Dos males o menor

Trechos do livro Tremendas Trivialidades, de G. K. Chesterton:

[…] Admito que aqueles que sofrem grandes males têm um direito real de queixar-se, desde que se queixem sobre outra coisa. É um fato singular que, se são pessoas sãs, quase sempre queixam-se mesmo sobre outras coisas. Falar de forma racional sobre os próprios problemas reais é a forma mais rápida de perder a cabeça. Mas pessoas com grandes problemas falam sobre os pequenos, e o homem que reclama da pétala de rosa amassada tem com frequência sua carne cheia de espinhos. Porém, se um homem tem habitualmente uma vida diária muito clara e feliz, então acho que temos o direito de pedir-lhe que não transforme tocas de toupeira em montanhas.[…]

[…] Levando tudo isso em consideração, repito que podemos pedir a um homem feliz que suporte o que é pura inconveniência, e até que faça dela parte da sua felicidade. Não me refiro aqui à dor objetiva ou à pobreza objetiva. Refiro-me àquelas inúmeras limitações acidentais que estão sempre cruzando nosso caminho – mau tempo, confinamento a esta ou aquela casa ou aposento, desencontros, esperas em estações de trem, extravios de correspondência, deparar-se com a falta de pontualidade quando queríamos pontualidade, ou, o que é pior, encontrar pontualidade onde não a queríamos. É sobre o prazer poético que pode ser tirado de todas estas coisas, que eu canto […]

Como seria a convivência entre as pessoas, caso todos conseguissem suportar os pequenos incômodos, em vez de buscar em todo o tempo a própria satisfação, e isso até nos mínimos detalhes?

[…]O elemento de esperança no universo foi continuamente negado e reafirmado nos tempos modernos; mas o elemento do desespero nunca foi negado nem por um momento. A única coisa em que o mundo moderno acredita, é a condenação. O maior dos poetas puramente modernos resumiu a atitude realmente moderna, naquele belo verso agnóstico:

Pode haver Céu; deve haver Inferno.

Talvez por isso as tentativas dos ateus de dar sentido à existência, nunca são satisfatórias. Para eles não há Céu, mas o Inferno continua bem visível nas nossas experiências de todos os dias. Então eles preenchem, ou tentam preencher, o espaço vazio de várias formas retóricas, mas nem toda a retórica do mundo, tem força para deixar a equação da vida humana reequilibrada.

Da minha parte, não preciso mais de malabarismos retóricos, pois Deus já inventou o Céu. Aliás, o Céu sempre esteve lá. Eu que demorei para descobrir.

 

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