Nós e os outros

outubro 3, 2016

Por pouco acusamos o próximo, e por muito nos escusamos; queremos vender muito caro e comprar bem barato; queremos que se faça justiça na casa do outro, e misericórdia e conivência  na nossa casa; queremos que nossas palavras sejam tomadas em bom sentido, e somos melindrosos e exageradamente sensíveis às palavras do outro…

Queremos nossos direitos cumpridos à risca, e que os outros sejam corteses na exação dos deles; guardamos rigorosamente nossa posição, e queremos que os outros sejam humildes e condescendentes; nós nos queixamos facilmente do próximo, e não queremos que ninguém se queixe de nós; o que fazemos pelo outro sempre nos parece muito, e o que ele faz por nós nos parece ser nada.

Resumindo, nós somos como as perdizes da Paflagônia que têm dois corações, pois temos um coração doce, afável e cortês para conosco e um coração duro, severo e rigoroso para com o próximo. Temos dois pesos: um para pesar nossas comodidades com a maior vantagem que podemos, e o outro para pesar as do próximo com a maior desvantagem possível. Mas, como diz a Escritura: Falam com lábios lisonjeiros, mas com duplicidade no coração (Sl 12,3), isto é, eles têm dois corações, e por ter dois pesos, um forte para receber, o outro fraco para dar, é coisa abominável diante de Deus.

Tomás de Kempis, Imitação de Cristo.


Espiritualidade e ignorância

setembro 21, 2010

por Michael Spencer

Em algum lugar nas profundezas deste site (Internet Monk), contei como tinha sido a experiência de fazer parte de uma igreja cheia de seminaristas. Todo mundo sabia tanto, que era uma enorme dificuldade fazer qualquer coisa – mesmo algo simples como comprar selos – sem que houvesse um debate sem fim.

Óbvio, havia vantagens em ter tantas pessoas tão inteligentes na igreja. Nossa liturgia estava muito à frente à da maioria das igrejas, num nível intelectual e estético, era algo muito belo. Nunca tivemos problemas para conseguir professores para a escola dominical. Tínhamos problemas, na verdade, para conseguir que nossos professores de escola dominical não usassem gramática hebraica demais. E, é claro, porque éramos um grupo muito inteligente, desfrutávamos da benção de não sermos ignorantes.

Estou falando sério. Não é uma coisa legal ser ignorante, e os cristãos não devem abraçar a ignorância como se fosse uma virtude. Por mais problemas que houvesse, ficava feliz porque sempre havia alguém por perto para nos lembrar que decisões econômicas tinham conexões e repercussões no mundo real. Estava feliz porque éramos sensíveis ao racismo, sexismo, discriminação contra os deficientes, e por aí vai. Fiquei feliz, mesmo quando alguns cristãos homossexuais vieram falar com a equipe pastoral sobre suas preocupações. Eles não conseguiram o que queriam de nós, mas foi uma conversa da qual não tive vergonha de participar.

Agora eu vivo numa parte do país onde a ignorância de todos os tipos, é disseminada. A taxa de evasão escolar é de quase 30%. Levar adiante qualquer tipo de escola por aqui, é uma batalha.  E a maioria dos ministros e cristãos nessa região são sem instrução, ou, no máximo, autodidatas. Comparativamente falando, a ignorância pastoral de vários tipos é comum.

Meu amigo Walter é um pastor local. Ele nunca frequentou uma escola bíblica, muito menos uma faculdade. Não é muito mais do que um leitor. Está muito ocupado em seu ministério bi-profissional, tentando fazer pontas se encontrarem, e seu trabalho, família e igreja necessitam muito dele pra que seja um estudioso.  Muitos dos sermões dele são difíceis para mim, ouvir. Eles são no estilo da montanha e são, sinceramente, difíceis de entender. Na maioria deles, Walter pega uma figura ou história bem conhecida e aplica alguns princípios da escritura, para as experiências cotidianas da sua congregação.

