Eu odeio teologia…

por Michael Spencer

[…]Odeio teologia quando ela é sem humildade. Teologia e humildade. Ambas devem caminhar juntas sem maiores dificuldades. Digo, não se trata de ciência aplicada aos foguetes. É infinitamente maior do que isso. Em seu leito de morte, Tomás de Aquino disse: “Não posso fazer mais nada. Tais segredos têm me revelado, que tudo que escrevi, parece agora ser de pouco valor.”  Sabemos ser esta a atitude apropriada perante nossas teologias, mas não é a nossa posição normal.

A ideia de saber a verdade sobre Deus, é o tipo mais perigoso e sedutor de conhecimento que podemos afirmar. Quanto mais aprendemos, mais humildes devemos ser.  Seguindo as teorias correntes do conhecimento, se Deus é infinito e incompreensível, então quanto mais sabemos, menos sabemos. Ou seja, quando a ignorância é substituída pelo conhecimento, este conhecimento abre novos e amplos espaços para o desconhecido, e isso nos torna humildes.

Tome como exemplo o astrônomo moderno. Ele parece conhecer mais sobre o universo do que seus antecessores da antiguidade, que pensavam que as estrelas eram pontos de luz, criados por deuses ou anjos. Será que esse maior conhecimento faz esse astrônomo se sentir mais experiente, ou faz com que fique mais estupefato, com admiração e assombro perante o que sabemos, e com tudo que ainda falta saber?

Então, como é que nós perdemos esse assombro na teologia moderna? Arrogância, não humildade, marca as discussões teológicas e os debates entre crentes. Você poderia pensar que alguns poucos anos de leitura e estudo abriram a mente do Eterno, e ela foi toda catalogada em fichas como as da biblioteca local.  A postura de um teólogo bíblico deve ser a adoração e o assombro constantes, não a de levianamente afirmar tudo o que sabe como certo.

Lembra a história do repórter que perguntou a Karl Barth qual tinha sido a maior verdade teológica que ele já tinha ouvido? A resposta do velho e sábio professor, foi: “Jesus me ama, isso eu sei, porque a bíblia me diz isso.”

Grande resposta.

Odeio teologia quando substitui a vida real. Aqueles que estão preocupados achando que estou caminhando rumo a algum tipo de ceticismo pós-moderno, precisam lembrar uma coisa a meu respeito, a única coisa que me autoriza a dizer “odeio teologia” com alguma medida de autenticidade.

Fiquei mais de quatro anos num seminário, e vivi para contar a história. Se você não andou todas essas milhas usando meus sapatos, sente e ouça.[…]

[…] Fiz parte da assistência da igreja quando estava no seminário, numa igreja que ficava próxima ao campus. Como qualquer igreja, tínhamos uma porção de coisas simples a fazer para ser igreja. Cuidar das crianças. Preparar a ceia. Participar de reuniões de oração. Evangelizar. Orar. Ministrar. Fazer parte de comitês. Pintar paredes.

O problema é que dificilmente podíamos fazer essas coisas, porque nossa igreja estava lotada de estudantes de seminário. Teólogos. Você não podia orar. Tinha que teologar sobre a oração. Não podia organizar um jantar na igreja. Tinha que teologar sobre os pobres, sobre economia e justiça. Você não podia ajustar o ar condicionado, sem passar por um debate teológico. Os teólogos deixavam a igreja paralisada (não queira saber no que pode se transformar uma simples escola dominical ou grupo de jovens, numa tirania de teólogos como essa).

Como se podia esperar, os teólogos pareciam evitar esses pequenos serviços que o resto de nós faz, simplesmente porque precisam ser feitos. Encarnação é uma grande ideia, contanto que você a pratique em vez de debater sobre ela.[…]

[…]Deixe-me ser bem claro. Deus deve ficar muito mais animado com uma pessoa que deseja fugir do pecado e amá-Lo, do que fica com o fato de alguém ser especialista em teologia histórica e sistemática. Quando chegamos ao ponto de imaginar que estamos prestando um serviço a Deus, desencorajando a devoção pessoal, apenas porque não se encaixa em algum padrão teológico, estamos na verdade agindo mal.

