Despertar, ou viver chapado?

junho 13, 2017

Terminei de ler um suposto guia para a “espiritualidade sem religião”, escrito por Sam Harris. Só o fato de o autor ser ateísta, já me deu pistas do que podia esperar do livro. E ele não decepcionou. Negativamente falando, é claro.

A primeira pergunta que fiz é: por que diabos um ateu precisaria de um guia sobre espiritualidade? Fui ateísta a maior parte da minha vida, e na época simplesmente encarava o que chamavam de “vida espiritual” como mentira pura e simples; ou no máximo, uma ilusão confortável. Não ficava por aí rastejando atrás de “gurus” no Nepal e no Tibete, enquanto usava drogas alucinógenas, em busca de transcendência, como Sam Harris relata ter feito quando tinha 20 e poucos anos. Eu com 20 e poucos anos, estava cursando uma graduação, e não quase morrendo afogada, depois de cair na água sob efeito de drogas alucinógenas, num país oriental distante. Sam Harris cita Aldous Huxley, mas nem chega perto dele no que diz respeito a discorrer sobre espiritualidade. Seu principal erro foi ter desconsiderado as experiências da espiritualidade ocidental como merecedoras de crédito ou de serem levadas a sério, coisa que Aldous Huxley não fez. Sam Harris fala quase com deslumbramento dos seus ex-gurus indianos, nepaleses ou tibetanos e de suas experiências com drogas alucinógenas. É isso que ele chama de espiritualidade? Se minha espiritualidade for baseada na fé em um ser superior, ela é tratada como inválida pelo autor, mas ele mesmo considera valiosa a experiência espiritual provocada por alucinógenos. Afinal, quem precisa ter fé quando tem LSD e Ecstasy, não é mesmo? Quem precisa amar de verdade, quando uma droga oferece falso afeto? O problema é quando você descobre que existe algo chamado “vida espiritual” estando bem acordado e consciente, e não sob efeito de alucinógenos. Foi dessa forma que eu descobri. Esse é o tipo de experiência impossível de esquecer. É real, e não uma ilusão, ou alucinação que passa quando a droga deixa de circular no seu sistema.

Já faz muitos anos que usei substâncias psicodélicas, e minha abstinência  nasceu de um respeito saudável pelos riscos que elas trazem. Contudo, aos vinte e poucos anos houve um período em que considerei a psilocibina e o LSD ferramentas indispensáveis, e passei algumas das horas mais importantes da minha vida sob a influência destas substâncias. Sem elas eu talvez nunca descobrisse que existe na mente uma paisagem interior que vale a pena explorar.

Não há como deixar de lado o papel da sorte. Se você tiver sorte, e se usar a droga certa, saberá o que é ser iluminado (ou chegará suficientemente perto disso para se convencer de que a iluminação é possível). Se tiver azar, saberá o que é ser insano clinicamente.[…]

Se você tiver sorte com o LSD ou o Ecstasy, segundo Sam Harris, se sentirá iluminado. Se tiver azar, poderá ficar louco, ou ter uma parada cardíaca e morrer, por exemplo. Entrar em coma também é uma possibilidade. É como brincar de roleta russa. Nem vou comentar sobre o uso de palavras como “sorte” e “azar” no texto de um “cético”. Nosso autor relata uma sensação de intenso amor por um amigo, enquanto fazia uso de Ecstasy, uma droga que por sinal, é ilícita. É ilícita não porque alguma bancada evangélica por aí pretende impedir nosso prazer, e sim, porque oferece muito mais riscos do que benefícios, tanto em curto quanto a longo prazo. Esta falsa sensação de afeto, é um dos efeitos colaterais da droga. O autor sabe disso. É uma sensação FALSA de afeto. Ela passa quando cessa o efeito da substância. Bem diferente do amor que vem do alto. Bem diferente do amor genuíno que uma pessoa é capaz de vivenciar, sem estar usando nenhum tipo de droga. Tentar juntar este falso afeto, quimicamente induzido por um alucinógeno, com o amor genuíno do qual o ser humano é capaz, como se ambos fossem a mesma coisa, é pura desonestidade intelectual. Que pena para você, Sam Harris, ter passado as horas que considera as mais importantes na sua vida, chapado.

[…]Portanto, o que quer que se possa ver ou sentir depois de ingerir LSD, provavelmente poderia ser visto ou sentido por alguém, em algum lugar, sem a droga.

Então por quê cargas d’água eu usaria uma droga que pode me fazer parar numa ala psiquiátrica, ou talvez, no cemitério?

