboliza o poder do mal no mundo.

Outro exemplo é o templo. O Apocalipse usa com frequência a figura do templo como um símbolo. No Antigo Testamento, havia dois templos, e há muita informação sobre o que acontecia nos templos. Sacrifícios, sacerdotes, música, altares, incenso – tudo isso está descrito em diversos lugares diferentes no Antigo Testamento. Um dos livros do Antigo Testamento, Ezequiel, tem uma descrição detalhada de como seria um templo perfeito, do futuro. Então, quando o livro do Apocalipse fala sobre templo, temos muitas ideias sobre o que isso significa.

Num determinado momento, o livro do Apocalipse se refere a um certo falso mestre como “Jezebel”. Jezebel era uma rainha malvada que promoveu a adoração de falsos deuses e mandou matar profetas de Deus e outras pessoas. Sem citar nomes, o livro do Apocalipse diz que alguém se parece com Jezebel. É desta forma que o livro do Apocalipse usa referências do Antigo Testamento.

Usar referências do Antigo Testamento era uma forma de se comunicar apenas com as pessoas que conheciam a bíblia, mas esconder a mensagem de pessoas que não conheciam a bíblia tão bem… como os romanos, por exemplo.

A segunda maneira de entender os códigos do livro do Apocalipse é estudar outros livros parecidos, escritos na antiguidade, em situações semelhantes e usando linguagem semelhante. O problema aqui é que não há nada que se pareça exatamente com o livro do Apocalipse na Bíblia. Há um livro que se aproxima o suficiente e pode ser útil, e este, é o livro de Daniel.

Este estudo não vai falar sobre o livro de Daniel, mas posso contar para você como este livro é semelhante ao do Apocalipse. Ele também foi escrito quando o povo de Deus estava sofrendo. Ele também encoraja as pessoas a serem fieis e corajosas, como o próprio Daniel foi. Também usa muitas imagens e símbolos, em sonhos e visões, para comunicar a mensagem de que não importa o que aconteça na história, Deus está no controle. Ele usa muitos dos mesmos códigos, e algumas das mesmas criaturas.

Comparar Daniel com o Apocalipse pode ajudar muito. O que é útil também, é ler livros antigos que NÃO estão na Bíblia, mas usam “códigos” similares para comunicar suas mensagens. Aqui, é o ponto onde um estudante da bíblia deve confiar nos estudiosos que escreveram livros para nós. A maioria de nós não dispõe de tempo ou meios para aprender as línguas originais e para ir a bibliotecas e estudar. Mas podemos ler o que esses estudiosos têm descoberto e transmitido para nós.

Quando usamos estes dois códigos, o que encontramos? Encontramos que a maior parte do que está no livro do Apocalipse pode ser entendido com bem pouco trabalho. Não conheço ninguém que afirme que entende tudo o que diz no livro do Apocalipse, e muitos estudiosos discordam entre si. Mas uma parte substancial dos estudiosos que pesquisam sobre o livro do Apocalipse, concorda a respeito do que o livro do Apocalipse, basicamente, diz.

(De qualquer jeito, o código especial usado no livro do Apocalipse e em Daniel, é chamado de literatura “apocalíptica”. A palavra “apocalíptica é a expressão grega para “descoberto” ou “revelado” e é atualmente, a primeira palavra que aparece na primeira frase do livro do Apocalipse.

Por que tanta discordância?

Uma das coisas mais frustrantes a respeito da tentativa de falar sobre o livro do Apocalipse, é que não há outro livro que tenha gerado tantas opiniões e ideias diferentes, por pessoas diferentes – todas alegando estarem certas. Isso pode ser muito desencorajador para um jovem que quer entender o livro do Apocalipse.

Por exemplo, os populares livros “Deixados para trás”, venderam mais de 40 milhões de cópias. Eles trazem um ponto de vista a respeito da mensagem do livro do Apocalipse. Eu discordo desse ponto de vista em quase tudo, então realmente não gosto desses livros, e geralmente não recomendo aos meus alunos, que os leiam. Meus pontos de vista a respeito do livro do Apocalipse são mais parecidos com os pregadores de muito tempo atrás. Quem está certo?

Um estudante do livro do Apocalipse é levado a aceitar o fato de que precisa aprender várias formas diferentes de entender qualquer parte do livro, dependendo do que está lendo ou de quem está ensinando. Por exemplo, no capítulo sete, há 144 mil pessoas citadas. Eu penso que seja um símbolo. Outros professores pensam que é literal, um grupo de 144 mil pessoas, nem mais, nem menos. Sou influenciado pelo “código numérico” do mundo antigo, onde 12 era o número de tribos de Israel e qualquer variação que gire em torno desse número 12 faz total sentido,  Penso que é um símbolo para representar “todo o povo de Deus na Terra”. Outros professores dizem que são 144 mil judeus das 12 tribos de Israel.

Essas divergências são irritantes, eu sei! Mas são parte do que significa ser um estudante do livro de Apocalipse. A boa nova é que há apenas quatro ou cinco formas diferentes de olhar para o livro, e na maioria dos casos, apenas duas ou três opções para o significado de alguma coisa; então, se você começa a se tornar familiar com essas “versões”, o jogo não parece mais tão confuso.

Quais são as “Perguntas Frequentes” sobre o livro do Apocalipse?

1. O livro do Apocalipse é sobre o futuro?

Provavelmente o primeiro erro que a maioria das pessoas comete a respeito do Apocalipse é assumir que é todo sobre o futuro. A leitura do livro do Apocalipse mostra rapidamente que se trata de passado, presente e futuro. Certamente, muito do que está ali se refere ao fim dos tempos e eventos do final da história, mas não cometa o erro de pensar que tudo é a respeito apenas do futuro.

2. O livro do Apocalipse nos conta em detalhe sobre os eventos futuros?

Esta é uma daquelas discordâncias a respeito das quais avisei você! Muitas pessoas olham para  o Apocalipse como se fosse um tipo de “mapa” que prevê o futuro em detalhes. Se você pode ler o mapa, eles dizem, pode saber o que vai acontecer. Outros – como eu – acreditam que o Apocalipse apenas mostra-nos o futuro de uma forma muito, muito geral, que pode ser aplicada a qualquer cristão, em qualquer época, em qualquer lugar. Devo alertar você de que cada geração anterior de cristãos, tendeu a pensar que entendia os eventos no Apocalipse claramente, e todos estavam errados em muito do que disseram a respeito.

Portanto, seja humilde e ensinável. O livro do Apocalipse é como uma grande montanha. Escalar essa montanha, demanda tipos diferentes de conhecimento, para escapar dos perigos e armadilhas, mas uma vez que tenhamos trabalhado para pegar bons pontos de vista, o trabalho vale a pena.