O povo das montanhas enfrenta muitas dificuldades. As dificuldades incluem pobreza, drogas na comunidade, condições inseguras de vida, falta de oportunidades econômicas, cuidados médicos, crime e etc. Um pastor nas montanhas está sempre encarando uma congregação que, em sua maior parte, está ali porque se Deus não estiver perto, a vida vai desmoronar. O povo de Walter acredita que ele pode lhes apontar para o poder de Deus e para a Sua presença. Acreditam que o encorajamento do Senhor vem por meio do “homem de Deus”. Não estão ali normalmente para experimentar uma “sala de aula cristã” com um pastor como professor.

Obviamente, aqueles que são mais instruídos nas doutrinas da fé cristã vão me dizer que há muita coisa errada com o ministério de Walter. Ele precisa saber mais, muitas coisas e pregar a respeito delas fielmente. Sua congregação será fortalecida pela solidez doutrinal, de uma forma que não terão mais histórias bíblicas em suas lições. Sua ignorância deve ser reparada, e seu ministério, melhorado. Não vou discutir isso, mas contarei a vocês uma outra história sobre Walter.

Uma coisa que não contei a vocês, é que, dois anos atrás, eu estava no hospital com minha mãe morrendo, e precisava de um pastor. Naquela época, não tinha um. Acho que poderia ter ligado para qualquer um daqueles números de ministros que conhecia.

Acontece que Walter estava no hospital naquele dia, visitando membros da sua congregação e da comunidade, como era seu hábito. Ele me encontrou, minha esposa e minha mãe que estava morrendo.

Walter passou o dia todo ao meu lado. Encontrou um médico que deixou minha mãe ficar naquele hospital, em vez de ser transladada por via aérea, para Lexington. Ele me ajudou a falar com os médicos sobre o curso do tratamento de minha mãe, e eu concordei. Ele orou por mim. Foi um pastor para mim. Foi Cristo para mim.

Nenhuma vez Walter tentou fazer justificativas teológicas sobre os caminhos de Deus. Em momento algum pegou a bíblia (Nada de errado se tivesse feito isso, claro). Ele mesmo era a minha bíblia naquele dia. Colocou carne e sangue em Deus e o trouxe para mim. Pensou por mim quando eu não podia pensar claramente. Conhecia meu coração e me ajudou a ouvir meu coração naquele momento extremamente confuso. Me tratou com tanto amor e dignidade que trouxe alegria a um dos piores dias da minha vida.

Walter me mostrou naquele dia que se você está medindo a vida usando a forma como ela é vivida, e não analisando como as pessoas falam sobre o que elas acreditam, sabe muito mais a respeito de Deus do que eu. Ele nunca tinha lido nem chegado perto de nenhum dos livros que eu tinha lido, e não tinha o meu vocabulário ou qualificações. Ele tinha o livro que importa, e o seu Autor, dentro dele. Comparado com a personificação de Jesus do Walter, eu sou um idiota.

Aqueles dentre vocês que planejam escrever e me falar o outro lado da moeda, poupem sua tinta. Eu conheço o outro lado da moeda. O que estou dizendo para quem quiser ouvir, é que vejo pouca evidência de que muita instrução ou doutrinas corretas produzem pessoas parecidas com Cristo. Podem ter, e certamente têm um papel a desempenhar que não deve ser desprezado. Deus tem usado livros na minha vida, para me deixar mais parecido com Ele. Mas vários desses livros, eram teologicamente ignorantes e incorretos para os padrões do doutrinariamente correto e inteligente.