O que fica, sobre esta tentativa de enveredar pela carreira de guru espiritual, feita por Sam Harris, é: o ateísmo segue incapaz de responder aos anseios e dúvidas mais profundos da humanidade. As camadas de verniz espiritual que o autor tenta colocar sobre sua proposta filosófica para um mundo onde alma, fé e Deus não existem, não são capazes de esconder isso. Como guru, Sam Harris é um cético razoável. Não se fazem mais ateus como antigamente.

A droga que Sam Harris usou, não abre portas da percepção, e sim, arromba essas portas. Viola as fechaduras, como um ladrão. Uma porta arrombada nunca mais funciona normalmente. Como Deus não é ladrão, nem brinca de roleta russa com ninguém, talvez a gente só consiga ver uma frestinha de luz. Continue a bater, em vez de colocar dinamite na porta pra forçar a passagem, correndo o risco de explodir junto com ela. Fica a dica. ; P

Hoje vemos em parte, um dia veremos face a face.


O escuro, a luz e Deus

setembro 28, 2013

[…]Sempre que  presenciamos alguém tentando explicar situações difíceis da vida pelo caminho da claridade, devemos desconfiar de que procura “chaves” onde elas não estão. Por isso, as religiões, ou mesmo a espiritualidade, podem se tornar presas tão fáceis das buscas infrutíferas por onde há luz. O excesso de “teologias”, de explicações que servem como holofotes 24 horas para garantir “luz” às nossas buscas, é uma das mais perversas armadilhas. São formas de viver a religião e a espiritualidade, que emburrecem espiritualmente. Representam formas sofisticadas de alienação, chegando a ponto de se institucionalizar com o único fim de “exorcizar” a escuridão. Diabo para um lado e Deus para o outro, e uma vida em que nunca se terá de ir ao escuro buscar chaves, é em si o terror ou o verdadeiro demônio.

Com o passar do tempo, as trevas ganham força. Os lugares “claros” vão se reduzindo a ilhas cada vez mais ameaçada pela escuridão. Pânico e fobia espiritual se instalam e há cada vez menos saída. Afogados por chaves que jamais descobrirão, estão presos até que façam o movimento correto de trazer a escuridão de volta às suas vidas. Como diz a máxima: Religião é para quem tem medo do inferno, espiritualidade verdadeira é para quem já esteve lá.

Cada experiência que se assemelha ao canto do galo, de discernir redenção e mudança em meio à escuridão, nos ensina a investir mais na busca de outras experiências desse mesmo tipo. A cada experiência em que a saída se dá no mesmo lugar, que é o lugar do aprisionamento, mais refinados nos tornamos espiritualmente.[…]

[…]Nesses lugares, que são quaisquer lugares, os mesmos lugares, há saída. Basta vê-los de forma diferente; enxergá-los a partir do ângulo que nos é obscuro, evitando o vício fatal de acender as luzes. Nas luzes, se dissolvem os monstros, mas com eles também a possibilidade de saídas que farão falta em outros momentos. Em vez de acender as luzes, a proposta é aproximar-se da escuridão e perceber quando, em meio a ela, a noite se desfaz. Como Davi que recepcionava seus monstros com hinos não à luz, mas à luz oculta na noite. Em busca de um mesmo que é diferente.[…]

[…]Quando chegamos a este mundo e descobrimos que existem formas de saciar toda as necessidades, conhecemos o conceito de ordem. O ar, o peito e o afeto descortinam um mundo que nos leva espiritualmente a desaguar no “papai Noel”. Essa é a melhor definição infantil de Deus como a entidade responsável por saciar-nos. Esse é o Deus dos presentes, da mágica de prazeres que parecem infinitos e irrestritos. Mas papai Noel não existe, pelo menos não desta forma infantil.

Para muitos, essa dramática descoberta dá por encerrado qualquer investimento em inteligência espiritual. No entanto, esta deveria ser apenas a etapa inicial do desenvolvimento espiritual. A descoberta de que as necessidades que podem ser saciadas eventualmente não são, deveria iniciar uma busca desesperada por significado. Será que o fato de não termos saciados nossos desejos e expectativa é algo pessoal? Será que não merecemos? Será que não somos tão amados como imaginávamos? O que será preciso para agradar o cosmos e voltar a usufruir de sua proteção?