3. Quem ou o quê é “a besta”?

Há dois tipos de “bestas” no Apocalipse. Uma é do mar, a outra, da terra. Estas bestas provavelmente representam o imperador romano e o “culto” de adoração ao imperador, especialmente os sacerdotes que forçavam os cristãos a adorar o imperador, ou morrer.

Alguns estudiosos do Apocalipse acreditam que essas bestas representam um futuro “anti-Cristo” que governará o mundo e será instrumento de Satanás no fim dos tempos. Outros, como eu, acreditam que qualquer um que alegue ser “deus” e demande que o adorem ou morram, é um “anti-Cristo”. Homens maus como Hitler, Stalin ou Mao, são os que me vem a mente como exemplos.

Uma das maiores perdas de tempo para os cristãos é tentar identificar a “besta” em alguém que esteja presente nos noticiários. Por dois mil anos, os cristãos têm adivinhado errado, alegando que o Papa, Hitler, Ronald Reagan e outros eram o anti-Cristo. Se haverá um anti-Cristo no fim dos tempos, ele será óbvio em suas ações, e Cristo o destruirá.

A mensagem do Apocalipse é a de que não temos nada a temer a respeito de ninguém, desde que confiemos em Jesus como Senhor e o obedeçamos.

4. A besta é um computador, a Internet, o código de barras, microchips ou cartões de crédito?

Outra forma bastante idiota de ler o Apocalipse é tentar e encontrar alguma coisa no livro que se encaixe com nossas tecnologias atuais, tais como computadores ou microchips. Qualquer tipo de tecnologia pode ser usado para o bem ou para o mal. Poderia dizer a você, que abandone qualquer interpretação de alguma coisa no livro do Apocalipse, que não faça sentido para o mundo do primeiro século. Computadores e códigos de barras podem fazer sentido para nós, mas não significam nada para os cristãos do primeiro século, e o livro do Apocalipse é muito mais deles do que nosso.

Hal Lindsey, uma vez interpretou os “gafanhotos monstros” que aparecem em Apocalipse 9, como helicópteros. Eu interpreto esses “monstros”, como demônios. Qual interpretação parece fazer mais sentido para todos os cristãos, e qual faz mais sentido apenas para as pessoas modernas? Penso que isso é importante, e nos impedirá de correr atrás de “coelhos estranhos” no livro do Apocalipse.

5. O Papa é o anti-Cristo?

Houve tempos, como na Reforma do século XVI na Europa, em que a igreja católica perseguiu e matou muitos cristãos não-católicos. Isso é mau e vergonhoso,  e a igreja católica tem admitido seus erros em usar de violência contra aqueles que discordavam dela.  Naquela época, entretanto, poderia parecer lógico dizer que o Papa era o anti-Cristo do Apocalipse. Hoje, o Papa, enquanto representante de outro ramo do cristianismo, é claramente um amigo dos cristãos de todo o mundo, e não é um candidato a “anti-Cristo”.

6. O que é a “marca da besta”?

Esta é uma das mais difíceis e obscuras partes do livro do Apocalipse. Ocorre sete vezes no livro, do capítulo 13 até o final. Cristãos modernos tendem a ver isso como algum tipo de sistema de identificação do futuro, que os cristãos deverão evitar, como aplicar um número na testa de alguém, ou um microchip no seu corpo. Ao exigir que os cristãos sejam identificados, isso permitiria que fossem controlados.

A “marca” atual sobre a qual se fala, é provavelmente uma tatuagem que era aplicada em qualquer um que participava da adoração do imperador romano. Esta tatuagem, marcaria você como um cidadão leal de Roma, e permitiria que tivesse trabalho ou negócios. Sem a tatuagem ou marca, sua lealdade ao imperador podia ser questionada. Se recusar a receber a marca, provavelmente significava que você era um cristão.

Obviamente, os cristãos ficariam preocupados com qualquer coisa que pudesse ser usada para marcá-los e facilitar a perseguição. Mas cartões de crédito, microchips com informações profissionais e de saúde, e a internet, não são coisas que os cristãos devem evitar por medo “da marca”.

De novo, podemos perguntar como os primeiros leitores deste livro viam essa “marca”, e então aplicar isso a todos os grupos de leitores.

7. O que é o “ferimento na cabeça” da besta?

De novo, uma parte muito, muito difícil do livro. Muitos estudiosos estão prontos para dizer “eu não sei” e eu estou com eles. É um quebra-cabeças.

A melhor sugestão se parece com essa. Os cristãos foram perseguidos até a morte, primeiro, pelo imperador Nero, em torno de 60 dC. Nero foi morto por um ferimento na cabeça. Quando o imperador Domiciano começou a perseguir os cristãos 30 anos depois, alguns cristãos se sentiram como se Nero tivesse voltado dos mortos. Pode estar se referindo a isso, mas, na realidade, ninguém sabe.

Seja muito cuidadoso e humilde com esta parte do livro de Apocalipse. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo!

8. Onde está o arrebatamento no livro do Apocalipse?

Muitos cristãos acreditam que Cristo vai retornar duas vezes. Uma vez em segredo, para pegar a igreja e tirá-la do mundo, antes de severa perseguição (o arrebatamento), e na segunda vez, para julgar todos no final dos tempos. Estou convencido de que a bíblia ensina que Jesus voltará apenas uma vez, e que os cristãos devem estar preparados para a perseguição, e não esperar um arrebatamento para fora do mundo, antes dos tempos realmente difíceis, começarem. Então, eu não encontro nenhum arrebatamento no livro do Apocalipse.

Aqueles que acreditam no arrebatamento, geralmente dizem que acontece no capítulo 4, quando João é levado ao céu. Há sérios problemas com este ponto de vista, mas este estudo não é sobre o arrebatamento!

9. Quanto tempo vai durar a tribulação?

Este é, novamente, um daqueles termos que é usado de diferentes formas por aqueles que leem e estudam o livro do Apocalipse. Muitos cristãos acreditam que a “tribulação”, é um período de sete anos quando o anti-Cristo vai governar a Terra, depois de os cristão terem sido arrebatados. Outros, como eu, acreditam que “tribulação” é uma palavra usada 40 vezes no Novo Testamento, e ela sempre se refere a algum tipo de sofrimento ou perseguição por ser cristão, e não apenas sete anos.

Acredito que o livro do Apocalipse deixa claro em 7:14 que toda a história é uma “grande tribulação” e que todos os cristãos podem viver nela, dependendo do tempo e lugar onde vivem. Muitos cristãos estão sendo perseguidos hoje ao redor do mundo. Outros cristãos acreditam, que é um período definido de tempo, de sete anos. Parece tolice para mim, dizer que os milhões de cristãos que sofrem no mundo hoje, não estão em “tribulação”, e que isso só virá em algum tempo futuro. Parece mais bizarro ainda, dizer que os cristãos americanos devem orar para escapar da sua própria luxúria, em vez de orar por fidelidade no sofrimento, se é isso que o futuro realmente traz.