Veja, os teólogos são tentados a viver uma vida geralmente livre de coisas tais como: arrependimento pessoal, devoção, oração, adoração privada e expressões do amor de Deus. Boa teologia cobre uma multidão de pecados (ironic mode on). Quem tem tempo para esses desperdícios de energia mental, quando pode ler mais algum capítulo de exploração dogmática dos mandamentos, escritos por algum teólogo? Essa necessidade de debater é muito maior do que o desejo de orar, não é? O que fazer: ler mais algum livro, ou ter um tempo de devoção pessoal? Qual é a escolha mais fácil?[…]

[…]Não tenho tempo para perder com qualquer teólogo que não consegue enxergar a beleza de um coração que apaixonadamente tenta seguir Jesus, porque está muito ocupado lendo livros de teologia.

Odeio teologia quando age como se fosse ela mesma revelação, e não um esforço humano e falível. Meu amigo Jim Nicholson tem os créditos por isso. Para aqueles de nós que acreditam na doutrina reformada da depravação total, parece que mais de um desses teólogos, praticam teologia como se estivessem excluídos de algo com que o resto de nós temos que conviver o tempo todo: a influência do pecado em todas as áreas da vida humana, incluindo os exercícios intelectuais que são necessários para se fazer teologia. Parece estranho dizer isso, mas parece que muitos protestantes estão prontos a defender suas teologias como corretas, na base de que Deus precisa que alguém preserve a igreja dos erros. Sério que vocês pensam isso? Os herdeiros de Lutero realmente pensam assim, sobre esse exercício totalmente humano e feito por seres humanos falhos, chamado teologia?  Infelizmente, sim, e com consequências que vão desde a leve irritação à devastação total.

Como muitos já disseram antes, a teologia é potencialmente perigosa, justamente porque uma vez que tenhamos considerado ter chegado na “verdade”, passamos a ter certeza de que Deus está do nosso lado.[…]

[…]Talvez o melhor exemplo disso é nossa reformada e amada T.U.L.I.P. Deus está comprometido com a T.UL.I.P.? Ou é apenas esforço teológico humano? São nossas abreviações, nossos pensamentos e palavras?[…] Claro, eu creio que até certo ponto, essa abreviação, TULIP, apresenta um resumo do que muita gente boa acredita que a escritura diz, mas o fato é que tenho que tomar uma decisão consciente, e tratar essa abreviatura como é. Não é revelação. É teologia, e é o produto de mentes pecadoras e pensamentos imperfeitos. Como pensamento humano, é tão divino quanto o cardápio do MacDonalds.[…]

[…](Engraçado como os cristãos tendem a transformar seus heróis em algum tipo de super-homem, enquanto a bíblia coloca todos os seus heróis no mesmo nível de qualquer um de nós.)

Tome como exemplo a teologia do hedonismo cristão de John Piper. Impactou minha vida de uma forma poderosa. Foi como um salva-vidas para mim, e sou muito grato a esse homem. Mas ele é apenas um companheiro de jornada, e sua teologia é caída e falha, e não há autoridade – NENHUMA – na versão do Cristianismo elaborada por Piper do que há na versão feita por qualquer outra pessoa.

Vale lembrar que o problema raramente é com os teólogos. É com os seus fãs, e sou tão culpado nesse ponto, quanto qualquer um. Odeio teologia que cria celebridades com autoridade. É uma coisa boa que tenhamos teólogos, assim como também é bom lembrar que eles são apenas pessoas como nós. Não queime os livros deles. Queime os pôsteres e as camisetas autografadas por eles, isso sim.

Odeio teologia que precisa caçar todos os erros à vista. No verão, temos moscas aqui no sudoeste do Kentucky. Não gosto delas, e então dou aulas com um jornal enrolado na mão. Quando uma mosca se aproxima de mim, eu tento acertá-la. Eu não percebo, porque odeio as moscas, mas meus alunos notam com frequência que me distraio caçando moscas a cada terceira palavra, ou atravesso a sala atrás de alguma mosca que não consegui acertar.

Esta analogia descreve o pensamento de alguns teólogos. Eles estão certos, erros são intoleráveis, e eles saem à caça dos erros. Como na minha sala de aula, o evento principal parece ser caçar as moscas, e nada mais importa além disso.