O escuro, em parte, é formado por experiências de não termos sido saciados, o que nos põe em contato com a noção de morte e de injustiça. Porém, não é o simples ato de não sermos saciados que se constitui em escuridão. O ser humano está equipado com os recursos do enfrentamento e da fuga. Ambos salvam! Diante de qualquer situação ou problema, quando não adotamos uma atitude de enfrentamento, adotamos, necessariamente uma atitude de fuga, ou vice-versa. O enfrentamento bem-sucedido salva, produzindo a experiência de um Deus que está do nosso lado, que olha por nós. A fuga bem-sucedida, desde que seja uma estratégia preestabelecida, representa um enfrentamento e também produz o mesmo sentimento. No entanto, o enfrentamento fracassado – ou seja, transformado em fuga – ou a fuga que não é parte de uma estratégia de enfrentamento, produz um ser humilhado e assustado. Seu Deus (sua ordem) é um deus que abandona, que permite o amargor da derrota e a insegurança quanto à sobrevivência.

O escuro é produzido por um paradoxo expresso por Jó sob a fórmula de uma equação no texto bíblico: “Em enfrentamentos bem-sucedidos e em fugas corajosas, Deus gosta de mim. Em fracassos ou em fugas covardes, ou Deus não gosta de mim ou há algo errado com minha concepção de Deus.”[…]

[…]O escuro, portanto, não é o mau. É simplesmente um lugar que não conseguimos enxergar plenamente, como os paradoxos.[…]

[…]O lugar da luz é aquele que não contém sentimentos ou experiências contraditórias. O escuro, por sua vez, não é o lugar do mal, mas um lugar que mistura sentimentos e percepções. A angústia é um exemplo dessa mistura. Ela contém sempre amor e ódio. Conciliar esses sentimentos produz um lugar escuro do qual buscaremos distância, apesar de chaves importantes estarem lá. A dúvida é outro exemplo. Ela contempla dois quereres, ou dois certos, ou dois errados, ou dois benefícios ou dois custos.

Tanto as angústias como as dúvidas não se desfazem com o acender de luzes. É somente nesse lugar de sentimentos ou percepções que a luz oculta do escuro se encontra. Saber permanecer nestes lugares escuros, em vez de fugir deles, buscando absorver seus ensinamentos, é investir em inteligência espiritual. Muito diferente do que muitas propostas religiosas apregoam, a inteligência espiritual pouco tem a ver com certezas, mas conciliações de polos aparentemente contraditórios. É espiritual tudo aquilo que nasce de coisas que são uma “contra” a outra, como os en-contros, mas que produzem uma conciliação paradoxal.[…]

[…]Uma pessoa espiritualizada é aquela que sabe caminhar pelas trevas, como indica o Salmo 23:4: “Sim, vou também ao vale de sombra-morte, mas não estremeço diante do mal.” Não significa, no entanto, que esta é uma pessoa mórbida ou deprimida. Ao contrário daqueles que vivem na luz, ilhados na luz, estes, sim, seres do estremecimento e do pavor.

Esta é uma regra básica: quanto mais se acende a luz, maior o terror do escuro. O controle nada mais é que uma forma de armazenar terror. O medo, matéria da qual são feitas as trevas, é também o meio que permite enxergar a luz oculta. Sempre que se conciliem sentimentos e percepções contraditórios, o medo se transformará automaticamente em ação. Ao contrário do que comumente experimentamos, o medo verdadeiro não paralisa, mas mobiliza. Ele sinaliza a urgência de enfrentar e não de fugir.

Segundo o Baal Shem Tov: “Nas coisas mundanas, não pode haver medo quando existe alegria, e também não pode haver alegria quando existe medo; no que diz respeito ao sagrado, no entanto, onde há temor sempre se encontrará júbilo e vice-versa.” Esse “temor” está, portanto, repleto de intensidade e de reverência à vida. Não é um temor de fuga, mas que corteja o enfrentamento e a ação.[…]

Os trechos acima foram retirados do livro: Fronteiras da inteligência – a sabedoria da espiritualidade, de Nilton Bonder.


Understanding religious experiences: What the bible says about spirituality – J. Harold Ellens

julho 31, 2011

[…]No final das contas, adotar as crenças ou liturgias do passado, sem fazer delas as nossas próprias num nível interior, nos impede de ter espiritualidade verdadeira ou religião autêntica. No final das contas, são apenas os meus próprios significados que podem verdadeiramente satisfazer a fome da minha alma. Como eu posso ser uma pessoa de Deus autêntica, se não sou meu próprio eu real e verdadeiro?[…]

[…]Este processo de busca de significado e preenchimento é muito individual e pessoal, mesmo quando tende a tomar rumos humanos similares e previsíveis em todos nós. É particular de cada pessoa, buscar as questões definitivas pelas quais a psique tem necessidade de respostas que funcionem para o seu espírito individualmente. Isso significa que rituais de rotina, em adoração pública, celebrações comunitárias ou vida devocional pessoal, nunca são suficientes e não podem ser por si mesmas, autênticas.  Práticas religiosas, fórmulas, padrões ou liturgias que existem por si mesmas, ou que são simplesmente encaradas como rituais, não funcionam para nenhum de nós. No passado, muitas pessoas diziam que as instituições e líderes religiosos tinham autoridade suprema e seus programas religiosos prescritos deviam ser seguidos porque eles tinham que ser obedecidos, não porque  proporcionavam significados espirituais interiores. Isso é mero ritual por si mesmo, e esta é uma forma doente de espiritualidade.[…]