10. O livro do Apocalipse não é assustador?

Tive muitos alunos que me falaram que o livro do Apocalipse deixava-os com medo. Alguns, me falaram que a tarefa de leitura do livro, o fez ter pesadelos!  Isso é muito ruim, porque o livro do Apocalipse era para ser encorajador e confortador. Ele termina com uma visão maravilhosa do céu, que tem dado conforto a milhões de cristãos ao longo dos anos.

Mas muitas das cenas no Apocalipse são assustadoras, e para pessoas jovens que já assistiram muitos filmes de terror, algumas destas cenas podem ser perturbadoras.  É especialmente assustador para crianças, ouvir que o mundo vai acabar, as pessoas más ficarão para trás, e coisas terríveis acontecerão aos cristãos. Algumas partes do Apocalipse, lidas sem todo o contexto do livro, podem dar a entender que Satanás e seus demônios estão fazendo tudo acontecer.

Lembre-se, que o livro do Apocalipse é sobre Deus acabando com todo mal, todo sofrimento, e trazendo todo o Seu povo para um lugar maravilhoso, num novo céu e uma nova terra.

A young person’s guide to the book of Revelation – Michael Spencer – Internet Monk

A imagem que ilustra a postagem, é uma gravura chamada “Os quatro cavaleiros do apocalipse“, de Albrecht Dürer, feita em 1498.


Por que a igreja não fala sobre violência doméstica?

março 24, 2011

por Michael Spencer

Do Kentucky.com, depois de um assassinato antecedido por um histórico de violência doméstica:

Os novos relatos sobre a morte recente de Amanda Ross, mostram que ela era vítima de violência doméstica. Com base em estatísticas, é sabido que a violência doméstica acontece em todas as comunidades de fiéis do Kentucky. (De acordo com com a Associação contra Violência Doméstica do Kentucky, em 2007, mais de 4 mil pessoas estavam em risco, sendo 2313 mulheres e 1760 crianças.) As comunidades religiosas estão tratando o problema de forma adequada?

Por que a igreja não fala a respeito de violência doméstica?

1. É um problema onde mulheres e crianças são as vítimas do pecado dos homens (primariamente), então temos uma batalha árdua.

2. O ensinamento da Escritura “ame sua esposa como Cristo ama a igreja”, e a sua aplicação, é óbvio, mas nenhuma das listas de pecados de Paulo, ou nossas histórias ou parábolas favoritas, falam sobre caras que batem nas namoradas ou sobre um homem que bate na esposa quando está bêbado.

3. Qual é a recompensa para o pastor que fala sobre isso? Aconselhar mulheres e ouvir segredos embaraçosos. E então… divórcios. Nós todos sabemos como os evangélicos se sentem a respeito de divórcios… ou pelo menos uma boa parte deles.

4. Nunca esteve óbvia a necessidade de a igreja desenvolver seus próprios recursos, com mulheres especializadas em ajudar outras mulheres.

5. Se lidar com esse assunto, alguém na sua igreja pode ir para a cadeia, ou a um advogado. As famílias vão apontar o dedo, telefones irão tocar, e-mails serão enviados, e será tudo culpa sua.

6. Você pode ter certeza que vai chegar muito perto da própria casa. Talvez muito perto de muitos líderes da igreja. Muitas pessoas estão agindo errado. Muitas pessoas são culpadas e muitas pessoas terão que admitir coisas assustadoras. Quem vai querer se envolver nisso?

7. A maior parte dos homens e mulheres prefere ouvir sobre como a submissão resolverá qualquer problema no casamento, e eles precisam que isso esteja correto. É isso que aprenderam e isso que estão ensinando para outras mulheres.  Se alguém diz que estou abandonando um marido que me bate, uma série de problemas ocorre com a versão de submissão da maioria das pessoas. (Não creio que seja necessário, mas penso que se dá ênfase de forma errada na submissão e é necessária a ênfase correta. Amor mútuo em Cristo).

8. Você terá que falar sobre abuso emocional, e agora o círculo ficou muito, muito, muito grande. Você tem certeza que vai querer que as mulheres da igreja comecem a falar sobre isso? Pastor? Pastor? Alôôô?

9. Abuso sexual? Abuso religioso? Abuso financeiro? Muitos tipos de abuso, todos com dinâmicas similares. Vamos apenas dizer que não queremos que as feministas e liberais causem problemas. Quem estamos incentivando com essa discussão? Uh-huh.

10. E, como todos sabem, nós não temos esse tipo de problemas. Nós somos cristãos, não é?

Uma grande saudação, para aquelas igrejas e pastores que estão na linha de frente e envolvidos com esse assunto. Esses são os verdadeiros guerreiros da compaixão, justiça e reconciliação.

Why doesn’t the church talk about domestic abuse? Michael Spencer


Mere Churchianity – Michael Spencer

setembro 26, 2010

Trechos da Introdução

[…]Quando você lê o título deste livro, pode pensar que é um livro para cristãos, e isso é normal, porque eu sou cristão. Não tenho dúvidas que os cristãos precisam ouvir o que tenho a dizer. Porém, este não é um livro cristão, de acordo com a tradição consagrada pelo tempo. Não vou dizer aos cristãos para serem mais legais, ter mais cuidado, serem mais generosos, tentar perdoar, fazerem mais para Deus e assim por diante, para que possamos ser melhores testemunhas de Jesus.

Tenho boas razões para ficar fora do padrão de livro cristão. Fui do igrejismo – o “fazer mais, ser melhor, parecer bom para merecer o amor de Deus – coisa que me transformou, e ao meu grupo de jovens, numa sala cheia de pessoas se empurrando. Então, se você é cristão, de qualquer forma leia este livro. Você vai encontrar uma abordagem sobre seguir Jesus, que não vai lhe pedir para fazer mais, fingindo ser justo. Penso que vai gostar disso.

Mas não estou escrevendo para membros de igrejas que estão felizes onde estão, ou para cristãos que estão fortemente comprometidos com o sucesso e propagação da igreja como uma organização. Escrevo, ao contrário, para aqueles que ainda estejam associados com a igreja, mas não encontram mais muito sentido no que a igreja diz. Não porque duvidem da realidade de Deus, mas porque duvidam que a igreja esteja realmente representando Jesus.

Estou escrevendo para as pessoas que ainda estão dentro, mas prestes a sair, ou para as que já saíram. Estou escrevendo para aqueles que estão de pé na entrada da igreja, prontos para sair para fora, dando ainda uma última olhada em volta.  Não viram a realidade de Jesus por um longo tempo, mas não podem deixar de crer que Ele está aqui. Em algum lugar. E estão inseguros sobre o que significará eliminar isso de si próprios.

