Sapatos sujos

Em seu livro de ensaios “E se Obama fosse africano?”, Mia Couto incluiu um texto sobre os desafios que os africanos e/ou moçambicanos têm à frente para alcançar o futuro que desejam. Ele citou algumas coisas materiais, como hospitais, escolas, investidores, projetos. Porém, na opinião dele, o mais importante é uma nova atitude. “Sem mudarmos de atitude”, afirma ele, “não conquistaremos uma condição melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não seremos construtores de futuro.”

Ele escreveu como africano e pensando em seu próprio povo, mas acredito que o texto serve para o Brasil, também. Para passar pela porta da modernidade, seria necessário descalçar alguns sapatos sujos, deixando-os do lado de fora. Que sapatos?

Primeiro sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas.

…Queremos que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas, ao mesmo tempo, continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: somos peritos na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos:… que o político abusou do poder porque, coitado, na tal África profunda, essas práticas são antropologicamente legítimas….

Troquemos no texto acima, África, por Brasil. Corrupção institucionalizada.

Segundo sapato: A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.

…Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos acontece (de bom ou de mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino…

Terceiro sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.

…Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demônios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa…

Estratégia dos políticos brasileiros quando são pegos com a boca na botija de dinheiro público, ou flagrados com propina na cueca, ou possuindo bens adquiridos com recursos de lavagem de dinheiro, ou contas no exterior não declaradas e movimentações financeiras muito suspeitas. Dizem que é perseguição política. Intriga da oposição. Preconceito. E continuam com as propagandas mentirosas. Os petistas em propaganda veiculada pela televisão, têm coragem de mandar o povo trabalhar mais. Como se o governo já não ficasse com cinco meses de trabalho dos brasileiros, na forma de impostos. O que temos em contrapartida por uma carga tributária entre as maiores do mundo? Notícias sobre desvios e corrupção todos os dias. E o PMDB, oportunista, aparece como salvador da pátria. Ambos pensam que somos burros. O PMDB esteve ao lado do governo do PT o tempo todo, e agora quer se desgrudar? Deviam ter aproveitado a propaganda, para explicar o apartamento, o sítio, a antena, as propinas, o rombo da Petrobras, o rombo dos fundos de pensão. Ninguém engole mais essa piada de que o ex-presidente Lula  é vítima de perseguição. Ele é, sim, suspeito de cometer crimes e tem que ser investigado como qualquer um. Vai ver eles acham mesmo que somos burros.

Não seria lindo se eles usassem o tempo da propaganda na TV, para confessar? Admitir que não honraram os votos recebidos, que agiram mal, que prejudicaram o país deliberadamente ? Que são culpados? No dia em que isso acontecer, aí sim o Brasil poderá ter jeito.

Quarto sapato: A ideia de que mudar as palavras, muda a realidade.

“A Petrobras está de pé.” (Presidenta Dilma Rousseff) Aham, senta lá!

“Não poso de santo. Nunca fui candidato a santo.”, que recentemente mudou para “Não tem uma viva alma mais honesta do que eu.” (ex-presidente Lula, agora candidato a santo, afinal as palavras mudam, não é?)

“Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz.” (Lênin). Este princípio é um dos que mais vem sendo aplicado por aqui.

Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e  o culto das aparências.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia de que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Tênis falsificado, bolsa falsificada, ou pior, o  “funk ostentação” (que fez aumentar o aliciamento de meninos por traficantes de drogas em 3200%, em Florianópolis, por exemplo). Igreja que vende prosperidade e sucesso financeiro, para não dizer que não falei das flores.

Sexto sapato: A passividade perante a injustiça.

Nem precisa explicar isso.

Sétimo sapato: A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.

Se as capacidades de uma nação estiverem viradas para o enriquecimento rápido de uma pequena elite, então de pouco valerá haver mais quadros técnicos.

Que semelhança com a realidade do Brasil, onde estar no governo, é visto como oportunidade para enriquecer, e não como oportunidade para colaborar com o desenvolvimento e construir o futuro. Não importa se é de esquerda ou de direita. O partido que se dizia dos trabalhadores por exemplo, hoje tem milionários nas suas fileiras. Mas pergunte a eles agora, se querem socializar o capital que amealharam. Só não vale socializar o patrimônio daquele jeitinho brasileiro, colocando tudo em nome de laranjas, e dizer que não é seu, ok?

O ex-presidente Lula palestrou em Moçambique, terra do Mia Couto, tempos atrás. A palestra, dizem que custou 815 mil reais, pagos à vista, por uma empreiteira brasileira. Os moçambicanos poderiam ter passado sem essa. Eles têm Mia Couto como conterrâneo, afinal. A palestra foi sobre combate à desigualdade social. Lula disse que é necessário distribuir a riqueza (a riqueza dele também, espero). Lembro, de novo, que ele ganhou 815 mil para palestrar sobre desigualdade social. Que contradição!

Menos políticos. Mais poetas. Um poeta africano é muito melhor para falar sobre desigualdade social, do que qualquer político brasileiro. E sai mais barato também.

A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassinato espetacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder a crença no futuro.

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