Finding Darwin’s God – Kenneth R. Miller

[…]No início deste capítulo, deixei claro que a crença religiosa não requer que sejam detectadas falhas ou inadequações na evolução. Esta pode não parecer uma ideia radical, mas está longe de ser uma ideia comum. Mais de uma vez, quando religiosos descobriram que sou biólogo, e acharam necessário dizer alguma coisa sobre a grande sombra do Darwinismo, eles escolhem o que obviamente esperam ser uma linha diplomática: “Bem, você provavelmente sabe melhor do que ninguém, que a evolução é apenas uma teoria. Certo?”

A evolução não é apenas uma teoria. Atualmente, usamos o termo “evolução” de duas formas diferentes, e não parece ser má ideia se palavras distintas fossem usadas para estes dois significados – história e mecanismo – para usá-las de forma correta.

O primeiro significado da evolução é a história, uma história natural e viva, onde as raízes do presente se encontram no passado.[…] Significa que o passado foi caracterizado por processos no qual as espécies atuais podem ser rastreadas em ancestrais similares, porém claramente diferentes. E significa que quanto mais nos movemos para trás no tempo, com mais pedaços e peças deste registro histórico, encontramos uma diversidade de formas de vida muito diferentes das que vemos e conhecemos hoje.  Isto é, uma descrição acurada sobre o que sabemos sobre o passado da vida no planeta.

Com relação a isso, a evolução é um fato tanto quanto qualquer outro que conhecemos em ciência. É um fato que os seres humanos não apareceram de repente nesse planeta, como criações sem ancestrais, e é um fato que os sinais desta ancestralidade são claros para a nossa espécie e para centenas de outras espécies e grupos de espécies. É verdade que o registro histórico é incompleto. sujeito a interpretações e aberto à revisões, especialmente à luz de novas descobertas. Não podemos saber ao certo o rumo que as descobertas vão tomar, e não podemos ter certeza se alguns destes sinais possuem erros ou mal entendidos que um dia  serão corrigidos. Sobre o assunto de saber se esses sinais existem ou não, podemos ser definitivos. Eles existem, e ponto. Evolução é um fato.

E no que diz respeito ao segundo significado da evolução, como teoria? A grande contribuição de Darwin, como tenho enfatizado, não foi o reconhecimento da evolução como processo histórico. Ao contrário, foi sua descrição de um mecanismo que poderia dirigir as mudanças evolutivas. A teoria evolutiva é um conjunto de explicações que procura esclarecer como esta mudança aconteceu  A teoria evolutiva leva em conta as contribuições relativas das mutações, variações e da seleção natural, e tenta entender como as ações interligadas de hereditariedade, sexo, probabilidade, ambiente e competição direcionam os detalhes da descendência com modificações.

A teoria evolutiva é um campo vigoroso e contencioso, como deve ser a boa ciência. Encontros científicos sobre este assunto são recheados de argumentações e discordâncias, e isso é uma coisa boa. O conflito intelectual, mesmo num nível pessoal, é bom para a ciência porque motiva os cientistas a testar suas ideias e as dos seus oponentes sob o escrutínio do experimento e da observação. A este respeito, o detalhado mecanismo pelo qual as mudanças ocorrem, é a teoria, mas teoria nesse contexto não significa que seja apenas um palpite sem fundamento. A teoria evolutiva não é um palpite sobre a natureza da vida, assim como a teoria atômica não é um palpite sobre a natureza da matéria, ou a teoria dos germes, pura especulação sobre a natureza das doenças. A teoria evolutiva é um conjunto bem definido, consistente e produtivo de explicações sobre como as mudanças evolutivas ocorrem.

A evolução é tanto fato quanto teoria. É um fato que as mudanças evolutivas acontecem. E a evolução é também uma teoria que procura explicar o mecanismo detalhado por trás destas mudanças.

Seria legal fingir, como muitos dos meus colegas cientistas fazem, que o estudo da evolução pode ser conduzido sem ter qualquer efeito na religião. De certa forma, invejam outros campos científicos – como a química orgânica ou a oceanografia – que podem prosseguir a toda velocidade, sem nunca terem que serem jogados na arena religiosa.[…]

[…]Existe alguma possibilidade de que os “geólogos do dilúvio” sejam cientistas genuínos e sinceros? É possível que sejam pioneiros solitários trabalhando numa grande e nobre tradição, lutando por respeitabilidade e, em última análise, para provar suas ideias?  Não penso que seja assim; e digo que não se trata de um julgamento de caráter, mas uma avaliação do comportamento científico deles. Se eles realmente acreditam na validade das suas interpretações da história fóssil, deviam estar loucos para explorar uma grande oportunidade científica: os coprólitos.

Coprólitos são fezes fossilizadas. Ao longo dos anos, os paleontologistas têm encontrado milhares destes fósseis, incluindo um notavelmente descrito num artigo da revista Nature, em 1984, com o título “A Kingsized Theropod Coprolite.” O tamanho e localização do objeto, indicam que foi produzido por um dinossauro carnívoro, provavelmente um Tiranossauro. O coprólito está recheado com grandes fragmentos de ossos parcialmente digeridos. Outros coprólitos estão também disponíveis, se nossos colegas preferirem, de mamíferos ancestrais, pleiossauros (répteis nadadores), e até de insetos. Para os criacionistas de Terra Jovem, estes fósseis apresentam uma oportunidade única para validarem suas ideias. Tudo que teriam que fazer, seria explorá-los e encontrar evidências de um único organismo contemporâneo. Grãos de pólen microscópicos de plantas modernas, seriam suficientes, no caso de dinossauros herbívoros. Se pudessem encontrar um pedaço de osso de atum, no estômago desses pleiossauros, sacudiriam o mundo da geologia, demonstrando que criaturas da antiguidade e do mundo contemporâneo coexistiram lado a lado antes do dilúvio, como eles sempre disseram. Os criacionistas de Terra Jovem não fazem este esforço. Eles se mantêm cuidadosamente longe de qualquer tipo de contato com evidências genuínas, como o fato de que o sistema digestivo dos pleiossauros estava cheio de amonitas, moluscos extintos, que viveram na mesma era geológica.[…]

[…]Então, como vimos, o designer (inteligente) produziu um organismo após outro, em lugares e sequências que poderiam ser posteriormente, erradamente interpretadas como a evolução, por uma de suas criaturas (pobre Charles Darwin! =P). E apenas para ajudar na composição deste mal-entendido, ele (o designer) se certificou de que os primeiros membros que desenhou, se parecessem com barbatanas modificadas, e que os primeiros maxilares que projetou, se parecessem com arcos branquiais modificados. Ele ainda se deu ao trabalho de garantir que os primeiros tetrápodes tivessem caudas como as dos peixes, e que as primeiras aves tivessem dentes, como os répteis. Tão pensador esse designer, que depois de ter desenhado mamíferos para viver exclusivamente em terra, redesenhou alguns poucos, como as baleias e os golfinhos, para viver na água – mas não antes de ter desenhado criaturas que viviam de forma dividida: tanto na terra quanto na água.  Trabalhando desta forma mágica, este designer escolheu criar formas exatamente intermediárias entre mamíferos terrestres e mamíferos aquáticos.

Seria legal, fingir que esta descrição não é nada mais do que uma polêmica irreverente, um puxão desagradável de orelha na oposição. Mas não é. É uma boa descrição, de um pouquinho do que qualquer defensor do design inteligente deve acreditar, no sentido de enquadrar suas crenças, com os fatos da história geológica. E isso é apenas o começo.[…]

Finding Darwin’s God: a scientist’s search for common ground between God and Evolution – Kenneth R. Miller

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