[…]O reinado de Deus como Jesus o percebia como presente na experiência humana, era muito diferente das aspirações e modos de percepção que os líderes religiosos ao seu redor tinham seguido por tanto tempo e que nos seus dias, estavam sendo encaradas com crescente vigor e fervor. Enquanto seus discípulos o entendiam parcialmente, parte da razão para a natureza alusiva e parabólica dos seus ensinamentos residem no fato de que ele estava tentando induzir seus ouvintes a uma nova visão, uma mudança de ponto de vista. Ele estava concentrado em sacudir as pessoas das suas velhas categorias, fossem elas sofisticadas e instruídas ou tivessem a fé simples dos agricultores, prostitutas e pescadores, entre os quais ele vivia.

Ele ansiava por tirar as pessoas das estruturas ossificadas dos rituais religiosos, para colocá-las nas possibilidades dinâmicas de estar em contato com sua espiritualidade interior. No processo, ele esperava que elas estivessem em contato com Deus como Pai, uma percepção que era tão real para ele mesmo.[…]

[…]Aparentemente, como os antigos israelitas contam, caminhar com Deus não requer perfeição moral, material ou espiritual. Isto é, pessoas comuns podem andar com Deus.  Pessoas falhas como você e eu, podem caminhar com Deus. No fim, porque andou com Deus e agiu sob os significados espirituais que esta caminhada gera, Noé se tornou um símbolo da presença construtiva de Deus nas vidas de seres humanos falhos. No Novo Testamento, particularmente nos quatro evangelhos, Jesus faz referência frequente a Noé, como um exemplo de como a presença e intimações de Deus para as pessoas que caminham com Ele, melhoram a qualidade de uma vida com significado. Nas epístolas posteriores, Noé é especificamente citado como um exemplo dos benefícios de se caminhar com Deus.

[…]Não precisamos levar os detalhes da lenda seriamente. Como as parábolas, tais lendas ou mitos sempre possuem um ponto central que o autor tenta estabelecer. Se ficamos preocupados com ou damos muita atenção aos detalhes periféricos, ou se a história é história ou mito, perdemos o foco. Essa história quer dizer apenas uma coisa: é possível para nós humanos, em nossa busca de significado, experimentar o que pode ser chamado de caminhar com Deus, e que isso faz uma grande diferença para melhor em nossa espiritualidade, e até mesmo em nosso comportamento religioso.[…]

[…]Adão perdeu uma boa caminhada com Deus no paraíso, no frescor da noite. Ele perdeu sua caminhada com Deus porque a ignorância, medo, culpa e vergonha, fizeram com que se sentisse alienado, separado de Deus. Isso é sempre verdade. Isso é sempre verdade para todo ser humano. Isso sempre acontece. Leia a história da queda novamente. Você verá como esta história inacreditavelmente fantasiosa em Gênesis 3 realmente é, mas no centro dela, há uma verdade espiritual. É sempre nossa ignorância (falta de informação),  medo (falta de fé),  culpa (falta de confiança), que nos distancia desta percepção, de que estamos caminhando com Deus em nossa busca por significado.[…]

[…]Não sou um evangélico fundamentalista, e não acredito que a bíblia é verbalmente inspirada e inerrante, ou algum tipo de livro mágico, como muitos dos meus colegas cristãos. Entretanto, acredito que se nós desenhamos nossas vidas como uma caminhada com Deus ou uma busca por Deus, vamos experimentar Deus de uma forma tão gratificante como experimentamos uma boa ceia e uma boa taça de vinho numa boa mesa. Acredito que os personagens bíblicos viveram no mesmo tipo de mundo espiritual no qual nós mesmos vivemos. É por isso que acredito  que a bíblia está cheia da palavra de Deus, isto é, o testemunho dos personagens bíblicos a respeito de como eles experimentaram Deus em suas vidas. Em muitas ocasiões eles foram acurados em seu discernimento. Em outras, estavam muito errados e até patológicos no que significava presença de Deus para eles.  É fácil saber a diferença, porque aquelas experiências que ajudam e melhoram a vida humana são certamente de Deus, e aquelas que falham nisso não são. Acreditar que Deus está dizendo a você para matar seu filho, é, obviamente, loucura. Acreditar que Deus ama tanto o mundo, que pretende salvar todos, como João e Paulo percebiam, e não condená-lo, vem obviamente, de Deus.[…]

Understanding religious experiences: What the bible says about spirituality – J. Harold Ellens


Conselhos

junho 16, 2011

Como o post anterior (Briga de galos) já estava muito grande, resolvi escrever outro. Este, dedicado a você, jovem, que no meio desse bando de galos de briga velhos, cacarejando e fazendo muito barulho, fica perdido, sem saber o que pensar. Cheio de dúvidas, com vergonha do comportamento de alguns destes galos teólogos, que pegam você pelas asas, pelos pés, pelo bico, e tentam te puxar para o lado deles, sem deixar você pensar.