Mere Churchianity foi escrito para pessoas que chegaram ao fim da linha com a igreja, mas não se afastaram totalmente de Jesus. No meio dos destroços da sua fé religiosa em forma de igreja, a realidade de Jesus de Nazaré persiste, e chama por eles. Estou falando para aqueles que tenham saído, os que vão sair, os que podem muito bem sair, e para aqueles que não sabem porque ainda estão andando por aí. E escrevo para os forasteiros que poderiam se sentir atraídos por Deus, se não fossem os cristãos.

[…]A espiritualidade na forma de Jesus não tem nada a ver com igrejismo. Seguir Jesus não requer que você jure lealdade a uma instituição religiosa. De fato, o histórico do cristianismo como organização, nos leva a perguntar: Como seria se o cristianismo fosse sobre Cristo? Se todas as peças estivessem no lugar e Jesus fosse o resultado? Se os cristãos se tornassem mais – e não menos – parecidos com Jesus? O que os ateístas veriam, se o cristianismo fosse algo que  o próprio Jesus pudesse reconhecer?[…]

[…]Quando estava crescendo na igreja, éramos constantemente avisados do quão importante era que as pessoas “vissem Jesus em nós.” Cantávamos essas palavras, e o pregador pregava sermões a respeito desse assunto. Ser uma “boa testemunha” para Jesus era assunto constante na pauta. Olhando para trás, para o que me formou espiritualmente, fui confrontado com uma ironia inacreditável. Enquanto falávamos sobre representar Jesus para o mundo à nossa volta, infelizmente, o seguinte era verdade:

• Não tínhamos ideia de quem Jesus era. Não estudávamos sobre ele. Não fazíamos perguntas. Éramos arrogantes e sempre com razão.

• Assumíamos que estar na igreja nos tornaria mais parecidos com Jesus. Programações de igreja e eventos, preenchiam nossos dias, e todos pensavam que mais igreja era equivalente a mais Jesus.

• Raramente estudávamos qualquer coisa na bíblia com o objetivo de ver como estar conectados a Jesus. A bíblia era abordada e ensinada, como uma coleção de versículos atomizados, e ninguém ligava suas muitas partes a esse grande tema: Jesus e o seu evangelho.

• Muitas vezes agíamos de forma desgraciosa e não amável, com pessoas que não acreditavam nas mesmas coisas que nós. Inacreditavelmente, às vezes agíamos maltratando outros, em nome de Jesus.

• Sabíamos muito pouco sobre o que Jesus estava fazendo na Terra, além de morrer e ressuscitar, dois mil anos atrás. Estávamos certos de que ser seus seguidores, significava que não fazíamos as coisas que os pecadores faziam. Quando alguém sugeria que estávamos cheios de justiça própria, fariseus moralmente corruptos, ficávamos ofendidos. Afinal, o que esses críticos sabiam? Eles não eram cristãos.

• Tudo o que todos tinham que fazer, era ler a bíblia para ver que estávamos com a razão, e todo o mundo estava errado.

Mere Churchianity: Finding Your Way Back to Jesus-shaped Spirituality – Michael Spencer


Espiritualidade e ignorância

setembro 21, 2010

por Michael Spencer

Em algum lugar nas profundezas deste site (Internet Monk), contei como tinha sido a experiência de fazer parte de uma igreja cheia de seminaristas. Todo mundo sabia tanto, que era uma enorme dificuldade fazer qualquer coisa – mesmo algo simples como comprar selos – sem que houvesse um debate sem fim.

Óbvio, havia vantagens em ter tantas pessoas tão inteligentes na igreja. Nossa liturgia estava muito à frente à da maioria das igrejas, num nível intelectual e estético, era algo muito belo. Nunca tivemos problemas para conseguir professores para a escola dominical. Tínhamos problemas, na verdade, para conseguir que nossos professores de escola dominical não usassem gramática hebraica demais. E, é claro, porque éramos um grupo muito inteligente, desfrutávamos da benção de não sermos ignorantes.

Estou falando sério. Não é uma coisa legal ser ignorante, e os cristãos não devem abraçar a ignorância como se fosse uma virtude. Por mais problemas que houvesse, ficava feliz porque sempre havia alguém por perto para nos lembrar que decisões econômicas tinham conexões e repercussões no mundo real. Estava feliz porque éramos sensíveis ao racismo, sexismo, discriminação contra os deficientes, e por aí vai. Fiquei feliz, mesmo quando alguns cristãos homossexuais vieram falar com a equipe pastoral sobre suas preocupações. Eles não conseguiram o que queriam de nós, mas foi uma conversa da qual não tive vergonha de participar.

Agora eu vivo numa parte do país onde a ignorância de todos os tipos, é disseminada. A taxa de evasão escolar é de quase 30%. Levar adiante qualquer tipo de escola por aqui, é uma batalha.  E a maioria dos ministros e cristãos nessa região são sem instrução, ou, no máximo, autodidatas. Comparativamente falando, a ignorância pastoral de vários tipos é comum.

Meu amigo Walter é um pastor local. Ele nunca frequentou uma escola bíblica, muito menos uma faculdade. Não é muito mais do que um leitor. Está muito ocupado em seu ministério bi-profissional, tentando fazer pontas se encontrarem, e seu trabalho, família e igreja necessitam muito dele pra que seja um estudioso.  Muitos dos sermões dele são difíceis para mim, ouvir. Eles são no estilo da montanha e são, sinceramente, difíceis de entender. Na maioria deles, Walter pega uma figura ou história bem conhecida e aplica alguns princípios da escritura, para as experiências cotidianas da sua congregação.

O povo das montanhas enfrenta muitas dificuldades. As dificuldades incluem pobreza, drogas na comunidade, condições inseguras de vida, falta de oportunidades econômicas, cuidados médicos, crime e etc. Um pastor nas montanhas está sempre encarando uma congregação que, em sua maior parte, está ali porque se Deus não estiver perto, a vida vai desmoronar. O povo de Walter acredita que ele pode lhes apontar para o poder de Deus e para a Sua presença. Acreditam que o encorajamento do Senhor vem por meio do “homem de Deus”. Não estão ali normalmente para experimentar uma “sala de aula cristã” com um pastor como professor.

Obviamente, aqueles que são mais instruídos nas doutrinas da fé cristã vão me dizer que há muita coisa errada com o ministério de Walter. Ele precisa saber mais, muitas coisas e pregar a respeito delas fielmente. Sua congregação será fortalecida pela solidez doutrinal, de uma forma que não terão mais histórias bíblicas em suas lições. Sua ignorância deve ser reparada, e seu ministério, melhorado. Não vou discutir isso, mas contarei a vocês uma outra história sobre Walter.

