Escadaria para o céu

Um episódio da série Grey’s Anatomy, quinta temporada, apresenta uma situação complexa, envolvendo compaixão, ética médica, crime e punição. Um serial killer, condenado à morte pelo assassinato de cinco mulheres, dá entrada no hospital, com um problema que demandava neurocirurgia. Faltam poucos dias para a sentença dele ser executada, ou seja, a dias de ser morto pelo Estado pelos crimes que cometeu, ele tem um problema de saúde que pode matá-lo. Sabendo que o prognóstico pode ser fatal, o prisioneiro hospitalizado se recusa a fazer a cirurgia indicada pelo neurocirurgião. O assassino prefere que seu estado piore, para morrer no hospital em vez de ser executado. O neurocirurgião, cujo pai foi assassinado muitos anos atrás, insiste no tratamento cirúrgico, e deixa claro: não pretende permitir que o paciente morra ali, confortavelmente assistido, e escape da execução na cadeia. Não dá para saber se o cirurgião está mais preocupado em salvar a vida do paciente, ou quer deixá-lo vivo para que volte à prisão e seja executado, castigo considerado justo por ele.

Ao mesmo tempo, no mesmo hospital, um menino está em situação crítica, precisando de transplante de fígado e intestino. O criminoso e o menino se conhecem num corredor do hospital, e o menino explica ao prisioneiro porque está internado. O criminoso pergunta a ele se não gostaria de ficar com seus órgãos. O menino e o criminoso se empolgam com a ideia, e o assassino tem mais um motivo para não querer receber tratamento: doar os órgãos. Os médicos acabam intervindo, explicando que não era tão simples assim, que para o transplante ser feito o doador e o receptor precisavam ser compatíveis. A equipe do hospital continua buscando um doador para salvar a vida do menino, e o criminoso continua se recusando a ser operado.

Uma médica residente se compadece da história do criminoso, o qual afirma querer ajudar o menino. Faz os testes e descobre que o criminoso e o menino são compatíveis. E indiretamente, dá ao serial killer uma dica de como ele mesmo poderia acelerar o processo, e fazer sua doença evoluir até levar à morte cerebral. O prisioneiro entende o recado, e provoca uma hemorragia, batendo a cabeça na cabeceira da cama. Seu estado piora de forma progressiva durante a noite, e a residente, de plantão no hospital, deixa o caso se agravar. Ela tenta ajudar o paciente a morrer, nas palavras dela, “ter uma boa noite”.

Nesse meio tempo, o hospital consegue os órgãos para o menino, que vai para a cirurgia. Mas algo dá errado, e o corpo dele reage contra os órgãos, que são retirados novamente. O tempo está se esgotando, e a equipe precisa encontrar outros doadores compatíveis. A situação é desesperadora. O chefe da cirurgia descobre outro paciente compatível com o menino, que está ali mesmo no hospital, já com morte encefálica, mas a familiar do paciente se recusa a permitir a doação. O criminoso perde a consciência e o neurocirurgião faz a cirurgia, contra a vontade do homicida. Durante a cirurgia, a médica do menino, tendo conhecimento de que o malfeitor é compatível e pode doar os órgãos, entra na sala cirúrgica e pede ao cirurgião que deixe o serial killer morrer, para salvar o seu próprio paciente. Eles discutem. A situação fica em suspenso.

O menino segue piorando, enquanto o chefe da cirurgia prossegue na tentativa de convencer a familiar do outro paciente, a doar os órgãos. O prisioneiro corre risco de morte, e o cirurgião deixa a vida dele nas mãos da médica, mas ela, arrependida do pedido anterior, pede que ele termine a cirurgia e salve o bandido. Ela volta ao leito do menino, então já à beira da morte, e autoriza a presença da mãe dele, para se despedir. Enquanto esta despedida ocorre, o chefe da cirurgia aparece no quarto. Havia conseguido os órgãos. O menino tem uma parada cardíaca e quase morre antes de receber o segundo transplante.

Mesmo sendo uma história de ficção, não escapamos do fato de que somos todos humanos, e nossa humanidade interfere nos nossos julgamentos, atitudes e decisões. O cirurgião estava apenas fazendo seu trabalho, ou visava impedir que o assassino burlasse o sistema, morrendo antes da própria execução? Não seria uma violação ética, esperar o paciente ficar inconsciente e proceder à cirurgia, contra a vontade do mesmo? Não seria contraditório, todo aquele dispêndio de recursos para salvar um paciente que não queria ser salvo? Por ser um assassino, o doente perdia o direito de decidir morrer no hospital, recusando o tratamento? A residente agiu certo ou errado, ao ensinar, ainda que de forma indireta, um jeito de o paciente precipitar a própria morte? Era a vontade dele, não era? No final ele acabaria morto de qualquer jeito. O assassino, caso morresse no hospital, salvaria outras vidas, doando seus órgãos. Com isso, outras pessoas viveriam por meio da sua morte. Uma tentativa de redenção, talvez? Provável, mas seja como for, o desejo do serial killer não se realiza. No final, tudo acaba aparentemente “bem”: o menino sobrevive e o assassino termina executado. Na vida real aqui no Brasil, é mais fácil morrer esperando um transplante de fígado, do que ter dois doadores compatíveis ao alcance da mão, situação do menino no episódio.

Observação 1: Existe uma estimativa de que 4% dos condenados à morte nos EUA, são na verdade, inocentes. Traduzindo, uma em cada 25 pessoas condenadas à pena capital, não cometeu o crime. Por isso a pena de morte vem sendo abolida. O índice de pessoas inocentes executadas injustamente, seria ainda maior, se a execução fosse imediata. Como os presos ficam um bom tempo no que chamam “corredor da morte”, uma evidência nova ou reviravolta no caso, pode fazer com que a pena seja cancelada. Em alguns países onde este tipo de punição continua sendo aplicada, vale para, entre outros, casos de adultério, blasfêmia e “bruxaria”. Que tipo de prova se usa num processo que visa condenar alguém pelo crime de “bruxaria”? Países como China, Irã e Arábia Saudita são os que mais aplicam a pena capital.

Observação 2: Metade das pessoas que espera por um transplante de fígado no Brasil, morre na fila. Um único doador pode ajudar de uma até 25 pessoas com órgãos doados.

Uma resposta para Escadaria para o céu

  1. Dirce disse:

    Leio seus posts sem picar…rs
    Parabéns…
    Luz, muita luz menina
    beijos, Dirce

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