Quando encontrei pela primeira vez um desses Calvinistas encarnados, ele era como um caçador de moscas. Não importa sobre o que eu pregava, no dia seguinte, ele vinha me explicar como eu tinha violado os pilares do Calvinismo. “Você percebeu que chamou as pessoas a fazerem escolhas? Você não pode fazer isso!”[…]

Sinto muito por você se precisa ensinar, orar, pregar ou fazer qualquer coisa na tentativa de comunicar o evangelho, tendo esses caçadores de moscas em sua volta. Você vai acabar perdendo a maior parte do seu tempo, sendo caçado por eles, e vai voltar para casa irritado. Sim, você voltará para a sua casa, lerá a bíblia e mudará sua mente (ou não), e caçador teológico de moscas, se achará encorajado a continuar caçando moscas, uma de cada vez.[…]

[…]E se o erro for insignificante? Uma vez que você esteja convencido de que a verdade está na SUA teologia, os menores erros, e os erros comumente aceitáveis, serão para você como entradas do inferno, e você não vai pensar duas vezes e gritar FOGO! para as almas em risco iminente de danação. No campo da saúde mental, chamam isso de transtorno obsessivo-compulsivo. É tratável, desde que o paciente admita seu problema e se submeta ao tratamento.[…]

[…]De novo, odeio dizer isso, mas existe um tipo de doença mental onde o paciente tem um “complexo messiânico”. Eu preciso salvar o mundo! Argumentar com todos! Afastar todos os erros antes que seja muito tarde! Qualquer sermão, qualquer demonstração de devoção pessoal, qualquer discussão sobre religião pessoal, se torna um campo de batalha para essas pessoas. Elas não enxergam isso, e estão convencidas de que o seu “ministério” é se tornar uma espécie de “caneta vermelha” de Deus, escrutinando tudo que os outros dizem sobre teologia. Se há repercussões ao seu fanatismo, quem é a vítima, e quem é o perseguidor dos liberais heréticos, ou ambos?

Todos nós erramos. Todos nós acreditamos em erros. Propagamos erros. Toleramos erros. Todas as nossas teologias possuem erros. Só Jesus é a Palavra Final sem erros, e ele não virá dentro de um livro de teologia sistemática.[…]

[…]Odeio teologia que ignora a nossa humanidade.[…]

[…]Minha humanidade importa. Odeio teologia quando desconsidera nossa humanidade e nos reduz a transportadores de ideias. Alunos, numa sala de aula, estão sempre em risco de errar. Os mais tolos são aterrorizados pelos mais espertos, e menosprezados pelos professores. Odeio teologia quando faz os que se acham mais espertos, bons leitores ou donos de elevados quocientes de inteligência, se considerarem os verdadeiros cristãos, e enxergarem o resto de nós, como penicos para seus argumentos e citações sem fim. Onde está a beleza e dignidade da humanidade em tudo isso?[…]

[…]Os teólogos precisam meditar sobre o inexplicável hábito de Deus, de atravessar rios conosco, pecadores. Vestiu Adão e Eva. Deu uma pausa a Caim. Saiu com Abrahão, Moisés, Noé, Davi e Elias. Nenhum deles era um grande teólogo. Todos eles pareciam mesquinhos e estavam frequentemente errados. Eram pecadores notórios. Os teólogos estão enfiados no templo, azeitando a máquina da religião, que só eles entendem. Enquanto os preferidos de Deus, estão derrubando filisteus, escrevendo poesias e namorando. Esse é um Deus que posso apreciar.

A teologia pode se tornar um clube que se propõe a derrubar os filhos de Deus. Se você conhece Deus, tende a agir como o Deus que você conhece. O bom pastor. O médico gentil. O que ressuscitou Lázaro. Aquele que transformou água em vinho.  Jesus não se parecia com um dos Fariseus em termos de teologia ou personalidade. Ficou zangado quando os fariseus não acharam certo curar um homem no Sábado. O que ele diria a respeito das nossas ratoeiras teológicas, que montamos para separar crentes de descrentes no que diz respeito às nossas matérias “confessionais”?  Quando tudo se resume a uma guerra entre os teólogos e o resto do mundo, crueldade e barbarismo são aceitáveis. Afinal de contas, Deus –  e nada mais – é importante. Certo?

Essas pessoas que importam para Deus – pessoas falhas e ignorantes – parecem perdidas para muitos teólogos. Eles se sentam diante de seus livros, e debatem sobre quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete, enquanto alguém com uma teologia inaceitável para eles, tenta viver de acordo com o Sermão da Montanha e morre amando pessoas em nome de Jesus.[…]

[…]Repito. Odeio teologia que é desumana. Teologia que diz que Deus não ama as pessoas, e me dá permissão para fazer distinção entre os eleitos e os não eleitos entre as pessoas com as quais me relaciono. Não diga que isso não é um perigo. É um perigo sim, e a história cristã comprova isso o tempo todo.[…]

I hate theology – Michael Spencer – The Internet Monk

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