Uma coisa que não contei a vocês, é que, dois anos atrás, eu estava no hospital com minha mãe morrendo, e precisava de um pastor. Naquela época, não tinha um. Acho que poderia ter ligado para qualquer um daqueles números de ministros que conhecia.

Acontece que Walter estava no hospital naquele dia, visitando membros da sua congregação e da comunidade, como era seu hábito. Ele me encontrou, minha esposa e minha mãe que estava morrendo.

Walter passou o dia todo ao meu lado. Encontrou um médico que deixou minha mãe ficar naquele hospital, em vez de ser transladada por via aérea, para Lexington. Ele me ajudou a falar com os médicos sobre o curso do tratamento de minha mãe, e eu concordei. Ele orou por mim. Foi um pastor para mim. Foi Cristo para mim.

Nenhuma vez Walter tentou fazer justificativas teológicas sobre os caminhos de Deus. Em momento algum pegou a bíblia (Nada de errado se tivesse feito isso, claro). Ele mesmo era a minha bíblia naquele dia. Colocou carne e sangue em Deus e o trouxe para mim. Pensou por mim quando eu não podia pensar claramente. Conhecia meu coração e me ajudou a ouvir meu coração naquele momento extremamente confuso. Me tratou com tanto amor e dignidade que trouxe alegria a um dos piores dias da minha vida.

Walter me mostrou naquele dia que se você está medindo a vida usando a forma como ela é vivida, e não analisando como as pessoas falam sobre o que elas acreditam, sabe muito mais a respeito de Deus do que eu. Ele nunca tinha lido nem chegado perto de nenhum dos livros que eu tinha lido, e não tinha o meu vocabulário ou qualificações. Ele tinha o livro que importa, e o seu Autor, dentro dele. Comparado com a personificação de Jesus do Walter, eu sou um idiota.

Aqueles dentre vocês que planejam escrever e me falar o outro lado da moeda, poupem sua tinta. Eu conheço o outro lado da moeda. O que estou dizendo para quem quiser ouvir, é que vejo pouca evidência de que muita instrução ou doutrinas corretas produzem pessoas parecidas com Cristo. Podem ter, e certamente têm um papel a desempenhar que não deve ser desprezado. Deus tem usado livros na minha vida, para me deixar mais parecido com Ele. Mas vários desses livros, eram teologicamente ignorantes e incorretos para os padrões do doutrinariamente correto e inteligente.

Passei anos ouvindo argumentos e contra-argumentos sobre como várias teologias, doutrinas e denominações podem dar a você o Jesus real, caso você aprenda um pouco ou se junte àquela equipe. Baseado nas vidas resultantes que eu via – começando pela minha própria – posso dizer que éramos todos uns “merdas”. Indivíduos que são como Jesus existem além das barreiras das denominações, educação e sofisticação. De fato, comecei a suspeitar de que Deus coloca suas impressões digitais todas sobre mais pessoas do “lado errado” das barreiras e não no “nosso lado” só para nos jogar para fora delas.   Ele deve gostar de me ouvir dizer se alguém que acredita ou não em determinada teologia/doutrina, não pode manifestar as impressões digitais de Jesus. (O Canal de Comédia do Paraíso poderá incluir muitas horas de coisas idiotas que digo).

Jesus diz que Deus ama pegar um Walter e me mostrar a espiritualidade real. Ele me ama quando descubro que posso ter um “A” numa prova de teologia, e ser um completo inútil num hospital, ou na vida de pessoas reais.  Ele me ama quando ouço o bater, o barulho, a inutilidade barulhenta de muitas das coisas para as quais dou valor, e então descubro um tesouro naquelas coisas que chamava de “lixo”.

Walter tem uma vida cheia de Jesus. Como Walter consegue ser tão repleto de Jesus? Ao querer Jesus e manter portas e janelas abertas para Ele. Não por aprender as linhas, as respostas e as versões em PowerPoint, e parar aí. Minha versão de Jesus parece mais um ensaio que escrevo. O Jesus de Walter – sua versão áspera, rude e ignorante de Jesus – é o negócio real.

Lembre que Jesus era um professor, mas ele nunca desprezou a classe. A vida era como uma escola, porque ele se recusava a isolar a verdade em compartimentos. Ele não tinha intenção de produzir discípulos que eram experts em teologia, mas inúteis numa UTI de hospital. Não tinha planos, de autorizar as especializações que usamos como desculpa para fugir do que realmente significa ser um cristão. Carregando a cruz e lavando pés, não se fala. Eles eram a vida de Jesus.

E se você é inteligente o suficiente para melhorar isso, você é muito inteligente. Seja idiota, irmão.

(NOTA: “Walter” não é uma pessoa real, mas uma combinação de diversos pastores das montanhas, que sei que possuem o caráter que estou descrevendo. E sim, um deles, passou o dia comigo no hospital, exatamente como descrevi.)

Dumb Up, Brother: A Spirituality of Ignorance – Michael Spencer – Internet Monk


Quando sou fraco…

abril 7, 2010

por Michael Spencer

A voz do outro lado da linha, conta uma história  que é familiar a mim; eu poderia tê-la completado toda, a partir da terceira frase. Um líder cristão admirado e respeitado, carregando o fardo secreto da depressão, finalmente cedeu sob a carga e foi esmagado. Pessoas do grupo de oração começaram a ligar e mandar e-mails, com as mesmas perguntas de novo e de novo. “Como isso aconteceu? Como alguém que fala com tanta confiança de Deus, alguém cuja vida evidencia a presença de Jesus, pode chegar ao ponto de se quebrar completamente? Como pode alguém que tinha respostas para todos a qualquer momento, não ter respostas para si mesmo?”

Realmente. Porque somos nós que, afinal, falamos com toda a confiança sobre “nova vida”, “nova criatura”, “poder de Deus”, “cura”, “sabedoria”, “milagres”, “poder da oração”,… porque n´so somos tão fracos? Por que muitos dos chamados “bons cristãos” são como qualquer outra pessoa? Divorciados. Deprimidos. Quebrados. Desarrumados. Cheios de sofrimento e segredos. Viciados, carentes e falsos. Pensei que éramos diferentes.

É notável isso, considerando o tom de muitas mensagens e sermões cristãos, que dentro das igrejas todos são honestos. Não posso imaginar que qualquer outra religião na história da humanidade, tenha feito tantas falsas reivindicações e promessas quanto o Cristianismo evangélico em sua ideia de dizer que Jesus nos transforma em pessoas melhores imediatamente. Com suas constantes promessas de alegria, poder, contentamento, cura, prosperidade, propósito, relacionamentos melhores, êxito na família e liberdade de qualquer tipo de opressão e aflição, me pergunto sobre porque os cristãos não são processados pelo resto da humanidade por mentir ou não são levados para uma sala psiquiátrica para serem examinados por seus graves delírios.

