Despeço-me da revista Ultimato

por Ricardo Gondim

Após quase vinte anos, fui convidado a “des-continuar” minha coluna na revista Ultimato. Nesta semana, recebi a visita de Elben Lenz Cesar, Marcos Bomtempo e Klênia Fassoni em meu escritório, que me deram a notícia de que não mais escreverei para a Ultimato. Nessa tarde, encerrou-se um relacionamento que, ao longo de todos esses anos, me estimulou a dividir o coração com os leitores desta boa revista. Cada texto que redigi nasceu de minhas entranhas apaixonadas.

Fui devidamente alertado pelo rev. Elben de que meus posicionamentos expostos para a revista Carta Capital trariam ainda maior tensão para a Ultimato. Respeito o corpo editorial da Ultimato por não se sentir confortável com a minha posição sobre os direitos civis dos homossexuais. Todavia, reafirmo minhas palavras: em um estado laico, a lei não pode marginalizar, excluir ou distinguir como devassos, promíscuos ou pecadores, homens e mulheres que se declaram homoafetivos e buscam constituir relacionamentos estáveis. Minhas convicções teológicas ou pessoais não podem intervir no ordenamento das leis.

O reverendo Elben Lenz Cesar, por quem tenho a maior estima, profundo respeito e eterna gratidão, acrescentou que discordava também sobre minha afirmação ao jornalista de que “Deus não está no controle”. Ressalto, jamais escondi minha fé no Deus que é amor e nos corolários que faço: amor e controle se contradizem. De fato, nunca aceitei a doutrina da providência como explicitada pelo calvinismo e não consigo encaixar no decreto divino: Auschwitz, Ruanda ou Realengo. Não há espaço em minhas reflexões para uma “vontade permissiva” de Deus que torne necessário o orgasmo do pedófilo ou a crueldade genocida.

Por último, a Klênia Fassoni advertiu-me de que meus Tweets, somados a outros textos que postei em meu site, deixam a ideia de que sou tempestivo e inconsequente no que comunico. Falou que a minha resposta à Carta Capital sobre a condição das igrejas na Europa passa a sensação de que sou “humanista”. Sobre meu “humanismo”, sequer desejo reagir. Acolho, porém, a recomendação da Klênia sobre minha inconsequência. Peço perdão a todos os que me leram ao longo dos anos. Quaisquer desvarios e irresponsabilidades que tenham brotado de minha pena não foram intencionais. Meu único desejo ao escrever, repito, foi enriquecer, exortar e desafiar possíveis leitores.

Resta-me agradecer à revista Ultimato por todos os anos em que caminhamos juntos. Um pedaço de minha história está amputada. Mas a própria Bíblia avisa que há tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Meu amor e meu respeito pela família do rev. Elben, que compõe o corpo editorial da Ultimato, não diminuíram em nada.

Continuarei a escrever em outros veículos e a pastorear minha igreja com a mesma paixão que me motivou há 34 anos.

Despeço-me da revista Ultimato – Ricardo Gondim

Quão longe muitos evangélicos estão de entender o que significa, de verdade, liberdade de expressão. Quando se pede a cabeça de uma pessoa, porque expressou sua opinião, isso fica patente. Deus nos livre de um país evangélico, e com a liberdade de expressão definida de acordo com o dicionário dessas pessoas. De acordo com a cartilha dos evangélicos, liberdade de expressão, é quando evangélicos têm direito de se expressar (mesmo que seja de forma preconceituosa, maldosa ou inconveniente – tem até aqueles que reclamam da lei que proíbe som alto depois das 22h, porque acham que igreja tem direito de fazer barulho, e incomodar vizinhos, só porque é igreja), mas não gostam de ver outros usando esta mesma liberdade. Isso, depois de tantos anos em que o Gondim escreveu na revista, soa absurdo. Quantos, como ele, são da mesma opinião, mas apenas não têm a mesma coragem de dizer isso publicamente, porque sabem que o destino será o mesmo?

Observando esta ignorância toda que reina entre esses evangélicos intolerantes,  a sede de poder político que os move, essa falta de consciência do que seja cidadania, respeito aos direitos alheios, à liberdade de expressão alheia, começo a ver como positiva a luta dos ateus/agnósticos/sem religião ou pessoas de outras religiões, por um estado verdadeiramente laico, que não privilegie nenhuma religião. Só assim, esses crentes vão aprender a obedecer Jesus no que diz respeito à natureza do Reino de Deus, e a forma pela qual seria construído, que nada tem a ver com politicagem ou instauração de inquisições. Acho que nem assim.

Mediocridade é a palavra…

Ricardo Gondim, parabéns pela sua nobreza e coragem, mesmo em meio a esta “inquisição sem fogueiras”, que crente sabe fazer tão bem.

Repercussão da atitude da Revista Ultimato, em nova entrevista do Ricardo Gondim para Carta Capital:

Como nos tempos da Inquisição – Rodrigo Martins – Carta Capital

3 respostas para Despeço-me da revista Ultimato

  1. thais disse:

    Concordo com a posição da revista em número , grau e gênero !!!!!

  2. robson santos sarmento disse:

    a inter – relação entre o estimado Ricardo Gondim e os gestores da Ultimato, sem sombra de dúvida, perfazia uma trajetória de desgaste. Infelizmente, extraído de tudo isso a predominância de posições e, de certa maneira, devemos respeitar. Obviamnete, discordo de um discurso voltado ao humanismo versus espiritualismo. Afinal de contas, em Cristo, a nossa humanidade e espiritualidade encontram uma aquiescência e equilíbrio. Deve reconhecer, muitos dos textos preconizados por Ricardo Gondim demonstram uma busca pela liberdade integral e profunda, em Cristo. Não posso negar, os desatinos cometidos, dos quais todos nós estamos sujeitos. Por ora, aspiro ao amigo Gondim possa prosseguir e adentrar num período de revitalização e, precipualmente, em meio a tais inclemências perceber que ainda há amigos mais chegados do que irmãos.

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