Dúvidas

“Queria lhe dizer que eu fui criado e lecionado desde o berço sobre o evangelho, meu pai é teólogo e diácono, eu já fui uma pessoa muito religiosa, estudei muita a Bíblia, eu conheço a palavra, eu quero acreditar que isso é verdade, mas depois de certo tempo eu parei para pensar um pouco: o que eu estou fazendo? Tem algum sentido nisto?
  A verdade é que o tal Espírito Santo nunca me revelou nada em minha vida, eu pedi, busquei, acreditei, mas nada, e tudo o que vejo nas igrejas são desqualificados elegendo outros desqualificados, as pessoas que estão na igreja pregam sobre um Jesus, de um Salvador que nem elas mesmo sabem da onde veio e não sabem explicar em que acreditam, mas querem te transmitir confiadamente que isso é verdade, e nem elas mesmo sabem em quem estão crendo.
Se está palavra é verdadeira… eu já pedi a Deus que me mostre a realidade, a verdade, e que a verdade seja bem nítida e confiável, aí sim eu irei a frente com isso. Por mais que eu procurei eu nunca tive uma experiência com o tal Jesus, e com o citado Espirito Santo. Eu respeito a vossa crença. O que eu desejo é a verdade, simples palavras não são suficientes, expor uma divindade não é suficiente, se alguém aqui realmente teve uma experiência pessoal com Jesus e crer que isso é real com toda a certeza, parabéns, pois eu nunca tive, o dia em que eu tiver eu vou testemunhar sobre ela, mas em toda a minha vida que eu busquei e não tive o que eu vou testemunhar? Eu acredito na verdade, isso é tudo o q importa, a verdade. É hipocrisia querer acreditar na verdade, encontrar a verdade? Pedir a Deus q me revele a sua verdade? Ao invés de simplesmente aceitar meia tonelada de história contada que não se pode provar. Se eu fosse hipócrita eu estaria aqui falando de Jesus e do Espírito Santo, estaria falando de coisas que eu nunca vivi praticamente embora busquei…
“que você se foda muito na vida, para que possa pedir de coração.” Então para crer é uma questão de apuros, de necessidade? Uma grande verdade é que muitos crêem simplesmente pelo fato de que é mais confortável acreditar que ressuscitaremos, que existe um lugar melhor após a morte, que os bons serão recompensados e os maus castigados, é tão bom poder acreditar nisso, é muito confortável saber disso, nos faz sentir consolados, aliviados, então muitos optam e acreditar ao ter o trabalho de conflitar e buscar a verdade…”

 

Você tem razão em muitas coisas que coloca. Sim, é verdade que muitas pessoas acreditam apenas porque foram ensinadas assim, e nunca pensaram a respeito. É verdade que muita gente só acredita e segue uma religião, porque ela faz com q se sintam melhores, mais confortáveis, superiores aos que não acreditam, escolhidos e etc.

Mas talvez o seu erro esteja exatamente no lance de achar que merece uma “revelação” de Deus por jejuar, por fazer uma porção de coisas, de obras e tals. Como os fariseus, que achavam que por seguir todas as obras da lei, tinham direito à consideração por parte de Deus.

Não, não é hipocrisia você desejar saber a verdade. Acho muito louvável a sua atitude, penso que todos deviam atingir esse nível de reflexão sobre as coisas nas quais acreditam. É muito normal, durante essa reflexão, passar por momentos de crise na fé. E em seguida, passar para um estágio de fé mais coerente, mais profunda, madura, menos infantil. Onde você crê porque você mesmo escolheu isso. A fé é assim, dinâmica, e quanto mais você questiona, mais vai depurando as coisas, e tendo fé apenas no que importa de verdade.

Mas quando se trata de Deus, você tem que saber equilibrar a razão com outras formas de percepção. Usar só a razão nos torna frios e sistematizadores de Deus, usar só a emoção nos torna infantis.

Você quer o quê? Que Deus se materialize na sua frente e diga: “Estou aqui, acredita em mim agora?” Só que se Deus fizesse isso, nós não teríamos liberdade de escolher. E mesmo assim, haveria pessoas para as quais essa “aparição” não seria suficiente. Haveria pessoas que encontrariam outras “explicações” para a “aparição divina”, e continuariam do mesmo jeito. Você conseguiria amar um Deus autoritário como esse, que apareceu na sua frente e não te deixa livre para duvidar? Talvez se você tentasse procurar por um Deus que se move nesse mundo por meio de pessoas, e se revela também por meio da criação, você consiga relaxar e deixar essa revelação dEle chegar até você. Ele diz: busque e achareis, bata e a porta será aberta. Porém, você tem que ter olhos para enxergar a resposta, que muitas vezes pode vir de formas inesperadas, fora do padrão “religioso” que você espera, que você aprendeu na sua igreja.