Os evangélicos amam testemunhos sobre as asneiras que EU FAZIA. Eles não estão interessados em saber as asneiras que faço AGORA. Mas o fato, é que fazemos asneiras. Aqui.  Agora. O tempo todo, e é seguro admitir, vamos fazer asneiras o resto da vida.  Mas pagaremos 400 dólares para ouvir um “professor de Bíblia” nos falar como estamos a apenas alguns versículos, orações e cds de distância de nos tornarmos pessoas melhores. E nos sentamos silenciosos, ou aplaudimos com entusiasmo, quando a história é contada mais uma vez.  Estou realmente melhor agora. Sou um bom cristão. Não sou mais confuso. Sou diferente das outras pessoas.

Por favor. Pare com isso. Isso me deixa doente. Quero dizer isso. Isso me afeta. Eu vejo na minha vida e na vida de outros, um compromisso em mentir sobre nossa condição que é absolutamente patológica. Os evangélicos chamaram Bill Clinton de um grande mentiroso com relação ao sexo? Vamos lá! Quantos “bons cristãos” estão no meio da pilha de lixo que são suas vidas, e cujo odor torna impossível respirar sem se afogar? Quantos de nós são viciados em comida, pornografia ou compras? Quantos de nós são depressivos, nervosos, implacáveis, e outras coisas mais? Quantos de nós estamos passeando e fazendo cursos de hipocrisia básica, porque não podemos olhar para nós mesmos no espelho e admitir, que esse ser que vemos está longe de se chamar um “bom cristão” que quer testemunhar a outros. Estou chocado só por escrever isso.

Pessoas com suas bíblias. Podem procurar algo para mim? Não são quase todos os personagens da bíblia uns fazedores de asneiras? Não é verdade que quanto mais perto chegamos dos personagens da bíblia, mais eles parecem ter uma coleção de problemas que nós cristãos dizemos, graças a Deus, não ter mais?  Estou errado? Não apenas pequenas mentiras, mas coisas com a violência. Vício sexual. Abuso. Racismo. Depressão. Está tudo lá, nas páginas da mesma bíblia que abrimos nos púlpitos, e falamos sobre “dez formas de ter alegria que jamais vai embora!” Onde está a graça?

O que foi que ouvi? “Bem… estamos melhorando. Isso é santificação. Estou sendo libertado!” Suponho que muitos de nós estejam mesmo melhorando. Para constar, meu temperamento está melhor do que costumava ser. É claro, a razão pela qual meu temperamento está melhorando, é porque no processo de limpeza da bagunça que fiz na minha família, por causa do meu temperamento, descobri mais ou menos mais umas vinte falhas de caráter que permaneciam intocáveis na minha personalidade. Fiz um inventário de todos os estragos que já causei nessa minha curta vida, e jogar fora os “problemas de temperamento” é simples demais para explicar a bagunça que eu sou. Santificação? Sim, eu não tenho mais a arrogância ignorante de acreditar que estou sempre certo sobre tudo, e também estou envergonhado demais pelo caos geral da minha vida para ter um ataque de raiva toda veza que algo não anda como eu quero. Me tornando melhor? Totalmente verdade. Estou melhorando ao saber o acidente infeliz que sou, e me calando e me sentando.

Amo essa passagem da Escritura. Não sei porque amo, mas amo.

Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não nosso. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos; E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. (2 Coríntios 4:7-11)

Deixe-me tentar uma releitura do texto, mais de acordo com o Cristianismo da nossa época.

Mas nós temos esse tesouro em vasos salvos, curados, restaurados e sobrenaturalmente mudados, para mostrar que Deus nos tem dado, agora mesmo, Seu infinito poder sobre qualquer situação.  Não temos mais aflições, nem ficamos perplexos, em conflito ou derrotados. Não,  estamos vivendo com o poder de Jesus, e o poder da ressurreição de Jesus nos transformou agora.. HOJE! Em todos os sentidos! Deus quer que você seja como Jesus – uma pessoa totalmente controlada, e o poder de Jesus está exposto na vida que estou vivendo, e todos que não vivem desta forma, são miseráveis e moribundos.

Preocupações contextuais de lado, vamos ler as palavras de Paulo como um “diário de bordo” básico para a vida cristã.

Estamos moribundos. A vida é cheia de sofrimento e perplexidade. Nós temos Cristo, e então, no futuro, nossa vida manifestará em nós a ressurreição e a glória. No presente, esta vida se manifesta em nós numa experiência estranha e contraditória.  Estamos morrendo, aflitos, quebrados, feridos, confusos…  temos Jesus no meio de todas essas coisas, e continuamos amando e crendo nele. Mas o poder de Deus está em nós, não em nos tornar sobre-humanos, mas para sermos meramente humanos, participantes da nova criação em Jesus.

O que isso significa?

Significa que sua depressão não está curada. Significa que você continua acima do peso. Significa que você ainda tem vontade de ver pornografia. Significa que você ainda está com medo de morrer, relutante em ouvir a verdade e sendo intencionalmente evasivo quando chamado á responsabilidade. Isso significa que você pode mentir, enganar, roubar, fazer coisas terríveis, quando está “na carne”, onde, de qualquer forma, você sempre está. Se você é cristão, isso significa que você é, frequentemente, talvez constantemente um miserável, e isso significa que você está envolvido numa luta para que Cristo tenha mais influência em sua vida quando você está humanamente quebrado, bagunçado e fazendo asneiras. De fato, o grande milagre é que, mesmo com todas as tolices que faz na vida, você ainda quer Jesus como Rei, porque é um monte de problemas, pessoal. Isso não é um pique-nique.

E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte. (2 Coríntios 12:9-10)

Aqui a linguagem é ainda mais inegável, indiscutível. A fraqueza vai estar comigo na jornada inteira. Paulo está particularmente falando de perseguições, mas o quanto podemos aplicar essa passagem à fragilidade humana, quebrantamento e feridas? Quão essencial é para nós estar quebrados, se Cristo é nossa força? Quando sou fraco, sou forte. E não “Quando estiver curado” ou “Quando for um sucesso” ou “Quando eu for um bom cristão”, mas quando  estou fraco. A fraqueza – a experiência humana da fraqueza – é o plano de Deus para exaltar e magnificar seu Filho. Quando pessoas quebradas, pessoas que caem miseravelmente, continuam a pertencer, acreditar e adorar Jesus, Deus está feliz.

Agora, as galerias superiores estão cheias de gente que estão ficando desapontadas, certas de que esse ensaio é uma daquelas peças onde estou incentivando as pessoas a pecarem e esquecerem a santificação. Perdão por desapontá-los.

