Briga de galos

Quando leio determinados textos em blogs que se definem como “apologéticos”, onde adeptos de uma linha teológica se dedicam a atacar quem não concorda com eles, sempre me vem à cabeça, um texto de Rubem Alves, do qual posto um trecho abaixo:

Há teólogos que se parecem com o galo. Acham que, se não cantarem direito, o sol não nasce: como se Deus fosse afetado por suas palavras. E até estabelecem inquisições para perseguir galos de canto diferente e condenam outros a fechar o bico, sob pena de excomunhões. Claro que fazem isto por se levarem muito a sério e por pensarem que Deus muda de ideia ou muda de ser ao sabor das coisas que nós pensamos e dizemos. O que é, para mim, a manifestação máxima de loucura, delírio maníaco levado ao extremo, este de atribuir onipotência às palavras que dizemos.

Para colocar esses galos nos seus devidos lugares, Rubem Alves completa:

O sol nasce sempre, do mesmo jeito, com galo ou sem galo. Assim, o galo pode dormir à noite, sem a angústia de ter de acordar na hora certa. Se dormir demais, o sol vai se levantar do mesmo jeito. O que, sem dúvida, diminui seu senso de importância, mas tem a compensação do sono tranqüilo, o que não é de se desprezar.

Eu não suportaria pensar que o meu pensamento é tão poderoso que, caso eu pense errado, Deus vai ficar torto.

É isso. Deus não entorta nem desentorta por causa do pensamento nem da teologia, vai continuar sendo Deus. E ninguém vai parar no inferno pelo delito de, do alto da sua humanidade e limitações com ela condizentes, entender Deus apenas em parte. Apenas a religião tem necessidade de formatar o pensamento e as opiniões das pessoas , Deus não precisa disso.

Teologia é construção humana, e como tal, obviamente, é também pessoal. Pessoas diferentes, com níveis intelectuais diferentes, idades diferentes, formação diferente, origem diferente, preconceitos diferentes, experiências diferentes e etc, podem interpretar uma mesma frase a respeito de Deus, de várias formas diferentes. Deus é absoluto mas nós, humanos, somos todos relativos. A dificuldade em aceitar as relatividades do pensamento humano, como coisas absolutamente naturais, inclusive quando se trata de Deus, gera brigas vergonhosas entre os cristãos. Deus quer corações, quer pessoas sinceras que O busquem, e nem sempre a posse ou crença na mais perfeita ortodoxia, calvinista dos cinco pontos, implica em estar buscando Deus em espírito, verdade, de todo o coração, alma, entendimento.

Querer fazer com que todos pensem igual, concordem com você em tudo, dancem do mesmo jeito, toquem a mesma música no mesmo tom, também é uma forma de escravidão, um tipo de neurose. O zelo pela “sã doutrina”, muitas vezes não passa de necessidade de ter controle sobre as pessoas, ou medo de perder o controle que já exerce sobre elas, e isso em alguns casos, atinge níveis de doença, de patologia. Necessidade de uniformizar o que devia ser estritamente pessoal, porque assim, é mais fácil de manter as estruturas e instituições. Qualquer sistema político ou militar ou seja lá de qual ideologia for, sabe disso, inclusive os sistemas religiosos. Manter um discurso igual, é essencial para a coesão de qualquer grupo ideológico. Mas, ironicamente, o acesso de todos à bíblia, que os reformadores garantiram aos cristãos, fez com que essa “coisa” que chamamos cristianismo, cada vez fosse se pulverizando mais, porque não existe leitura livre da bíblia, sem a correspondente livre interpretação. E livre interpretação, tanto para o bem quanto para o mal. Tanto para distribuir o perdão e amor de Deus às pessoas, e incentivá-las ao amor ao próximo, quanto para tirar dinheiro delas de forma inescrupulosa e ensiná-las a barganhar com Deus. Tanto para falar de um Reino que é justiça e paz e que se constrói pelo amor e não pela força ou poder, quanto para legitimar guerra, imperialismo, fanatismo, preconceito, racismo, pena de morte e escravidão.

A única consciência que você deve controlar, é a sua própria, a dos outros, você pode no máximo, influenciar. O que passar disso, qualquer tentativa de exercer controle sobre a consciência ou o pensamento alheios, já é violação da liberdade do outro, liberdade de pensar como quiser, e escolher entre encher pregadores da prosperidade de dinheiro, ou imitar Jesus. Escolher entre um Deus que é Pai, ou escolher um Deus carrasco. Escolher se relacionar com Deus porque Ele amou você primeiro, ou por coação, medo do inferno ou simplesmente esperando receber algum benefício material em troca, ou a herança do Pai rico, que na verdade você não ama e só quer a prosperidade que prometeu te dar… vai de cada um.

Eu, da minha parte, durmo tranquila como o galo do Rubem Alves, porque se nessa noite, o meu cérebro torto sonhar que Deus não é Deus, mas sim o Monstro Espaguete Voador com almôndegas, Deus não vai amanhecer embebido em molho bolonhesa, e exigindo sacrifícios em forma de queijo parmesão ralado. Deus também não vai se ofender comigo por causa do meu sonho. E quem conhece os sonhos que meu cérebro TDAH é capaz de produzir, se eu acreditasse que sonhos tortos têm esse tipo de poder, não dormiria nunca mais.  :P

Seja lá como for que você cante, Deus não precisa de cantoria alguma que venha de qualquer um de nós, para continuar sendo quem Ele é. E cada um canta para Ele como pode, como sente e como sabe e entende, e aposto que Deus aceita isso muito bem, sem problema algum, porque deve ter coisas mais importantes a fazer, do que se preocupar com formatação de galinheiros e apartar rinha de galos.

Mas pior ainda, é quando alguns galos se juntam, em campanha contra um galo que consideram dissidente. E colocam no bico do galo, cacarejos que ele não deu. Tentam fazer os outros acreditarem, que a forma perniciosa com a qual eles buscam avidamente, pegar o galo dissidente no contrapé, distorcendo seu canto, e inventando cacarejos que ele não deu, são reais e que tal galo, deve ir pra panela e virar canja logo de uma vez. E ficam irados quando percebem que nem todos caem no truque, que afinal é mais velho que a minha avó (que aliás preparava uma canja deliciosa). Enquanto eles cacarejam furiosos, e tentam gerar alarme nos galinheiros (só falta colocar um cartaz de “wanted – dead or alive”), o galo dissidente dorme a noite toda, e Deus amanhece exatamente igual.

Eu crio galinhas, e sei o quanto elas sabem ser cruéis. Quando desejam tirar seus desafetos do  mesmo poleiro que elas ocupam, se juntam; uma bica a cabeça da vítima, enquanto a outra, puxa pelo pé, até que a vítima caia. O que me espanta, é ver seres humanos agindo como elas… :P

Tenho dito!

3 respostas para Briga de galos

  1. Adriana disse:

    Simples e no ponto.

    Posso postar no meu blog?

    abs

    Adriana

  2. Andrea disse:

    Claro que pode, fique à vontade. : ]

  3. […] o post anterior (Briga de galos) já estava muito grande, resolvi escrever outro.Este, dedicado a você, jovem, que no meio desse […]

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