Passei anos ouvindo argumentos e contra-argumentos sobre como várias teologias, doutrinas e denominações podem dar a você o Jesus real, caso você aprenda um pouco ou se junte àquela equipe. Baseado nas vidas resultantes que eu via – começando pela minha própria – posso dizer que éramos todos uns “merdas”. Indivíduos que são como Jesus existem além das barreiras das denominações, educação e sofisticação. De fato, comecei a suspeitar de que Deus coloca suas impressões digitais todas sobre mais pessoas do “lado errado” das barreiras e não no “nosso lado” só para nos jogar para fora delas.   Ele deve gostar de me ouvir dizer se alguém que acredita ou não em determinada teologia/doutrina, não pode manifestar as impressões digitais de Jesus. (O Canal de Comédia do Paraíso poderá incluir muitas horas de coisas idiotas que digo).

Jesus diz que Deus ama pegar um Walter e me mostrar a espiritualidade real. Ele me ama quando descubro que posso ter um “A” numa prova de teologia, e ser um completo inútil num hospital, ou na vida de pessoas reais.  Ele me ama quando ouço o bater, o barulho, a inutilidade barulhenta de muitas das coisas para as quais dou valor, e então descubro um tesouro naquelas coisas que chamava de “lixo”.

Walter tem uma vida cheia de Jesus. Como Walter consegue ser tão repleto de Jesus? Ao querer Jesus e manter portas e janelas abertas para Ele. Não por aprender as linhas, as respostas e as versões em PowerPoint, e parar aí. Minha versão de Jesus parece mais um ensaio que escrevo. O Jesus de Walter – sua versão áspera, rude e ignorante de Jesus – é o negócio real.

Lembre que Jesus era um professor, mas ele nunca desprezou a classe. A vida era como uma escola, porque ele se recusava a isolar a verdade em compartimentos. Ele não tinha intenção de produzir discípulos que eram experts em teologia, mas inúteis numa UTI de hospital. Não tinha planos, de autorizar as especializações que usamos como desculpa para fugir do que realmente significa ser um cristão. Carregando a cruz e lavando pés, não se fala. Eles eram a vida de Jesus.

E se você é inteligente o suficiente para melhorar isso, você é muito inteligente. Seja idiota, irmão.

(NOTA: “Walter” não é uma pessoa real, mas uma combinação de diversos pastores das montanhas, que sei que possuem o caráter que estou descrevendo. E sim, um deles, passou o dia comigo no hospital, exatamente como descrevi.)

Dumb Up, Brother: A Spirituality of Ignorance – Michael Spencer – Internet Monk


Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

janeiro 14, 2009

“A mais bela obra que saiu de mãos humanas, depois dos Evangelhos. Em nenhum outro lugar se encontrará conhecimento mais profundo do ser humano, de suas contradições, de suas fraquezas, dos movimentos mais secretos de seu coração”. O comentário, assinado pelo poeta e filósofo francês Bernard la Bovier de Fontenelle e incluído na contracapa, serve como uma benção na definição do livro Imitação de Cristo, de autoria controvertida mas atribuída por muitos ao monge alemão Tomás de Kempis. Escrita em latim e publicada anonimamente em 1418, hoje considerada parte integrante da cultura universal, a obra é a mais lida em todo mundo e a mais importante da literatura cristã depois da Bíblia. Como lembra Claudio Giordano na introdução, Imitação de Cristo tem sido reverenciada ao longo do tempo como um guia espiritual para as populações de fé cristã. E vai além: “Sua linguagem, estilo, tranqüilidade e felicidade singelas com que trata todos os temas acabam cativando mesmo os espíritos mais céticos e convertem-na em verdadeiro repertório de auto-ajuda para o espírito ou, se se preferir, de auto-ajuda psicológica, ou ainda de ponderações para temperar as exacerbações das paixões e do materialismo da sociedade contemporânea”.

http://www.hedra.com.br/home/?PHPSESSION_HEDRA=sess&id=2&livro_id=197&area[]=catalogo&area[]=detalhes

Leia os quatro volumes da obra de Thomas de Kempis, nos links abaixo:

http://www.monergismo.com/textos/vida_piedosa/imitacao_cristo.htm

http://www.monergismo.com/textos/vida_piedosa/imitacao_cristo_2.htm