O problema é de simples semântica. Ou talvez, uma maneira melhor de dizer, imaginação. Como podemos imaginar a vida de fé? Com o que se parece uma vida de fé? Parece com as versões: “bom cristão”, “pessoa reta”, “vida vitoriosa”, da vida cristã?

A fé, viva na nossa fraqueza, parece uma guerra. Uma guerra impossível, contra um adversário superior: nossa natureza caída e pecadora. É essa a batalha da fé. Piper ama este versículo de Romanos, e eu também. Mas preciso explicar porque, pois pode parecer como a vida “vitoriosa” não é vida de Jesus no evangelho, mas “vencer vivendo” ou qualquer outro absurdo.

Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. (Romanos 8:13)

A complexidade reside aqui: Fé é estar descontente com quem eu sou, e satisfeito com tudo que Deus é para mim em Jesus. A razão pela qual essa descrição funciona tão bem para mim, é porque nos conta que a marca da fé que salva não é ficar esperando passivamente pelas promessas do Evangelho ( exatamente o que diz a justificação), mas essa guerra interna com a realidade da minha condição. A menos que esteja lendo Romanos 8 de forma errada, entendo que minha luta nunca vai terminar, porque minha experiência humana pecaminosa, não vai terminar até a morte e ressurreição. Essa luta – aceitação e batalha – é a vida normal do cristão. Eu luto. Jesus pode terminar o trabalho. Vou gemer, batalhar, escalar a montanha da santidade com feridas e cicatrizes da batalha, mas vou chegar lá, porque Jesus está comigo. O evangelho garante a vitória, mas dizer que já sou vitorioso e matei o pecado, é um grave erro.

Com que se parece essa luta? É uma luta de sangue, posso falar pra vocês. Existem muitas derrotas nela. O caminho não é fácil. É uma batalha onde caímos de novo, de novo e de novo. Derrubados por aquilo que somos, e que continuamente descobrimos ser. E só somos “vitoriosos” na vitória de Jesus, uma vitória que é nossa pela fé, não por vista.  De fato, esta luta é provavelmente descrita de forma precisa pelas palavras finais de Romanos 7 assim como pelas palavras “vitoriosas” de Romanos 8.

Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado. (Romanos 7:23-25)

Caio. Levanto… e creio. De novo e de novo. Tão bem quanto possível nesse mundo. Essa é a vida de fé, uma luta cheia de fraqueza e quebrantamento. Todos os soldados nessa batalha estão feridos. Há momentos de total fraqueza, e eu sou um “homem desgraçado” vivendo nesse “corpo” de morte. Negar isso, ignorar isso ou distorcer isso, é um problema na verdadeira experiência cristã. O pecado que estamos matando em Romanos 8 é, de certa forma, nós mesmos. Nenhum demônio ou serpente fora de nós. Nossa batalha é contra nós mesmos, e admitir isso é a bússola e o poder do evangelho em nossa vida.

Serei acusado de não estar dizendo nada de novo, tenho certeza, mas só escutem. No momento que estou vencendo, Jesus está comigo. No momento que estou perdendo, Jesus está comigo e me garante que posso levantar e continuar a luta. No momento que estou confuso, ferido e desesperado, Jesus está comigo. Eu nunca, jamais, perco o quebrantamento. Luto, e muitas vezes, prevaleço, mas ao mesmo tempo que combato algumas asneiras, outras aparecem. Cada batalha tem o potencial para ser a última, mas porque eu pertenço a um outro cuja ressurreição garante que vou chegar são e salvo em casa num novo corpo e nova criatura, eu, milagrosamente, espantosamente, encontro-me continuando a crer, continuando a me mover para a frente, até Jesus me levar para casa.

Agora, vamos fazer algo importante aqui. Esta ênfase constante na “vida vitoriosa” ou “vida de bom cristão”, é absolutamente anti-cristã quando se trata do Evangelho. Se eu sou _________________ (preencha o espaço em branco com alguma terminologia da vida vitoriosa), então eu sou orientado a ser grato pelo que Jesus fez aqui, mas eu preciso dele menos e menos agora. Quero estar certo de que ele vai me encontrar nas portas do paraíso, mas agora, estou assinando autógrafos. Sou um bom cristão. Essa imagem da jornada cristã está nos matando.

Nós precisamos estar quebrados. Precisamos admitir aqui e agora que isso é real, fato verdadeiro da nossa jornada nesse mundo caído. É na cruz que Jesus nos encontra. É  a encarnação que ele toma por nós. É o que suas mãos tocam quando ele nos segura. Você lembra dessa história? Já foi contada muitas vezes, mas como é verdadeira essa história do EVANGELHO (não uma história da lei). É uma história do evangelho, sobre Jesus e sobre como eu posso experimentar isso na minha vida “torta”.

Em seu livro Mortal Lessons (Touchstone Books, 1987), o médico Richard Seyzer descreve uma cena num quarto de hospital, logo depois de ter feito uma cirurgia no rosto de uma jovem mulher:

I stand by the bed where the young woman lies . . . her face, postoperative . . . her mouth twisted in palsy . . . clownish. A tiny twig of the facial nerve, one of the muscles of her mouth, has been severed. She will be that way from now on. I had followed with religious fervor the curve of her flesh, I promise you that. Nevertheless, to remove the tumor in her cheek, I had cut this little nerve. Her young husband is in the room. He stands on the opposite side of the bed, and together they seem to be in a world all their own in the evening lamplight . . . isolated from me . . .private.

Who are they? I ask myself . . . he and this wry mouth I have made, who gaze at and touch each other so generously. The young woman speaks. “Will my mouth always be like this?” she asks. “Yes,” I say, “it will. It is because the nerve was cut.” She nods and is silent. But the young man smiles. “I like it,” he says, “it’s kind of cute.” All at once I know who he is. I understand, and I lower my gaze. One is not bold in an encounter with the divine. Unmindful, he bends to kiss her crooked mouth, and I am so close I can see how he twists his own lips to accommodate to hers. . . to show her that their kiss still works

É isso que Jesus sempre foi. E se você pensa que está se tornando um grande “beijoqueiro” ou está se tornando desejável, sinto por você. Ele envolve-se em torno das nossas dores, nossa fraqueza e sempre presentes pecados. Aqueles de nós que querem desenhar grandes e escuras linhas entre minha humanidade e meu pecado, podem estar certos, mas eu não concordo com eles. É tudo EU. E eu preciso de Jesus para me amar como eu realmente sou: fraquezas, memórias, feridas, pecados, vícios, mentiras, morte, medo… tudo. Pegue tudo isso, Jesus.  Se eu não apresento essa pessoa quebrada e errada para Jesus, minha fé é desonesta, e meu entendimento a respeito dela se torna um meio de continuar na astúcia e pretensão de achar que sou “bom”.

