Carta a um ex-pastor

junho 19, 2012

Prezado Josimar,

Tomei conhecimento da sua história de ex-pastor, pela Internet. Apesar de não nos conhecermos, seu relato me chamou a atenção. E acompanhando os comentários que estão sendo feitos a respeito, resolvi escrever. Mas não se preocupe, porque minha intenção não é a de participar da sessão de apedrejamento dos crentes contra a sua pessoa.

Primeiro, gostaria de dizer a você, que eu fiz o caminho inverso ao seu. Conheço todos esses filósofos aos quais você se refere na sua carta com tanto deslumbramento. Conheço Nietzsche em profundidade, li todos os livros dele, tenho todos, e gosto de reler. E mesmo assim, faz cinco anos que deixei de me considerar ateísta. Sou cristã, e não deixei de aceitar os fatos científicos como fatos, por causa disso. E considero Richard Dawkins excelente quando o assunto é biologia e evolução, mas um verdadeiro desastre quando resolve falar em religião ou Deus. Nisso, ele é muito fraco, raso mesmo, e parcial. Assim como boa parte dos crentes, quando se mete a falar de evolução, se tornam ridículos, por pura falta de conhecimento de causa.

O que me chamou mais a atenção no seu caso, é que aparentemente você passou de pastor de uma denominação evangélica que é conhecida pelo fundamentalismo, ao outro extremo, tendo agora, até um cargo na Liga Humanista Secular. Não julgo sua decisão de ter deixado a IPB, mas na minha opinião, parece que você deixou a religião, mas a religião não saiu de dentro de você. E na minha opinião, o seu estado atual, é mais complicado do que o anterior. Não por ter abandonado a fé que você mesmo disse ter professado com tanta devoção e sinceridade; e sim, porque diz ter abandonado, mas continua com o mesmo pensamento religioso, mas agora dirigido ao outro extremo. Tome cuidado para não se deixar fanatizar, agora, pelo extremo oposto.

Eu conheço ateus fanáticos, que tratam o ateísmo como religião, pregam a respeito do ateísmo, querem converter pessoas ao ateísmo, exatamente como os religiosos que tanto criticam. Não são todos, mas eles existem, e são tão agressivos quanto qualquer fanático. São religiosos, sem Deus, mas religiosos como qualquer outro. Têm alma fundamentalista do mesmo jeito, com a diferença de não serem teístas, só. E ficaria triste em ver você, ferido pela religiosidade e o fundamentalismo evangélico, entrando agora por esse caminho, que não é de liberdade verdadeira. Parece ser um movimento em direção à liberdade, mas não é. Porque da posição onde você está agora, é possível, se seguir adiante com suas reflexões, encontrar uma posição mais equilibrada, longe dos extremos tanto de um lado quanto do outro, sem se deixar levar por paixões, pelo desgosto, decepção ou pelo deslumbramento, coisas que obscurecem o senso crítico. E encontrar uma forma de viver a fé, mais equilibrada. Falo por experiência própria.

Não se deixe levar tão rapidamente assim, a esse outro extremo, que é tão ruim quanto o extremo do qual você saiu.

Grande abraço,

Andrea

Pastor presbiteriano perde a fé, deixa o ministério e é perseguido no Paraná