Se é que posso sugerir algo, embora esteja fazendo isto pensando no seu bem, sugiro que em meio a essa gritaria toda, onde de vez em quando, alguns mais exaltados, com sangue nos olhos, largam esporadas violentas, sem nem olhar quem estão atacando, busque a instância superior. Busque Deus, e aprenda de Jesus, que é manso e humilde de coração, e não se fie nos galos de briga, não importa a autoridade que eles aleguem ter. Coloque sua fé toda nEle, e considere todos os demais, como seres falíveis tanto quanto você mesmo é, pecadores, sujeitos a paixões, que podem muitas vezes, agir com motivações obscuras que você ignora (e incitar você, a lutar em causas que talvez um dia você se arrependa de ter se envolvido: cruzadas, inquisições, caça a bruxas, ditaduras etc). Alguns galos, são na verdade, velhas raposas. Não confie neles totalmente e cegamente, jamais. Olhe-os como iguais a você, e não como superiores, que devem ser idolatrados. Porque quando eles cometerem erros, e com certeza cometerão, ninguém está livre disso, se você os idolatra e tem mais fé neles do que em Deus, será atingido. Ficará escandalizado, e a culpa será totalmente sua. A culpa será sua, você entendeu? Seja você o responsável pela sua vida com Deus.

Busque ser mais parecido com Jesus, e não com seu líder ou mentor. Nem sempre ele serve de exemplo a respeito disso, porque como já falei, é falível. Não seja imitador do seu líder, seja imitador de Jesus. Não atrele sua fé, em seres de carne e osso, dos quais você não conhece o coração, nem as motivações interiores. Muitos, vivem eternamente como franguinhos na fé, morrendo de medo de tudo, justamente porque não buscam ter um relacionamento com Deus, por conta própria, independente de outros, sem intermediários. Não seja como eles. Busque Deus e cresça, porque nada nesse mundo, erro nenhum que qualquer pessoa possa cometer, será capaz de abalar a fé, de quem conhece Deus por conta própria, e não por ouvir outros falarem. E quem se relaciona por conta própria com Deus, sabe que a fé não é uma coisa estática, ela é dinâmica e subjetiva, sujeita a altos e baixos, que fazem parte da caminhada. Quem vive com medo de perder isso que chama de fé, mas que na verdade é crença, geralmente são os que idolatram pessoas doutrinas, teologias e instituições, que são coisas falíveis, mutáveis e que, com o tempo, podem desaparecer. Pessoas morrem, instituições religiosas fecham as portas, doutrinas são deixadas de lado, e nada disso faz qualquer diferença, para quem sabe que tem seu próprio corpo, como morada do espírito de Deus. Quem tem relacionamento com Deus, verdadeiramente pessoal, não se assusta com pregação de pastor terrorista, e sabe que nada pode separar pessoas que O buscam, do amor dEle.

Não se fie em experiências e testemunhos pessoais mirabolantes, contados por terceiros, e que são vendidos como mercadorias. Muitos, em busca de fama e dinheiro, mentem, inventam, aumentam e exageram os próprios “testemunhos”, e com anuência dos donos de igreja. A filosofia de fins que justificam meios, foi ensinada por Maquiavel, e não por Jesus. Ela não está nos evangelhos. Não deixe igrejas se apossarem do seu testemunho pessoal, e tratarem isso como objeto de comercialização. Porque depois que você sentir o gosto da fama, e ficar viciado nisso, vai ter que mentir para se manter em evidência, e mentir cada vez mais. Depois, quando a verdade vier à tona, a igreja que lhe incentivou a mentir, e todos os crentes que antes lhe aplaudiam,  lhe virarão as costas sem piedade. A igreja vira as costas a quem deixa de ser útil, com a mesma facilidade com a qual coloca o lixo pra fora. Você será devidamente pisoteado e lançado na mesma vala comum, onde a religião lança todos os que um dia foram bobos úteis. É possível, que algumas vezes a religião volte à vala comum, para buscar um ou outro, quando precisa de alguém para um trabalho sujo específico. Mas, do mesmo jeito que pode usar de novo, alguém que ela mesma jogou no esgoto (e que se disponha a isso, depois de ter sido lançado na lama, em troca de uma volta aos holofotes), lança de volta ao mesmo lugar, tão logo o trabalho sujo tenha terminado, sem nem olhar para trás.