Agora quero falar porque isso é importante. Nós podemos nos aceitar como somos, e colocar um fim ao triste e repetitivo fenômeno de vidas sendo despedaçadas por que a única experiência cristã que conhecemos é como uma mentira.  Estamos infectados com algo que não é o Evangelho, mas uma versão de vida religiosa; uma versão totalmente falsa que conduz cristãos genuínos ao desespero e depressão, porque, ao contrário do que é verdade, Deus está “contra” eles, e não do lado deles.

O versículo diz, “Quando sou fraco, sou forte – em Jesus.” Ele não diz “Quando sou forte, então sou forte e sou porque Jesus leva todo o crédito.” Deixe-me usar dois exemplos, e espero não ofender aqueles que estiverem lendo e reconheçam as pessoas descritas.

Muitos anos atrás, conheci um homem que era um cristão vibrante e que dava muito testemunho público. Estava envolvido no “reavivamento” na SBC, dando vários testemunhos sobre “o que Deus está fazendo na minha vida”. (Uma frase que eu poderia dispensar). Ele era conhecido por ser melhor orador do que a maioria dos pregadores, e era impressivo e persuasivo enquanto falava. Seu entusiasmo por Cristo era convincente.

Ele era também conhecido por ser um adúltero em série. De novo e de novo, ele pulava a cerca e escandalizava sua igreja e seu testemunho na comunidade. Quando confrontado, sua resposta foi previsível. Ele tinha visitado a Igreja da Total Vitória Agora, e retornou clamando ter sido liberto  dos “demônios da luxúria” que o faziam pecar. A vida continuou. Até onde sei, o ciclo continua, sem ser combatido, até a última vez que soube a respeito dele.

Entendo que a igreja precisa hoje – desesperadamente – ouvir testemunhos do poder do Evangelho. Entendo que isso não é novidade dizer que estamos quebrados e vamos continuar desse jeito. Sei que existe pouco entusiasmo em dizer no que consiste a santificação, que é, em larga medida, em ver nosso pecado e reconhecer o que é e como está profunda e extensivamente arraigado em nós. Duvido que os triunfalistas concordam comigo que a luta da fé não é uma festa de vitória, mas uma guerra sangrenta num campo de batalha que se parece mais com Omaha Beach do que com uma festa na praia.

Escrevi esse ensaio particularmente aos líderes, pais, pastores e professores. Estou comovido e angustiado porque muitos de nós somos incapazes de admitir nossa humanidade, e nossa fraqueza. Em silêncio, carregamos o segredo e ficamos em posições de liderança e apresentamos um Evangelho que é verdade, mas uma experiência cristã que está longe de ser verdadeira.

Então, de tempos em tempos, eles caem. Em adultério, como o pastor de uma das nossas maiores igrejas do Estado. Um homem maravilhoso, que manteve um ministério por anos sem admitir um problema que milhões de nós conhecíamos: casamento imperfeito.  Onde ele está agora, eu pergunto? E onde estão muitos outros que conhecemos e ouvimos falar que estão na mesma situação? Suas vidas estão perdidas para o Reino porque eles são exatamente como o resto de nós?

De qualquer forma, não estou rejeitando os padrões bíblicos de liderança; Estou sugerindo que precisamos de uma visão bíblica da humanidade quando lemos essas passagens. Caso contrário, vamos transformar regras como “governe bem sua casa” em uma desqualificação para qualquer ser humano no planeta.

Ouço sobre muitos que estão deprimidos. Onde vão procurar ajuda? Como vão admitir seu problema?  Parece ser “não cristão” admitir depressão, mesmo que isso seja a realidade de milhões e milhões de seres humanos. Vício em pornografia. Vício em comida. Necessidade obsessiva de ter o controle. Mentira crônica e desonestidade. Quantos pastores e líderes cristãos vivem com  essas fragilidades humanas e nunca procuram ajuda porque não podem admitir o que todos sabemos que é verdade sobre cada um de nós? Eles falam sobre salvação, amor e Jesus, mas por dentro estão se sentindo condenados.

Multiplique isso pelas centenas de milhões de cristãos fracassados. São apenas humanos, mas suas igrejas dizem que precisam ser mais do que humanos para serem bons cristãos. Não podem falar nem reconhecer que vivem vidas problemáticas. Seus casamentos estão destruídos. Suas crianças estão feridas. Estão cheios de medo e de pecados da carne. Estão deprimidos e viciados, mas só podem se aproximar da igreja com a mentira de que tudo está bem, e quanto começa a transparecer que não estão bem, eles deixam a igreja.

Não culpo a igreja por essa situação. É da natureza humana evitar o espelho e preferir um auto-retrato. Culpo cada um de nós que conhece isso melhor. Nós sabemos que essa não é a mensagem do Evangelho, da bíblia ou de Jesus. Mas nós – cada um de nós – tem medo de viver de outra maneira. O que os outros vão pensar se souberem que não somos bons cristãos?  Ah… o que… o que….

Encerro com algo que tenho dito sempre. O filho pródigo, de joelhos, tocado pelo pai, não era um “bom” ou “vitorioso” cristão. Ele estava ferrado. Um fracasso. Ele não era bom em ser honesto. Ele procurava religião mais do que a graça. Seu pai o batizou com misericórdia, e ressuscitou-o em graça. Sua fraqueza foi embrulhada no manto e no abraço de Deus.

Por que queremos ser melhores do que aquele garoto? Por que queremos fazer do irmão mais velho o ideal da experiência cristã? Por que queremos acrescentar coisas à parábola, onde o filho pródigo fica forte e se torna um jovem pregador de sucesso, escrevendo livros e conduzindo reavivamentos?

O escritor luterano Herman Sasse, numa meditação sobre as últimas palavras de Lutero, “Somos mendigos”. Isso é verdade”, colocou isso de forma perfeita:

Luther asserted the very opposite: “Christ dwells only with sinners.” For the sinner and for the sinner alone is His table set. There we receive His true body and His true blood “for the forgiveness of sins” and this holds true even if forgiveness has already been received in Absolution. That here Scripture is completely on the side of Luther needs no further demonstration. Every page of the New Testament is indeed testimony of the Christ whose proper office it is “to save sinners”, “to seek and to save the lost”. And the entire saving work of Jesus, from the days when He was in Galilee and, to the amazement and alarm of the Pharisees, ate with tax collectors and sinners; to the moment when he, in contradiction with the principles of every rational morality, promised paradise to the thief on the cross, yes, His entire life on earth, from the cradle to the Cross, is one, unique grand demonstration of a wonder beyond all reason: The miracle of divine forgiveness, of the justification of the sinner. “Christ dwells only in sinners.”

Michael Spencer, autor do texto que acabo de postar, faleceu em 05/04/2010, vítima de câncer.

When I Am Weak: Why we must embrace our brokenness and never be good Christians – Michael Spencer – Internet Monk