Cegueira Moral

[…]Os pontos de referência e as linhas de orientação que hoje parecem confiáveis amanhã serão identificados como equivocados ou corruptos. Empresas em teoria sólidas são desmascaradas como produtos da imaginação de seus contadores. O que quer que hoje possa ser “bom para você” amanhã pode ser reclassificado como veneno. Compromissos em aparência firmes e acordos assinados com solenidade podem ser rompidos da noite para o dia. E as promessas, ou pelo menos a maioria delas, são feitas só para serem traídas e quebradas. Não parece haver alguma ilha estável e segura em meio às correntes. Mais uma vez citando Melucci, “não temos mais um lar; somos sempre compelidos a construir um lar e depois a reconstruí-lo, tal como na história dos três porquinhos, ou temos de levá-lo conosco sobre nossas costas, como os caramujos”.

O tsunami de informações, opiniões, sugestões, recomendações, conselhos e insinuações que inevitavelmente nos assola nos tortuosos itinerários de nossas vidas resulta numa “atitude blasé” em relação a “conhecimento, trabalho e estilo de vida” (em relação à vida em si e a tudo que ela contém)[…]

Os trechos acima foram extraídos do livro Cegueira Moral – a perda da sensibilidade na modernidade líquida, de Zigmunt Bauman e Leonidas Donskis.

O irônico nisso, é que se hoje muitos se sentem sem ter um lar ou sem base, foi por escolha própria. Primeiro dinamitamos as nossas próprias bases, inclusive as morais, e depois nos espantamos quando somos arrastados pela enxurrada, nos agarrando a qualquer coisa que pareça sólida. E infelizmente para nós, em tempos de física quântica, nada parece sólido, não é? Não sabemos mais como levar nossas vidas (ou simplesmente somos levados, sem ter como, nem onde nos segurar), e com isso enriquecemos os que conseguem colocar a cabeça por cima da água e se intitulam “gurus” dos demais, ou parecem saber para onde a água está nos levando. Não sabemos mais distinguir entre o que realmente importa e o sem importância alguma. Quando se está a deriva, qualquer porto serve. Será?

Colhemos o que plantamos. E não é a primeira vez. Pois apesar de parecer algo novo, a humanidade já passou por isso antes, em diferentes graus de intensidade. Apenas não lembra. É tanta coisa para ver, ouvir e sentir, e nada permanece, nada parece importante. É como aquela postagem do Snapchat. Precisamos ver logo, pois em poucas horas não estará mais ali. E depois de ver, descobrimos ser apenas mais uma idiotice.

Pode demorar muito para percebermos que reconstruir as bases, poderá ser a nossa salvação. Como animais desembestados, saímos correndo ao perceber que o pasto parecia não ter mais cercas, o pastor tinha sumido ou nunca existiu, e o horizonte parecia não ter mais fim. Julgávamos os limites como obstáculos ao progresso da humanidade, mas não iremos descobrir um dia, que os limites eram na verdade grades de proteção, e não obstáculos a serem ultrapassados?

Assim como com a cegueira visual, na cegueira moral existem cegos de nascença, existem os que ficaram cegos ou foram cegados, e existem os que escolheram não ver. Existem também aqueles que enxergam seletivamente, são daltônicos morais.

É bom saber, vivendo no meio desta bagunça, que a rocha firme continua no mesmo lugar.

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