Duvidar não é pecado, e muitas vezes é bastante saudável. A fé não é acreditar em tudo, sem questionar. Você consegue fazer isso? Eu não. Acreditar em tudo é ser crédulo, e não ter fé. Melhor uma dúvida sincera do que bater no peito pra dizer que acredita, sem acreditar de verdade.

Acreditar em tudo que está escrito na bíblia, não é ter fé. Eu pelo menos não chamo isso de fé, porque a grande maioria dos que dizem que acreditam em tudo que está na bíblia, nunca pararam pra pensar na maior parte das coisas que estão ali. Simplesmente agem como crianças, que acreditam no que os pais falaram. E muitas vezes têm medo de duvidar, acham que Deus vai se irar se eles tiverem dúvidas, mesmo que as dúvidas sejam legítimas e sinceras.

A fé implica, na minha opinião em você ter escolhido acreditar, ter pensado sobre as razões pelas quais você acredita no que acredita. Deus não se importa com nossas dúvidas. Ele prefere nossa fé cheia de dúvidas à crença cega e a crença baseada no medo. Onde existe medo, não existe amor, onde não existe dúvida, não nasce a fé.

Fé é muito parecida com confiança.

Você confiaria numa pessoa que você não conhece, ou só conhece por ouvir falar? Tem pessoas que confiariam, eu não. Posso começar dando um certo grau de crédito a ela, pela confiança que tenho em outras pessoas que eu já conheço, que me disseram que ela é confiável. Mas só vou passar a confiar nela, por minha própria escolha, depois de saber exatamente quem ela é, depois de andar com ela, de me relacionar com ela e chegar à conclusão de que ela merece mesmo confiança. Isso é natural.

Se Deus é uma pessoa, o processo de desenvolver confiança é o mesmo que você teria com qualquer pessoa. Só que a pessoa dEle, uma vez que você tenha aprendido a confiar, dificilmente deixa de confiar, a menos que tenha confiado da forma errada (achando que Deus tem que atender todos os seus pedidos, fazer todas as suas vontades, e te deixar sempre bem, sem sofrimento, sem dor, sem doenças, protegido, abençoado, mimado, com um bom emprego, feliz, rico etc). Ele é Deus, não é seu mordomo, seu serviçal, seu empregado.

Isso que eu chamaria de fé, você saber em quem está confiando, e continuar confiando apesar de tudo. Continuar confiando apesar de muitas vezes não entender o que Ele está fazendo. Porque você escolheu confiar. Você escolheu ter uma única certeza: a de que Ele merece a sua confiança.

Só que chegar nesse ponto, não é fácil, é um processo de aprendizagem, e um processo que vai continuar a sua vida toda. Quando você era criança, também teve que aprender a confiar nos seus pais. Você também duvidou quando seu pai disse que não ia deixar você cair, quando te pegou pela mão pra você aprender a andar. E o seu pai não ficou triste com isso, ficou? Ele sabia que você estava aprendendo a confiar nele e em você mesmo, nas suas pernas ainda frágeis de criança. Não é fácil e tem altos e baixos. Vejo por aí muitas igrejas que incentivam as pessoas a não crescer, e tratar Deus como se fossem crianças mimadas (e insuportáveis) que fazem seus pais de empregados, quase seus escravos. Ou que ensinam supostos “truques” que fazem Deus funcionar a nosso favor (algumas distribuem e até vendem objetos alegando esse tipo de coisa – leve isso para a sua casa, e as bençãos de Deus estarão sobre a sua vida!) Deus não é nosso empregado, Ele não tem obrigação nenhuma  de fazer nossas vontades. Muita gente perde a fé quando surge algum problema sério, por causa disso.  Nesse caso elas não tinham fé nEle, e sim, acreditavam num ídolo, tratavam Deus como alguém que guarda um trevo de quatro folhas, achando que daria sorte.  Se não funciona, jogam Deus fora e tentam outras coisas. Esteja preparado para se desiludir, se é esse tipo de coisa que espera de Deus.

(Essa conversa, que teve origem em alguma comunidade do Orkut – e eu nem tenho mais perfil no Orkut faz algum tempo – estava nos rascunhos do blog, é de dois anos atrás. Tirei da gaveta, assoprei a poeira e resolvi publicar.)

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