Jesus e a mulher adúltera

junho 2, 2011

Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras. E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.

João 8:1-11

Enquanto os fariseus babavam de ódio, com as pedras nas mãos, loucos para colocar a lei do apedrejamento em prática, e colocar Jesus, ao mesmo tempo, numa saia justa, Jesus escrevia na areia. E diz: aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra. Colocou aquele bando de homens metidos a besta e ensandecidos, nos seus devidos lugares, o de pecadores, dependentes da graça dEle, e cuja justiça para Deus, é como trapos sujos, e nada mais. Quem estiver sem pecado, e tenha coragem de afirmar que não peca jamais, nem em palavras, nem em atos, nem em pensamentos, que atire a primeira pedra.  Eu não conheço nenhum cristão que não seja também pecador, e dependente da graça e misericórdia dEle. Quem não for, e tiver coragem de dizer isso, é mentiroso, simples assim. Jesus  disse isso justamente para que ninguém se colocasse no papel do carrasco em nome de Deus, que aplica penas de morte aos outros, inclusive penas de morte para almas alheias, porque, diante dEle, ninguém tem esse direito. Jesus não deu autoridade a ninguém aqui, para assassinar a alma alheia. E tem cristão que tem a desfaçatez de sair por aí, determinando quem está ou não no inferno. Eles não sabem de que espírito são, só isso. Pedem que desça fogo do céu contra os outros, e com isso, arriscam que os queimados sejam eles mesmos. Pelo menos, cheios de enxofre parece que eles já estão. É só abrirem a boca, que você sente o hálito sulfuroso.

Tem crente que é pior do que esses fariseus, porque mesmo ouvindo “quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra”, da boca do próprio Jesus, nem Jesus consegue se comunicar com  a consciência dele;  vai continuar se enxergando como alguém que não tem pecado. Não só não larga a pedra, como dá um passo a frente, todo alegre, se oferecendo como alguém sem pecados; e atira a pedra com toda convicção de que é santo, e que tem autorização de Deus para bancar o carrasco. Pobre alma. Tem como não sentir compaixão de um ser tão perdido assim?

É curioso também como os líderes religiosos de hoje, mesmo se comportando exatamente como os religiosos da época de Jesus, não leem esse tipo de texto visando aplicá-lo a si mesmos. De novo, os fariseus pelo menos, ainda tinham consciência suficiente pra ouvir isso e ir saindo de cena, de fininho, cientes de que a carapuça tinha lhes servido.

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A saúde divina e a saúde humana

junho 2, 2011

por Paulo Brabo

[…]Deuses doentes geram gente doentia. Ou, para colocar de modo ligeiramente diverso, Deuses doentes fazem com que as pessoas fiquem doentes. Do mesmo modo que filhos e discípulos tomam como modelo seus pais e mentores, indivíduos e comunidades humanas criam a si mesmas na imagem de seus Deuses. Deuses doentes provem modelos doentios que produzem gente doentia e comunidades doentias. Para se garantir bem-estar pessoal e comunitário, é necessário que Deus esteja bem – ou pelo menos o inverso é verdadeiro. Quem tem um Deus doente não tem como alcançar o bem-estar, seja individual ou comunitário.[…]

[…]Falei de nós como inocentes; você talvez discorde. Reconheço que o único mal que existe no nosso mundo é o mal que fazemos uns aos outros. Porém quando alego inocência quero chamar a atenção para o fato de que nós humanos não pedimos para nascer. Não pedimos para ser limitados. Não pedimos para ser falhos. Não pedimos para existirmos em modo de desenvolvimento e permanecermos portanto inerentemente e inevitavelmente incompletos, em fase de crescimento e de mudança, avançando por tentativa e erro, experimentando e alcançando por vezes becos sem saída morais, relacionais, psicológicos e espirituais. Não pedimos para sermos largados no oceano do espaço-tempo com uma base de dados inadequada, capacidade imatura de juízo e emoções que são com frequência movidas pela nossa ansiedade a respeito de tudo isso. Não pedimos para sermos incumbidos da tarefa divina de decifrar e encontrar significado neste mundo, ao mesmo tempo em que somos compelidos a operar com recursos meramente humanos.

O pior é que as metáforas religiosas que nos foram oferecidas no relato dominante a respeito da natureza e do comportamento de Deus produzem arquétipos inconscientes nos seres humanos, arquétipos que são inconscientemente traduzidos em comportamentos justificados por essas metáforas. Se Deus resolve todos os seus problemas decisivos pelo recurso rápido da violência decisiva, como se pode esperar que nós, seres humanos, ajamos de modo significativamente diferente? Deuses doentes geram gente doentia. Se Deus nos convence da sua noção psicótica de que está envolvido num conflito cósmico cujo o campo de batalha é a história humana e o coração humano, é naturalmente inevitável que iremos desejar, de modo inconsciente ou consciente, ajudá-lo nessa empreitada; estar do lado dele na guerra; empenharmo-nos na causa de Deus contra o infiel, enfrentar os bandidos e exterminar nossos inimigos, da mesma forma que aparentemente Deus faz com os dele.