Não acredite logo de cara em quem gosta de afirmar ser muito espiritual. Quem é, de verdade, geralmente não precisa colocar isso nos jornais. Nem gosta.

E não queira ser grande, e fazer muitas coisas para Deus, nem deixe que outros coloquem delírios de grandeza e ufanismo na sua mente. Porque o maior no Reino, é o que mais serve os outros, não o que se julga melhor do que todos, por ter altos cargos e altos salários nas instituições. A ganância e o desejo de usar a religião como escada para subir na vida, já fez muitos se perderem. E ainda faz. Enquanto isso, Jesus lavou os pés dos discípulos. Deus é Pai, não é seu patrão. Você é filho, e não operário padrão. Ganhar o mundo à custa de perder a alma, não me parece uma boa ideia. Fazer prosélitos em massa, não é o mesmo que fazer discípulos. O resultado do proselitismo de massa, está aí, para todo mundo ver. E esse resultado, não é bom. Muita gente sabendo tudo de religião, mas sem saber nada de Jesus.

Não tenha medo de pensar, estudar, filosofar. Aprenda a ler opiniões divergentes das suas, com tranquilidade, como apenas opiniões diferentes das suas, e nada mais. E não como declarações de guerra ou afrontas a Deus, perante as quais acha que deve sacar espadas, ou reagir como quem está à beira de um ataque de nervos. Não interprete como evangélicos costumam ler, encarando tudo que contraria ou parece contrariar o que eles mesmos pensam ou acreditam, como ataque à fé. Pessoas são diferentes e podem ter opiniões diferentes da sua, sem que se possa dizer com segurança, que têm menos fé do que você, ou que estão tentando abalar a sua fé. Quem pode medir a fé alheia além dEle? Não se apresse em acender fogueiras e declarar que determinadas pessoas não são de Deus, e pedir que pessoas sejam crucificadas por suas opiniões, porque um dia você pode ser colocado também numa fogueira. Nunca se sabe. A religião é assim, volúvel e desleal, se volta contra quem antes era “de Deus”. Opiniões mudam com o tempo, e a religião também muda de opinião, embora ela faça questão de varrer crimes cometidos por ela, contra a liberdade de consciência alheia, para baixo dos tapetes eclesiásticos. Essa parte da história, nenhuma religião gosta de discutir. Deve ser por isso, que vivem repetindo os mesmos erros.

Não entre na onda da multidão, porque foi a multidão quem pediu que Jesus fosse morto. Multidões não pensam, apenas reagem. Pare e pense, sozinho, antes de se deixar levar por qualquer movimento organizado contra alguém ou alguma coisa. Passe mais tempo observando antes de tomar partido, se aprofunde nas questões. Deus não lhe deu um cérebro para você se deixar levar pela histeria coletiva. Tem muita gente sendo usada como massa de manobra e curral eleitoral, sem se dar conta. Se não tiver certeza, não participe. Se ficar em dúvida, sente para escrever na areia, ou largue as pedras, e se retire da sessão de apedrejamento. Você terá evitado sua participação na morte de uma pessoa que talvez nem seja culpada. Ou talvez ela não seja mais culpada do que eu e você, ou qualquer outro. A fila do apedrejamento da religião, sempre anda, e ninguém pode garantir que nunca estará no lugar de vítima.

A sua justiça tem que exceder a dos escribas e fariseus hipócritas, esses galos de briga, que querem te ensinar a ser prosélitos de religião, e não imitadores de Jesus.

Mais alguma dúvida?


Deus e a religião segundo H. G. Wells

abril 22, 2011

A maioria das pessoas conhece H. G. Wells como escritor de ficção científica, de livros como Guerra dos Mundos (que inspirou o filme de mesmo nome), A Máquina do Tempo, entre outros. Mas são poucos os que conhecem o lado religioso desse autor britânico. Abaixo, transcrevo trechos de um livro dele, onde fala a respeito de seus pontos de vista sobre Deus e a religião.

