O escuro, a luz e Deus

[…]Sempre que  presenciamos alguém tentando explicar situações difíceis da vida pelo caminho da claridade, devemos desconfiar de que procura “chaves” onde elas não estão. Por isso, as religiões, ou mesmo a espiritualidade, podem se tornar presas tão fáceis das buscas infrutíferas por onde há luz. O excesso de “teologias”, de explicações que servem como holofotes 24 horas para garantir “luz” às nossas buscas, é uma das mais perversas armadilhas. São formas de viver a religião e a espiritualidade, que emburrecem espiritualmente. Representam formas sofisticadas de alienação, chegando a ponto de se institucionalizar com o único fim de “exorcizar” a escuridão. Diabo para um lado e Deus para o outro, e uma vida em que nunca se terá de ir ao escuro buscar chaves, é em si o terror ou o verdadeiro demônio.

Com o passar do tempo, as trevas ganham força. Os lugares “claros” vão se reduzindo a ilhas cada vez mais ameaçada pela escuridão. Pânico e fobia espiritual se instalam e há cada vez menos saída. Afogados por chaves que jamais descobrirão, estão presos até que façam o movimento correto de trazer a escuridão de volta às suas vidas. Como diz a máxima: Religião é para quem tem medo do inferno, espiritualidade verdadeira é para quem já esteve lá.

Cada experiência que se assemelha ao canto do galo, de discernir redenção e mudança em meio à escuridão, nos ensina a investir mais na busca de outras experiências desse mesmo tipo. A cada experiência em que a saída se dá no mesmo lugar, que é o lugar do aprisionamento, mais refinados nos tornamos espiritualmente.[…]

[…]Nesses lugares, que são quaisquer lugares, os mesmos lugares, há saída. Basta vê-los de forma diferente; enxergá-los a partir do ângulo que nos é obscuro, evitando o vício fatal de acender as luzes. Nas luzes, se dissolvem os monstros, mas com eles também a possibilidade de saídas que farão falta em outros momentos. Em vez de acender as luzes, a proposta é aproximar-se da escuridão e perceber quando, em meio a ela, a noite se desfaz. Como Davi que recepcionava seus monstros com hinos não à luz, mas à luz oculta na noite. Em busca de um mesmo que é diferente.[…]

[…]Quando chegamos a este mundo e descobrimos que existem formas de saciar toda as necessidades, conhecemos o conceito de ordem. O ar, o peito e o afeto descortinam um mundo que nos leva espiritualmente a desaguar no “papai Noel”. Essa é a melhor definição infantil de Deus como a entidade responsável por saciar-nos. Esse é o Deus dos presentes, da mágica de prazeres que parecem infinitos e irrestritos. Mas papai Noel não existe, pelo menos não desta forma infantil.

Para muitos, essa dramática descoberta dá por encerrado qualquer investimento em inteligência espiritual. No entanto, esta deveria ser apenas a etapa inicial do desenvolvimento espiritual. A descoberta de que as necessidades que podem ser saciadas eventualmente não são, deveria iniciar uma busca desesperada por significado. Será que o fato de não termos saciados nossos desejos e expectativa é algo pessoal? Será que não merecemos? Será que não somos tão amados como imaginávamos? O que será preciso para agradar o cosmos e voltar a usufruir de sua proteção?

O escuro, em parte, é formado por experiências de não termos sido saciados, o que nos põe em contato com a noção de morte e de injustiça. Porém, não é o simples ato de não sermos saciados que se constitui em escuridão. O ser humano está equipado com os recursos do enfrentamento e da fuga. Ambos salvam! Diante de qualquer situação ou problema, quando não adotamos uma atitude de enfrentamento, adotamos, necessariamente uma atitude de fuga, ou vice-versa. O enfrentamento bem-sucedido salva, produzindo a experiência de um Deus que está do nosso lado, que olha por nós. A fuga bem-sucedida, desde que seja uma estratégia preestabelecida, representa um enfrentamento e também produz o mesmo sentimento. No entanto, o enfrentamento fracassado – ou seja, transformado em fuga – ou a fuga que não é parte de uma estratégia de enfrentamento, produz um ser humilhado e assustado. Seu Deus (sua ordem) é um deus que abandona, que permite o amargor da derrota e a insegurança quanto à sobrevivência.

O escuro é produzido por um paradoxo expresso por Jó sob a fórmula de uma equação no texto bíblico: “Em enfrentamentos bem-sucedidos e em fugas corajosas, Deus gosta de mim. Em fracassos ou em fugas covardes, ou Deus não gosta de mim ou há algo errado com minha concepção de Deus.”[…]

[…]O escuro, portanto, não é o mau. É simplesmente um lugar que não conseguimos enxergar plenamente, como os paradoxos.[…]

[…]O lugar da luz é aquele que não contém sentimentos ou experiências contraditórias. O escuro, por sua vez, não é o lugar do mal, mas um lugar que mistura sentimentos e percepções. A angústia é um exemplo dessa mistura. Ela contém sempre amor e ódio. Conciliar esses sentimentos produz um lugar escuro do qual buscaremos distância, apesar de chaves importantes estarem lá. A dúvida é outro exemplo. Ela contempla dois quereres, ou dois certos, ou dois errados, ou dois benefícios ou dois custos.

Tanto as angústias como as dúvidas não se desfazem com o acender de luzes. É somente nesse lugar de sentimentos ou percepções que a luz oculta do escuro se encontra. Saber permanecer nestes lugares escuros, em vez de fugir deles, buscando absorver seus ensinamentos, é investir em inteligência espiritual. Muito diferente do que muitas propostas religiosas apregoam, a inteligência espiritual pouco tem a ver com certezas, mas conciliações de polos aparentemente contraditórios. É espiritual tudo aquilo que nasce de coisas que são uma “contra” a outra, como os en-contros, mas que produzem uma conciliação paradoxal.[…]

[…]Uma pessoa espiritualizada é aquela que sabe caminhar pelas trevas, como indica o Salmo 23:4: “Sim, vou também ao vale de sombra-morte, mas não estremeço diante do mal.” Não significa, no entanto, que esta é uma pessoa mórbida ou deprimida. Ao contrário daqueles que vivem na luz, ilhados na luz, estes, sim, seres do estremecimento e do pavor.

Esta é uma regra básica: quanto mais se acende a luz, maior o terror do escuro. O controle nada mais é que uma forma de armazenar terror. O medo, matéria da qual são feitas as trevas, é também o meio que permite enxergar a luz oculta. Sempre que se conciliem sentimentos e percepções contraditórios, o medo se transformará automaticamente em ação. Ao contrário do que comumente experimentamos, o medo verdadeiro não paralisa, mas mobiliza. Ele sinaliza a urgência de enfrentar e não de fugir.

Segundo o Baal Shem Tov: “Nas coisas mundanas, não pode haver medo quando existe alegria, e também não pode haver alegria quando existe medo; no que diz respeito ao sagrado, no entanto, onde há temor sempre se encontrará júbilo e vice-versa.” Esse “temor” está, portanto, repleto de intensidade e de reverência à vida. Não é um temor de fuga, mas que corteja o enfrentamento e a ação.[…]

Os trechos acima foram retirados do livro: Fronteiras da inteligência – a sabedoria da espiritualidade, de Nilton Bonder.

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