Esta é a bandeira debaixo da qual foram pelejadas as batalhas do Israel antigo contra os cananitas, e quem sabe também as batalhas do Israel dos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual as campanhas cristãs das cruzadas foram pelejadas, e quem sabe também as cruzadas dos cristãos fundamentalistas nos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual o Islã conquistou o mundo mediterrâneo nos séculos VII e VIII, e não deve haver dúvida quanto às ambições do al Qaeda nos nossos dias. Um Deus doente gera gente doentia. Como chegaremos a alcançar o bem-estar se Deus está doente? Não chegaremos a alcançá-lo, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Houve, naturalmente, outro informe a respeito da saúde mental de Deus, embora tenha sido grandemente desacreditado ao longo da história, com frequência ao ponto de uma desdenhosa incredulidade. Trata-se da alegação de que o relato dominante, que tem estado desde sempre em circulação em todo lugar, não tem na verdade nada a ver com Deus, sendo ao invés disso a doentia projeção de uma série de imaginações humanas muito desautorizadas, autoria de gente inteiramente aterrorizada diante daquilo que é desconhecido e imprevisível na vida: uma projeção de seus próprios terrores sobre a imagem mental idealizada do que achavam fosse Deus. Esse segundo informe sobre a saúde mental de Deus encontra grande dificuldade em competir com o relato dominante, muito embora toda a evidência permaneça, em todo lugar, confirmando a versão alternativa. Essa tem encontrado resistência porque parece humanamente inacreditável: porque alega que Deus é um Deus de graça incondicional para toda a humanidade.[…]

[…]Isso é possível para nós todos e para toda a humanidade; é possível para você e para mim, para o George Bush, para o al Qaeda, para os democratas – até para os franceses. É claro que os 15% da humanidade que sofrem de uma severa psicose limítrofe herdada não podem ser abraçados por essa perspectiva, exceto sob medicação adequada. O desenvolvimento de uma estratégia psico-espiritual, acompanhada de um programa psico-social concomitante que reflita uma profunda perspectiva graciosa de apreço positivo e incondicional mútuo, contra o pano de fundo da convicção de que essa postura de graça incondicional é a verdadeira história a respeito de Deus, tem chance de moldar nossos pressupostos sobre teoria da personalidade e antropologia de modo a formar um novo modelo global de relacionalidade construtiva. Isso é essencial para o bem-estar humano e sem ele prosseguiremos na trajetória descendente de processos que acentuem cada vez mais a cartada da violência. Isso deve estar fundamentado num modelo psico-espiritual saudável. Os fundamentalistas islâmicos fizeram-nos finalmente um grande favor, a saber, acenaram diante de nós com um sinal claro de que o que molda o significado humano é a questão de se Deus está doente ou saudável.[…]

[…]Não atingiremos o bem-estar humano até que tenhamos criado uma cultura mundial de bem-estar. Não conseguiremos isso até que Deus esteja bem. Uma cultura mundial de bem-estar implica um mundo de metáforas psico-espirituais que produzam arquétipos inconscientes salutares. Para conseguirmos isso devemos destruir o doentio Deus monstro que reina inconscientemente no coração de todos nós. Os programas de reformulação psicológica e moral valem o trabalho que dão. Freud e Jung ofereceram-nos ajuda valiosa. Porém é o Deus monstro que deve ser exorcizado e morto, se quisermos avançar rumo ao mundo de bem-estar que somos capazes de imaginar, em vez do mundo letal que tendemos continuamente a criar.

J. Harold Ellens

A saúde divina e a saúde humana – Paulo Brabo – Bacia das Almas

Que tesouro você foi garimpar, hein, Paulo Brabo? Não tenha preguiça, clique no link acima e leia o texto todo. Aqui só coloquei alguns pedaços.


Esta é a lei e os profetas

junho 2, 2011

“Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles, porque esta é a lei e os profetas”.

Mateus 7:12

Simples de entender, né? Espera ser tratado com misericórdia, trate os outros com misericórdia primeiro, seja quem for. Espera ser perdoado, perdoe primeiro. Espera ser respeitado, respeite antes. Espera ser ouvido, ouça antes. Quer que alguém o defenda quando estiver sendo vítima de injustiças, defenda outros da injustiça primeiro. Quer que alguém socorra você quando estiver ferido na beira da estrada, faça o mesmo e socorra o ferido que encontrar na estrada. Não precisa saber grego, nem aramaico, nem fazer faculdade de teologia. É só ler, entender e fazer.

E isso não parece ter a ver com a lei de talião, olho por olho e dente por dente, parece? O que Jesus ensinou vai exatamente contra a lei do olho por olho. E tem quem ainda se faça de desentendido.