[…]Um dos mais universais e naturais dos equívocos a respeito de Deus, é considerá-Lo como algum tipo de mágico, a serviço dos desejos humanos. Não é fácil para nós entender o significado completo de dar nossas almas a Deus. Missionários e professores de qualquer credo, estão todos aptos a anunciar Deus pelo que Ele pode oferecer; sã0 ávidos pelo triunfo pobre da aquiescência; e assim acontece que muitas pessoas que são levadas a acreditar que são religiosas, estão, na realidade, retendo suas próprias almas e tentando usar Deus para os seus próprios propósitos pessoais. Deus nada mais é para elas, do que um Fetiche magnificente. Elas não o desejam de verdade, mas sim, ouviram falar que Ele é poderoso; suas almas imaturas pensam em fazer uso dEle.  Chamam pelo Seu nome, fazem certas coisas que supostamente exercem influência diante dEle, tais como dizer orações e repetir grandes elogios a Ele, ou lendo cegamente, de maneira diligente, aquela estranha miscelânea de literatura judaica e cristã, a Bíblia, e outras mortificações mentais semelhantes, ou fazendo do Sábado um dia aborrecido e desconfortável. Em resposta a essas propiciações fetichistas, supõe-se que Deus é obrigado a interferir no curso normal das coisas, em nosso favor. Ele se torna um gênio celestial. Ele remedia situações desfavoráveis, cura enfermidades mesquinhas, proporciona milagres na medicina, dinheiro ou outras coisas parecidas, evita falências, arranja transações vantajosas, e faz mil e um serviços para essa sua panelinha de fiéis. […]

[…]O encontro com Deus é o início do ato de servir. Não é um escape da vida e da ação; é a liberação da vida e da ação da prisão do self  mortal. […]

[…]O ódio natural dos homens não regenerados, contra tudo que é diferente deles mesmos, contra pessoas estranhas ou alegres, contra costumes ou coisas que não lhe são familiares, ou que eles não entendem, fez com que se encarnasse neles esta concepção de uma Deidade maligna e partidária, perpetuamente transtornada pelas pequenas coisas que as pessoas fazem, e planejando assassinatos e vinganças. Agora, esse Deus está afogando todos os habitantes do mundo, ou incendiando Sodoma e Gomorra; ou incita seu povo israelita aos mais terríveis progroms.[…]

[…]Eu, o autor, era contra esse Deus que assim é apresentado. Ele e o seu inferno eram os pesadelos da minha infância; eu odiava Deus, acreditava nEle, mas que outra coisa podia fazer além de ter ódio dEle? Pensava nEle como um monstro, perpetuamente esperando para condenar e para “me levar à morte”; suas chamas eram como um incêndio em uma sala de grelhados. Estava sobre mim e minhas fraquezas e esquecimentos, assim como o céu e o mar estariam para uma criança se afogando no meio do oceano. Quanto eu tinha apenas 13 anos, pela graça do Deus verdadeiro, expulsei essa mentira da minha mente, e por muitos anos, até que cheguei a ver que o próprio Deus é que estava fazendo isso por mim, o nome de Deus não significou  nada para mim, pois havia uma trava em meu coração, onde estava esse terrível demônio. […]

[…]A história do Cristianismo, com suas incrustações e sufocação em dogmas e costumes, suas terríveis perseguições contra os infiéis, sua dessecação e decadência com relação ao amor, a invasão de vestimentas e rituais e todos os hábitos e vícios dos Fariseus, os quais Jesus detestava e denunciava, é cheio de alertas sobre os perigos de uma igreja. Organizações são coisas excelentes para as necessidades materiais dos homens, para desenhar cidades,  fazer controle de tráfego, coleta de ovos, entrega de correspondência, a distribuição de pão, a notificação do sarampo, para a higiene e a economia e outras coisas semelhantes.  Quanto melhor essas coisas são organizadas, mais livre e melhor equipada deixamos a mente humana para propósitos nobres, para aquelas aventuras e experimentos em direção aos propósitos de Deus, que são a realidade da vida. Mas todas as organizações devem ser vigiadas, porque tudo que é organizado, pode ser “capturado” e usurpado.  O arrependimento, além disso, é o começo e a essência da vida religiosa, e organizações (agindo por meio de suas secretarias e oficiais) nunca se arrependem. Deus trata somente com o indivíduo e com entregas individuais. Não toma conhecimento de comitês.

Aqueles que estão mais vivos para a realidade da vida religiosa, são os mais desconfiados da tendência à congregação. Reunir-se, é adquirir um benefício à custa de uma perda maior, reforçar o sentido de fraternidade pela exclusão da maioria da humanidade. […]


Prayer: A study in the history and psychology of religion – Friedrich Heiler

março 23, 2011

Introdução (trechos)

Religiosos, estudantes de religião, teólogos de todas as crenças e tendências, concordam com o pensamento de que a oração é o fenômeno central da religião, a fonte de calor de toda piedade. A fé é, no entendimento de Lutero, “oração e nada mais do que oração”. “Aquele que não ora ou não clama por Deus nas suas horas de necessidade, certamente não pensa nEle como Deus, nem dá a Deus a honra que lhe é devida.” O grande místico evangélico, Johann Arndt, constantemente enfatiza a verdade de que “sem a oração não podemos encontrar Deus; a oração é o meio pelo qual procuramos e encontramos Deus.” Schleiermacher, o restaurador da teologia evangélica no século XIX, observou em um dos seus sermões: “Ser religioso e orar – essas coisas são na verdade uma e a mesma coisa”. Novalis, o poeta do romantismo, comenta: “a oração é para a religião, o que o pensamento é para a filosofia. Orar é religião em funcionamento. O senso religioso ora, assim como o mecanismo do pensamento, pensa.” A mesma ideia é expressa por Richard Rothe, quando diz, “… o impulso religioso é essencialmente o impulso à oração. É pela oração, de fato, que o processo da vida religiosa individual é governado, o processo da gradual habitação de Deus no indivíduo e em sua vida religiosa. Entretanto, o homem que não ora pode ser considerado religiosamente morto.”[…]

[…]De acordo com Sabatier, o fenômeno religioso se distingue de fenômenos similares, tais como, por exemplo, o senso estético ou os sentimentos morais, pela particularidade da oração. E até mesmo um dos mais radicais críticos da religião, Feuerbach, que classificou todas as religiões como ilusões, declarou que ” a essência mais íntima da religião é revelada pelo ato mais simples da religião: a oração.” Assim, não há dúvidas de que a oração é o coração e centro da religião. Não é pelos dogmas e instituições, nem nos rituais ou ideais éticos, mas na oração que apreendemos a qualidade específica da vida religiosa. Por meio das palavras de uma oração, podemos penetrar nos movimentos mais profundos e íntimos da alma religiosa. “Examine as orações dos santos de todas as épocas, e terá sua fé, sua vida, o motivo que os move, seu trabalho”, afirma Adolphe Monod, famoso pregador calvinista. O mundo variado de concepções e ações religiosas é sempre nada mais do que o reflexo da vida religiosa pessoal. Todos os diversos pensamentos sobre Deus, criação, revelação, redenção, graça, a vida eterna, são produtos cristalizados nos quais o rico fluxo da experiência religiosa, fé, esperança e amor, ganha contornos firmes. Todos os rituais e sacramentos, consagrações e purificações, ofertas e festas sagradas, danças sagradas e procissões,  todo o trabalho do ascetismo e moralidade, são apenas a expressão indireta da experiência interior da religião, a experiência de admiração, confiança,  rendição, anseio e entusiasmo. Pela oração, por outro lado, esta experiência é diretamente revelada; a oração, segundo Tomás de Aquino, “é a prova prática específica da religião”; ou, como Sabatier colocou de forma brilhante, “A oração é religião em ação, ou seja, é a verdadeira religião.”[…]

[…]Mas não só as diferenças religiosas individuais são reveladas pela oração, mas a mesma coisa é verdade a respeito de povos inteiros, épocas, culturas, igrejas, religiões. Auguste Sabatier comenta: “Nada nos revela de forma melhor, a respeito do valor moral e dignidade espiritual de uma forma de adoração, que o tipo de oração que emana da boca dos seus aderentes”. Althaus escreveu na introdução ao seu estudo sobre a oração na literatura da reforma: “A oração é, como quase nada mais pode ser, a mais confiável indicação deste ou daquele tipo de piedade. Junto com os hinos, as orações refletem de maneira clara a excelente qualidade da vida religiosa em qualquer estágio de seu desenvolvimento”.

Dr. L. R. Farnell, talvez um dos mais eminentes historiadores contemporâneos da religião, observa como forma de introdução em seu rascunho sobre o desenvolvimento da oração: “Não há nenhuma parte do serviço religioso da humanidade, que tão claramente revele os pontos de vista diferentes a respeito da natureza divina, mantidos por diferentes etnias em diferentes estágios do seu desenvolvimento, ou que reflita de forma tão vívida, a história material e psicológica do homem, como a formulação das suas orações”. Então, como afirma Deissmann, “pode-se, sem mais delongas, escrever uma história da religião escrevendo a história da oração”.

Prayer: A study in the history and psychology of religion – Friedrich Heiler


Deus, pássaros, árvores e gaiolas…

fevereiro 20, 2011

“Só os pássaros de gaiola é que querem poleiro. Para os livres qualquer galho serve. Deus inventou as árvores e os homens as gaiolas. A quem queres honrar?” Manuel Adriano Rodrigues

Palavras Perdidas (760) – A ovelha perdida